Não dá ideia

Não lembro da primeira ideia que tive, mas minha mãe ainda tem o registro da minha primeira execução de uma ideia. Numa fita cassete cheia de chiados dá pra me ouvir cantar aos 3 anos de idade:

A bandeira do Brasil era boa
Um dia ela rasgou
Depois quebrou o pau
Depois não tinha nem mais pau

Num pseudo ritmo e sem rimas, eu tentava contar as desventuras da bandeira do Forte do Leme que eu conseguia ver pela janela do meu quarto. Segundo minha mãe, fiquei angustiado por semanas quando, após uma série de ventanias, a bandeira rasgou e aos poucos foi se desgastando até ser substituída. Minha mãe achava que era uma manifestação da musicalidade que ela sempre desejou que eu tivesse mas nunca tive; meu pai já achava que era uma crítica precoce ao regime militar que entrava no período da anistia. Não era nem uma coisa, nem outra. Era uma ideia. Como tantas que tive e tenho. Como as tantas que até hoje me perseguem.

Ideias que me fizeram desenhar por 2 anos uma tira diária chamada ABOBRIM sobre animais transmorfos que comentavam a política do governo Sarney. Ideias que me fizeram criar (e não lançar) dúzias de fanzines na adolescência. Ideias que eu escrevia em caderninhos até se tornarem algo, como poemas sobre freiras que chupavam dedos ou soldados numa guerra do Vietnam psicodélica. Ideias. De todos os tipos, formas e tamanhos.

Saudades de desenhar o ABOBRIM

Pode parecer que esse excesso de ideias me tornaria produtivo, mas não. As ideias, pelo menos pra mim, precisam de um longo e angustiante período de fermentação que, olhando de longe, ou  de perto, parece no melhor dos casos ócio criativo e, no pior, pura preguiça.

Desde que elas surgem, numa imagem, som ou associação cognitiva pouco usual, até cumprirem seu destino, leva tempo. Tenho ideias dos meus 10 anos de idade que ainda estão tomando forma e que retornam, dia sim, dia não, me perguntando: “E aí? Já está na hora?”. E eu respondo: “Ainda não. Ainda não”.

Sim, é demorado. O meu primeiro curta, que filmei aos 33 anos, surgiu como uma ideia para uma história em quadrinhos, aos meus 18 anos, na fila do banheiro da Academia da Cachaça do Leblon. Virou crônica, roteiro de quadrinhos, e depois 7 versões de roteiro cinematográfico, até ser filmado 15 anos depois. O pior é que não fiquei completamente satisfeito com o resultado final e vez ou outra penso em como retomá-lo. Fazer o que?

Mas não me angustio mais. Quer dizer, tanto assim. Minhas ideias precisam de tempo para maturarem adequadamente e nunca estão completas. São pequenas obsessões de longo prazo que culminam em surtos compulsivos, como aquele que tive no fim de semana em que escrevi 60 páginas da Bíblia e do Piloto da minha Sitcom baseada na minha experiência como livreiro, 18 anos depois de tê-la imaginado pela primeira vez.

Ou seja, se quiserem me diagnosticar, podem dizer que sou um obsessivo em tempo integral e um compulsivo bissexto. E está bom pra mim. Posso sofrer, um pouco, mas quem disse que quero ser curado?

Se for pensar bem, a culpa pelas ideias não é minha. Eu nunca tive ideias, elas é que me tiveram, me têm e, se deus quiser, ainda me terão por muito tempo. Tudo que preciso é saber conviver com elas, dar espaço e tempo para elas maturarem, e, quando concluídas, delas, nada esperar. Afinal, não criamos ideias, ou filhas, pelas recompensas que nos trarão. As criamos pro mundo e torcemos que elas, de alguma forma, o tornem melhor. Ou pelo menos mais interessante.

Por isso quando me perguntam pra que eu escrevo, desenho, crio, eu digo: “Não sei”. Mas se me perguntarem o porquê, eu posso responder: “As malditas ideias não me deixam em paz”. E eu adoro.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

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