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Abaixo os privilégios (alheios)

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Parece que a onda da vez é justificar qualquer tipo de loucura como uma forma de acabar com os privilégios. Na Reforma Trabalhista, na Previdenciária, nos campeonatos de futebol e na divulgação de spoilers (ou não) dos últimos lançamentos de cinema nerd, a maior preocupação (declarada) é que todos tenham direitos iguais, ou, pelo menos, mais ou menos equilibrados. Infelizmente sabemos que a banda não toca dessa forma e acaba que os tais privilégios acabam se exaurindo mesmo no lado mais fraco da corda.

Essa sanha pretensamente justiceira de direitos iguais me lembra um costume bem cruel que o meu pai tinha. Meu avô foi coronel e teve, além do meu pai, quatro filhas. Como manda o figurino, todas tinham direito a tal da pensão de filha de militar. Meu pai se enfurecia com isso. Além de achar que tinha sido passado pra trás na herança, porque tinha apenas 5 anos quando ficou órfão, ele se sentia vilipendiado toda vez que lembrava que as minhas tias, todas casadas no religioso e com filhos, podiam visitar mensalmente o banco pra tirar o seu troco por serem filhas “solteiras” de militar. Mesmo que só no civil.

De dois em dois anos, ele se dava conta dessa injustiça, tinha um faniquito e se punha a trabalhar pelo fim dos privilégios. Como não podia fazer muito a respeito, ele pedia pra alguém ligar pras irmãs dele e perguntar se elas estavam vivas:

– Que absurdo! Claro que eu estou viva. Onde já se viu?- elas se indignavam.
– Pois, é, minha senhora- o testa de ferro dele respondia.- Meu nome é tenente sicrano e trabalho no ministério do exército, mais especificamente no setor de pensões. Como as senhoras já estão numa idade beeeem avançada, a gente precisa verificar se ainda estão vivas pra evitar que alguém esteja recolhendo indevidamente a sua pensão.
– Sei, sei. Mas eu estou viva. Pode avisar aí que eu estou viva.
– Quisera eu que fosse tão simples, minha senhora. Quisera eu. Pra comprovar que não morreram, as senhoras vão precisar se apresentar no dia 2 de janeiro às 7 da manhã na vila militar com os seguintes documentos…

E o testa de ferro desfiava uma lista de documentos homérica que ia dar um trabalho enorme pra elas conseguirem arrumar.

Morrendo de medo de perder o seu privilégio, as velhinhas rumavam pra onde eram mandadas com uma pastinha carregada de certidões, carteirinhas e declarações, só pra darem com a cara na porta.

O pior é que, toda vez que ele fazia isso, elas sempre iam pra onde fossem mandadas. Eu questionava como elas ainda podiam acreditar nessa lorota depois de terem caído tantas vezes.

– O medo de perder a boca é maior que a desconfiança. Por maior que a desconfiança seja elas nunca vão querer abrir mão dessa mamata. Vai que é verdade. Vai que- meu pai explicava.

Quando vejo essas lutas pelo fim dos privilégios, por mais justas que sejam, sempre me pergunto o quanto disso não é inveja. Se meu pai, por exemplo, recebesse essa pensão, será que ele abriria mão da mesma pelos seus “valores” e continuaria atormentando as minhas tias? Duvido.

Por isso, acho muito doido que o pessoal fique revoltado quando aqueles com poder decisório (legislativo e executivo), ou com a força da lei (judiciário) ou com o direito legal de portar armas (forças militares) fiquem sempre de fora desses cortes de privilégios. Nada mais natural que se outorguem os direitos que os outros não podem ter.

Claro que isso não justifica o imenso abismo entre eles e nós, mas, não sejamos ingênuos, quem busca o poder o faz pelo bônus e não pelo ônus.

Uma saída? Vejo poucas. Ou você busca o poder pra ter esses privilégios e ficar do outro lado da discussão, ou precisa se acostumar a ser a vítima desse esquete tragicômico chamado sociedade brasileira. Por outro lado, o aperto do lado de cá é tão grande que eles poderiam pelo menos dar um refresco pra gente. Não acha?

Como é impossível acabar com esses privilégios todos, a minha sugestão seria que eles dessem uma pequena aliviada nos deles e nos permitissem um punhado maior das migalhas que sempre nos restaram. Dessa forma a hipocrisia seria mais facilmente generalizada e não um privilégio (olha ele aí de novo) apenas do grupo que se encontra eternamente no poder. Assim, tipo o que rolou no super ciclo.

Afinal, se meu pai tivesse recebido o maldito relógio Patek Philippe do meu avô na sua herança, que ele alegava ter lhe sido roubado, tenho certeza absoluta, ele não seria tão cruel com as pobres privilegiadas das suas irmãs.

Ou será que a nossa única saída continuará a ser, como fazia meu pai, transtornar a vida dos privilegiados até que esse bônus se torne um ônus?

Algo a se pensar. Algo a se pensar.

Epimeteu dirige Uber

Você está num Uber e no meio do túnel velho, o motorista, distraído no celular, quase atropela um mendigo caminhando no meio dos carros. Vocês reclamam. Por que diabos ele está alí? Bêbado? Drogado? Não, o motorista proclama. Ele provavelmente tá fazendo alguma besteira. Tentando evitar ser pego pela polícia que não poderia parar no meio do túnel em alta velocidade. Um bandido. Se for atropelado só vai trazer problema pra uma pessoa de bem. Pra uma pessoa de bem.

Antes que o carro chegue na Voluntários, o assunto, sabe se lá como, vira uma discussão sobre o plebiscito do Desarmamento. O motorista, mesmo sem argumentos, defende que todos devem andar armados. Isso. Você ouviu bem. Ele não disse ter o direito de andar armados, mas que todos tenham armas.

Você tenta argumentar que o ideal… O ideal não interessa, ele corta a sua linha de pensamento. O ideal tá muito longe e nunca vai chegar. Vocifera um pouco mais e continua evocando a sua fantasia de ruína: e se um bandido entrar na sua casa e quiser matar e estuprar a sua mulher, a sua mãe, a sua filha? Quem vai te proteger? Você TEM que ter uma arma. Os bandidos tem. O cidadão TEM que se defender. TEM que se defender.

Em menos de 10 minutos de corrida, você, infelizmente percebe, foi jogado no reino da barbárie.

Você se cala, mas ele continua com suas fantasias de dominação e controle. Você sabe que ele está errado, mas não pode negar as suas razões para pensar o que pensa. A ignorância dos meios e a imoralidade dos fins não desqualificam as motivações. E motivações não nos faltam. A todos nós.

Falta de segurança, de dinheiro, de lisura, de respeito, de educação, de honestidade, de competência, de perspectiva; de amor. É, de amor. E, como a criança carente que não acredita que o amor seja possível, vivemos advogando que apenas o ódio e a violência sejam a solução do mundo. Seja a violência da direita ou da esquerda. Afinal não há nada mais que isso no mundo, certo? Qual a nossa saída se só há ódio e rancor?

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar nos Titãs responsáveis por popular a Terra com homens e animais: Prometeu e Epimeteu.

Enquanto Prometeu, o previdente, de visão longa, pensava com cuidado em como cada criação devia ser, Epimeteu, de visão curta, que só pensa depois de fazer, distribuía com pressa as qualidades entre os animais. Quando chegou a hora de dar qualidade aos homens, Epimeteu já tinha distribuído tudo e Prometeu, frente às negações de Zeus, foi obrigado a roubar o fogo sagrado dos deuses para ofertar a humanidade. Prometeu continuou protegendo a humanidade e por isso acabou aprisionado no topo do monte Cáucaso, tendo seu fígado devorado diariamente por um corvo. Epimeteu também foi punido e nos puniu: desposou Pandora que foi responsável por liberar o mal sobre a humanidade como uma retaliação de Zeus contra os homens, nos deixando apenas a esperança.

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar como vivemos num mundo de Epimeteus.

Não temos visão a longo prazo para pensar nas qualidades que queremos desenvolver no futuro. Olhamos a resolução dos problemas do presente como um fim em si mesmo e não como um passo a mais em direção ao que queremos da nossa vida comunitária. Nos rendemos a paixões inflamadas, guiados pelo desejo e pelo medo, sem temor de libertar todo o mal existente sobre as nossas próprias vidas. Somos obtusos, tolos e, como Epimeteu, por conta de nossas ações nos tornaremos pais de Prophasis, o espírito da desculpa.

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar como seria fácil agirmos como Prometeu.

Ter calma e comedimento em nossos pensamentos, falas e atos. Pensar no que desejamos para o futuro e não apenas no que nos incomoda ou seduz no presente. Encarar os difíceis momentos que vivemos e os aparentemente intransponíveis obstáculos que enfrentamos como parte do caminho para esse mundo melhor e não como pontos finais de nossas histórias. Arriscar e nos sacrificar pelo bem comum, por acreditarmos que o destino da humanidade, o nosso destino, é sermos diligentemente criativos e não simplesmente preguiçosos joguetes dos nossos instintos.

Seria fácil, concordo, mas não o fazemos. Porquê? Pois nos falta visão e paciência para descobrir. Descobrir o que desejamos. Descobrir quem queremos ser.

Ou temos visão curta e  sofremos com a nossa iniciativa atrapalhada, ou somos de visão longa e nos tornamos vítimas do bem que queríamos espalhar pelo mundo. Somos uma contradição. Para sempre Prometeus e Epimeteus. Quem sai aos seus não degenera.

O Uber chega ao seu destino e você se despede. O motorista agradece por te-lo ouvido. Você sorri. Ainda há esperança. Talvez numa próxima oportunidade você possa colocar a sua visão para ele. Talvez numa próxima oportunidade ele possa ouvi-lo. Talvez, numa próxima oportunidade, vocês possam verdadeiramente conversar. A esperança, já sabemos, ainda está lá no fundo da caixa de Pandora. E por pior que as coisas estejam, nós, Prometeus e Epimeteus desse mundo que nós mesmos complicamos, ainda podemos contar com ela.

Só o deboche pode salvar o mundo

Confesso que a nossa situação não é das melhores. Possivelmente seria a pior do mundo, não fosse a existência da Síria e da Venezuela; e por isso Michel Temer deveria agradecer aos seus futuros companheiros de inferno: Nicolás Maduro e Bashar al-Assad. Mas, apesar da corrupção, da crise econômica e da falta de humanidade no nosso país, existe algo no povo brasileiro que nos permite perseverar: o deboche.

Enquanto as instituições metidas a sérias continuam achacando a população, nós tiramos sarro deles. Isso atualmente não nos leva a lugar algum, é verdade, mas retira algo muito caro aos poderosos: o respeito. Eles poderão roubar nosso dinheiro, nossos bens, nossos salários, nossa segurança, nossa saúde, nossas aposentadorias, mas o nosso respeito, nunca terão.

Afinal, respeito não é algo que se pode demandar do outro. Ou você é respeitado ou não é. É um sentimento que depende de rara admiração. E o simples pedido por respeito já é sinal de que você nunca o terá. Então, quando nosso pretenso presidente diz “Se quiserem que eu saia terão que me matar”, ele mesmo não sabe, mas já caiu. Ah, mas ele permanece no poder, você diz. Que poder? Ele é apenas a ressaca de uma gripe que em breve passará. E como os deuses do deboche são poderosos e vingativos no Brasil, ainda veremos Marcela Temer casar com Jonathan Costa , posar nua ou participar de reality show para sobreviver. Antígona perde.

Os Lannisters são sábios

Assim, de meme em meme, de gif em gif, de paródia em paródia, aguardamos pela queda de mais um idiota ganancioso que gastou nossas divisas em quadros do Romero Brito por não ter sensibilidade ou imaginação. Tudo por termos a fervorosa certeza que eventualmente os deuses do deboche irão nos vingar

Brasil, país da piada pronta

O engraçado é que o problema de crescentes corrupção e ignorância não rola só por aqui. Trump, Alt-Right, Orgulho Hétero, Brexit, Putin, Kim Jong-Un são alguns exemplos de como a ganância e o ego empoderam causas e idiotas metidos a sérios colocando toda a humanidade em risco. O pior é que, apesar de identificar o problema, o resto do mundo não parece ter a nossa habilidade para lidar com isso adequadamente. Pra mim, está claro que o que o mundo  mais precisa no momento é de mais deboche.

Por isso não me espanta ver o deboche nacional sendo exportado através dos constrangedutos profetizados pelo Ricardo Coimbra. Exemplos? Carreta Furacão servindo de acompanhamento para qualquer música; Nazaré confusa com o debate presidencial americano; Perez Hilton vendendo camisas da Cuca; Katy Perry percebendo a efemeridade da sua fama e da sua juventude representada pela Gretchen no seu novo vídeo clipe.

Gretchen participando do momento de autocrítica do pop internacional

Todo esse deboche, aparentemente inócuo, na verdade pode ser uma arma muito poderosa contra a falta de noção. Sério. Se pudermos debochar dos poderosos e uns dos outros com firmeza e sinceridade eventualmente atingiremos o objetivo final do escracho: o momento mágico em que o deboche se transforma em autocrítica. E, cá entre nós, o que o nosso mundo polarizado e idiotizado mais precisa é disso.

Por isso, vamos meter bronca no deboche. Fan fiction com políticos desonestos, paródias com celebridades imbecis, gifs contra causas preconceituosas e racistas, e sites de fake news sobre os hábitos secretos de empresários corruptos; sem esquecer de zoar nós mesmos, os néscios que empoderaram esses beócios. Vamos nos unir, afiar nossas línguas e gerar uma tsunami de deboche que enfim lavará as nossas terras com a balsâmica autocrítica. E rezar para que essa onda maneira venha antes de 2018, senão corre o risco de um certo imbecil transformar o deboche em crime. Você sabe de quem estou falando, né? Do cara que faz flexão com a cabeça.

Taí alguém que tá precisando de muuuuuita autocrítica

O chato do marido da melhor amiga da minha mulher

Ao contrário do que acontece entre as mulheres de melhores amigos, os consortes, namorados ou maridos de melhores amigas precisam ter uma relação maior do que simples civilidade. É preciso encontrar pontos em comum, simpatias e identificações que permitam um mínimo de amizade. Afinal, ao contrário do que acontece com as mulheres de melhores amigos, seremos obrigados a passar muito tempo juntos enquanto elas entram em lojas, vão ao banheiro, discutem quintas pessoas ignorando as nossas presenças ou simplesmente impõe a nossa participação de metade de casal em eventos sem nos consultar. Se vamos passar tanto tempo sozinhos, mesmo que acompanhados, com outra pessoa é melhor que ele seja pelo menos um pouco nosso amigo.

Com a gente foi assim. Quando nos conhecemos foi, óbvio, constrangedor. Fomos apresentados como crianças que precisam se tornar amigas por laços que nos transcendem:

– Olha, fulaninho, esse é o sicraninho. Vocês vão ser melhores amigos daqui por diante, tá?
– Tá- nós respondemos sem opção.

Ao pouco começamos a buscar onde escorar a nossa relação. Graças a Deus você gostava de quadrinhos, mesmo que não dos mesmos que eu, e a minha biblioteca permitia conversas movidas pelo que não sabíamos um do outro.

– Uau, você curte Conan?!
– Já gostei mais. Hoje em dia acho os livros melhores do que os quadrinhos.
– Eu gosto pacas de 007. Já vi todos. Várias vezes. Você gosta?
– Não vi todos, mas gosto bastante da fase do Roger Moore.
– E o Daniel Craig? Tá perfeito, né?
– Concordo que seja o mais fiel ao livros, mas 007 pra mim é um lance anacrônico. Por isso a fase galhofa do Roger Moore é a minha preferida.
– Deixa de ser chato.
– Sério. Um dia vou escrever um artigo sobre isso.
– Quando escrever me manda pra eu ler.
– Beleza.

E assim, como meninos discutindo seus heróis e quadrinhos fomos formando nossa relação. Quando nossas mulheres se encontravam, era quase um play date para nós. Separávamos jogos de tabuleiro, filmes e livros para ofertar um ao outro e estreitar os nossos laços.

– Pô, já leu essa história do Fantasma?
– Eu gostava da época do Lee Falk.
– Deixa de ser chato. Essa parada é nova mas é bem legal. Lê. Leva.
– Sei lá.
– Leva.
– Tá, mas não quer levar o livro do Conan?
– OK. OK. A gente troca, então. Beleza.
– Beleza.

Entre empréstimos e comentários do que nos ofertávamos, a nossa relação foi sendo construída. Aos poucos não só nos tornamos colegas, mas tábuas de salvação nos protegendo mutuamente em situações sociais das quais não queríamos tomar parte.

– Sábado vai ter o aniversário da Fulana – nossas mulheres diriam.
– O marido da Sicrana vai? – perguntaríamos um do outro.
– Vai, por que?
– Nada, só pra saber. Se ele for vai ser menos chato.

Aos poucos, por nos ajudarmos a sobreviver a ambientes sociais que eram particularmente desconfortáveis para nós, o coleguismo se tornou amizade e todo o resquício de embaraço inicial tinha sumido na nossa relação. Inclusive, começamos a prometer nos encontrar separadamente, o que nunca cumprimos, e a estimular a amizade de nossas mulheres só pra podermos nos ver.

– Tem mó tempo que você não vê a Fulana.
– Pois, é.
– Chama ela aqui na sexta pra tomar um cerveja e comer um chili.
– Tem certeza?
– Tenho. Vê se o chato do marido dela pode vir, tá?
– Tá.

Ou pior, começamos a inventar motivos idiotas pra nos ver.

– Pô, não tô conseguindo instalar essa porra na Smart TV.
– Olha no manual como faz.
– Não, acho melhor chamar o chato do Sicrano aqui. Ele entende dessas porras.
– Tem certeza?
– Claro, chama eles aí e a gente toma uma cerveja também.
– OOOOK.

Enfim tudo se tornou natural e nos tornamos mais do que uma simples extensão da amizade de nossas mulheres. Mesmo nos chateando, nos tornamos amigos.

Um dia você ficou doente.

Não levamos a sério. Você ia superar isso. Imagina só, logo você ia deixar se abater? Não deixou e depois de um tratamento complicado especialmente pela sua crença na imortalidade que lhe impedia de ter um plano de saúde, tudo voltou ao normal.

A doença se tornou mais um assunto que passamos juntos mas tinha sido, graças a Deus, superado. Foi mais um lance que mostrou o quanto estávamos aí um para o outro. Chatos, porém amigos.

Mas essa doença é safada e acabou voltando. Dessa vez pior, mais rápida e mais destruidora. Mal ficamos sabendo da volta, você, com suas razões, se isolou. E nós tolamente, a princípio, respeitamos esse tempo. Em poucos meses, ficamos sabendo que a situação tinha piorado.

Quando você começou o segundo tratamento, quebramos o protocolo e fomos visitá-lo. Você estava mal; fraco; cansado. A esperança que tivera no primeiro tratamento, apesar de novamente declarada, parecia um discurso velho e gasto. Ao contrário da primeira vez, em que a vida continuava apesar de tudo, dessa vez tudo parara em nome da doença. Por mais que torcêssemos, não parecia que havia chance de ganhar. Quando o tratamento chegou ao fim, as notícias não foram boas. A sua saúde tinha piorado.

Fomos te visitar novamente. Quase não conversávamos mais das coisas que nos tornaram próximos. A vista lhe faltava, a cabeça doía, e não tínhamos como conversar entre chopes sobre as coisas das quais gostávamos. A doença , como uma convidada indesejada, entrara na sala e pedia toda a nossa atenção. A nós só restava nos calar e ficar lado a lado tentando ignorar o que gritava na nossa frente.

Sem saber como fazer o meu papel de amigo numa situação como essa, enfim cumpri a minha promessa, escrevi o artigo sobre o 007 que tanto tinha prometido e lhe enviei. Você, ao contrário do que eu esperava, leu e tinha uma opinião a respeito:

– Entendi o que você quer dizer com anacrônico, mas, porra, você é chato pra caralho. Não dá pra deixar as pessoas curtirem as coisas sem dar uma opinião? Pô, deixa de ser chato.

Ainda havia muito de você por baixo de toda a doença que o cercava.

Nessa época, você deu uma pequena melhorada e surgiu a esperança de um novo tratamento. Dessa vez a gente tinha certeza que as coisas iam dar uma virada. Você, mesmo fraco como estava, ia conseguir se recompor, dar a volta por cima e deixar essa história pra trás como da última vez.

Infelizmente, o tratamento não deu resultado. Nem você, nem nossas mulheres, nem eu sabíamos o que fazer ou dizer. Por isso simplesmente ficávamos lá, esperando. Esperando um milagre, o fim, uma virada para uma situação que se era quase insustentável pra nós, imagina como era pra você.

Essa semana você foi internado. Não conseguia mais comer e ficou dias sem se alimentar direito. Talvez dessa vez você conseguiria ganhar um peso e, mais fortalecido, começar um caminho à recuperação. Mas não deu tempo nem de ter esperanças. Ontem você resolveu ir embora.

Me faltam palavras no momento. Por isso escrevi tantas. Não entendo desígnios divinos e tenho grande dificuldade em botar tudo na conta de uma cruel aleatoriedade sem rosto. Não sei se foi bom ou se foi ruim; se você deveria ter lutado mais ou menos; se foi melhor descansar; ou se devo me sentir culpado por ter feito menos do que poderia fazer. Simplesmente foi. E contra isso não existem argumentos. Perdi um amigo.

Sem saber o que sentir ou dizer, sou obrigado a retribuir o que você vivia dizendo pra mim:

– Porra, cara, deixa de ser chato.

Infelizmente é tarde demais pra isso e minhas palavras ecoam nas paredes surdas. Mas confesso que quase consigo ouvir você respondendo:

– Olha quem fala? O cara mais chato do mundo.

Edson, foi um prazer te chatear. Boa viagem.

Lidando com a Maré

Hoje parecia até um dia daqueles. Sabe? Um daqueles dias que a gente nem ousa falar o nome. Um dia de (bate na madeira) falta daquilo ou excesso daquilo outro. Entendeu, né? Um dia que a gente preferia esquecer. Fila, falta de dinheiro, confusão, congestionamento; negócios não fechados, promessas não cumpridas; chuva quando estamos na rua, e estiagem assim que botamos o pé dentro de casa. Um dia daqueles, deu pra sentir?

Na verdade acho que não tem sido um dia daqueles; tem sido um ano, ou melhor, uns anos daqueles. As coisas pioram; aceitamos um montão de abusos para que elas melhorem; melhoram, mas parece pouco; logo depois, piora de um jeito que a gente nem imaginava que ia piorar; uma constante espera por sermos surpreendidos negativamente. Uma lista de tristezas pontuada por esperanças perdidas e promessas frustradas. Um ano, ou melhor, uma década pra esquecer.

Mas a gente não esquece; a gente fica com raiva. A frustração é o prólogo da ira. Queremos fazer algo, brigamos com os outros, prometemos nos revoltar, mas, no fim das contas, jogamos toda essa agressividade não dirigida pra nós mesmos e ficamos cada vez mais deprimidos.

Um círculo vicioso que mina as nossas forças e nos deixa com cada vez menos energia para lutar pelo pouco que os tempos atuais nos permitem conseguir.

Quando tenho um desses dias, sempre me lembro do Praião de Barra de São João. Seu nome remete tanto à sua extensão como ao tamanho do seu mar. Um mar agitado de ondas altas que quebram quase em cima da areia e não serve direito nem pro banho nem pros surfistas. É uma daquelas praias varridas por um vento constante, onde as famílias se escondem nos quiosques para tomar cerveja e acompanhar os poucos corajosos que arriscam entrar no seu mar.

Meu amigo Ronald é um desses corajosos. E, graças a ele, eu me tornei um desses também.

Numa das primeiras vezes em que fui ao Praião, ele se levantou para entrar no mar e me chamou.

– Tá falando sério? – foi o que consegui responder.
– Tô. Pode vir. Vou te ensinar a entrar nesse mar.

Ficamos parados na beira, e ele me explicou:

– Um mar desse tamanho tem que ser respeitado. Não temido. É preciso saber entrar, aceitar os seus movimentos e sair. Tudo tem a ver com a economia de energia. Se fizer força e resistir no momento errado, vai ficar fraco pra quando aparecer a oportunidade de sair e o mar vai te levar. Se for afoito demais, vai ajudar o mar a te levar embora e nunca mais vai voltar. É preciso aceitar a maré. Ela não é boa, nem má. Ela apenas se move e vai te levar pro lugar que você deve ir se não lutar com ela.

“O mar vem e vai. Quando ele te puxar, deixa ele fazer a força e relaxe. Se ficar tranquilo, daqui a pouco estará no mesmo lugar onde entrou. Quando ele te empurrar pra praia, ajude ele e acompanhe seu movimento, que ele te ajudará a sair.

“É só saber a hora de descansar e a hora de nadar que você vai ficar bem. Vamos entrar?”

Entramos.

Confesso que, nas primeiras ondas, achei que fosse me afogar. A maré vinha e ia tão rapidamente que parecia tragado por um redemoinho. Via uma onda e com medo mergulhava sem saber onde ela ia me levar, resistindo e nadando sem saber se ia pra frente ou pra trás. Ronald, tranquilo, tentava me orientar:

– Deixa ela te levar. Deixa ela te levar.

Respirei fundo e segui sua orientação. Larguei o corpo sobre a água e comecei a boiar. O mar me carregava de um lado pro outro, a princípio atabalhoadamente, até que, como um par de dançarinos, encontramos o nosso ritmo. Em pouco tempo, sem ansiedade ou medo, tinha passado a arrebentação.

As pessoas que estavam na areia olhavam preocupadas como se fosse o último momento em que nos veriam vivos, mas, onde estávamos, parecíamos estar sentados num muro vendo a vida do lugar mais seguro do mundo.

– Pronto pra voltar? – Ronald perguntou.
– Sim, sim.
– Vamos aproveitar aquela onda grande vindo depois dessa.

Deixamos a primeira onda passar nos carregando primeiro pra frente, depois para trás. Quando fomos deixados em frente a onda grande, Ronald gritou:

– Nada. Nada!

E nadei. A onda nos empurrou e apenas seguimos o movimento dela. A onda nos levou pra antes da arrebentação e com apenas um pouco de esforço, chegamos na areia e saímos do mar. Estávamos vivos. Estávamos salvos. Soubemos respeitar o mar.

Quando sinto que não há saída e o mar de prognósticos negativos e tristezas vão nos afogar, eu lembro do Praião. Lembro que há a hora de deixar a água te levar e economizar energia. Lembro que é importante sentir os momentos propícios para se mover ou para ficar parado. Lembro que uma hora virá a onda certa para nos levar ao lugar seguro, ao lado de nossos amigos e familiares, e que, nessa hora, é preciso ter força para nadar. Lembro que precisamos respeitar os ritmos e não temê-los. Lembro que precisamos lidar com os ritmos e não tentar dominá-los.

Sim, quando vivo uma situação dessas, eu penso no Praião. Especialmente agora, depois de tudo o que estamos passando, eu penso no Praião. Por isso, eu sei e quero que vocês saibam que estaremos vivos e estaremos a salvo se respeitarmos as marés e as águas agitadas onde estamos. Desde que não tenhamos medo, nem sejamos afoitos, esse mar de loucura, medo, maldade e incompreensão não irá nos afogar. Se soubermos lidar com ele, agir na hora certa e não comprar brigas na hora errada, estaremos bem. Estaremos salvos. Estaremos vivos.

Afinal, não há dias bons, nem ruins; não há dias daqueles, nem desses; há apenas dias e o que fazemos deles. E na minha opinião, acho que a onda que irá nos levar à praia não tarda a chegar. Por isso, vamos guardar nossas forças e na hora certa gritaremos uns aos outros:

– Vai.Nada. Nada. Nada!

A Gata Comeu e a crise da Tele dramaturgia brasileira

Tenho uma ligação afetiva com a Gata Comeu. Na primeira exibição em 1985, eu tinha 11 anos e, como toda criança, queria fazer parte do clube dos Curumins. Apesar dessa atração infantil, estranhamente me interessava por quase todos os outros personagens. As suas histórias eram tão memoráveis e suas características tão marcantes que durante anos eu guardei com detalhes tudo o que ocorreu na história.

Em 2000, a novela foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo e eu cumpri a pena sugerida. Os personagens caricatos, as tramas esdrúxulas e o clube dos curumins continuavam lá exatamente como eu lembrava. Estava passando por uma fase esquisita na vida, recém solteiro, trabalhando apenas nos fins de semana, e o horário no meio da tarde era perfeito para aplacar minha monotonia. A vida interferiu e não pude vê-la até o final, mas assisti o que pude com muita satisfação.

No final de 2016, a novela me reencontrou novamente num período estranho. Tinha acabado de mudar de apartamento, trabalhava numa posição temporária maçante na qual me sentia deslocado e acabou que, graças as facilidades da Internet, consegui acompanhá-la na integra. O acidente da lancha, os náufragos na ilha, seu Oscar, dona Conceição, Doutor Penteado, Jô, Fábio, Ivete, Toni, o Conde, o cego falso e o clube dos curumins estavam lá exatamente como a minha memória tinha registrado. Só que, dessa vez, 31 anos depois da exibição inicial, eu finalmente consegui entender por que eu lembrava e gostava tanto de A Gata Comeu. Ela simplesmente é uma novela excelente. E por que ela é tão boa? Ela realmente conta uma história.

Ao contrário do que temos visto nos últimos anos, A Gata Comeu nos traz personagens que mudam e evoluem com caminhos definidos e claros; e não simplesmente uma cascata de acontecimentos que acomete personagens estáticos e estereotipados. Cada um dos personagens, desde os coadjuvantes até os personagens principais, tem um arco definido. Doutor Penteado precisa ser e se torna mais humilde; Jô precisa aprender a e consegue lidar com as figuras masculinas na sua vida; Zazá precisa ser e se torna uma mulher sexualmente liberada; seu Vicente tem que e consegue reconstruir uma família para seus filhos; seu Oscar precisa e consegue mostrar mais respeito pela família e pela mulher. No último caso, quase.

Todos os personagens tem grandes falhas e necessidades que precisam atender. São personagens humanos, críveis. Todos, a sua maneira, agem como protagonistas de suas próprias vidas, antagonistas uns dos outros e coadjuvantes dos demais. É possível, inclusive, isolar cada uma das histórias e contá-las como plots separados sem perder nenhuma graça ou interesse. Todas são histórias fascinantes. Além disso, ela consegue ter algo que poucas novelas tem: um tema.

A Gata Comeu gira em torno da falsidade. Jô finge querer se casar e abandona noivos a torto e a direito pois não sabe resolver o problema com seu pai; seu Oscar finge ser doente para não trabalhar e ficar paquerando na praia; doutor Penteado finge ser rico para manter o status; Vitório finge ser Conde para humilhar doutor Penteado; Zé Mário finge ser cego para cortejar Babi; Edson finge que a lancha quebrou para fugir da família; Paula finge gostar de Toni para casar com um homem rico. Todos os personagens, em maior ou menor grau, estão envolvidos como atores ou vítimas de uma farsa. E a resolução dos conflitos de todos os personagens passa justamente pela libertação da fantasia e pela aceitação da realidade. Enquanto isso, toda essa falsidade é acompanhada com espanto pelo coro representado pelo clube dos curumins que proclama a todo momento que “as crianças precisam resolver os problemas dos adultos”.

Não à toa, o clímax da novela reprisa, em forma de farsa, o seu evento catalisador: o acidente da lancha e o período em que os personagens principais ficaram náufragos numa ilha. Só a realização consciente do teatro da vida permite a libertação dos nossos personagens. Depois da resolução do plot principal, os personagens comemoram a sua libertação numa festa a fantasia em que brincam com seus próprios personagens: seu Oscar vai de malandro; dona Ofélia, a sogra intratável, se veste de diabo; doutor Penteado é o xeique acompanhado da sua esposa, como concubina; Gugu e Tetê se vestem como as crianças que são; e Jô está caracterizada como a apresentadora do circo que exibe toda essa fauna humana. Enfim, uma novela muito bem escrita com um tema humano e cativante.

É estranho não darmos a Ivani Ribeiro o valor que é dado à Janete Clair. Autora de tramas tão interessantes e pouco usuais, ela também é autora de Mulheres de Areia e A Viagem, a única novela em que torcíamos pela morte da mocinha. É importante resgatar e analisar os trabalhos de bons autores de novela que não são tão mais lembrados, como ela, Antônio Calmon e Cassiano Gabus Mendes. Especialmente agora que o modelo da telenovela está mais uma vez em crise e novamente sendo questionado.

Desde Dickens, até às web séries, passando pelas radio novelas, tivemos muitas alterações no modelo do folhetim. As mudanças pelas quais as novelas, como folhetim eletrônico, passaram para continuar como produtos rentáveis são visíveis ao assistirmos a uma novela antiga como A Gata Comeu. A velocidade era bem menor, o número de personagens idem, e o papel da música era mais preponderante justamente pelo rendimento que as trilhas de novela deviam trazer para o produto. Hoje temos uma gama e quantidade de personagens enorme, histórias mais neutras e pouco coesas e um product placement mais agressivo. É um modelo de atenção dividida que tenta atingir públicos mais amplos com menor profundidade e  de forma mais politicamente correta mas, como estamos vendo, nem sempre funciona. O contexto do mercado e do público causa, com certeza, impactos nas estratégias dramatúrgicas. O modelo do gancho para o comercial, só pra pegar um exemplo, não é mais eficiente e é preciso trazer o anunciante mais para dentro da trama, tornando a novela claramente mais comercial.

Não estou defendendo aqui um Ars Gratia Ars, pois isso não existe. Há, óbvio, um processo para garantir a realização de uma obra tão cara, mas ele não deve definir o roteiro. Ele deve servir como condição de contorno e estimular os autores a trabalhar criativamente com essas restrições, ou melhor, os próprios autores poderiam gerar novos modelos narrativos considerando as estratégias de financiamento de suas próprias obras. Ao invés de tentar encaixar círculos em quadrados, os autores poderiam ter um olhar mais comercial sobre a sua própria atividade e gerar modelos inovadores tanto de estrutura como de financiamento artístico. A internet está aí pra facilitar isso, mas esperar isso dos nossos autores já é sonho.

Numa época em que pagamos mais, sim, pelo entretenimento, a novela como produto de TV aberta precisa mudar. Experiências tem sido feitas com a duração, no horário das 11, com públicos diferentes, nas 7, esteticamente, no horário das 6, e nos temas, nas novelas da Record. Não sabemos como isso será no futuro, mas precisamos começar a imaginar um tempo em que o horário nobre da TV não seja mais ocupado pelas novelas. Senão corremos o risco de ter apenas os programas evangélicos no horário como já ocorre nos canais que não as apresentam.

Crise é momento de virar a mesa e para mudar precisamos olhar para o que deu certo no passado tanto comercialmente como artisticamente. A Gata Comeu é um produto de sucesso em ambos os casos. Boa parte do mérito disso vem da sua autora.  Pra mim, fica claro que essa é uma crise dos autores também. Eles talvez tenham que se tornar menos grifes e mais experimentalistas, deixando a sua obra falar por si ao invés de aderir aos esteriótipos que foram criados em cima deles mesmos. Hoje, por exemplo, quando falamos de um autor, já sabemos como será a sua trama e o estilo estético e da narrativa. É um pouco triste que as novelas e seus autores sejam vendidos pela familiaridade e pelo cumprimento de expectativas e não pela surpresa e pelo ineditismo.

Se há uma crise na tele dramaturgia, tenham certeza, ela começa na postura e no trabalho dos seus autores e, portanto, está na conta de nós, escritores, criar essas soluções. Caso contrário, os departamentos de marketing irão, mais uma vez, empurrar modelos publicitários pelas nossas goelas. E essa história já conhecemos como termina.