Arquivo da categoria: Ensaios

No ônibus

A mulher chega.

– E aí, tá indo para Mauá?
– Tô – responde o homem.
– Pô, então, posso sentar do seu lado? Conversando a viagem passa mais rápido.

A mulher se senta e começa a falar. Conta que vai encontrar o namorado. Namorado? Não, marido. Ou quase. Conta que trabalha no Banco do Brasil. Gerente? Não, no atendimento. Que mais? Mora na Gávea, tem dois coelhinhos com nome de gente e não come nada há dois dias. Dieta? Não, sem apetite. Por quê? Muita tensão. O homem faz massagem na mão dela. Ela ri.

– Ai que bom. Faz de novo.

O homem tenta dizer que é vegetariano. Ela interrompe.

– Também sou.

Conta que já tirou uma parte do útero, desmaia sem motivos e gosta de comer Tofu. Gosta? Não, adora. Conta da avó doente. Conta dos ex-namorados. Uns brutos. Além de a abandonarem, até batiam nela. Fala do namorado, o novo, o atual. Um doce. Vão se casar.

– Vão morar no Rio ou em Mauá? – o homem pergunta.

Não sabe. Mas se amam. Ele trata ela muito bem. Ele tem uma pousada. Em Maromba? Não, em Maringá. O ônibus para numa rodoviária.

– Tá frio. Vamos tomar um vinho? – ela convida.

O homem aceita. Ela desce para buscar o vinho. O homem desce e fica na frente do ônibus. Tenso. Faltam apenas 2 horas para a viagem acabar e não aconteceu nada. Ela volta com o vinho. Sobem no ônibus. A viagem continua.

– Ué, num trouxe copo?- o homem se espanta.

Eles bebem no gargalo. Correção: ela bebe. Ele? Dá pequenos goles. A voz dela, já alta, aumenta de tom. Os outros passageiros, já atentos a conversa, desde o início, aproveitam para rir. Alto. O homem, impaciente, acha que ela já está bêbada o suficiente e faz o primeiro movimento.

– Não, posso, – ela o afasta- sou casada.
– E daí? Eu também- ele responde.

O celular dela toca. É o namorado. O homem se cala.

– Não, querido, eu não estou bêbada – nega.

O namorado desliga o telefone na cara dela. Ela começa a chorar. O ônibus chega em Mauá. O homem desce sem se despedir. Ela parece não notar e continua chorando. Tenta ligar para o namorado. Não consegue. Fala sozinha. Lamenta. Resmunga.

– Num faz isso comigo, eu te amo! – grita para o telefone mudo.

Chora, geme. O ônibus chega em Maringá. Ela, cambaleando, desce. Some. No ônibus, apenas uma garrafa vazia de vinho para contar a história. Os outros passageiros riem da mulher. Mais uma vez.

No dia seguinte, na volta, quando paramos em Maringá, fiquei esperando ela subir no ônibus. Ela não subiu. Pensei em ficar triste. Ela pode ter apanhado desse também. Ela pode ter sido abandonada mais uma vez. Ela pode ter procurado o homem que conheceu no ônibus. Ela pode, até, ter ficado de bem com o namorado. Possibilidades demais. Deixei para lá. O que fazer? Simples, transformar numa anedota. Não existe maneira melhor de esquecer e passar o problema para outros.

Estou estragado pra Star Wars

Estou assistindo com bastante surpresa às reações das pessoas a respeito do último Star Wars. Não sei se a minha relação emocional com a série está desgastada ou se ela nunca foi assim tão forte, mas acho que nada no mundo vale esse tipo de fanatismo. Mas quem sou eu pra julgar?

Tenho plena ciência que a manutenção do tecido social depende dessas relações fakes com coisas inventadas mas, apesar de ter tentado, nunca fui um team player. Sempre estive do lado dos solitários. Meu nível de distanciamento do meio social sempre foi tão grande que não tenho time de futebol, não sigo religião organizada, não me identifico com orientação política nenhuma e na época, confesso, não tinha uma Spice Girl preferida (mentira, era a Ginger). Logo, quem sou eu pra julgar?

Seja como for, isso tem me feito rever a minha relação com esses filmes. Quer dizer, tem me feito rever por que diabos alguém pode dizer que tem uma relação com algo inanimado. Lembro que, na faculdade de psicologia, diziam que um dos sinais de adicção (vício) era justamente quando o indivíduo estabelecia uma relação com um comportamento ou coisa como se aquilo fosse uma pessoa. E é isso que estou vendo acontecer agora. Paixões desenfreadas e mágoas irreparáveis a respeito de coisas ou ideias. Amor e ódio por algo que não é real. Mais uma vez, quem sou eu pra julgar?

Talvez, o problema seja comigo. Quando criança vi todos os filmes no cinema, curtia colecionar os bonecos de star wars, brincava de espada de luz e tal, mas não sentia que gostar de Star Wars fosse constitutivo da minha personalidade. Cá entre nós, até gostei muito mais de Krull do que de O Retorno de Jedi. Só pra vocês verem, meu desapego era tão grande que quando o Atari apareceu encontrei dois meninos bestas no meu prédio que trocavam meus bonecos velhos pelos seus cartuchos de Atari, só porque O Retorno de Jedi estava bombando. Foi um bom negócio do qual não me arrependo até hoje. Ou seja, quem sou eu pra julgar?

Com certeza o problema deve ser comigo. Talvez não ame Star Wars como as pessoas normais. Mesmo sofrendo desse defeito, queria poder assistir ao filme sem me sentir pressionado a tomar partido, só por diversão. Mas isso é impossível, pelo jeito. Parece que nos últimos tempos você não pode ser mais um espectador ocasional. Tem que fazer parte de um grupo ou de outro. Você gosta de Marvel ou DC? Acha que The Last Jedi é fiel à série? Prefere Star Trek ou Star Wars? Jesus, isso é realmente importante? Será que nessa situação o maluco sou eu? Como já disse, quem sou eu pra julgar?

Afinal, eu também sou um pecador e amo algumas obras de ficção, sim; mas, por outro lado, o faço de forma platônica, e sem encher o saco de ninguém. Esse ano me apaixonei por Paterson, um filme que ninguém viu e que, olha só, é estrelado pelo Kylo Ren, mas não tentei catequizar a humanidade. Acho que o máximo que fiz foi postar uma foto no Instagram e um tweet a respeito. Assisto a Bar Esperança do Hugo Carvana e a Separações do Domingos de Oliveira pelo menos uma vez por mês, mas não faço apologia do cinema nacional. Amo belas obras de arte, mas prefiro amar e estar com pessoas. Mas quem sou eu pra julgar?

Quem sou eu pra julgar? Eu te digo: sou uma pessoa como as outras. Uma pessoa que vive julgando os outros. Como todos nós. Portanto, a minha sentença é a seguinte: quando uma obra se torna um fator de ódio, por melhor que ela seja, há algo de errado. Seja com ela ou, muito provavelmente, com as pessoas envolvidas nesse conflito. E por mais que o problema seja com as pessoas, a obra que foi o pomo da discórdia, por mais doce que seja, ganha um sabor amargo.

Meu veredito: não vou conseguir assistir a esse filme até essa poeira baixar. Obrigado por estragarem Star Wars pra mim. Ou, vai ver, o problema é comigo  que não sei mais lidar com cinema, TV e outras mídias com a paixão que a participação em redes sociais demande. Talvez seja eu que esteja estragado pra Star Wars. Deve ser isso. Em suma, quem sou eu pra julgar?

Abaixo os privilégios (alheios)

https://twitter.com/GibaOliva/status/939032208378970112

Parece que a onda da vez é justificar qualquer tipo de loucura como uma forma de acabar com os privilégios. Na Reforma Trabalhista, na Previdenciária, nos campeonatos de futebol e na divulgação de spoilers (ou não) dos últimos lançamentos de cinema nerd, a maior preocupação (declarada) é que todos tenham direitos iguais, ou, pelo menos, mais ou menos equilibrados. Infelizmente sabemos que a banda não toca dessa forma e acaba que os tais privilégios acabam se exaurindo mesmo no lado mais fraco da corda.

Essa sanha pretensamente justiceira de direitos iguais me lembra um costume bem cruel que o meu pai tinha. Meu avô foi coronel e teve, além do meu pai, quatro filhas. Como manda o figurino, todas tinham direito a tal da pensão de filha de militar. Meu pai se enfurecia com isso. Além de achar que tinha sido passado pra trás na herança, porque tinha apenas 5 anos quando ficou órfão, ele se sentia vilipendiado toda vez que lembrava que as minhas tias, todas casadas no religioso e com filhos, podiam visitar mensalmente o banco pra tirar o seu troco por serem filhas “solteiras” de militar. Mesmo que só no civil.

De dois em dois anos, ele se dava conta dessa injustiça, tinha um faniquito e se punha a trabalhar pelo fim dos privilégios. Como não podia fazer muito a respeito, ele pedia pra alguém ligar pras irmãs dele e perguntar se elas estavam vivas:

– Que absurdo! Claro que eu estou viva. Onde já se viu?- elas se indignavam.
– Pois, é, minha senhora- o testa de ferro dele respondia.- Meu nome é tenente sicrano e trabalho no ministério do exército, mais especificamente no setor de pensões. Como as senhoras já estão numa idade beeeem avançada, a gente precisa verificar se ainda estão vivas pra evitar que alguém esteja recolhendo indevidamente a sua pensão.
– Sei, sei. Mas eu estou viva. Pode avisar aí que eu estou viva.
– Quisera eu que fosse tão simples, minha senhora. Quisera eu. Pra comprovar que não morreram, as senhoras vão precisar se apresentar no dia 2 de janeiro às 7 da manhã na vila militar com os seguintes documentos…

E o testa de ferro desfiava uma lista de documentos homérica que ia dar um trabalho enorme pra elas conseguirem arrumar.

Morrendo de medo de perder o seu privilégio, as velhinhas rumavam pra onde eram mandadas com uma pastinha carregada de certidões, carteirinhas e declarações, só pra darem com a cara na porta.

O pior é que, toda vez que ele fazia isso, elas sempre iam pra onde fossem mandadas. Eu questionava como elas ainda podiam acreditar nessa lorota depois de terem caído tantas vezes.

– O medo de perder a boca é maior que a desconfiança. Por maior que a desconfiança seja elas nunca vão querer abrir mão dessa mamata. Vai que é verdade. Vai que- meu pai explicava.

Quando vejo essas lutas pelo fim dos privilégios, por mais justas que sejam, sempre me pergunto o quanto disso não é inveja. Se meu pai, por exemplo, recebesse essa pensão, será que ele abriria mão da mesma pelos seus “valores” e continuaria atormentando as minhas tias? Duvido.

Por isso, acho muito doido que o pessoal fique revoltado quando aqueles com poder decisório (legislativo e executivo), ou com a força da lei (judiciário) ou com o direito legal de portar armas (forças militares) fiquem sempre de fora desses cortes de privilégios. Nada mais natural que se outorguem os direitos que os outros não podem ter.

Claro que isso não justifica o imenso abismo entre eles e nós, mas, não sejamos ingênuos, quem busca o poder o faz pelo bônus e não pelo ônus.

Uma saída? Vejo poucas. Ou você busca o poder pra ter esses privilégios e ficar do outro lado da discussão, ou precisa se acostumar a ser a vítima desse esquete tragicômico chamado sociedade brasileira. Por outro lado, o aperto do lado de cá é tão grande que eles poderiam pelo menos dar um refresco pra gente. Não acha?

Como é impossível acabar com esses privilégios todos, a minha sugestão seria que eles dessem uma pequena aliviada nos deles e nos permitissem um punhado maior das migalhas que sempre nos restaram. Dessa forma a hipocrisia seria mais facilmente generalizada e não um privilégio (olha ele aí de novo) apenas do grupo que se encontra eternamente no poder. Assim, tipo o que rolou no super ciclo.

Afinal, se meu pai tivesse recebido o maldito relógio Patek Philippe do meu avô na sua herança, que ele alegava ter lhe sido roubado, tenho certeza absoluta, ele não seria tão cruel com as pobres privilegiadas das suas irmãs.

Ou será que a nossa única saída continuará a ser, como fazia meu pai, transtornar a vida dos privilegiados até que esse bônus se torne um ônus?

Algo a se pensar. Algo a se pensar.

Epimeteu dirige Uber

Você está num Uber e no meio do túnel velho, o motorista, distraído no celular, quase atropela um mendigo caminhando no meio dos carros. Vocês reclamam. Por que diabos ele está alí? Bêbado? Drogado? Não, o motorista proclama. Ele provavelmente tá fazendo alguma besteira. Tentando evitar ser pego pela polícia que não poderia parar no meio do túnel em alta velocidade. Um bandido. Se for atropelado só vai trazer problema pra uma pessoa de bem. Pra uma pessoa de bem.

Antes que o carro chegue na Voluntários, o assunto, sabe se lá como, vira uma discussão sobre o plebiscito do Desarmamento. O motorista, mesmo sem argumentos, defende que todos devem andar armados. Isso. Você ouviu bem. Ele não disse ter o direito de andar armados, mas que todos tenham armas.

Você tenta argumentar que o ideal… O ideal não interessa, ele corta a sua linha de pensamento. O ideal tá muito longe e nunca vai chegar. Vocifera um pouco mais e continua evocando a sua fantasia de ruína: e se um bandido entrar na sua casa e quiser matar e estuprar a sua mulher, a sua mãe, a sua filha? Quem vai te proteger? Você TEM que ter uma arma. Os bandidos tem. O cidadão TEM que se defender. TEM que se defender.

Em menos de 10 minutos de corrida, você, infelizmente percebe, foi jogado no reino da barbárie.

Você se cala, mas ele continua com suas fantasias de dominação e controle. Você sabe que ele está errado, mas não pode negar as suas razões para pensar o que pensa. A ignorância dos meios e a imoralidade dos fins não desqualificam as motivações. E motivações não nos faltam. A todos nós.

Falta de segurança, de dinheiro, de lisura, de respeito, de educação, de honestidade, de competência, de perspectiva; de amor. É, de amor. E, como a criança carente que não acredita que o amor seja possível, vivemos advogando que apenas o ódio e a violência sejam a solução do mundo. Seja a violência da direita ou da esquerda. Afinal não há nada mais que isso no mundo, certo? Qual a nossa saída se só há ódio e rancor?

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar nos Titãs responsáveis por popular a Terra com homens e animais: Prometeu e Epimeteu.

Enquanto Prometeu, o previdente, de visão longa, pensava com cuidado em como cada criação devia ser, Epimeteu, de visão curta, que só pensa depois de fazer, distribuía com pressa as qualidades entre os animais. Quando chegou a hora de dar qualidade aos homens, Epimeteu já tinha distribuído tudo e Prometeu, frente às negações de Zeus, foi obrigado a roubar o fogo sagrado dos deuses para ofertar a humanidade. Prometeu continuou protegendo a humanidade e por isso acabou aprisionado no topo do monte Cáucaso, tendo seu fígado devorado diariamente por um corvo. Epimeteu também foi punido e nos puniu: desposou Pandora que foi responsável por liberar o mal sobre a humanidade como uma retaliação de Zeus contra os homens, nos deixando apenas a esperança.

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar como vivemos num mundo de Epimeteus.

Não temos visão a longo prazo para pensar nas qualidades que queremos desenvolver no futuro. Olhamos a resolução dos problemas do presente como um fim em si mesmo e não como um passo a mais em direção ao que queremos da nossa vida comunitária. Nos rendemos a paixões inflamadas, guiados pelo desejo e pelo medo, sem temor de libertar todo o mal existente sobre as nossas próprias vidas. Somos obtusos, tolos e, como Epimeteu, por conta de nossas ações nos tornaremos pais de Prophasis, o espírito da desculpa.

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar como seria fácil agirmos como Prometeu.

Ter calma e comedimento em nossos pensamentos, falas e atos. Pensar no que desejamos para o futuro e não apenas no que nos incomoda ou seduz no presente. Encarar os difíceis momentos que vivemos e os aparentemente intransponíveis obstáculos que enfrentamos como parte do caminho para esse mundo melhor e não como pontos finais de nossas histórias. Arriscar e nos sacrificar pelo bem comum, por acreditarmos que o destino da humanidade, o nosso destino, é sermos diligentemente criativos e não simplesmente preguiçosos joguetes dos nossos instintos.

Seria fácil, concordo, mas não o fazemos. Porquê? Pois nos falta visão e paciência para descobrir. Descobrir o que desejamos. Descobrir quem queremos ser.

Ou temos visão curta e  sofremos com a nossa iniciativa atrapalhada, ou somos de visão longa e nos tornamos vítimas do bem que queríamos espalhar pelo mundo. Somos uma contradição. Para sempre Prometeus e Epimeteus. Quem sai aos seus não degenera.

O Uber chega ao seu destino e você se despede. O motorista agradece por te-lo ouvido. Você sorri. Ainda há esperança. Talvez numa próxima oportunidade você possa colocar a sua visão para ele. Talvez numa próxima oportunidade ele possa ouvi-lo. Talvez, numa próxima oportunidade, vocês possam verdadeiramente conversar. A esperança, já sabemos, ainda está lá no fundo da caixa de Pandora. E por pior que as coisas estejam, nós, Prometeus e Epimeteus desse mundo que nós mesmos complicamos, ainda podemos contar com ela.

Só o deboche pode salvar o mundo

Confesso que a nossa situação não é das melhores. Possivelmente seria a pior do mundo, não fosse a existência da Síria e da Venezuela; e por isso Michel Temer deveria agradecer aos seus futuros companheiros de inferno: Nicolás Maduro e Bashar al-Assad. Mas, apesar da corrupção, da crise econômica e da falta de humanidade no nosso país, existe algo no povo brasileiro que nos permite perseverar: o deboche.

Enquanto as instituições metidas a sérias continuam achacando a população, nós tiramos sarro deles. Isso atualmente não nos leva a lugar algum, é verdade, mas retira algo muito caro aos poderosos: o respeito. Eles poderão roubar nosso dinheiro, nossos bens, nossos salários, nossa segurança, nossa saúde, nossas aposentadorias, mas o nosso respeito, nunca terão.

Afinal, respeito não é algo que se pode demandar do outro. Ou você é respeitado ou não é. É um sentimento que depende de rara admiração. E o simples pedido por respeito já é sinal de que você nunca o terá. Então, quando nosso pretenso presidente diz “Se quiserem que eu saia terão que me matar”, ele mesmo não sabe, mas já caiu. Ah, mas ele permanece no poder, você diz. Que poder? Ele é apenas a ressaca de uma gripe que em breve passará. E como os deuses do deboche são poderosos e vingativos no Brasil, ainda veremos Marcela Temer casar com Jonathan Costa , posar nua ou participar de reality show para sobreviver. Antígona perde.

Os Lannisters são sábios

Assim, de meme em meme, de gif em gif, de paródia em paródia, aguardamos pela queda de mais um idiota ganancioso que gastou nossas divisas em quadros do Romero Brito por não ter sensibilidade ou imaginação. Tudo por termos a fervorosa certeza que eventualmente os deuses do deboche irão nos vingar

Brasil, país da piada pronta

O engraçado é que o problema de crescentes corrupção e ignorância não rola só por aqui. Trump, Alt-Right, Orgulho Hétero, Brexit, Putin, Kim Jong-Un são alguns exemplos de como a ganância e o ego empoderam causas e idiotas metidos a sérios colocando toda a humanidade em risco. O pior é que, apesar de identificar o problema, o resto do mundo não parece ter a nossa habilidade para lidar com isso adequadamente. Pra mim, está claro que o que o mundo  mais precisa no momento é de mais deboche.

Por isso não me espanta ver o deboche nacional sendo exportado através dos constrangedutos profetizados pelo Ricardo Coimbra. Exemplos? Carreta Furacão servindo de acompanhamento para qualquer música; Nazaré confusa com o debate presidencial americano; Perez Hilton vendendo camisas da Cuca; Katy Perry percebendo a efemeridade da sua fama e da sua juventude representada pela Gretchen no seu novo vídeo clipe.

Gretchen participando do momento de autocrítica do pop internacional

Todo esse deboche, aparentemente inócuo, na verdade pode ser uma arma muito poderosa contra a falta de noção. Sério. Se pudermos debochar dos poderosos e uns dos outros com firmeza e sinceridade eventualmente atingiremos o objetivo final do escracho: o momento mágico em que o deboche se transforma em autocrítica. E, cá entre nós, o que o nosso mundo polarizado e idiotizado mais precisa é disso.

Por isso, vamos meter bronca no deboche. Fan fiction com políticos desonestos, paródias com celebridades imbecis, gifs contra causas preconceituosas e racistas, e sites de fake news sobre os hábitos secretos de empresários corruptos; sem esquecer de zoar nós mesmos, os néscios que empoderaram esses beócios. Vamos nos unir, afiar nossas línguas e gerar uma tsunami de deboche que enfim lavará as nossas terras com a balsâmica autocrítica. E rezar para que essa onda maneira venha antes de 2018, senão corre o risco de um certo imbecil transformar o deboche em crime. Você sabe de quem estou falando, né? Do cara que faz flexão com a cabeça.

Taí alguém que tá precisando de muuuuuita autocrítica

O chato do marido da melhor amiga da minha mulher

Ao contrário do que acontece entre as mulheres de melhores amigos, os consortes, namorados ou maridos de melhores amigas precisam ter uma relação maior do que simples civilidade. É preciso encontrar pontos em comum, simpatias e identificações que permitam um mínimo de amizade. Afinal, ao contrário do que acontece com as mulheres de melhores amigos, seremos obrigados a passar muito tempo juntos enquanto elas entram em lojas, vão ao banheiro, discutem quintas pessoas ignorando as nossas presenças ou simplesmente impõe a nossa participação de metade de casal em eventos sem nos consultar. Se vamos passar tanto tempo sozinhos, mesmo que acompanhados, com outra pessoa é melhor que ele seja pelo menos um pouco nosso amigo.

Com a gente foi assim. Quando nos conhecemos foi, óbvio, constrangedor. Fomos apresentados como crianças que precisam se tornar amigas por laços que nos transcendem:

– Olha, fulaninho, esse é o sicraninho. Vocês vão ser melhores amigos daqui por diante, tá?
– Tá- nós respondemos sem opção.

Ao pouco começamos a buscar onde escorar a nossa relação. Graças a Deus você gostava de quadrinhos, mesmo que não dos mesmos que eu, e a minha biblioteca permitia conversas movidas pelo que não sabíamos um do outro.

– Uau, você curte Conan?!
– Já gostei mais. Hoje em dia acho os livros melhores do que os quadrinhos.
– Eu gosto pacas de 007. Já vi todos. Várias vezes. Você gosta?
– Não vi todos, mas gosto bastante da fase do Roger Moore.
– E o Daniel Craig? Tá perfeito, né?
– Concordo que seja o mais fiel ao livros, mas 007 pra mim é um lance anacrônico. Por isso a fase galhofa do Roger Moore é a minha preferida.
– Deixa de ser chato.
– Sério. Um dia vou escrever um artigo sobre isso.
– Quando escrever me manda pra eu ler.
– Beleza.

E assim, como meninos discutindo seus heróis e quadrinhos fomos formando nossa relação. Quando nossas mulheres se encontravam, era quase um play date para nós. Separávamos jogos de tabuleiro, filmes e livros para ofertar um ao outro e estreitar os nossos laços.

– Pô, já leu essa história do Fantasma?
– Eu gostava da época do Lee Falk.
– Deixa de ser chato. Essa parada é nova mas é bem legal. Lê. Leva.
– Sei lá.
– Leva.
– Tá, mas não quer levar o livro do Conan?
– OK. OK. A gente troca, então. Beleza.
– Beleza.

Entre empréstimos e comentários do que nos ofertávamos, a nossa relação foi sendo construída. Aos poucos não só nos tornamos colegas, mas tábuas de salvação nos protegendo mutuamente em situações sociais das quais não queríamos tomar parte.

– Sábado vai ter o aniversário da Fulana – nossas mulheres diriam.
– O marido da Sicrana vai? – perguntaríamos um do outro.
– Vai, por que?
– Nada, só pra saber. Se ele for vai ser menos chato.

Aos poucos, por nos ajudarmos a sobreviver a ambientes sociais que eram particularmente desconfortáveis para nós, o coleguismo se tornou amizade e todo o resquício de embaraço inicial tinha sumido na nossa relação. Inclusive, começamos a prometer nos encontrar separadamente, o que nunca cumprimos, e a estimular a amizade de nossas mulheres só pra podermos nos ver.

– Tem mó tempo que você não vê a Fulana.
– Pois, é.
– Chama ela aqui na sexta pra tomar um cerveja e comer um chili.
– Tem certeza?
– Tenho. Vê se o chato do marido dela pode vir, tá?
– Tá.

Ou pior, começamos a inventar motivos idiotas pra nos ver.

– Pô, não tô conseguindo instalar essa porra na Smart TV.
– Olha no manual como faz.
– Não, acho melhor chamar o chato do Sicrano aqui. Ele entende dessas porras.
– Tem certeza?
– Claro, chama eles aí e a gente toma uma cerveja também.
– OOOOK.

Enfim tudo se tornou natural e nos tornamos mais do que uma simples extensão da amizade de nossas mulheres. Mesmo nos chateando, nos tornamos amigos.

Um dia você ficou doente.

Não levamos a sério. Você ia superar isso. Imagina só, logo você ia deixar se abater? Não deixou e depois de um tratamento complicado especialmente pela sua crença na imortalidade que lhe impedia de ter um plano de saúde, tudo voltou ao normal.

A doença se tornou mais um assunto que passamos juntos mas tinha sido, graças a Deus, superado. Foi mais um lance que mostrou o quanto estávamos aí um para o outro. Chatos, porém amigos.

Mas essa doença é safada e acabou voltando. Dessa vez pior, mais rápida e mais destruidora. Mal ficamos sabendo da volta, você, com suas razões, se isolou. E nós tolamente, a princípio, respeitamos esse tempo. Em poucos meses, ficamos sabendo que a situação tinha piorado.

Quando você começou o segundo tratamento, quebramos o protocolo e fomos visitá-lo. Você estava mal; fraco; cansado. A esperança que tivera no primeiro tratamento, apesar de novamente declarada, parecia um discurso velho e gasto. Ao contrário da primeira vez, em que a vida continuava apesar de tudo, dessa vez tudo parara em nome da doença. Por mais que torcêssemos, não parecia que havia chance de ganhar. Quando o tratamento chegou ao fim, as notícias não foram boas. A sua saúde tinha piorado.

Fomos te visitar novamente. Quase não conversávamos mais das coisas que nos tornaram próximos. A vista lhe faltava, a cabeça doía, e não tínhamos como conversar entre chopes sobre as coisas das quais gostávamos. A doença , como uma convidada indesejada, entrara na sala e pedia toda a nossa atenção. A nós só restava nos calar e ficar lado a lado tentando ignorar o que gritava na nossa frente.

Sem saber como fazer o meu papel de amigo numa situação como essa, enfim cumpri a minha promessa, escrevi o artigo sobre o 007 que tanto tinha prometido e lhe enviei. Você, ao contrário do que eu esperava, leu e tinha uma opinião a respeito:

– Entendi o que você quer dizer com anacrônico, mas, porra, você é chato pra caralho. Não dá pra deixar as pessoas curtirem as coisas sem dar uma opinião? Pô, deixa de ser chato.

Ainda havia muito de você por baixo de toda a doença que o cercava.

Nessa época, você deu uma pequena melhorada e surgiu a esperança de um novo tratamento. Dessa vez a gente tinha certeza que as coisas iam dar uma virada. Você, mesmo fraco como estava, ia conseguir se recompor, dar a volta por cima e deixar essa história pra trás como da última vez.

Infelizmente, o tratamento não deu resultado. Nem você, nem nossas mulheres, nem eu sabíamos o que fazer ou dizer. Por isso simplesmente ficávamos lá, esperando. Esperando um milagre, o fim, uma virada para uma situação que se era quase insustentável pra nós, imagina como era pra você.

Essa semana você foi internado. Não conseguia mais comer e ficou dias sem se alimentar direito. Talvez dessa vez você conseguiria ganhar um peso e, mais fortalecido, começar um caminho à recuperação. Mas não deu tempo nem de ter esperanças. Ontem você resolveu ir embora.

Me faltam palavras no momento. Por isso escrevi tantas. Não entendo desígnios divinos e tenho grande dificuldade em botar tudo na conta de uma cruel aleatoriedade sem rosto. Não sei se foi bom ou se foi ruim; se você deveria ter lutado mais ou menos; se foi melhor descansar; ou se devo me sentir culpado por ter feito menos do que poderia fazer. Simplesmente foi. E contra isso não existem argumentos. Perdi um amigo.

Sem saber o que sentir ou dizer, sou obrigado a retribuir o que você vivia dizendo pra mim:

– Porra, cara, deixa de ser chato.

Infelizmente é tarde demais pra isso e minhas palavras ecoam nas paredes surdas. Mas confesso que quase consigo ouvir você respondendo:

– Olha quem fala? O cara mais chato do mundo.

Edson, foi um prazer te chatear. Boa viagem.