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O Reveillon que (não) houve

Ontem foi estranho, mas muito bom. Acostumado, mas resistente, às infindáveis comemorações de anos novos passados, comemorar esse reveillon em casa, só com a minha mulher e minha filha, foi um alento. Já tínhamos feito isso uma vez de 2013 pra 14 em BH, mas a menina ainda estava na barriga, e no ano passado viramos o ano só nós três mas em São Paulo. Essa foi a primeira em casa com ela do lado de fora.

Confesso que esse foi um dos poucos pontos positivos da pandemia. Como não podíamos aglomerar, não precisei me arrumar, não tive que me preocupar com a logística da ida, com estratégias de volta, onde dormir caso tudo desse errado, que cerveja levar, nem como impedir que outros as tomassem; vocês sabem, o de sempre. Mas ontem não teve o de sempre. Éramos só nós com uma ceia pequena mas bem gostosa, uma quantidade suficiente de cerveja boa, e o direito de fazer o que quiséssemos.

E foi aí a porca torceu o rabo. Como se perguntava o famoso filosófo Alexandre Pires: o que íamos fazer com essa tal liberdade?

Eu não sabia, mas já estava me sentindo livre o suficiente para considerar que podia cochilar até às 23:30 e pedir pra ser acordado para “ver” a virada. Minha mulher e minha filha, por outro lado, estavam meio indóceis. Tenho certeza que festeiras e rueiras como elas são, estava sendo bem difícil para elas.

Para compensar o isolamento, resolveram transformar a casa numa festa. Decoraram tudo com estrelas, luzes, guirlandas e umas bolas que insistiam em não ficar penduradas onde deviam. Montaram também colaborativamente uma playlist improvisada no Youtube onde o Rock BR dos anos 80 competia com o KPop atual num conflito moderado por uma estranha combinação de New Wave/Punk Gótico e Funk Carioca.

No início até que funcionou, mas um determinado momento alguém perguntou que horas eram e caímos na real que ainda teríamos muito tempo pra matar até a virada. O fato é que o Reveillon sem aglomeração, sem pessoas chatas e sem as complicações que o Reveillon normalmente tem é uma festa onde não há muito a se fazer.

Eu e minha filha resolvemos descer pra portaria do prédio e ver como estava a movimentação na praça São Salvador, onde desconfiávamos haveria uma festa ilegal. Não havia. Uns 10 gatos pingados e 3 ambulantes tentavam criar um clima de animação, mas falharam. Voltamos para casa e continuamos a colocar música alternadamente transformando a playlist, que pouco sentido fazia, numa ecletíssima trilha sonora de novela dos anos 90. Comemos um pouco, ligamos para pessoas, conversamos sobre o que se passou em 2020 e o que esperamos fazer em 2021, mas o tempo não passava. Aí a sabedoria infantil da minha filha sugeriu:

– Posso botar o pijama meia hora antes do ano novo?

Não vimos por que negar. Assim, simplesmente aceitamos que esse Reveillon era só um exercício de esperar o tempo regulamentar até o ano virar. Óbvio que deu até uma certa excitação nos dois minutos finais de 2020, mas o grito de um cara num megafone mandando a besta fera que foi eleita presidente indo tomar na parte da anatomia de onde saem seus “pensamentos” e comentários nos lembrou que muitos dos problemas de 2020 ainda vão ser herdados por 2021.

2021 chegou, nos abraçamos, beijamos e desejamos o melhor uns para os outros. Da mesma forma que fazemos todos os dias, mas um pouco mais alcoolizados e melhor vestidos. Nessa hora me lembrei de um artigo mezzo sério mezzo piada que rolou na New Yorker esse mês sugerindo o cancelamento eterno do Reveillon. E comecei a lhe dar uma certa razão.

A virada do ano se tornou um evento místico/motivacional obrigatório que demanda muito mais exacerbação de papéis sociais do que emoção verdadeira. Vê só: abraços exagerados em gente que você muitas vezes só vê no reveillon; desejos de sucesso, saúde e prosperidade padrão para todo mundo, desde os desafetos secretos até os afetos declarados; uma sensação brutal de urgência artificial por conta de uma data que, no frigir dos ovos, é só a véspera da circunsição de cristo; enfim, não há muito o que se comemorar. Mas até aí, nenhuma festa tem justificativa pra acontecer.

Porém, mesmo que o hábito continue, afinal festejar é preciso, talvez a pressão por comemorar o reveillon mereça ter um alívio. Não comemorar o Reveillon deveria ser uma opção aceitável, ao invés de uma surpresa taxada com um estigma social exagerado. Vamos ver se em 2021, espero eu, já vacinados, poderemos fazer, sem medo de julgamento social, a escolha de ficar apenas com os nossos mais próximos sem fazer nada, como fomos, no meu caso, agradavelmente obrigados nesse Reveillon. Eu não me incomodaria. E você?

Resoluções, Metas e Rotinas para 2021

Uma das (des)vantagens de ficar velho é lembrar de tempos em que as coisas eram diferentes. O Ano Novo é um desses casos. Uma das coisas que mudou dos anos 90 pra cá é que, em vez de metas e objetivos para o ano vindouro, a gente fazia resoluções. Pode parecer a mesma coisa, mas era bem diferente.

As tais metas e objetivos de hoje vêm de uma cultura corporativa baseada em eficiência, requisitam planos de ação, métricas e governança para punir os culpados pelos fracassos e exaltar os responsáveis pelos sucessos. No começo dos anos 90, o Ano Novo, ao contrário de um período de prestação de contas, balancetes, frustração, e apresentação de planos estratégicos, era uma época mística para explicitar seus desejos ao Universo. Eram as tais resoluções que, interpretadas literalmente, não passavam de decisões.

“Em 1995 vou emagrecer, arrumar um novo emprego, amar novamente”. As tais resoluções eram desejos transformados em decisões. Definir como elas iam ser executadas não estava bem nas nossas atribuições. Parte da responsabilidade de torná-las reais era, sim, nossa, mas boa parte também era entregue ao destino. Enfim, eu decidi, vou me esforçar, mas, ô, destino, dá uma ajuda aí. Por mais que houvesse um horizonte para as resoluções, havia um sentimento bem forte de “se rolar, rolou”. Era uma época mais relaxada onde o que importava era o “eu quero”, ao invés da pressão de hoje do “eu tenho que”.

Ontem, um amigo veio me perguntar quais seriam as minhas metas de 2021, o que me fez lembrar dessa mudança nos desejos e programações do Ano Novo. Na hora não me veio nada. Se tem uma coisa que 2020 me ensinou foi a não ter planos muito detalhados. Tenho, sim, alguns desejos e até umas resoluções, mas não tenho metas.

Sem ter o que compartilhar com ele, disse que queria novas rotinas.

Além dos desejos, mas aquém das metas, acho que o máximo que podemos pedir para o Ano Novo é ter novas rotinas. Os resultados dessas rotinas muitas vezes estarão fora do nosso controle, mas num mundo onde a incerteza é a única certeza, pedir pra controlar o seu dia talvez seja o máximo de ambição que podemos nos permitir.

Assim, em vez de almejar perder 20 quilos, mudar para o exterior, arrumar um emprego que pague o dobro do seu salário atual, ou encontrar o amor da sua vida, crie uma rotina como se tudo isso já tivesse acontecido. Se exercite, coma melhor, estude uma nova língua, divulgue seu trabalho e busque gente que seja do seu interesse. O resultado, se tiver que vir, virá. E se não vier, deixe pra lá. Pelo menos a sua parte deu pra fazer. A do destino a gente torce que ele irá providenciar.

Então, o que posso nos desejar em 2021 é que, controlando esses pequenos pedaços do nosso dia, não necessariamente realizemos todos os nossos desejos, nem atinjamos todas as nossas metas, mas que, pelo menos, aumentemos a resolução das nossas imagens, melhorando o foco para descobrir que somos melhores do que parecemos. E se isso rolar, já vai ser muito bom.

Um feliz 2021 a todos em que possamos ser mais nós mesmos, e que o destino, olha lá a responsa, mestre, continue a nos ajudar. Nos vemos em 2021.

Romeu e Julieta para a meia idade

Mês passado, no Clube do Livro de Teatro comandado pela Joana Poppe, fizemos a leitura de Romeu e Julieta e confesso que estou ainda impactado. Não pelo plot, óbvio. Já tinha lido a peça há muitos anos e as diversas adaptações ou derivações não nos deixam esquecer a história: jovens apaixonados vindos de famílias rivais lutam contra tudo e todos e, surpresa, pagam com as suas próprias vidas pela esperança infrutífera de realizar seu amor.

O que me surpreendeu dessa vez foi que, frente a essa aparentemente bela e inspiradora história, digamos, romântica, só consigo ver um alerta e uma crítica enormes à insanidade que é essa construção que chamamos de amor.

Sim. O amor romântico é uma construção social. Ainda na época de Shakespeare, por exemplo, a maioria dos casamentos e relacionamentos não eram guiados pelo tal amor. Se você tinha dinheiro, posses ou poder ia casar por conta de acordos e alianças; se não tinha, ia casar basicamente com quem estivesse lá e a sua família indicasse. Existia tesão, desejo e afins, claro, mas o tal amor, como o concebemos hoje, não era a justificativa padrão para a união entre as pessoas, mas sim uma novidade que lhe prometia ser arrebatado pela paixão e agir de forma irresponsável e prejudicial com você e com a sua comunidade. Exatamente como prometem alguns comerciais de carro ou fast food hoje em dia.

Em pleno século XXI, parece até estranho desnaturalizar o amor romântico já que a maioria da humanidade, excetuando as mocinhas das novelas da Glória Perez, pode escolher livremente seus parceiros regulares, pseudo-permanentes ou ocasionais. Ao contrário do que acontece em Romeu e Julieta, hoje em dia, o tal do amor romântico, como motivador para os relacionamentos, não é mais surpresa, virou commodity e não suscita conflitos significativos ou objetivos.

A situação chegou a tal ponto que se olharmos bem para as atuais comédias românticas elas não são sobre os problemas que o amor gera, pois ele não gera mais problemas, mas, sim, se a escolha do objeto amado é eficiente e eficaz. Ou seja, são obras sobre gestão do tempo e consumismo. Estarei fazendo o investimento certo nesse objeto libidinal? Vou perder meu tempo ou desgastarei minha imagem? Esse produto é o fit certo pro meu perfil?

Já em Romeu e Julieta a banda toca de forma diferente. Romeu, em busca de uma outra garota que não corresponde o seu interesse, uma tal de Rosalina, vai ao baile da família rival, se encanta com Julieta e depois de trocarem meia duzia de belas palavras são tomados por uma paixão arrebatadora. Para eles não há escolha. E, sem escolha, assim eles agem.

O engraçado é que agora, como um velho em formação, achei totalmente despropositada toda a confusão criada por essa paixão. Sei que, quando jovens, os hormônios e a falta de paciência e experiência fazem tudo parecer urgente e vital. Tanto que o tal conflito entre os Montéquios e os Capuletos me pareceu dessa vez bem controlado depois das ações do Príncipe, e só continuava mesmo por conta de alguns jovens membros das famílias rivais. Ou seja, mais uma vez, tudo culpa da juventude.

Pra piorar, você precisa lembrar que Julieta só tem 13 anos e consegue fazer Romeu perder a cabeça totalmente em dois dias. Ela o convence a se casar com ela em segredo, o joga no meio de uma luta com seu primo, cuja morte não lhe abala em nada, e ainda conspira com um Frei para fingir um suicídio e se livrar da família. No mínimo ela parece uma megerinha mimada, mas não estaria errado considerá-la também como um projeto de sociopata.

E o Romeu, cá entre nós, também não é boa bisca. Desde o início da peça é apresentado como um sátiro interessado em qualquer rabo de saia, lembrem da Rosalina, que, cego por uma paixão arrebatadora por uma sociopata de 13 anos, joga a cidade num conflito sem fim, mata o primo da namorada, provoca a morte do Mercúcio, seu grande amigo e única voz sensata da cidade, é exilado, volta escondido, mata o prometido da sua esposa, e se mata sem nem pensar duas vezes. Imagino que se tivesse demorado uns dois dias a mais no exílio talvez tivesse deixado Julieta de lado por uma nova paixão. Mas isso é só uma conjectura.

Talvez eu esteja ficando velho, mas não achei nada disso bonito, nem romântico. Achei temeroso e preocupante. Talvez esse sentimento venha de um medo crescente que a gente vai adquirindo com a idade dos ímpetos da juventude, afinal, já sofremos o suficiente para saber que, como dizia Steve Allen, as tragédias insuperáveis da vida se somadas ao tempo não passarão de comédias.

Enfim, depois de ler Romeu e Julieta, só tenho um conselho aos jovens do mundo: não envelhecei, pois é ruim pacas; mas, por favor, pelo menos tenham um pouco de paciência. Com o passar dos anos vocês aprenderão que encarar a vida como comédia é bem melhor do que como tragédia.

Por falar nisso, fiquei me perguntando: o que diabos aconteceu com a Rosalina? É, a menina sensata que deu o bolo no Romeu. Aposto que teve uma história de vida muito mais feliz e interessante que a dos inconsequentes de Verona. É, “O que aconteceu com Rosalina?”, taí uma peça que eu gostaria de assistir.

10 de espadas

Foi sem querer.

Estava numa tarde de sábado preguiçosa inundado na quantidade de coisas para não ver no Netflix, quando decidi rever o primeiro episódio de Halt and Catch Fire. É, aquela série sobre o mercado de informática, desde o PC até o início da internet. Agora, 3 semanas depois, acabei de re-assistir ao seu último episódio, e, confesso, estou novamente maravilhado. Mas por razões diferentes daquelas da primeira vez.

Como dizem, você nunca passa pelo mesmo rio duas vezes. Ou mudou o rio, ou mudou você. Com séries e qualquer outra manifestação artística é a mesma coisa. Se você busca a mesma sensação ao resgatar uma experiência, desculpa, mas isso não se chama prazer estético. Tá mais pra dependência psicológica.

Revisitar uma obra de arte é estabelecer um novo diálogo onde, por mais que o seu interlocutor pareça, e muito grifo no pareça, estar dizendo a mesma coisa, você quer se surpreender com as suas próprias respostas. E descobrir o que mudou em você.

Na primeira vez que assisti a Halt and Catch Fire estava num momento muito ruim, angustiado. E foi isso o que a série me passou: uma sensação de ansiedade e medo que não se completou quando Joe MacMillan terminou a série da mesma forma que começou.

As batalhas e sucessivas derrotas dos protagonistas pareciam apenas um destino inescapável e sem sentido. Como o meu. Na época.

Agora, 3 anos depois ouço Joe MacMillan dizer as mesmas palavras e elas ecoam de forma diferente em mim. Mudou a série ou mudei eu?

O nome da série vem de um comando que joga a máquina numa competição interna entre suas funções o que pode destruí-la ou paralisá-la requisitando um reboot. É uma óbvia referência a competição desenfreada no mercado de tecnologia que torna reis em párias de uma hora pra outra e está coalhada de histórias de reinvenção, mas é também um lembrete das forças do destino. O destino que, como uma avalanche, uma bola de neve, é uma força impossível de parar e cujo fim todos nós sabemos. Será?

Por mais que, ao contrário do que lhes vendem nas fantasias corporativas ou de auto-ajuda de meritocracia e crescimento constante, a vida não seja um eterno melhorar, os ciclos que vivemos, apesar de aparentemente sem sentido, estão aí para nos mudar e ao mesmo tempo nos tornar cada vez mais nós mesmos. Como boa ficção, a nossa vida é uma eterna dança entre plot e exposição de personagem. Nunca percebeu isso? Sério? Então para e presta atenção. Está acontecendo a todo momento. Inclusive agora.

Na série, isso fica bem representado pela sua estrutura não circular, mas em espiral. Joe continua inquieto, mas diferente. O que o torna curioso está lá, mas a forma como ele lida com isso mudou. Bos, ainda é o boss, mas de pai tirano se torna a figura paternal e frágil que nos abraça no final. Donna e Cameron, como as forças criativas que representam, renascem, mais uma vez. E Gordon faz a sua transformação através das gerações e das construções que deixa como legado.

Não é a toa a quantidade de citações budistas ou referências taoistas na série. Estamos, sim, falando de (im)permanência. De relações, sonhos, empresas, tecnologia. Nada continua, mas não continuar é uma constante. Por isso é preciso sempre renascer. Mais do que iterações, acontecidas em que cada um desses ciclos de mudança e descoberta, são as interações que importam, pois nada acontece no vácuo, e aqueles que nos acompanham em nossa jornada são os espelhos onde nos veremos, nos construiremos e renasceremos, como a Fênix.

Por isso, o título do episódio final, 10 de espadas, é tão apropriado e tão rico em significado. 10 de espadas é um dos arcanos menores do Tarot que no baralho desenhado pela Pamela Colman Smith tem a imagem de um homem caído no chão apunhalado por 10 espadas enquanto ao fundo o sol nasce cheio de esperanças. Aparentemente um paradoxo, mas claramente uma passagem.

A vida, a carta nos lembra, não é um catálogo de vitórias. Essas mentiras você pode deixar pras entrevistas de emprego e perfis em redes sociais. A vida é um darumá. Como o tradicional boneco japonês, o nosso objetivo não é sempre estar por cima, mas ter forças para se levantar 8 vezes após cair 7. Como fizeram os protagonistas de Halt and Catch Fire, como nós fazemos todos os dias. 

Deixem-me terminar fazendo uma pergunta…

Melhor não. Não quero ouvir respostas. Desculpe, foi sem querer.

Será?

Tudo água

Aí, já pensou nisso? Se vivermos apenas uma vez, passaremos mais tempo sendo tudo do que sendo apenas alguma(s) coisa(s). Vê só. Primeiro você está em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, em todos os lugares. Você (se é que podemos falar de “você”) é parte de um todo indiferenciado. Do universo, se você preferir.

Aí, por conta da união de 2 gametas você se torna algo: um feto. Mas, mesmo assim, para o choque não ser tão forte, te deixam dentro da sua mãe num caldeirão de líquido primordial. Seguro, quentinho, uno (com a sua mãe, nesse caso), até estar pronto para você ser uma coisa separada.

Aí você nasce e é sempre complicado. Afinal quem quer sair de lá e encarar a dureza de ser algo separado? E, pior, sozinho. Você, que antes era tudo, vai ser obrigado a ser uma coisa só. Por isso você grita, esperneia e chora. Mas, por pior que seja, sempre tem uma história sobre como seu o nascimento foi glorioso, heróico, surpreendente, mágico, poético, cômico ou dramático. E em geral é. É tudo isso, ao mesmo tempo.

Aí você cresce e estranhamente esse movimento entre ser uma coisa só e ser tudo continua. É como se você estivesse nascendo a todo momento. Primeiro você acha que sua mãe é parte de você até que te desmamam e você precisa se alimentar sozinho. Aí te põem numa escola pra você ser igual a todos ou, pelo menos, a parte de um todo, até que consiga sair da sua família pra ser algo diferente, e, surpresa, formar a sua própria família, onde tudo vai ser igual ou bem parecido. É como se, mesmo  após nascido, você estivesse buscando (ou sendo forçado a fazer parte de) simulacros desse líquido primordial. Uma nostalgia do que já foi.

Aí um dia você descobre que, apesar de se sentir sozinho, você já foi parte de tudo. Nesse ponto a crise existencial te leva à neurose, ao divã, ao desespero, à religião, ao vazio, ao “Thanks, God, it’s friday”. Você, antes compelido pelo mundo, agora começa a buscar ativamente pelas fantasias do sentimento oceânico que te permitiriam voltar a se sentir um com o todo, ou, melhor, não sentir nada. Esse desespero por fazer parte é tão grande que as pessoas brigam e matam umas às outras pois sentem que os outros ameaçam suas fantasias de patriotismo, espiritualidade e família que resgatam a saudade de não serem nada. E serem tudo. Ao mesmo tempo.

Aí você se liga que vai morrer e tem medo. Estranho. Afinal passou boa parte da vida tentando fazer parte de tudo de novo e, quando descobre que isso vai ser inevitável, não sabe o que fazer. Talvez porque você tenha passado tanto tempo fazendo parte de “todos” falsos que não incluíam tudo de verdade. Agora que será obrigado a voltar a fazer parte do “todo” mesmo, você quer que esse “todo” seja igual ao que você é sozinho. Coitado. E soberbo.

Às vezes me pego pensando nisso e imagino que a gente não aproveite esse momento da vida de verdade. Que outra oportunidade a gente tem experimentar o mundo por apenas um ponto de vista? É, porque a gente não deixou de fazer parte do todo. A gente simplesmente está vivendo a oportunidade de experimentar as conexões das quais somos feitos de um ponto específico da rede, ou como dizia Bill Hicks na sua história positiva sobre LSD:

“Today a young man on acid realized that all matter is merely energy condensed to a slow vibration, that we are all one consciousness experiencing itself subjectively, there is no such thing as death, life is only a dream, and we are the imagination of ourselves. Heres Tom with the Weather.”

Por isso quando me sinto sozinho e a melancolia bate, eu lembro que estou nesse mar celestial onde somos tudo e nada. Lembro que nada é permanente, que tudo é interconectado, e que o Nirvana é uma simples questão de percepção e desapego. Mas enquanto ele não chega, tudo o que me resta é sair desse mar, abrir a canga, deitar e olhar o mundo desse ponto tão particular. O meu.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

Uôrque

Quando eu nasci, meu pai já estava aposentado, e, na infância, minha mãe tinha tantos empregos que  eu nunca consegui entender o trabalho de uma maneira normal. Nenhum dos dois saía de casa depois do café dizendo vou trabalhar e voltava no fim do dia para jantar. Era totalmente diferente do que eu via nas novelas ou nas casas dos amigos. Com eles era como se o trabalho fosse ao mesmo tempo tudo e nada em suas vidas.

Meu pai me buscava no colégio, fazia a ronda numa empresa na qual era sócio, ia a escritórios de imobiliárias entregar papéis e recolher dinheiro, e me confidenciava:

– Aqui tá todo mundo enrolando. Vamos tomar um sorvete.

Minha mãe me levava pra passear num determinado lugar e quando eu menos esperava estava sentado no fundo de uma sala onde ela dava aula para um grupo de pessoas que eu nunca tinha visto.

– Vai anotando os pontos que as pessoas mais perguntam- ela me pedia.

Espremido entre essas duas éticas do trabalho bizarras, óbvio que me tornei um jovem adulto com problemas. Trabalhava em excesso por nada, brigava com chefes em prol de clientes, e, quando comecei a ter as minhas empresas, organizava reuniões com os funcionários para levantar maneiras de pagá-los mais. Talvez por isso eu nunca entendi uma linha escrita na revista Você S.A. Para mim trabalho não era o caminho para status e fortuna, mas a única maneira de estabelecer relações e justificar minha existência no mundo.

Depois de anos sofrendo nessas relações comerciais e profissionais dramáticas que eram mais emocionais do que práticas, um dia, na análise, o meu psicanalista acertou na mosca:

– Você não consegue parar de trabalhar.

É verdade. Não consigo. Nunca consegui.

Todas as minhas relações, inclusive as pessoais, tem um quê de prestação de serviço. Conheço uma pessoa, me torno sua amiga, e, pimba!, temos um projeto juntas. Seja uma banca para vender revistas usadas, como fazia na infância; um fanzine ou associação de RPG, na minha adolescência; ou uma das inúmeras empresas que tive ou das quais participei na minha vida. Se você me conhece pessoalmente, me diz a verdade, não lhe dá a impressão às vezes que estou prestando uma consultoria?

Eu sei, é chato pacas. Você vem falar de um problema qualquer e eu já penso em como podemos transformar isso em algo: um podcast, um livro, um projeto, um evento. Parece até que estou ligado no 220, mas não estou. Eu simplesmente não consigo parar de trabalhar. Talvez daí venha a minha mania insuportável de dar palpite em tudo. Mesmo quando as pessoas só querem anuência, eu sempre tenho uma sugestão a fazer. Eu tento me controlar, mas, desculpem, é mais forte do que eu.

O tal psicanalista, que verbalizou o que eu nunca consegui, disse, na época, que o problema vinha de duas mensagens contraditórias que meu inconsciente reinterpretou. Meu pai dizia: não trabalha. Minha mãe dizia: não é trabalho. Mas o inconsciente, cheio de vontades, não entende “não”. Assim, interpretei na minha vida: “trabalha, é trabalho”.

Pra piorar, trabalho, pra mim, nunca teve a ver com dinheiro. Acho que se fosse milionário minha vida ia ser igual a que eu tenho hoje, pois continuaria fazendo a grande maioria das coisas que faço sem precisar me preocupar com dinheiro, um outro assunto problemático que não dá pra tratar aqui.

Durante muito tempo isso me angustiou, mas a idade vai te permitindo perceber que tem algumas coisas que não vão mudar em você, como aquela unha encravada crônica ou a mania de beber leite da caixinha. Então a gente precisa aprender a conviver com isso pois a opção é sempre pior.

Pra mim, por exemplo, não trabalhar é não estabelecer relações, é estar isolado do mundo, deprimido, sem função ou razão de viver. Por isso eu trabalho. O dinheiro, às vezes, é uma apreciada e necessária consequência, mas não é a razão de tudo. A coisa mais importante é, como dizia Andy Warhol, o uôrque.

Por isso, vou continuar a dar palpite na vida alheia, a montar planos de marketing, a revisar livros, a criar jogos,  a fazer listas de leitura, a montar sites, grupos de estudo e tudo mais que me faça me sentir útil. Tudo mais que concretize a minha experiência na Terra e me lembre que estive aqui para servir você. Mesmo que seja acordar às cinco da manhã para escrever um post num blog que ninguém lê.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.