Melhor que ontem

Acordei do cochilo pós almoço de sábado num mundo diferente. Finalmente o resultado da eleição americana saiu e foi satisfatório. Tá, o Biden não é um santo, nem sequer uma boa opção para comandar a maior potência econômica e militar do planeta. Pensando bem, ninguém é. A existência dessa Roma moderna em si já é um absurdo, mas fazer o que? Não podemos negar a realidade que vivemos. Portanto, o negócio é aprender a lidar com isso.

Porém, a derrota do Trump, sim, já é uma melhoria. Isso não podemos negar. Atualmente estou indo muito pela linha da Protopia do Kevin Kelly. Me nego a me afundar nas distopias, buscando, como diz o Zizek, o ponto de ruptura onde vamos começar de novo; nem me uno à fantasia coletiva de que existe uma Utopia no fim desse arco íris preto e branco de filme expressionista alemão que vivemos. Contudo, me comprometo a agir para que o amanhã seja melhor que ontem e assim continuamente. Melhor que ontem. Isso já me basta.

Agora vamos falar da nossa terra. Graças a deus, não precisarei ir a uma guerra, como o meu pai fez para derrubar o Getúlio, mas precisamos aproveitar esse abalo ideológico, provocado pela perda do Trump, na estrutura dos milicianos fundamentalistas pentecostais que dominam o executivo federal para tirá-los do poder. Ah, mas botar fulano ou sicrano ainda é ruim. Sim, mas, excetuando Cabo Daciolo, qualquer coisa vai ser melhor que hoje. Talvez até o Daciolo não seja tão ruim… brincadeira.

É hora de aprendermos a lição americana e retomar o trabalho democrático. Depois de 35 anos do fim da ditadura, sim, relaxamos. Achávamos que a democracia era uma coisa, um espaço existente, um estado governamental propiciado por eleições livres. Não é. Erramos e acabamos cercados de fascistas por todos os lados. Democracia é um verbo e precisamos retomar o trabalho de democratizar.

É hora de desarquivar os grupos de whatsapp de família e amigos e começar a ter conversas difíceis. É hora de perceber que erramos quando deixamos tios e avós assistirem o energúmeno do presidente no Super Pop pois era engraçado. Não era. Não é. É hora de não deixar passar nenhum deslize ou oportunidade. Tudo deve ser discutido. É hora de tratar a sério o que todo mundo trata como piada e implicar aqueles dão suporte aos protofascistas brasileiros nos erros dos governos e pessoas que apoiam. Até o ponto em que a gente consiga virar o jogo e expulsá-los mais uma vez.

Mas o trabalho não vai terminar aí. O preço da democracia é a eterna vigilância e a constante militância. Precisamos ensinar, por quanto tempo for necessário, à população que é preciso ter respeito ao outro, às suas escolhas, origens e ideias; respeito às instituições e aos mecanismos que promovem a nossa discussão aberta, a justiça e a liberdade de ser, pensar e falar. Vai ser uma utopia? Tudo vai ser resolvido num passe de mágica? Não, mas se o amanhã for melhor que hoje e continuarmos fazendo o nosso trabalho, em 2022, as coisas vão ser bem diferentes. E pra melhor.

Parabéns ao povo americano que conseguiu expulsar aquele verme da Casa Branca e boa sorte no trabalho que ainda precisa ser feito. Vão fazendo o seu aí, que faremos o nosso aqui.

Sejamos todos bem vindos à Protopia.

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