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Lidando com a Maré

Hoje parecia até um dia daqueles. Sabe? Um daqueles dias que a gente nem ousa falar o nome. Um dia de (bate na madeira) falta daquilo ou excesso daquilo outro. Entendeu, né? Um dia que a gente preferia esquecer. Fila, falta de dinheiro, confusão, congestionamento; negócios não fechados, promessas não cumpridas; chuva quando estamos na rua, e estiagem assim que botamos o pé dentro de casa. Um dia daqueles, deu pra sentir?

Na verdade acho que não tem sido um dia daqueles; tem sido um ano, ou melhor, uns anos daqueles. As coisas pioram; aceitamos um montão de abusos para que elas melhorem; melhoram, mas parece pouco; logo depois, piora de um jeito que a gente nem imaginava que ia piorar; uma constante espera por sermos surpreendidos negativamente. Uma lista de tristezas pontuada por esperanças perdidas e promessas frustradas. Um ano, ou melhor, uma década pra esquecer.

Mas a gente não esquece; a gente fica com raiva. A frustração é o prólogo da ira. Queremos fazer algo, brigamos com os outros, prometemos nos revoltar, mas, no fim das contas, jogamos toda essa agressividade não dirigida pra nós mesmos e ficamos cada vez mais deprimidos.

Um círculo vicioso que mina as nossas forças e nos deixa com cada vez menos energia para lutar pelo pouco que os tempos atuais nos permitem conseguir.

Quando tenho um desses dias, sempre me lembro do Praião de Barra de São João. Seu nome remete tanto à sua extensão como ao tamanho do seu mar. Um mar agitado de ondas altas que quebram quase em cima da areia e não serve direito nem pro banho nem pros surfistas. É uma daquelas praias varridas por um vento constante, onde as famílias se escondem nos quiosques para tomar cerveja e acompanhar os poucos corajosos que arriscam entrar no seu mar.

Meu amigo Ronald é um desses corajosos. E, graças a ele, eu me tornei um desses também.

Numa das primeiras vezes em que fui ao Praião, ele se levantou para entrar no mar e me chamou.

– Tá falando sério? – foi o que consegui responder.
– Tô. Pode vir. Vou te ensinar a entrar nesse mar.

Ficamos parados na beira, e ele me explicou:

– Um mar desse tamanho tem que ser respeitado. Não temido. É preciso saber entrar, aceitar os seus movimentos e sair. Tudo tem a ver com a economia de energia. Se fizer força e resistir no momento errado, vai ficar fraco pra quando aparecer a oportunidade de sair e o mar vai te levar. Se for afoito demais, vai ajudar o mar a te levar embora e nunca mais vai voltar. É preciso aceitar a maré. Ela não é boa, nem má. Ela apenas se move e vai te levar pro lugar que você deve ir se não lutar com ela.

“O mar vem e vai. Quando ele te puxar, deixa ele fazer a força e relaxe. Se ficar tranquilo, daqui a pouco estará no mesmo lugar onde entrou. Quando ele te empurrar pra praia, ajude ele e acompanhe seu movimento, que ele te ajudará a sair.

“É só saber a hora de descansar e a hora de nadar que você vai ficar bem. Vamos entrar?”

Entramos.

Confesso que, nas primeiras ondas, achei que fosse me afogar. A maré vinha e ia tão rapidamente que parecia tragado por um redemoinho. Via uma onda e com medo mergulhava sem saber onde ela ia me levar, resistindo e nadando sem saber se ia pra frente ou pra trás. Ronald, tranquilo, tentava me orientar:

– Deixa ela te levar. Deixa ela te levar.

Respirei fundo e segui sua orientação. Larguei o corpo sobre a água e comecei a boiar. O mar me carregava de um lado pro outro, a princípio atabalhoadamente, até que, como um par de dançarinos, encontramos o nosso ritmo. Em pouco tempo, sem ansiedade ou medo, tinha passado a arrebentação.

As pessoas que estavam na areia olhavam preocupadas como se fosse o último momento em que nos veriam vivos, mas, onde estávamos, parecíamos estar sentados num muro vendo a vida do lugar mais seguro do mundo.

– Pronto pra voltar? – Ronald perguntou.
– Sim, sim.
– Vamos aproveitar aquela onda grande vindo depois dessa.

Deixamos a primeira onda passar nos carregando primeiro pra frente, depois para trás. Quando fomos deixados em frente a onda grande, Ronald gritou:

– Nada. Nada!

E nadei. A onda nos empurrou e apenas seguimos o movimento dela. A onda nos levou pra antes da arrebentação e com apenas um pouco de esforço, chegamos na areia e saímos do mar. Estávamos vivos. Estávamos salvos. Soubemos respeitar o mar.

Quando sinto que não há saída e o mar de prognósticos negativos e tristezas vão nos afogar, eu lembro do Praião. Lembro que há a hora de deixar a água te levar e economizar energia. Lembro que é importante sentir os momentos propícios para se mover ou para ficar parado. Lembro que uma hora virá a onda certa para nos levar ao lugar seguro, ao lado de nossos amigos e familiares, e que, nessa hora, é preciso ter força para nadar. Lembro que precisamos respeitar os ritmos e não temê-los. Lembro que precisamos lidar com os ritmos e não tentar dominá-los.

Sim, quando vivo uma situação dessas, eu penso no Praião. Especialmente agora, depois de tudo o que estamos passando, eu penso no Praião. Por isso, eu sei e quero que vocês saibam que estaremos vivos e estaremos a salvo se respeitarmos as marés e as águas agitadas onde estamos. Desde que não tenhamos medo, nem sejamos afoitos, esse mar de loucura, medo, maldade e incompreensão não irá nos afogar. Se soubermos lidar com ele, agir na hora certa e não comprar brigas na hora errada, estaremos bem. Estaremos salvos. Estaremos vivos.

Afinal, não há dias bons, nem ruins; não há dias daqueles, nem desses; há apenas dias e o que fazemos deles. E na minha opinião, acho que a onda que irá nos levar à praia não tarda a chegar. Por isso, vamos guardar nossas forças e na hora certa gritaremos uns aos outros:

– Vai.Nada. Nada. Nada!

A Gata Comeu e a crise da Tele dramaturgia brasileira

Tenho uma ligação afetiva com a Gata Comeu. Na primeira exibição em 1985, eu tinha 11 anos e, como toda criança, queria fazer parte do clube dos Curumins. Apesar dessa atração infantil, estranhamente me interessava por quase todos os outros personagens. As suas histórias eram tão memoráveis e suas características tão marcantes que durante anos eu guardei com detalhes tudo o que ocorreu na história.

Em 2000, a novela foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo e eu cumpri a pena sugerida. Os personagens caricatos, as tramas esdrúxulas e o clube dos curumins continuavam lá exatamente como eu lembrava. Estava passando por uma fase esquisita na vida, recém solteiro, trabalhando apenas nos fins de semana, e o horário no meio da tarde era perfeito para aplacar minha monotonia. A vida interferiu e não pude vê-la até o final, mas assisti o que pude com muita satisfação.

No final de 2016, a novela me reencontrou novamente num período estranho. Tinha acabado de mudar de apartamento, trabalhava numa posição temporária maçante na qual me sentia deslocado e acabou que, graças as facilidades da Internet, consegui acompanhá-la na integra. O acidente da lancha, os náufragos na ilha, seu Oscar, dona Conceição, Doutor Penteado, Jô, Fábio, Ivete, Toni, o Conde, o cego falso e o clube dos curumins estavam lá exatamente como a minha memória tinha registrado. Só que, dessa vez, 31 anos depois da exibição inicial, eu finalmente consegui entender por que eu lembrava e gostava tanto de A Gata Comeu. Ela simplesmente é uma novela excelente. E por que ela é tão boa? Ela realmente conta uma história.

Ao contrário do que temos visto nos últimos anos, A Gata Comeu nos traz personagens que mudam e evoluem com caminhos definidos e claros; e não simplesmente uma cascata de acontecimentos que acomete personagens estáticos e estereotipados. Cada um dos personagens, desde os coadjuvantes até os personagens principais, tem um arco definido. Doutor Penteado precisa ser e se torna mais humilde; Jô precisa aprender a e consegue lidar com as figuras masculinas na sua vida; Zazá precisa ser e se torna uma mulher sexualmente liberada; seu Vicente tem que e consegue reconstruir uma família para seus filhos; seu Oscar precisa e consegue mostrar mais respeito pela família e pela mulher. No último caso, quase.

Todos os personagens tem grandes falhas e necessidades que precisam atender. São personagens humanos, críveis. Todos, a sua maneira, agem como protagonistas de suas próprias vidas, antagonistas uns dos outros e coadjuvantes dos demais. É possível, inclusive, isolar cada uma das histórias e contá-las como plots separados sem perder nenhuma graça ou interesse. Todas são histórias fascinantes. Além disso, ela consegue ter algo que poucas novelas tem: um tema.

A Gata Comeu gira em torno da falsidade. Jô finge querer se casar e abandona noivos a torto e a direito pois não sabe resolver o problema com seu pai; seu Oscar finge ser doente para não trabalhar e ficar paquerando na praia; doutor Penteado finge ser rico para manter o status; Vitório finge ser Conde para humilhar doutor Penteado; Zé Mário finge ser cego para cortejar Babi; Edson finge que a lancha quebrou para fugir da família; Paula finge gostar de Toni para casar com um homem rico. Todos os personagens, em maior ou menor grau, estão envolvidos como atores ou vítimas de uma farsa. E a resolução dos conflitos de todos os personagens passa justamente pela libertação da fantasia e pela aceitação da realidade. Enquanto isso, toda essa falsidade é acompanhada com espanto pelo coro representado pelo clube dos curumins que proclama a todo momento que “as crianças precisam resolver os problemas dos adultos”.

Não à toa, o clímax da novela reprisa, em forma de farsa, o seu evento catalisador: o acidente da lancha e o período em que os personagens principais ficaram náufragos numa ilha. Só a realização consciente do teatro da vida permite a libertação dos nossos personagens. Depois da resolução do plot principal, os personagens comemoram a sua libertação numa festa a fantasia em que brincam com seus próprios personagens: seu Oscar vai de malandro; dona Ofélia, a sogra intratável, se veste de diabo; doutor Penteado é o xeique acompanhado da sua esposa, como concubina; Gugu e Tetê se vestem como as crianças que são; e Jô está caracterizada como a apresentadora do circo que exibe toda essa fauna humana. Enfim, uma novela muito bem escrita com um tema humano e cativante.

É estranho não darmos a Ivani Ribeiro o valor que é dado à Janete Clair. Autora de tramas tão interessantes e pouco usuais, ela também é autora de Mulheres de Areia e A Viagem, a única novela em que torcíamos pela morte da mocinha. É importante resgatar e analisar os trabalhos de bons autores de novela que não são tão mais lembrados, como ela, Antônio Calmon e Cassiano Gabus Mendes. Especialmente agora que o modelo da telenovela está mais uma vez em crise e novamente sendo questionado.

Desde Dickens, até às web séries, passando pelas radio novelas, tivemos muitas alterações no modelo do folhetim. As mudanças pelas quais as novelas, como folhetim eletrônico, passaram para continuar como produtos rentáveis são visíveis ao assistirmos a uma novela antiga como A Gata Comeu. A velocidade era bem menor, o número de personagens idem, e o papel da música era mais preponderante justamente pelo rendimento que as trilhas de novela deviam trazer para o produto. Hoje temos uma gama e quantidade de personagens enorme, histórias mais neutras e pouco coesas e um product placement mais agressivo. É um modelo de atenção dividida que tenta atingir públicos mais amplos com menor profundidade e  de forma mais politicamente correta mas, como estamos vendo, nem sempre funciona. O contexto do mercado e do público causa, com certeza, impactos nas estratégias dramatúrgicas. O modelo do gancho para o comercial, só pra pegar um exemplo, não é mais eficiente e é preciso trazer o anunciante mais para dentro da trama, tornando a novela claramente mais comercial.

Não estou defendendo aqui um Ars Gratia Ars, pois isso não existe. Há, óbvio, um processo para garantir a realização de uma obra tão cara, mas ele não deve definir o roteiro. Ele deve servir como condição de contorno e estimular os autores a trabalhar criativamente com essas restrições, ou melhor, os próprios autores poderiam gerar novos modelos narrativos considerando as estratégias de financiamento de suas próprias obras. Ao invés de tentar encaixar círculos em quadrados, os autores poderiam ter um olhar mais comercial sobre a sua própria atividade e gerar modelos inovadores tanto de estrutura como de financiamento artístico. A internet está aí pra facilitar isso, mas esperar isso dos nossos autores já é sonho.

Numa época em que pagamos mais, sim, pelo entretenimento, a novela como produto de TV aberta precisa mudar. Experiências tem sido feitas com a duração, no horário das 11, com públicos diferentes, nas 7, esteticamente, no horário das 6, e nos temas, nas novelas da Record. Não sabemos como isso será no futuro, mas precisamos começar a imaginar um tempo em que o horário nobre da TV não seja mais ocupado pelas novelas. Senão corremos o risco de ter apenas os programas evangélicos no horário como já ocorre nos canais que não as apresentam.

Crise é momento de virar a mesa e para mudar precisamos olhar para o que deu certo no passado tanto comercialmente como artisticamente. A Gata Comeu é um produto de sucesso em ambos os casos. Boa parte do mérito disso vem da sua autora.  Pra mim, fica claro que essa é uma crise dos autores também. Eles talvez tenham que se tornar menos grifes e mais experimentalistas, deixando a sua obra falar por si ao invés de aderir aos esteriótipos que foram criados em cima deles mesmos. Hoje, por exemplo, quando falamos de um autor, já sabemos como será a sua trama e o estilo estético e da narrativa. É um pouco triste que as novelas e seus autores sejam vendidos pela familiaridade e pelo cumprimento de expectativas e não pela surpresa e pelo ineditismo.

Se há uma crise na tele dramaturgia, tenham certeza, ela começa na postura e no trabalho dos seus autores e, portanto, está na conta de nós, escritores, criar essas soluções. Caso contrário, os departamentos de marketing irão, mais uma vez, empurrar modelos publicitários pelas nossas goelas. E essa história já conhecemos como termina.

Por que não estou indignado

Pelo que me dizem, o povo está indignado. Ouço pedaços de conversas nos botequins, leio bravatas na internet, vejo as manchetes nos tabloides e assisto a declarações nos telejornais. In-dig-na-ção. Por toda a parte. Como puderam roubar TANTO? Como fizeram isso com A GENTE? Como traíram a NOSSA confiança? Entendo o sentimento, mas não consigo ficar indignado.

Explico. Indignação requer surpresa.

– Como você pôde fazer ISSO comigo?
– Eu nunca pensei que VOCÊ fosse capaz disso.
– Quase não acreditei quando me contaram o que VOCÊ fez.

Indignação é uma sensação que depende de uma expectativa positiva sobre algo que posteriormente se mostra errada. Inesperadamente. Indignação requer esperança num mundo melhor. Uma esperança que eu nunca tive. Uma esperança que nunca terei.

Nunca esperei que o governo, ou qualquer instância de poder, fosse capaz de algo mais do que advogar e agir em ganho próprio. Nunca considerei que os Joões e Joanas Honestos das campanhas políticas fossem probos, bem intencionados ou, pelo menos, competentes. Nunca imaginei que um sistema tão não natural visasse o bem comum. Nunca confiei nos outros seres humanos.

Explico. Sou um ser humano também.

Apesar de não ser motivado pela Ira, Inveja, Soberba ou Avareza, sou guiado pelos outros 3 pecados capitais: Gula, Luxúria e Preguiça. Principalmente preguiça. Sou afeito a sensações. Todos os seres humanos são. Somos todos PECADORES.

Ao invés de esperar que o nosso caminho natural seja a bem aventurança, aprendi, desde cedo, que somos apenas guiados pelos nossos erros. Pelos nossos pecados preferidos. Se dermos a chance de alguém comer muito, encontraremos Glutões. Se mostrarmos riquezas, atrairemos Avaros. Se oferecermos poder apenas alimentaremos os Soberbos.

Nunca me surpreendeu que políticos, empreiteiros, ou milionários pensassem em algo mais do que dinheiro. Nunca imaginei que, dada a oportunidade de usar o poder, seres humanos fariam algo mais do que se locupletar. Nunca imaginei que a mão que afaga não quisesse matar com a mesma doçura.

Por isso não me indigno. Pois não perdi minha dignidade. Quem perdeu foram eles e quem os apoiou. Por isso não me indignarei quando os salvadores da pátria de hoje com certeza absoluta se tornarem os vilões do amanhã, como os vilões de hoje já foram os salvadores da pátria de outrora. Por isso não me indigno. Pois não dei, nem vendi a minha dignidade a ninguém. Pois a minha dignidade só pertence a mim e não a países, partidos, profetas ou pessoas. A minha dignidade sou eu.

Por isso não estou indignado e por isso, acredito, você não deveria perder a sua dignidade também. Afinal se há algo que ninguém pode tirar sem o nosso consentimento é a nossa dignidade. E se você, no seu grito de horror, declara aos quatro ventos estar indignado e ser indigno, tenho certeza que se sente culpado pelo mal que nos fazem passar. Tenha feito algo ou não. Mas isso não interessa mais, pois se você está indignado a culpa é só sua.

Eu não estou indignado. E você? Está?

Trainspotting 2 e a maldição do filme sobre a meia-idade

Saí de T2: Trainspotting com um gosto amargo na boca. Não, o filme não é ruim. É óbvio, não consegue captar o brilhantismo visual do primeiro, que 20 anos depois já ficou ultrapassado; nem a mensagem, hoje repetida à exaustão, surpreende, apesar de manter a sua força. Os problemas não foram esses. O principal problema que me causou esse mal estar foi perceber que ninguém sabe fazer filmes sobre a meia-idade.

Isso é uma coisa que me atinge diretamente. Por mais que não pense nisso a todo momento, estou na meia-idade. Tenho 42 anos e considerando que posso viver até uns 80, passei do limiar da metade da vida. Se continuar sedentário e obeso, essa expectativa cai e já posso me considerar da terceira idade, o que explicaria por que o período dos meus 20 e poucos anos parecia tanto uma crise de meia-idade. Mas isso não vem ao caso.

A ficha que me caiu é que somos ótimos para fazer filmes sobre a juventude e sobre a terceira idade, mas os filmes sobre a meia-idade sempre são um lixo.

Os filmes sobre a juventude são normalmente coming of age stories, histórias sobre amadurecimento. Guiados pelos nossos hormônios ou por crenças idiotas, fazemos merda atrás de merda até que por força das circunstâncias ou por uma revelação descobrimos o que é ser adulto.

Nos anos oitenta, essas histórias eram contadas com adolescentes e à vezes até crianças. Hoje nosso coming of age tá rolando lá pelos 30 anos. Eita, adolescência prolongada.

Os filmes sobre a terceira idade já pegam um caminho oposto; em geral são filmes sobre um resgate. Um resgate de virilidade, de liberdade, de amor, de emoção. Coisas que ficaram perdidas pelas trevas da meia-idade e que precisamos resgatar para novamente nos sentirmos jovens.

O filme normalmente termina com uma morte digna ou com a esperança que haverá (bastante) vida pela frente. Duas mentiras.

Quando chegamos aos filmes da meia-idade a porca torce o rabo. Primeiro, os personagens em geral são escrotos; gente amargurada que é vítima das suas próprias manias e não percebe o mal que realiza ao seu redor. São opressores porque podem ser e não se importam com os outros pois sofreram demais e consideram ter esse direito. Segundo, o evento deflagrador da ação é em geral uma morte. Um parente, um dos amigos de um grupo, até mesmo um desconhecido. Tem sempre alguém que faz esse povo sem carisma perceber que a morte está chegando e que eles precisam mudar. Invariavelmente a sua resposta é tentar ser jovens, sem a graça, o vigor ou a inocência da juventude. Ou seja, eles se mostram os idiotas que são. Depois de darem com os burros n’água e aceitarem sua mortalidade, retornam à sua escrotidão usual com um pouquinho mais de doçura.

Até os poucos filmes legais sobre a meia-idade (o Reencontro, Para o Resto das Nossas Vidas) seguem esse modelo e nos expulsam da sala o cinema com uma sensação de insuperável imobilidade.

Olhando por esse prisma, tanto as histórias de juventude como as da terceira idade são histórias de mudança, de rebelião. As da meia-idade são confirmações do status quo. Casais separados se juntam novamente, famílias se reúnem apesar de se odiarem, negócios falidos prosperam apenas o suficiente para não forçarem os protagonistas a mudarem de carreira. Enfim, histórias reacionárias. Enquanto os filmes de juventude e terceira idade te dizem “Do something”, os da meia-idade dizem “É isso o que temos pra hoje, mas relaxa”.

T2 foi por esse caminho. Os amigos aparentemente maduros dentro das suas perversidades são reunidos por causa da morte da mãe de Renton e retornam as suas atividades de juventude para no final (spoiler?) descobrirem que a vida é assim mesmo e se recolherem as suas respectivas insignificâncias.

Não vou dizer que não me diverti. Foi como encontrar velhos amigos e ouvi-los contar aquelas histórias épicas dos “nossos tempos”. As homenagens visuais são bem usadas e, se você vir o primeiro filme logo depois, como eu fiz, fica patente como os personagens ainda mantém a mesma força do primeiro filme, assim como o discurso “Choose Life” atualizado para os tempos atuais.

Mesmo assim, saí mal do cinema. O que a ficção tem a dizer pra minha idade é isso? Bom, você vai fazer 20 anos de carreira no ano que vem e é por aí que você tem ficar mesmo. Pense nas suas responsabilidades e tente inutilmente sufocar as suas culpas que, quando e se chegar na terceira idade, você pode resgatar um pouco de vida para não dizer que foi tudo um desperdício de tempo.

Num mundo em que estamos vivendo cada vez mais, é um crime que a nossa ficção sobre a nossa crescente meia-idade seja só isso. Talvez o verdadeiro crime seja pensarmos na vida como um único ciclo de Descoberta, Decadência e Aceitação da Morte.

Talvez precisemos olhar para a vida como uma série de ciclos que não se ligam mais a idades específicas. Mas, enquanto a indústria do cinema olhar para os espectadores como públicos alvo, e não como pessoas, continuaremos vítimas desses contos morais divididos pelas faixas etárias de 18 a 35, 35 a 65, 65 a morte, sobre como a vida é boa e só nós não percebemos.

Segundo a indústria do cinema, escolher a vida (choose life), e não simplesmente aceita-la, é um esporte para jovens.

Billions e a brincadeira de Mau

Quase toda a noite, perto da hora de dormir, a minha filha quer brincar de Mau. Conhece? Não?! É assim que ela explica:

– Eu sou o Bom. Eu vou pegar um brinquedo e finjo que vou dormir. Aí você é o Mau e tira o meu brinquedo. Depois eu sou o Mau.

É uma dinâmica interessante. A ação do Mau “contra” o Bom pode ser agressiva, dissimulada, manipuladora ou simplesmente caótica. A reação do Bom também varia. Revolta, medo, tristeza, negociação. Vale de um tudo nessa brincadeira. E não há motivo para ser Mau, nem Bom. Apenas os somos. É exatamente assim que me sinto quando vejo Billions. Me sinto assistindo a uma brincadeira de Mau.

Billions é uma série da Showtime que nos põe no meio do conflito entre o promotor de Nova York, Chuck Rhoades, vivido por Paul Giamatti, e o bilionário Bobby “Axe”, interpretado por Damian Lewis. É uma série rara. É uma série com dois protagonistas e dois antagonistas. É uma série que escapa à dicotomia do bom e do mau. Os personagens principais, assim, como minha filha brincam continuamente de mau, sem a narrativa pender a favor nem de um nem do outro.

Como não podia deixar de ser os personagens são espelhos. Chuck, o promotor, vem de dinheiro antigo, joga no limite das regras sempre as dobrando ao seu favor. Axe é um self made man, sempre encontrando as brechas que lhe permitem tirar o máximo de ganho. Ao contrário de conflitos tradicionais, não há um objeto que os dois desejem. Eles apenas querem mostrar a superioridade sobre o outro e vencer essa luta que ninguém lembra quem começou.

Em diversos momentos, são mostradas aos dois personagens opções para abandonar a disputa, mas eles se negam a parar de lutar. Continuam firmes no seu desejo de destruir um ao outro. Um pissing contest genial que mostra que, apesar de serem opostos, os personagens são iguais. Os dois são bullies.

Chuck é o Bully nerd com a cabela enfiada nos livros se preparando para a próxima briga de moral. Axe é o Bully marginal com sua camiseta do Mettalica esperando a próxima vítima dos seus insultos.

O incrível é que isso quebra um dos maiores tabus da dramaturgia: ter um protagonista pelo qual possamos torcer. Aqui temos dois que amamos e odiamos a todo momento.

O recado de Billions para nós roteiristas é que não precisamos de heróis. Precisamos de conflito. Taí uma lição que a indústria do cinema, tão empobrecida de idéias que depende de SUPER heróis e SUPER vilões para sobreviver, deveria aprender. Uma lição que está em Édipo, Othelo, Ricardo III. Uma lição que foi abafada pelo moralismo do Irmãos Grimm e pela ganância de Walt Disney que transformaram a ficção numa fábrica de lições de moral. Ficção não é isso. Ficção não é redenção. Ficção é desejo, conflito e emoção. Ficção é brincar de Mau. E brincar de Bom. Sem lições de moral. Só pelo prazer de podermos trocar de papéis e agirmos como somos. Humanos. Bons e maus. Ao mesmo tempo.

Ah, eu te disse pra assistir Billions? Não? Então, vá lá assistir. Agora.

Sejamos objetivos

Você sabe: eu sou direto. Quando se trabalha na minha área é preciso. Senão perdemos a atenção da pessoa. Entende o que estou dizendo? Por isso vou tentar resumir para você o que estou querendo dizer. Não que seja uma coisa só. Não é. São duas. Talvez três. Por isso é tão importante ser conciso. Se eu não conseguir deixar claro em poucos minutos o que eu quero te dizer, e é muita coisa, acho que  terei falhado na minha comunicação. E comunicação, você sabe, é importante. Não adianta a gente ficar falando e falando sem chegar a lugar nenhum. É importante, não, é essencial ter foco, meta, direção, clareza no que se quer dizer. Senão não chegamos a lugar nenhum e aí você já viu. Né? Por isso, como eu estava te dizendo, vou ser direto. Direto como normalmente sou. Afinal fui treinado para isso. Trabalhando tantos anos na minha área a gente pega jeito. Tanto pega que fica até chato. Eu falando aqui e já fico imaginando você pensando: “Que cara chato. Por que ele é tão direto? Não dava pra florear um pouquinho o que vai dizer? Contar uma piada, uma historinha? Dar um colorido nesse discurso?”. Eu te respondo: não, não dá. Se a gente perder tempo, que é um lance precioso, não estamos sendo produtivos. E isso a minha profissão me ensinou: a ser produtivo. Por isso talvez tenha me dado tão bem na minha carreira. Ser direto e conciso sempre ganhou o coração dos meus chefes e clientes. Teve uma vez por exemplo em que eu tinha que passar uma informação para o meu chefe, ou para um pessoal em treinamento, já não lembro direito, e aí eu tinha um tempão para falar. Me lembro de ter comentado com alguém, mas não lembro direito quem era, que era tempo demais. “Por que gastar tanto tempo para falar algo tão simples?”. Não que fosse algo simples. Era um lance complexo. Sabe? Como o que eu tenho para te falar. E não era só uma coisa. Eram duas, talvez, três. Mesmo assim, eu já te disse, acredito que o melhor é ser direto. Ser conciso é o objetivo. Ou, quem sabe, ser objetivo é ser conciso. Espera só um pouquinho. Vou anotar isso. Legal, né? Ser conciso é o objetivo, ser conciso é ser objetivo e… olha só, “Ser conciso e objetivo”. Vou usar numa próxima reunião. Quase um poema. Mas objetivo, ao contrário dos outros poemas. E conciso, claro. Claro, né? Como estava te dizendo, o meu lance é resumir. Deixar as coisas claras de forma objetiva. Direta, mesmo. Sejam uma, duas ou três coisas. É preciso focar no seu propósito e planejar a sua comunicação. Sim, o planejamento é fundamental. Não é perda de tempo. É investimento. Por exemplo, se eu não tivesse planejado o que e o como falar com você hoje, nós estaríamos perdendo nosso tempo aqui ao invés de sermos objetivos enquanto te digo a coisa que tenho a te dizer. Quer dizer, as três ou quatro coisas das quais precisamos falar. Por isso vou te pedir atenção. Afinal não adianta eu ser objetivo e você não escutar. Lá venho eu sendo objetivo e você pensando na morte da bezerra. Aí não deu. Se eu for objetivo, e como, já te disse, pretendo e serei, as informações serão passadas rapidamente, de forma cirúrgica. Se eu não tiver a sua atenção, vai ser como se um passarinho, um passarinho, não, um míssil passasse por você e você nem notasse. Sacou? Nem preciso dizer que o meu objetivo aqui, quer dizer, o objetivo de qualquer comunicação é que haja um entendimento. Não só seu, mas de ambas as partes. Uma equalização de informações e desejos. Enfim, toda a comunicação tem um quê de negociação. Eu te digo algo, você escuta, e vamos afinando a nossa concordância sobre a questão para que a verdade coletiva surja. E dessa verdade coletiva sobre essas coisas, quatro ou cinco, que eu vou te falar, é preciso surgir uma ação. Um plano integrado, uma agenda compartilhada que irá nos levar finalmente, de forma objetiva e certeira, é óbvio, onde queremos chegar. Chegou até aí? Claro que chegou. Você é uma pessoa esperta, inteligente e sagaz. Aposto que já tem a sua opinião formada, mas vai levar, com certeza, em consideração, de forma bem objetiva, o que te disse sobre as coisas, as cinco ou seis coisas, que eu tinha pra te falar, quando for emitir a sua opinião. Aí você vai definir a sua concordância, ou não, com as questões que a gente acabou de discutir. Então você concorda? Por favor, seja conciso na sua resposta, assim como eu fui na minha explanação. Posso contar com isso? Afinal ser objetivo é ser conciso. E ser conciso é o objetivo. Lembra que eu te falei isso? Claro, claro que lembra, fomos claros e objetivos nessa nossa discussão. Mas, então, não vamos ficar nos repetindo. Sejamos diretos. Então, o que você tem a dizer sobre essa, quer dizer, essas questões? Pode pensar. Pode pensar. Mas seja direto. Não temos tempo a perder. Ou será que temos?