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Memento Mori

Diz a lenda que quando um general romano voltava pra capital do império coberto de glórias, durante a parada triunfal realizada em sua homenagem, um escravo ficava ao seu lado sussurrando em seu ouvido: “memento mori… memento mori…“.

Não consigo ver os políticos, pseudo intelectuais e celebridades, bazofiando seu poder e suas vitórias ilusórias na TV, na imprensa e nas redes sociais, sem me sentir como aquele escravo e sem pensar alto: “memento mori… memento mori...”.

Na época do império romano, a função desse escravo era lembrar ao general que, apesar de todas as suas vitórias, ele ainda era mortal e todas as suas conquistas seriam passageiras; e, por isso, não havia motivo para vaidade ou orgulho. Por essa razão eles eram obrigados a ouvir: “memento mori… memento mori…“.

Hoje, infelizmente, isso não funciona mais como naquela época. Não porque deixamos de ser mortais ou porque nossas obras permanecerão para sempre. Muito pelo contrário. Tudo o que criamos é ainda mais transitório e importa cada vez menos para a história da humanidade. Mesmo assim parece que ninguém mais entende quando dizemos: “memento mori… memento mori…“.

Ao contrário do que parece, a princípio essa não é uma questão de falta de entendimento; é uma questão filosófica. Enquanto no império romano, as pessoas seguiam preceitos estoicos ou relacionados ao cristianismo primitivo, hoje vivemos um hedonismo iluminado, em que o pragmatismo e as conquistas da razão são colocadas a serviço do prazer sem fim. Por isso, por mais que sejamos lembrados da nossa mortalidade a todo momento, a interpretação é diferente quando ouvimos: “memento mori… memento mori…“.

Hoje, quando somos lembrados da nossa transitoriedade, só pensamos em aproveitar ao máximo antes que a morte chegue. Pensamos que, se nada é permanente, porque deveríamos deixar algo em pé depois que nos formos? Pra que ser humildes? Pra que respeitar os outros? Vamos esgotar tudo e todos com o nosso poder pela nossa simples satisfação pessoal. Afinal de contas: “memento mori… memento mori…“.

Mas essa é uma interpretação errada. Isso não é memento mori; sequer é carpe diem. Isso está mais para clepto diem: uma busca desenfreada pela satisfação pessoal através do abuso de poder sobre o outro. Isso não é uma lembrança de que somos mortais, mas, ao contrário, é uma negação dessa verdade. Isso é o oposto de “memento mori… memento mori…“.

Isso é roubar sem parar mesmo quando não tem mais onde guardar ou como gastar. Isso é provocar polêmicas vazias só para estimular uma adoração sem propósito. Isso é maltratar pessoas em nome de uma liderança inexistente. Isso é colocar países em conflito para reafirmar uma masculinidade poente. Isso é tratar cônjuges como troféus, filhos como soldados, e vizinhos como gado. Isso é estender a altos custos uma vida sem significado só pelo prazer de exercer um poder que nada cria e só destrói. Isso é o que me faz gritar para esses ouvidos surdos de razão: “MEMENTO MORI! MEMENTO MORI!

Mas sou uma voz pequena; sem força; sem poder. Por isso, como escravo de mim mesmo, e ciente de que vou morrer, preciso encontrar energia para lutar pelo que acho certo e tornar esse mundo um lugar menos pior. Assim, mesmo desesperançoso, suspiro em meus próprios ouvidos, as palavras que todos devemos lembrar:

Memento mori…

Memento mori…

Memento…

Mori.

E sonho que essas palavras cheguem certeiras aos ouvidos que precisam ouvi-las.

Memento Mori.

7 de outubro de 2018 – O renascimento de Lula

Hoje, 7 de outubro de 2018, enquanto milhões de eleitores se encaminham às urnas para definir o futuro do país, só há uma pergunta: quem imaginava no dia 23 de janeiro o rumo que o país tomou nesses últimos meses? Quem imaginava as guinadas que a história política do Brasil deu?

Primeiro foi a absolvição de Lula. No dia 24 de janeiro, por 2 votos a 1, Lula foi absolvido da acusação de corrupção passiva. Segundo os desembargadores que concordaram com a defesa, não havia provas. Apesar de todo o terrorismo das redes sociais, a expectativa de que o país fosse entrar em conflito não se concretizou. Óbvio, ocorreram alguns confrontos entre manifestantes contra e a favor de Lula, mas nada que indicasse um aquecimento das hostilidades já existentes. Os oponentes inclusive declararam que era melhor concorrer com Lula do que transforma-lo num mártir. A batalha mudou do campo jurídico para o eleitoral.

Com a sua absolvição a campanha para presidente realmente começou. Livre desse impedimento legal, o ex-presidente intensificou a sua exposição. Começou a percorrer o país e levar multidões atrás dele, tentando mais uma vez evocar a Coluna Prestes, inclusive através de uma aproximação com as forças armadas. Alguns analistas políticos começaram a criticá-lo e a vislumbrar que, numa possível vitória, Lula iria tornar as forças armadas mais atuantes na proteção dos seus “direitos” de governar. Uma ditadura eleita, era o termo usado para definir essa estratégia.

A oposição, ou melhor, as várias oposições a um presidente ainda não (re)eleito continuaram batendo cabeça umas contra os outras, enquanto Bolsonaro se consolidava como a única alternativa à volta de Lula. As pesquisas indicavam a possibilidade de um segundo turno, com uma chance razoável da eleição ser decidida a favor de Lula já no primeiro. Os apoiadores do ex-presidente comemoraram, mas eles não esperavam o que aconteceu no dia 3 de março.

3 de março. Um dia que, como na morte de Senna, todos lembram onde estavam. Um dia que todos recordam o que faziam quando ouviram a notícia do atentado.

Lula saía de uma reunião com correligionários em Recife quando um paranaense chamado Gustavo Lebre se aproximou do ex-presidente e desferiu 3 três tiros em seu abdômen e depois se matou, antes que os populares conseguissem para-lo.

Pelos relatos de conhecidos e de acordo com a investigação policial, Gustavo não tinha ligação com grupos extremistas, nem com partidos políticos. Como muitos nas redes sociais, era só uma pessoa que vociferava ódio contra o PT. Aparentemente o crime não foi planejado. Gustavo estava a trabalho na capital pernambucana e, depois de uma noite de bebedeira nas ladeiras de Olinda, comprou uma arma com bandidos locais e executou o crime. Não deixou nenhum registro das suas intenções. Como disse o delegado responsável pela investigação, “podia ser qualquer um de nós”. Qualquer um de nós.

Lula foi gravemente ferido, ficou por dois dias a beira da morte, mas resistiu. Em coma, mas resistiu. Isso gerou um rebuliço na corrida presidencial. Alguns tentaram buscar os votos que seriam de Lula, enquanto outros tentaram transformar o atentado em um indício do “desejo das ruas”. Mesmo com Lula aparentemente fora da disputa, a eleição continuava orbitando em volta de sua figura.

A confusão que já estava estabelecida desde a sua absolvição piorou. Marina e Ciro firmaram uma aliança para se contrapor a Bolsonaro que ainda tinha dificuldades de buscar aliados políticos, apesar dos bons resultados nas pesquisas. Além disso, os candidatos celebridades começaram a pipocar em partidos pequenos que buscavam maior exposição para eleger deputados e senadores.

O coma de Lula se estendia sem um horizonte. A mídia, depois de um mês acompanhando diariamente as declarações dos médicos, começou a deixar o ex-presidente de lado para se concentrar na eleição. Assim, no dia 4 de junho, Lula, sem aviso ou preparação, acordou, ou, como declararam alguns, renasceu.

Lula simplesmente abriu os olhos e sem demonstrar nenhuma sequela, no mesmo dia, ainda na cama do hospital, fez o seu pronunciamento pela união da nação.

Numa versão Youtube da Carta ao Povo Brasileiro, Lula conclamou a população a deixar as hostilidades de lado e buscar um meio termo para construir uma nova visão de país que fosse mais inclusiva, independente de orientações políticas.

As reações foram contraditórias. Enquanto alguns, mesmo entre os apoiadores de Lula, consideraram o vídeo apenas uma manobra política, outros, mesmo entre os que pediam a sua prisão, viram uma tentativa sincera de resolver a crise política que parecia interminável. Seja como for o vídeo foi um sucesso, desbancando até Simone & Simaria e Anitta do posto de vídeo mais assistido no Youtube.

As pesquisas eleitorais começaram a perceber uma migração de votos de Bolsonaro para Lula e de votos de Lula para outros candidatos de centro esquerda. Na classe política, a popularidade do vídeo gerou um movimento diferente fazendo convergir diversos oponentes em direção a Lula mesmo que fosse para “discutir como promover a tal união da nação”.

Apesar da fila de antigos aliados a sua porta, surpreendentemente, o primeiro político que Lula pediu para ver foi Bolsonaro. O encontro que era pra ser discreto acabou amplamente coberto pela imprensa, mas não ficou claro o que os dois principais concorrentes ao cargo conversaram. Uma semana depois, Lula anunciou, sem o aval do PT, que queria Bolsonaro como vice em sua chapa.

O racha que estava claro na população atingiu o PT, mas como já estava encerrado o período de filiação aos partidos para a eleição, poucos saíram do partido, temendo perder a oportunidade de concorrer. Um pequeno grupo, liderado por Suplicy, abandonou o PT e prometeu fazer oposição ao “casuístico e abjeto casamento” mas não conseguiu mobilizar a população.

Os demais candidatos começaram a buscar se unir embaixo de uma mesma bandeira mas as discordâncias eram muitas e enfraqueceram qualquer tentativa de oposição real. O beijo da morte veio no início de agosto, logo antes da campanha televisa, quando a chapa Lula e Bolsonaro apareceu nas pesquisas pela primeira vez como vencedora já no primeiro turno.

Frente a esse cenário, o governo executivo se adiantou e Temer se reuniu com Lula, informalmente iniciando a transição de governo antes mesmo das eleições. Nesse dia declarou-se a continuidade de Meirelles na Fazenda e um pré-ministério dividido entre figuras emblemáticas de grupos minoritários e de esquerda, e indicações retiradas de grupos conservadores e militares.

A campanha prosseguiu sob gritos quase inaudíveis de “Lula Golpista”, enquanto os memes dominavam o noticiário político, especialmente o pedido de desculpas público de Bolsonaro a Jean Wyllys no Altas Horas, em que os dois terminaram chorando abraçados.

Procurando preservar a sua vantagem e evitar levantar a incoerência patente da chapa, Lula e Bolsonaro não compareceram aos debates. No último, Ciro Gomes incorporou Brizola e implorou a população: “Vamos juntos dizer Não. Não! Escolha qualquer um, mas não escolha esses dois. Vamos dizer um não rotundo contra tudo o que eles fizeram com esse país nos últimos 16 anos, para que não soframos por mais 16.”

Mais foi inútil. Na última pesquisa do DataFolha, Lula e Bolsonaro tinham mais de 52% das intenções de voto no primeiro turno, tornando-os virtualmente os novos governantes do país.

O que viveremos agora? Não há como prever. Como não tínhamos como prever tudo o que ocorreu nos últimos 7 meses, não temos como dizer o que ocorrerá nos próximos dias quiça nos próximos anos.

Mas não considere que você está indefeso frente ao que virá. A resolução da mais surpreendente campanha dos últimos tempos depende simplesmente do que você dirá nas urnas hoje. E assim será sua também a responsabilidade pelo que ocorrerá nos próximos 4 anos. Por isso, não vote bem nem mal. Apenas vote com a sua consciência e com o seu coração. Não há mais nada que possamos pedir de você, Brasil, além da sua empatia e da sua inteligência. Que elas nos guiem para tempos melhores.

Bom voto.

Os livros dos Jós e o livro de Jô

No segundo semestre de 2017 estranhamente me peguei lendo biografias, ou melhor, autobiografias de comediantes. A primeira foi uma sobre o caso de amor de Jerry Lewis e Dean Martin. Uma bela história de amizade que reproduz com muita sinceridade e doçura o velho “boy meets boy, boy loses boy, boy gets boy back thanks to Frank Sinatra”. A segunda, um livro de auto-ajuda do José Vasconcelos– sério!- que serve muito bem como a autobiografia que ele nunca escreveu. Entre um capítulo e outro, enquanto explica as leis cósmicas do sucesso e como atingi-lo, Zé Vasconcelos dá um show de humildade contando os problemas que passou na vida e como lidou com eles. A terceira foi a surpreendente e telegráfica autobiografia de Rodney Dangerfield. Contada em pequenos parágrafos, diretos e contundentes, como as piadas em seus shows de stand up, Dangerfield, como os demais, trata os problemas e tristezas que viveu, e a falta de respeito da qual sempre foi vítima, com muita sabedoria e bom humor. A quarta, uma coletânea dos textos e apresentações de Bill Hicks– se nunca ouviu falar dele, pode procurar agora- que se tornou o único registro da sua curta e excepcional vida. E, pra fechar o ano, li o Livro de Jô.

Pra começar, vou te dizer que nunca topei muito o Jô. Assistia ao Viva o Gordo quando pequeno, achava algumas coisas legais, mas não me falava ao coração como a Chiclete com Banana, o Casseta Popular e o Planeta Diário que tínhamos nas bancas. Era um humor velho que não parecia pra minha geração. Quando ele saiu da Globo e foi pro SBT montar seu talk show, após amargar mais um período de personagens anuais e esquetes, não achei nada demais. Enquanto todo mundo babava nas suas entrevistas, eu já sentia que os seus melhores momentos eram justamente aqueles em que não deixava o entrevistado falar e ele próprio se entrevistava. Era um show de ego que não me agradava. Quando, nos anos 90, ele foi alçado informalmente à posição de maior “intelectual” brasileiro, achei que era só mais um sinal da nossa indigência cultural. Em suma, nunca fui um fã.

Mas, confesso, estou ficando velho e indulgente. Graças aos samples do Kindle, tenho me dado a chance de conhecer coisas que facilmente passariam ao largo da minha pequena atenção. Pedi o sample, li e mordi a língua. Fui fisgado pela sua história.

Como a maioria dos outros comediantes que li esse ano, ele não teve uma vida fácil. Houve, claro, momentos de fartura, mas há sempre no ar sinais de azares repentinos, tragédias anunciadas e temores que se tornam reais. Nada diferente da vida de qualquer um de nós. Nada diferente de qualquer comédia. A diferença das biografias normais é como eles lidam com isso. Não há sensação de sentido, mérito, recompensa ou insatisfação. Não há vitórias, derrotas ou missões. Os comediantes apenas olham para a vida como uma sucessão de histórias curiosas, boas ou ruins, mas desprovidas de sentido e razão. Coisas para observar, estranhar, fazer graça e rir.

É nessas horas que me questiono se há um verdadeira diferença entre a tragédia e a comédia.

Enquanto o drama é puro Stanislavski, a comédia é basicamente brechtiana- favor não dar uma de deputado carioca e confundir com Bertoldo Brecha- na medida em que pede do seu ator um distanciamento consciente do personagem e da situação. Ao mesmo tempo a comédia estimula no espectador esse mesmo distanciamento da ação e dos comportamentos exibidos que são apenas um espelho da vida daqueles que os assistem. Enquanto o drama pede envolvimento e emoção, a comédia te permite observação e reflexão. Sobre o mundo, sobre os outros e, principalmente, sobre nós mesmos.

Por isso, acho que o nome do livro não poderia ser mais apropriado. Sei que pode parecer apenas um trocadilho safado, e é, mas comparar Jó e Jô traz uma sugestão interessante. Jó não era apenas um sofredor resignado que nos prova que Deus sempre está certo no fim, se crermos nele e o temermos. Jó era um comediante. Ao contrário de nós, que recebemos a história completa, ele não tinha como saber o seu final, e, mesmo assim, mantinha a sua postura de distanciamento. Não podia ser um simples caso de fé cega. Nós, humanos, somos poços de dúvidas. Com Jó não devia ser diferente. E se terminasse na amargura? E se Deus, no fim das contas, não existisse? E se no fim tudo não passasse apenas de uma piada? Mesmo frente a todas essas dúvidas com as quais convivia, ele conseguiu se afastar das agruras que sofria e, mesmo sendo acusado pelo seu infortúnio pelos próprios amigos, dizia: “Podem parar. Eu sei que não pequei. Agora quanto a razão pela qual estou sendo punido? Não tenho a menor ideia”. Enquanto os seus amigos buscavam uma razão para tudo e agiam com seriedade, ele deixava as coisas acontecerem e nos trazia mais dúvidas do que certezas.

Na vida que Jô conta acontece o mesmo. A mãe perde os dedos e se consola por poder pedir desconto a manicure. O pai perde tudo mas mantém a dignidade, e quando perde um negócio por não se corromper, aliviado, consegue dormir melhor. A ditadura se instaura, e ele dança em cima da mesa da redação do jornal. Seu filho nasce, mas sua felicidade dura apenas 40 minutos, findando com a descoberta  de uma doença genética. Uma série de pequenas tragédias que se tornam comédia pelo distanciamento e pela certeza de que não há certeza de nada.

Então, me digam, não é essa a função de um verdadeiro comediante? Nos fazer rir de nós mesmo frente aos infortúnios que levamos a sério demais? Nos permitir suportar a falta de sentido com a força do riso? Afinal, se a vida não passa de uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum, por que devemos nos preocupar?

Se eles não se pré ocuparam, acho não devemos nos pré ocupar também. Nós, esse bando de Jós.

Natal no estilo Bitcoin/Blockchain

A família de alguns amigos, como muitas famílias numerosas formadas por assalariados, recorre ao expediente do amigo oculto na festa de Natal. É uma maneira de todos receberem um presente ao mesmo tempo que permite que ninguém ganhe algo muito melhor do que o outro. Sabem como é: Égalité, Fraternité, Pavê. Ou pá comê.

Mas é óbvio que uma hora cansa. Depois de uma década, aquela mesma história de descrever seu amigo pra os outros adivinharem deixa de ser divertida e passa a ser constrangedora. Seja pela repetição das mesmas características, nem sempre positivas, seja pela tentativa de injetar originalidade numa coisa tradicionalmente careta. É quase como trocar o apresentador de A Praça é Nossa toda semana esperando que isso vá mexer na essência dos esquetes. Simplesmente um fracasso anunciado.

Mesmo assim, eles persistem e tentam os mais diversos formatos para dar uma variada: amigo oculto de roubar presente; de comprar presente genérico e sortear na hora; inimigo oculto. Nem sempre com sucesso.

Esse ano inventaram um esquema realmente diferente. Cada um comprava um presente para si mesmo e quem o sorteou pegava o presente da árvore e fazia o tradicional lance da adivinhação. Entendeu? Confesso que eu não. Ainda tinha um lance que cada um precisava dar 50 reais, caso a pessoa não tivesse comprado o presente, que era o valor máximo combinado. Boiou ainda mais? Eu idem.

Mesmo com essa complicação toda eles botaram em prática. A primeira vítima tirou os 50 reais do bolso, buscou o presente na árvore, encontrou, fez a brincadeira da adivinhação, o povo acertou, deu o presente com a nota ao seu amigo agora não mais oculto e passou a vez. O outro seguiu o mesmo ritual e assim foi até que o presenteado foi o patriarca da família.

Do alto da sua imponente irreverência, ele seguiu o ritual só se furtando de passar a nota de 50 ao seu amigo. Logo, alguém apontou o erro. E pior que foi o genro:

– Aí, meu sogro, você pegou presente da árvore?
– Peguei.
– Ficou com ele?
– Fiquei.
– Então tem que passar essa nota pra frente. Libere a grana aí, sogrão.
– Não entendi. Quer dizer que ninguém vai ficar com o dinheiro?
– Se tiver presente pra todo mundo, o dinheiro fica com o último.
– Perá lá. Mas quem deu o dinheiro foi o primeiro- a tia se intrometeu.- Não era ele que devia ficar com o dinheiro?
– É- o primeiro se manifestou.- O dinheiro tem que voltar pra mim.

Aí o povo começou a discutir as regras. Pensaram em refazer toda a ordem. Alguém tentou resgatar sem sucesso o e-mail com as regras. Alguns presentes foram devolvidos pra árvore, mas depois recuperados. Enfim uma bagunça total. E, sem que ninguém se tocasse, os 50 ficaram no bolso do sogro que discretamente foi pra sala de tv.

Lá seu neto, que já tinha dado e recebido seu presente, estava assistindo ao jornal.

– Tá assistindo a que, netinho?
– Uma matéria de economia sobre BitCoin, Blockchain, esses troços.
– Que diabos é isso?
– Não sei se entendi direito, mas pelo que vi até agora Bitcoin parece um sistema de trocas de valores virtuais sem um operador central que registra todas as transações realizadas através desse tal de Blockchain, numa espécie de livro caixa virtual.
– Jesus. Isso funciona?
– Sei lá. Provavelmente não. E o amigo oculto? Terminou?
– Ainda não, o povo tá lá tentando entender como o blockchain de presentes fez o bitcoin de todo mundo desaparecer.

No ônibus

A mulher chega.

– E aí, tá indo para Mauá?
– Tô – responde o homem.
– Pô, então, posso sentar do seu lado? Conversando a viagem passa mais rápido.

A mulher se senta e começa a falar. Conta que vai encontrar o namorado. Namorado? Não, marido. Ou quase. Conta que trabalha no Banco do Brasil. Gerente? Não, no atendimento. Que mais? Mora na Gávea, tem dois coelhinhos com nome de gente e não come nada há dois dias. Dieta? Não, sem apetite. Por quê? Muita tensão. O homem faz massagem na mão dela. Ela ri.

– Ai que bom. Faz de novo.

O homem tenta dizer que é vegetariano. Ela interrompe.

– Também sou.

Conta que já tirou uma parte do útero, desmaia sem motivos e gosta de comer Tofu. Gosta? Não, adora. Conta da avó doente. Conta dos ex-namorados. Uns brutos. Além de a abandonarem, até batiam nela. Fala do namorado, o novo, o atual. Um doce. Vão se casar.

– Vão morar no Rio ou em Mauá? – o homem pergunta.

Não sabe. Mas se amam. Ele trata ela muito bem. Ele tem uma pousada. Em Maromba? Não, em Maringá. O ônibus para numa rodoviária.

– Tá frio. Vamos tomar um vinho? – ela convida.

O homem aceita. Ela desce para buscar o vinho. O homem desce e fica na frente do ônibus. Tenso. Faltam apenas 2 horas para a viagem acabar e não aconteceu nada. Ela volta com o vinho. Sobem no ônibus. A viagem continua.

– Ué, num trouxe copo?- o homem se espanta.

Eles bebem no gargalo. Correção: ela bebe. Ele? Dá pequenos goles. A voz dela, já alta, aumenta de tom. Os outros passageiros, já atentos a conversa, desde o início, aproveitam para rir. Alto. O homem, impaciente, acha que ela já está bêbada o suficiente e faz o primeiro movimento.

– Não, posso, – ela o afasta- sou casada.
– E daí? Eu também- ele responde.

O celular dela toca. É o namorado. O homem se cala.

– Não, querido, eu não estou bêbada – nega.

O namorado desliga o telefone na cara dela. Ela começa a chorar. O ônibus chega em Mauá. O homem desce sem se despedir. Ela parece não notar e continua chorando. Tenta ligar para o namorado. Não consegue. Fala sozinha. Lamenta. Resmunga.

– Num faz isso comigo, eu te amo! – grita para o telefone mudo.

Chora, geme. O ônibus chega em Maringá. Ela, cambaleando, desce. Some. No ônibus, apenas uma garrafa vazia de vinho para contar a história. Os outros passageiros riem da mulher. Mais uma vez.

No dia seguinte, na volta, quando paramos em Maringá, fiquei esperando ela subir no ônibus. Ela não subiu. Pensei em ficar triste. Ela pode ter apanhado desse também. Ela pode ter sido abandonada mais uma vez. Ela pode ter procurado o homem que conheceu no ônibus. Ela pode, até, ter ficado de bem com o namorado. Possibilidades demais. Deixei para lá. O que fazer? Simples, transformar numa anedota. Não existe maneira melhor de esquecer e passar o problema para outros.

Estou estragado pra Star Wars

Estou assistindo com bastante surpresa às reações das pessoas a respeito do último Star Wars. Não sei se a minha relação emocional com a série está desgastada ou se ela nunca foi assim tão forte, mas acho que nada no mundo vale esse tipo de fanatismo. Mas quem sou eu pra julgar?

Tenho plena ciência que a manutenção do tecido social depende dessas relações fakes com coisas inventadas mas, apesar de ter tentado, nunca fui um team player. Sempre estive do lado dos solitários. Meu nível de distanciamento do meio social sempre foi tão grande que não tenho time de futebol, não sigo religião organizada, não me identifico com orientação política nenhuma e na época, confesso, não tinha uma Spice Girl preferida (mentira, era a Ginger). Logo, quem sou eu pra julgar?

Seja como for, isso tem me feito rever a minha relação com esses filmes. Quer dizer, tem me feito rever por que diabos alguém pode dizer que tem uma relação com algo inanimado. Lembro que, na faculdade de psicologia, diziam que um dos sinais de adicção (vício) era justamente quando o indivíduo estabelecia uma relação com um comportamento ou coisa como se aquilo fosse uma pessoa. E é isso que estou vendo acontecer agora. Paixões desenfreadas e mágoas irreparáveis a respeito de coisas ou ideias. Amor e ódio por algo que não é real. Mais uma vez, quem sou eu pra julgar?

Talvez, o problema seja comigo. Quando criança vi todos os filmes no cinema, curtia colecionar os bonecos de star wars, brincava de espada de luz e tal, mas não sentia que gostar de Star Wars fosse constitutivo da minha personalidade. Cá entre nós, até gostei muito mais de Krull do que de O Retorno de Jedi. Só pra vocês verem, meu desapego era tão grande que quando o Atari apareceu encontrei dois meninos bestas no meu prédio que trocavam meus bonecos velhos pelos seus cartuchos de Atari, só porque O Retorno de Jedi estava bombando. Foi um bom negócio do qual não me arrependo até hoje. Ou seja, quem sou eu pra julgar?

Com certeza o problema deve ser comigo. Talvez não ame Star Wars como as pessoas normais. Mesmo sofrendo desse defeito, queria poder assistir ao filme sem me sentir pressionado a tomar partido, só por diversão. Mas isso é impossível, pelo jeito. Parece que nos últimos tempos você não pode ser mais um espectador ocasional. Tem que fazer parte de um grupo ou de outro. Você gosta de Marvel ou DC? Acha que The Last Jedi é fiel à série? Prefere Star Trek ou Star Wars? Jesus, isso é realmente importante? Será que nessa situação o maluco sou eu? Como já disse, quem sou eu pra julgar?

Afinal, eu também sou um pecador e amo algumas obras de ficção, sim; mas, por outro lado, o faço de forma platônica, e sem encher o saco de ninguém. Esse ano me apaixonei por Paterson, um filme que ninguém viu e que, olha só, é estrelado pelo Kylo Ren, mas não tentei catequizar a humanidade. Acho que o máximo que fiz foi postar uma foto no Instagram e um tweet a respeito. Assisto a Bar Esperança do Hugo Carvana e a Separações do Domingos de Oliveira pelo menos uma vez por mês, mas não faço apologia do cinema nacional. Amo belas obras de arte, mas prefiro amar e estar com pessoas. Mas quem sou eu pra julgar?

Quem sou eu pra julgar? Eu te digo: sou uma pessoa como as outras. Uma pessoa que vive julgando os outros. Como todos nós. Portanto, a minha sentença é a seguinte: quando uma obra se torna um fator de ódio, por melhor que ela seja, há algo de errado. Seja com ela ou, muito provavelmente, com as pessoas envolvidas nesse conflito. E por mais que o problema seja com as pessoas, a obra que foi o pomo da discórdia, por mais doce que seja, ganha um sabor amargo.

Meu veredito: não vou conseguir assistir a esse filme até essa poeira baixar. Obrigado por estragarem Star Wars pra mim. Ou, vai ver, o problema é comigo  que não sei mais lidar com cinema, TV e outras mídias com a paixão que a participação em redes sociais demande. Talvez seja eu que esteja estragado pra Star Wars. Deve ser isso. Em suma, quem sou eu pra julgar?