Meu pai, antifa de ocasião

Quando eu perguntava ao meu pai por que diabos ele foi lutar na segunda guerra, ele sempre me dizia:

– Pra derrubar o Getúlio.

Não parecia coerente. A guerra era na Europa e o Brasil estava lutando junto com os Aliados. Mas ele explicava:

– Vargas se aliou pensando no dinheiro, não na ideologia. Eu sabia que, mesmo com essa virada de casaca em cima da hora, o governo fascista dele não sobreviveria à queda da Alemanha e da Itália.

Ele estava certo. Seu governo realmente deixou de fazer sentido com a nova ordem mundial, mesmo que 10 anos depois ele tenha voltado ao poder pelas mãos do povo, o que prova que brasileiro se amarra num tirano.

A birra do meu pai com Vargas durou até o fim da sua vida. Um dos dias que mais ansiava no ano era o aniversário da morte de Getúlio quando ele ia xingar as viúvas espirituais do ditador que colocavam flores no seu busto na Cinelândia.

Vocês vão se surpreender, mas o engraçado é que as suas motivações não eram exatamente políticas. Meu pai era um sujeito reacionário, ex-aluno do colégio militar, que apoiou a ditadura de 64 comandada por vários de seus colegas de escola, e, vergonha suprema, votou no Bolsonaro pra vereador, o que o torna responsável pela criação desse monstro, pela simples expectativa de um aumento na sua pensão de ex-combatente.

Às vezes me pergunto: “que força estranha moveu a versão jovem do meu pai a ser um antifa de ocasião durante a segunda guerra?”.

Não sei exatamente, mas desconfio que foi ciúme. Meu pai era meio aparentado do Getúlio. A avó do meu pai era tia avó de Vargas o que faria dele uma espécie de primo de milésimo grau. Provavelmente, sendo criado na década de 30, deve ter ouvido a família enaltecendo o parente que se deu bem, enquanto ele era um estorvo, o orfão que eles precisavam criar. Calhou que, por conta desse parentesco longínquo, numa visita de Getúlio ao colégio militar ele foi apontado para fazer o discurso de boas vindas. Era a sua oportunidade de se vingar.

Disse ele que fez dois discursos: um pra apresentar aos oficiais do colégio, outro pra fazer na hora. Discurso aceito pelo colégio, lhe foi concedida a oportunidade de dizer o que pensava ao ditador. Eu só imagino como foi. No meio de um jantar para todo o colégio e convidados; os alunos com uniformes de gala; puxa-sacos tendo seu dia de glória; um dia de festa reacionária.

O homem chegou. Foi aplaudido de pé,  os oficiais do colégio fizeram a abertura cumprimentando o ditador e chamaram meu pai ao palco. Ele tirou do bolso o seu discurso alternativo, respirou fundo e finalmente disse o que estava entalado na sua garganta. Mas nem conseguiu terminar; foi retirado do palco no meio da sua fala e preso por 30 dias. Algo realmente marcante para um menino de 12 anos. Até sua morte, contava essa história cheio de orgulho. E tinha razão pra isso.

Quando vejo o povo discutindo quem é antifa de verdade ou não, lembro do meu pai. Ele não era, mas fez a sua parte na hora certa. Seus motivos podiam ser vis e pessoais, mas, não tivessem ido ele e tantos outros lutarem na Itália, as coisas poderiam ser diferentes. Tá, não muito, mas nessas horas toda ajuda conta.

Por isso, se aquele tua amiga arrependida,  aquele outro que não sabe bem o que quer, a patricinha que se acha politizada, o que só quer ver o circo pegar fogo, ou mesmo aquela intelectual que apoia totalitarismos do outro lado do espectro político querem entrar na luta, os abrace. Tem certas horas que frente ampla tem que ser ampla mesmo.

E depois que as coisas se resolverem, a gente discute as nossas diferenças. Afinal se a gente não fizer nada agora, pode ser que a gente não possa discutir mais nada por um bom tempo. Então melhor antifa de ocasião do que fascista de coração.

Não concorda? Tudo bem, vamos discutir no boteco depois. Agora é hora de união.

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