Que sono?

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Nunca entendi isso.

Desde pequeno minha relação com o sono é complicada. Não curto dormir. Nunca curti. Até os seis anos tinha pesadelos com uma figura inspirada no Juarez Machado, aquele artista plástico e mímico que se apresentava no Fantástico. Lembra? Provavelmente não, mas eu lembro. Talvez só por conta dos pesadelos.

Normalmente era uma perseguição, onde ele queria me levar embora para um mundo paralelo acessível por paredes secretas no meu apartamento. Antes do sonho concluir, eu sempre acordava no meio da noite em pânico, mas não conseguia pedir ajuda aos meus pais pois no meio do caminho tinha um quadro da Mona Lisa que, posso jurar, me seguia com os olhos. Com medo da minha cama e sem poder atravessar o corredor, eu ia pra sala e adormecia no sofá.

Algum tempo depois esse terror infantil se resolveu num sonho do qual me lembro até hoje; na mesma época meus pais se livraram da Mona Lisa; e eu, tirando os intermediários do meu processo de sono, passei a dormir direto no sofá. Quando o meu peso ainda permitia, minha mãe, antes de dormir, me transferia para a cama. Isso em pouco tempo ficou impossível e, sem ter o que fazer, todos simplesmente aceitaram que eu ia dormir direto no sofá. Dormir? Melhor seria dizer: viver no sofá.

Eu chegava do colégio e me esparramava no sofá pra ler e ver TV. Ao meu lado, pilhas de quadrinhos, livros, brinquedos, cadernos, lápis e canetas. Eu tinha, sim, um quarto, mas, como podem perceber, vivia mesmo no sofá.

Preocupados com isso, meus pais me levavam de tempos em tempos para escolher camas que pudessem me levar de volta ao quarto. Beliches, camas com escrivaninhas, com prateleiras, com até, pasmem, aquários. Dessas, tive todas. Mas elas acabavam se tornando apenas os seus apêndices. Eram playgrounds, depósitos de livros, espaços de trabalho, simulações do mundo marinho; tudo menos camas. Dormir sempre ficava pro sofá.

Quando fiz 15 anos, eles já tinham desistido. Na época, eu até tinha uma cama no quarto, que me foi doada por alguém, mas nunca foi usada. Era velha, pesada e estranha. Um objeto fazia mais sentido no cenário de um quarto de viúva do que no quarto de um adolescente.

Nunca dormi nela, mas era um lugar pra deitar acordado, ouvir músicas, escrever poesia, assistir a videoclipes na TV e a filmes em VHS nas madrugadas. Não para dormir. Dormir eu reservava para o sofá, e para uma cadeira de praia que também me foi doada por alguém. Pra mim, dormir nunca foi planejado. Era uma espécie de ataque de exaustão que me acometia entre um dia e outro. Não era uma necessidade, mas uma fraqueza.

Um dia, sem aviso, essa cama quebrou e não me lembro de sequer termos cogitado consertá-la. Ficou assim até que fui morar sozinho e, no chão da sala, joguei um colchão que me servia de futon, sala de estar e espaço para desmaiar.

Assim permaneci até os meus 25 anos. Sem camas. No máximo tive estrados no chão que suportavam um colchão. Eram espaços para assistir TV, ler, dar festas(!!!) e desmaiar de exaustão. Camas, e o sono, eram conceitos estranhos para mim.

Quando conheci minha mulher e comecei a trabalhar fui obrigado a encarar o sono de maneira diferente. Eu não dormia mais sozinho e meu tempo não era mais só meu, Precisei me alinhar aos hábitos dela e aos horários da fábrica. 8 horas de trabalho, 8 horas de diversão, 8 horas de sono. Sono? Quero dizer, 8 horas de cama.

Nunca cumpri essas 8 horas. Se deitava cedo e conseguia dormir, acordava na madrugada sem saber o que fazer. Sem pesadelos, mas numa espécie de pânico indescritível. Um medo do amanhã, um medo de ainda ser ontem. Se não conseguia dormir, contava as horas como portões, com a certeza que a única cura para a insônia, a única coisa que iria me trazer o sono pelo qual ansiava e temia era a luz do sol.

Abandonei a pós adolescência e o cansaço gerado por 25 anos de noites mal dormidas cobrou o seu preço à vista. Sem crédito tento pagar em prestações. Assim, nos últimos 20 anos resolvi encarar o problema do sono mais seriamente. Fiz terapias, exames, comprei relógios inteligentes e baixei aplicativos que monitoram a minha vida. Sempre tentando encontrar uma maneira de dormir melhor.

O problema é que eu não sei o que é dormir melhor, nem acredito nisso. Se eu pudesse não dormir, confesso, eu não dormiria. Temos tanto a ler, a escrever, a assistir, a desenhar, a ouvir, a conversar e a sonhar acordados, que o sono, como na infância, ainda me parece uma fraqueza. Mesmo com o sono curto, eu sonho muito, e tudo que não seja parte dessa psicodelia orgânica, me parece pura perda de tempo.

Mas não sou mais tão jovem e o corpo pede o descanso. Começo o dia cedo e, quando bate a noite, já estou cansado. Resisto e me arrasto por períodos de baixa de energia e blackout total, tentando encontrar algum método alternativo para realmente descansar. Porém, como a menina da música da Marisa Monte que toma hipofagin mas sonha em comer bolo de chocolate em todas as refeições, eu ainda sonho em não ter sono.

Hoje eu tento manter uma rotina. Dá dez horas eu deito. Na maioria das vezes durmo rápido. Me condicionei. Tem músicas, filmes e sons que me colocam no estado de relaxamento que me permite atravessar a noite. Mas essa noite sempre acaba antes do sol nascer e desperto antes da hora do mundo acordar. Durante muito tempo lutei contra isso, me desesperei e sofri. Hoje, ao invés de lutar, tento usar melhor esse tempo com o que me faz feliz, por exemplo, escrevendo sobre o sono. Continuo cansado, mas tenho um sorriso relaxado no rosto. Não dormi, mas sonhei, mesmo que acordado.

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Quando lembro disso, me pergunto se realmente cresci. Pois crescer não é se adequar ao tempo alheio, mas respeitar o seu próprio tempo e saber que de um dia pro outro mudamos, morremos e renascemos para uma realidade que não é a mesma de ontem. Dormir é abraçar sem medo essa transformação. Dormir é não ter medo que o Juarez Machado vai te levar pro mundo paralelo das paredes e nunca mais voltar. Dormir é ter confiança que o passado ficou para trás e que o futuro vai te receber de braços abertos. Dormir é se libertar da culpa e da ansiedade. Se viver é estar no momento, dormir é se permitir não estar aqui ou, melhor, estar nesse lugar nenhum, o u-topos. A Utopia.

Nessa busca, deu 10 horas, me deito, fecho os olhos, respiro fundo e me deixo ser jogado em direção ao futuro nessa viagem psicodélica. O que me esperará?

Bons sonhos. Durmam bem. Espero vê-los do outro lado.

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