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Ódio rotativo

Nos anos 80, um dos meus programas preferidos com o meu pai era vê-lo brigar na Mesbla. Se você nasceu depois do fim da hiper inflação, deixa eu te situar. A Mesbla era uma rede lojas de departamentos assim como a Sloper e a Sears. Desculpe, referências tautológicas. Estou tentando explicar a um deficiente visual o que é o verde dizendo que é a mistura do azul com o amarelo. Esclarecendo melhor, Lojas de Departamentos eram shoppings primitivos. Ao invés de conglomerados de lojas num mesmo prédio, tínhamos uma só enorme loja com diversos departamentos, de lingerie a lanchas passando por instrumentos musicais e brinquedos. Pra quem não sabia exatamente o que queria comprar era ideal. Como os shoppings. Assim como para quem precisava comprar a crédito ou a prestação.

Na época da hiper inflação, crédito era uma coisa difícil. Bancos só serviam para guardar a sua poupança e dobrar o seu salário para ser usado no mês seguinte quando os preços tinham triplicado. Não eram essas máquinas de vender dinheiro e produtos financeiros de hoje. Viver nos anos 80 não era mole, mas precisávamos consumir, e por isso apelávamos para os carnês, que funcionavam como poupanças exclusivas para o consumo, como o Baú da Felicidade, e para o crédito das próprias lojas através de cartões que só podiam ser usados nelas. A inadimplência, acredito, era alta, mas escravizar um grande número de fregueses a sua marca devia ter lá suas vantagens.

Meu pai, como os demais brasileiros, não agiu diferente. Não tínhamos carnê do Baú, mas tínhamos um cartão. Da Mesbla. No início foi genial. Ganhei muitos brinquedos, que eu queria, e um violão e roupas, que eu não queria. Minha mãe deve ter feito lá suas compras e até o meu pai, um dedicado porém pretenso avaro, deve ter comprado uma coisa ou outra. Mas depois do sorvete, sempre vinha o palito. Então, todo mês, sempre num sábado, meu pai me pegava em casa e nos encaminhávamos para a Mesbla da rua do Passeio em peregrinação com um saco de dinheiro para pagar o cartão nos guichês da loja. Pensando bem agora tenho a impressão que ele achava que isso ia me ensinar algo. Se era isso, lamento, falhou.

No primeiro mês do cartão, meu pai entrou todo pimpão na loja, cumprimentou todo mundo e pagou sem reclamar. No segundo, entrou calado, esperou quieto na fila e conversou baixinho com a caixa sobre opções de rolamento da dívida. No terceiro, entrou batendo os pés, esperou impaciente na fila, bufou em frente a caixa e entregou o dinheiro contando nota a nota. No quarto…

Um aparte. Se hoje os juros são surreais, imagine esses mesmos juros com planos econômicos, mudança de moeda e preços corrigidos pela inflação. As alterações de valor real poderiam até ser pequenas mas a impressão de mudança era gigantesca. Não acredita? Então deixa eu te falar. Pra eu comprar revistinha na banca era preciso consultar uma tabela. As revistas não tinham preço, tinham um código que era reajustado mais de uma vez na semana. Por isso íamos todo dia na banca para comprar mais barato quando elas eram lançadas. Sentiu o drama?

Onde estava mesmo? Ah, no quarto mês. No quarto mês meu pai surtou. Entrou na loja nervoso, suando, mas chegou num espírito conciliador, desejando secretamente que a loja concordasse com ele. Ouviu as explicações do caixa, do gerente e até do segurança da loja. Não se convenceu. Tinha algo errado. Ele sabia que tinha algo errado. Tentou argumentar. Ficou mais nervoso. Deu uma volta na loja para se acalmar. Não adiantou. Voltou pros guichês. Falou tudo de novo esperando um resultado diferente. Não rolou. Aí o lance fedeu. Ameaçou, gritou e, depois de toda a algazarra, pagou a contragosto o valor total, chamou a atenção dos demais fregueses, rasgou o cartão teatralmente na frente de todo mundo e me puxou pra fora da loja:

– Nunca mais voltamos aqui, filho. Mesbla nunca mais! Nunca mais!

Mentira. Na semana seguinte voltamos. Minha mãe precisou de uma batedeira e meu pai foi pedir uma substituição do cartão:

– Desculpe, perdi o meu- alegou submisso.

Depois dessa primeira vez, o ciclo se repetiu. Muitas vezes. De quatro em quatro meses íamos do desenfreado êxtase do consumo ao espetáculo da rejeição do sistema capitalista. As lojas mudavam, mas o ciclo sempre estava lá. Sempre encerrado com o mea culpa do “preciso de crédito de novo”. Como eu disse, não era mole viver nos anos 80.

Depois de anos na faculdade de psicologia, agora entendo que esses rituais tinham lá sua razão de ser. Meu pai precisava reafirmar seu poder no mundo pelo direito ao consumo ao mesmo tempo que precisava externar a sua insatisfação em ser escravo desse mesmo processo. Neurótico básico. Odeia o que deseja. E ama se odiar. Como todos nós.

Ontem, fui pegar dinheiro no banco e o caixa eletrônico já informava sobre as mudanças no crédito rotativo. Se usado por mais de 30 dias ele seria bloqueado e o cliente obrigado a negociar a dívida. Não acho mal negócio mas vai interferir nos processos neuróticos de muita gente.

Infelizmente, ao contrário do meu pai, esse povo não vai ter a sua disposição uma plateia para vê-lo rasgar seu cartão para depois, em segredo, ir na semana seguinte pedir crédito novamente. Hoje, a distância imposta pela automatização dos sistemas de opressão nos impede de ter esses momentos de catarse. Vamos da raiva à resignação em segundos. Até o processo de destruição do nosso ego se tornou mais eficiente.

É claro que em alguns momentos a corda rompe e a gente surta. Me lembro de ter rasgado um talão de cheques novinho no meio de um carnaval de raiva do banco.

– Nunca mais uso cheque! – uma promessa que eu cumpri.

Mas isso foi no final dos anos 90. Na mesma época teve um amigo meu que, ao descobrir no meio de uma madrugada num 24 horas que não tinha dinheiro, mijou no banco todo. E tem aqueles casos mais atuais que a gente acha no youtube do pessoal que perde a linha com os pobres coitados dos atendentes telefônicos, que, como as tropas nazistas em Nuremberg, repetem a exaustão que só estão cumprindo ordens.

Apesar desses rompantes anedóticos, com certeza, nossas possibilidades de resistência e revolta inócuas estão reduzidas. Aprendemos nosso papel na máquina e, por mais que sintamos dor ao sermos espremidos, sofremos em silêncio soltando pequenos ais nas redes sociais.

Nesse cenário de crise talvez isso se torne uma oportunidade para o setor bancário. Você ganha direito a dar um tapa num gerente por ano no pacote de serviços hiper ódio master. E ao comprar nosso título de capitalização “Eu te odeio” concorre a dar um chute na bunda do nosso presidente.

E por que parar no setor bancário? A política que nos dá tanto ódio inextravasável é ideal. Todo ano sortearemos brasileiros que escolherão políticos para, supremo deleite, tomar um generoso copo de chorume em rede nacional. Se somos escravos dessas ignorantes elites financeiras e políticas e nada podemos mudar, acho importante que comecem a pensar em métodos para lidar com o nosso ódio ou perderão rapidamente os burros que puxam suas carroças por loucura, doença ou morte.

Já posso escolher o meu político para tomar o copo de chorume?

Obrigado, Crivella

Até que demorou.

Na semana passada, uma notícia passou discretamente pelos jornais cariocas: seria montada uma Operação “Linha Dura” na Praça São Salvador. O responsável pelo informe, o Coronel Paulo César Amêndola, secretário de Ordem Pública(?), alegou que os moradores estavam reclamando de “som alto, consumo de drogas, impedimento do acesso de carros dos moradores, e”, segundo ele, até “sexo nas calçadas” (sic).

Moro na frente da Praça e, confesso, não é mole. Meu apartamento é de fundos e às vezes, até no meio da madrugada, ouço palmas e gritos. O consumo de drogas também é visível, mas ao impedimento de acesso e ao sexo nas calçadas ainda não fui apresentado. A Praça São Salvador, como todos os agrupamentos humanos no Rio de Janeiro é, sim, uma bagunça.

Na sexta os guardas municipais chegaram e já esperávamos algum bafafá, mas choveu. No sábado, idem. Ficou pra depois.

No domingo, levamos a nossa filha ao parquinho, e a tradicional feirinha não estava lá. O chorinho corria solto, mas as barracas não estavam montadas e o público que frequenta a Praça no domingo pelo jeito decidiu ficar em casa. Em seu lugar apenas uma aglomeração dos expositores da feira em frente ao Corpo de Bombeiros discutindo com representantes da guarda municipal. Fui obrigado a conferir.

Pelo que escutei a feira não tinha todos os documentos necessários para ser montada e a lei do artesão, invocada pelo pessoal Chorinho para continuar com suas atividades, não serviu para garantir o seu funcionamento. A indignação era grande. Alguns dos expositores me reconheceram por conta de O Salvadorenho, meu fanzine, e me convocaram:

– Ó, é o cara do jornalzinho. Vem cá. Vem cá ouvir o que está acontecendo.

E eu ouvi. Gente reclamando que ia jogar quilos de comida fora; gente reclamando que o Chorinho não foi solidário e, ao invés de parar, continuou como se nada estivesse acontecendo; gente reclamando que a guarda estava atacando outras questões que não as alegadas pelo nosso estimado coronel; gente reclamando que se a feira era ilegal por que não foi fechada há mais tempo; gente reclamando do aviso da suspensão da feira em cima da hora; gente reclamando disso; gente reclamando daquilo. Gente reclamando.

Tentei botar panos quentes e pedir que o pessoal se unisse. Ao invés de ceder ao golpe mais antigo do governo (colocar cidadão contra cidadão), era importante que nos uníssemos contra governantes que só aplicam as leis quando lhes é conveniente. Era importante focar em ações para mantermos um dos raros espaços democráticos da cidade em funcionamento. Era importante, ao invés de só fazer resistência, encontrar uma maneira de nos tornarmos parte da solução e não do problema. Falei de tudo que era importante, mas ninguém me ouviu. Também pudera, analisando o meu discurso, estava sendo mais esquivo que o pessoal do município que impedia o povo de trabalhar sem uma justificativa verdadeiramente forte. Em minha defesa, não tinha o que dizer pra eles. A feira estava ilegal? Pelo jeito, sim. Isso prejudicava muita gente? Com certeza. O que dizer numa hora dessas além do usual “eu te entendo, mas você está errado também”?

Dei uma volta na praça e no comércio das redondezas. O impacto do fim da feira era óbvio. Botecos vazios, mas menos barulho. Tristeza, mas menos sujeira. Será possível ser animado e carioca sem bagunça? Acho que não.

Compramos o que alguns dos expositores conseguiram vender para minimizar seu prejuízo e voltamos pra casa num misto de desolação e espanto.

Crivella conseguiu. Mostrou sua “força” atacando o “centro de operações” dos apoiadores do Freixo. E, pior, acirrou a briga da feira contra o Chorinho, inimigos moderados de longa data. O que esperar do futuro? A liberação da feira na semana que vem e o fechamento do chorinho? O aumento da tensão em ambos os lados? Um fato violento que justifique ações mais duras? E, enfim, o gradeamento da praça?

Seja que caminho seguirmos, estamos assistindo ao início do sepultamento de mais um espaço de congraçamento popular.

Se olharmos para as justificativas do coronel para a sua ação, todas são válidas, mas lhes pergunto: a mesma reclamação não vale para outros lugares? A escolha da Praça para essa operação não é claramente uma retaliação conta o bairro que votou massivamente no candidato da oposição e onde ocorreu o escândalo que mais deu dor de cabeça ao prefeito durante a sua campanha? A ação pode ser correta, mas a sua justificativa política claramente mostra a face vingativa do nosso prefeito. Bem vindos ao Rio de Janeiro do Antigo Testamento.

Morei em Copacabana em frente ao Bip Bip e os problemas eram similares. Alfredinho, dono de um dos últimos pontos tradicionais do samba carioca, continua sendo alvo do ódio dos governos apesar do seu estabelecimento ser tombado. Acredito que diversos outros lugares sofram com isso. A Baratos da Ribeiro, da qual fui sócio, sofreu. E é sempre do mesmo jeito. Estamos errados nos excessos e no desleixo nas nossas ações de mobilização popular mas as ações governamentais são sempre desproporcionais e guiadas por motivos torpes. E como sabemos: se odiarem você o suficiente, encontrarão uma forma legal de ferrar com você.  Afinal para quê ter poder senão para utilizá-lo para atacar seus inimigos e alimentar seus egos carentes e famintos?

O fim de semana terminou num suspiro. No fim do dia, dei mais uma volta na praça e já via gente concordando com o governo. Tinha gente até dizendo que a feira impedia o povo de ir a pé até o Super Mercado. Pronto. Tava explicado o impedimento de acesso. Rapidamente tínhamos chegado ao ponto em que os empregados assumiam o discurso do Patrão. Crivella mostrou a que veio. Deve ter diploma de maldade da Faculdade Niccolo Machiavelli para membros da bancada evangélica.

Ontem, segunda feira, trazia a minha filha da escola e resolvemos passar no parquinho. Nem sinal do pipoqueiro ou do Pula Pula. Uma tristeza só. Por outro lado, havia uma presença significativa dos guardas municipais para inibir os ambulantes.

– Cadê o Pula Pula, papai?

– A guarda municipal não quer que tenha Pula Pula, filha.

– Porquê?

– Porque o governo odeia o nosso bairro- falei bem alto pros guardas ouvirem.

Eles apenas riram do meu arroubo passivo agressivo.

– O governo é bobo, papai. É bobo e feio.

– Tem razão, filha. É bobo pacas.

Obrigado, Marcelo Crivella, graças a você ficou mais fácil criar minha filha como anarquista.

* A foto em destaque é de um dos expositores da feira, Da Minha Mãe. Espero que possamos nos ver domingo que vem!

Alô, Cláudia Cruz, a história te chama

Toda vez que vejo a Cláudia Cruz lembro como a história é frágil.

No início dos anos 90, um amigo meu morava só com os irmãos depois de um acordo/divórcio complicado com os pais. Ele era o único menor de idade, mas o restante não era muito mais velho que ele. As idades rodavam em torno de vinte e poucos anos e apenas dois eram formados e trabalhavam. Era uma espécie de república/núcleo familiar de sitcom no qual fico muito feliz de ter feito participações especiais. Se tivesse escrito sobre isso na época, podia ter criado o Friends.

Cada irmão, como não podia deixar de ser, atendia a um esterótipo. O meu amigo era o sábio, apesar de ser o mais novo; o segundo era o devasso; o terceiro era o workaholic; e o mais velho era o romântico. Não é surpresa que o romântico fosse o que passava mais tempo com a gente; era um adolescente espiritual.

Ele costumava se apaixonar numa semana e se frustrar na próxima; suas paixões eram voláteis ao ponto de ele mesmo confundir os nomes das suas pretensas pretendentes; pra piorar, partia do amor ao ódio numa facilidade impressionante. Além disso ele alimentava as taras mais peculiares. Numa época, por exemplo, começou com uma paixão por grávidas que quase o fez ser preso no supermercado Pão de Açúcar após perseguir uma futura mãe por toda a loja.

Era um sujeito complicado, mas divertido. Em geral nos envolvia em seus dramas pedindo conselho e compartilhando suas emoções. Era uma divertida brincadeira de psicanalista que, confesso, teve seu quê na minha escolha de curso superior.

Num verão no início dos anos 90, ele apresentou a tara mais louca: encasquetou que ia casar com a Cláudia Cruz. Veja só, ele não falou namorar, pegar, trepar, ou nada do gênero. Ele falou CA-SAR. Quando começava o RJ TV, ele mandava todo mundo se calar e ficava comentando embevecido sobre a classe da sua amada da vez:

– Isso, sim, é mulher pra casar. Não é dessas vagabundas que se encontram pela rua. Imagina só a satisfação de chegar em casa e ter essa mulher te esperando. Que olhos, que rosto, que voz. Que VOZ!

Foi mais ou menos nessa época que ela virou a voz da Telerj. O doido, na falta de uma maneira de rever o RJ TV a todo momento, vivia ligando para os serviços de atendimento para ouvir a sua musa. O negócio começou a ficar tão preocupante que a gente resolveu ajudar além do usual

Acionamos um amigo que tinha a habilidade quase mágica de conseguir o telefone de qualquer pessoa só com a lista telefônica e acesso ao 102. Graças a ele tínhamos o telefone de todas as paquitas, para as quais, óbvio, nunca ligamos apesar de todas as nossas bravatas. Em dois dias de pesquisa, ele achou o telefone da Cláudia Cruz.

Anotamos o telefone num papelzinho e ofertamos a ele.

– O que é isso?
– Liga e vê.

Ele ligou, esperou, disse Alô, ouviu e resposta e imediatamente bateu o telefone na cara da Cláudia Cruz.

– Não acredito. Não acredito – ficou repetindo em choque.- Não a-cre-di-to!

Ao contrário do que imaginamos o acesso à sua paixão não o tornou mais ousado; pelo contrário, o paralisou completamente. Seu medo era jogar a chance fora. Usar a aproximação errada e perder para sempre a oportunidade de tornar a Cláudia a mãe de seus filhos. Para tentar ajudá-lo, resolvemos criar a maneira ideal para ele utilizar essa oportunidade.

Montamos uma força tarefa para produzir o telefonema. Alguns de nós escreviam o texto, outros revisavam, outros ensaiavam com ele e com o feedback dos ensaios criamos uma árvore de respostas que pretendia atender a qualquer situação que surgisse na ligação. Com isso, tínhamos certeza, o destino da Cláudia Cruz estava certo como esposa do irmão do nosso amigo.

Todo o processo tomou tempo. Não era a nossa atividade principal, se é que ir a escola e assistir à MTV pudessem ser considerados atividade principal, e as idas e voltas do roteiro, especialmente por conta das idiossincrasias do nosso Don Juan que insistia em incluir seus dotes de barítono no papo, atrasaram o telefonema em quase dois meses. Enfim, depois de diversos drafts e ensaios, ele estava pronto para ligar.

Óbvio que não foi uma ligação particular. Todos estavam lá para apoiá-lo. Suas calma e confiança animavam a todos. Ensaiamos mais algumas vezes, ele tomou uma dose de Steinhaeger para relaxar, colocou um copo d’água ao lado do telefone e lentamente discou: 5…4…2…X…X…X…X…

Dois segundos depois, o seu sorriso escorreu pela face e seus olhos perderam todo o brilho. Ele deixou o telefone cair no chão e escondeu o rosto entre a mãos, soluçando. Peguei o telefone e a própria Cláudia Cruz avisava:

– Esse número foi cancelado. Verifique o número e tente novamente. Muito obrigada.

Tentamos animá-lo, garantindo que o nosso amigo com certeza conseguiria o novo número, mas o baque tinha sido grande demais. Ele tinha perdido a esperança. Mesmo que tivesse o número não confiava mais que fosse conquistá-la.

Deixamos ele curtir o luto e quando o encontramos novamente, ele estava namorando com uma mulher mais velha, viúva e com uma filha, com a qual acabou casando e, pelas últimas vezes que o vi, vive feliz até hoje.

Quando eu vejo a Cláudia Cruz, lembro do irmão desse meu amigo e imagino o teria acontecido com o Brasil se ele tivesse conseguido falar com ela; se ele tivesse conseguido conquistá-la. Será que o Cunha teria perdido a gana de corromper tanto assim? Será que isso geraria um país mais justo? Será que a Cláudia Cruz era a proverbial borboleta que gera Tsunamis de corrupção? Nunca saberemos, mas sei que a história é frágil e qualquer oportunidade que temos de mudar a nossa vida e as daqueles que nos cercam tem que ser aproveitada. Afinal, quem sabe a pequena ação de coragem de hoje não torne o nosso mundo melhor amanhã? Mesmo que seja um simples telefonema a um afeto da televisão.

O Pula Pula da Corrupção

Imagino que a corrupção aconteça assim: naturalmente. Tava olhando a minha filha no Pula Pula quando uma mulher parou do meu lado.

– Oi, tudo bem? Tem mais alguém na fila? Depois da sua filha? Tem? O meu filho pode entrar depois? – apontou prum menino com cara de bobo que puxava pelo braço. – Será que tem alguém depois da sua filha? Tem?
– Acho que não. Melhor perguntar pro cara do Pula Pula.
– Cadê ele? Onde está o cara? Você sabe? O do Pula Pula? Sabe?
– Acho que está ali, ó.

Lá foi ela. Desenrolou com o cara e voltou pra perto de mim, apontando:

– Depois dela, é o meu filho. É o meu filho tá? É o meu filho. Esse aqui – disse apontando pro menino que estava com uma cara ainda mais boba. – Depois da filha dele, é o meu filho. OK?

Ficou um momento em silêncio ao meu lado e aí fez a proposta:

– Será que o meu filho podia pular junto com a sua filha? As crianças se divertem mais pulando juntas. Será que ela ia querer? Você acha que tem problema?
– Acho que não. Deixa eu perguntar pra ela. Filha, você quer pular junto com o amiguinho?

Minha filha assentiu com a cabeça. A mulher se adiantou.

– Sobe aí, filho. Sobe. Isso. Pula com a amiguinha. Vai. Vai.

O menino e minha filha começaram a pular juntos. Aí veio a segunda proposta:

– Vamos dobrar o tempo? Meu filho ia entrar depois, aí ia demorar 14 minutos. Quem estiver esperando ia esperar 14 minutos de qualquer jeito. Vamos dobrar o tempo? O meu filho e a sua filha ficam 14 minutos ao invés de 7. Ia ser assim de qualquer jeito.
– Sei lá. Não acho legal. Além disso, acho que tem aquele menino que está esperando. É mó chato.
– Ah, ele que espere. Você entende o que estou dizendo? Não está errado. Dobrar o tempo é natural. Eles iam esperar do mesmo jeito. Não é?
– Sei. O que você diz é lógico, mas não é ético.
– Como assim? Não estou roubando ninguém. Vou pagar pelo tempo dobrado.
– Sei, mas não me sinto bem. Sei como as crianças ficam quando precisam ficar esperando. É só uma questão de boa vizinhança.
– Boa vizinhança? Não entendi. Eles iam esperar 14 minutos mesmo. Estamos apenas usando o que é nosso direito. Se nossos filhos resolveram pular juntos, tem que ser beneficiados. Não acha? Não estou certa?

Antes que eu pudesse responder, ela saiu em direção ao cara do Pula Pula. Desenrolaram brevemente e ela voltou, acompanhada dele, apontando pra mim:

– Aí, fala pra ele. Fala pra ele.
– Tem problema, não, amigo- o cara do Pula Pula decretou.- Pode ficar os 14 minutos.
– Mas eu não quero…
– Se ele deixou- ela me cortou,- pra que fazer disso um cavalo de batalha? Deixa as crianças 14 minutos. Ó, lá, como eles estão se divertindo. Vai, filho, pula com a amiguinha. Pula.

As crianças pulavam alheias às maquinações nas quais eu estava sendo envolvido. O menino nem parecia mais tão bobo. Eu era o verdadeiro bobo na situação. Pela minha filha, decidi bater o pé e defender minha honra:

– Aqui, ó, não vou compactuar com isso. Não quero deixar minha filha 14 minutos. Combinei com ela 7 e 7 ela vai ficar. Se você quiser deixar seu filho 14 minutos, não é problema meu. Pode ficar, mas eu não vou ficar.

A mulher e o cara do Pula Pula se olharam surpresos. Ele segurou o meu braço e me puxou pra perto dele:

– Se for pelo dinheiro, pode ficar tranquilo. Essa é por conta da casa. Além disso, já passaram os 7 minutos há um tempo.

Olhei para a minha filha, pro menino bobo e pro menino já impaciente na fila. Mesmo contra a minha vontade tinha tomado parte do esquema. Poderia ter firmado a minha posição, retirado minha filha do Pula Pula, mas era tarde demais. Mesmo sem querer tinha sido objeto e ator de um esquema de corrupção.

Minha filha, talvez sentindo minha derrota, parou de pular e disse:

– Papai, quero sair. Estou cansada.

Em silêncio a tirei do Pula Pula. Pelo menos não fomos até o final do abuso.

O menino que esperava na fila se aproximou para subir no Pula Pula e ainda consegui ouvir a mulher fazendo a mesma proposta que fez pra mim para o próximo pai. Não sei o que ele respondeu, mas desconfio que o menino que de bobo não tinha nada dormiu bem após passar a noite inteira no Pula Pula; enquanto eu a passei acordado sem saber como me sentir ou como lidar com o que aconteceu.

O aniversário de “de Jesus”

Pai, hoje, se estivesse vivo, você completaria 92 anos. Ou 93. Ou 91, dependendo de quem contasse a história. Para alguns, você teria dito que, quando seus pais lhe deixaram órfão com menos de 10 anos, para que entrasse no colégio militar como interno era importante parecer mais novo. Ou mais velho. Ninguém chegava a uma conclusão. Quando pressionado, você sempre dizia: “Faz tanto tempo que eu nem me lembro mais. Usa o que estiver na certidão”. Então, 92.

O mesmo valia para a sua data de nascimento. Uns diziam que era 24, outros 25. Até nesse ponto, você também desconversava. Dizia que aniversário não importava. “Aniversário é todo dia”. Mais provável que fosse 25, o que explicaria o “de Jesus” no seu nome.

Quando você era vivo, seu aniversário tornava ainda mais pesada a minha maratona natalina. Logo eu, de família cristã nova, descendente de judeus de pai e mãe, vítima e produto da educação beneditina, ateu não praticante, tinha uma das mais complexas rotinas para comemorar o aniversário de Jesus.

No dia 23 tinha sempre um amigo oculto de tarde. De noite, a ceia antecipada da minha mãe. No 24, o almoço de enterro dos ossos. No 24 de noite ia em alguma festa onde minha mãe estivesse para lhe dar um abraço, para depois seguir à casa da minha sogra que sempre rendia um estica com os amigos da minha mulher, então namorada. Já totalmente exaurido, no 25 ainda tinha o seu aniversário. Ia das comemorações de Jesus a “de Jesus” em três dias de intensa comilança.

A festa não era lá essas coisas. A sua família oficial tinha, sim, suas razões para não ir com a minha cara, mas eram educados. E você não parecia aproveitar nada. Frente àquele grupo de pessoas comemorando seu aniversário, misturado com a festa de enterro dos ossos, você parecia distante. Não era o cara que tinha me criado.

Não era o cara que abraçava desconhecidos na rua, fingindo conhecê-los e puxando papos genéricos para constrangê-los. Não era o cara que passava trotes comigo e meus amigos de 8 anos de idade, entre campeonatos de arroto. Não era o cara que alegava conhecer qualquer cidade do nordeste, citando o açude, a igreja matriz e a corrupção dos políticos como referências. Não era o cara que comprou um celular de brinquedo para atender na rua e passar a quem lhe olhava dizendo “É pra você”. Não era esse cara.

Era um cara de uma família estranha. Um senhor que se presumia responsável. Um homem abatido pela suas próprias escolhas e pela sua falta de coragem de ser quem era e podia ser. Era um cara triste.

Inevitavelmente, após o seu câncer, foi esse papel opressivo e a depressão que ele gerou que o levaram há 14 anos atrás.

Sei que não fiz tudo o que podia. Nunca fazemos. Sempre tem algo mais a fazer. Podia ter insistido nisso ou naquilo, apesar de todo o time contra. Mas não deu. Confesso que chegou uma hora que desisti. Pelo menos desisti depois de todo mundo que só fingiu que tentou. De todo mundo que não o conhecia de fato. Não quero dizer “se você tivesse pelo menos…”, pois não quero culpá-lo. Não há culpas a distribuir. Há simplesmente a constatação que a vida muitas vezes não faz o menor sentido.

Mas às vezes faz. Olhando para a sua neta que nunca teve a oportunidade de conhecê-lo, não me furto a ver pequenos sinais seus nela. Boa parte disso é projeção, uma parte é desejo e outra é fruto da criação que lhe proporciono. Se puder fazer com que ela tenha pelo menos um pouco da sua criatividade e da sua alegria, considero que terei feito um bom trabalho como pai. Assim como você o fez, mesmo entre acertos e erros.

Então, nesse dia do seu aniversário, ou não, em que completaria 92,91 ou 93 anos, mesmo envolto em todas as incertezas que a sua vida e a nossa relação sugerem, sinta-se abraçado. Sinta-se abraçado no momento em que sua neta abrir seus presentes de Natal e vier me dar um beijo enquanto faz alguma gracinha que me remete a a você. Sinta-se vivo nessa relação e no orgulho que sinto de ser seu filho. Saiba que sempre estará vivo nas histórias que me contou mas nunca escreveu. Pois, se não as escreveu nem garantiu a imortalidade prometida por Leonard Cohen “when you done a line or two”, eu estou aqui as escrevendo para você. Elas merecem ser contadas e você merece que alguém as conte. Fico feliz que seja eu a fazer isso por você.

Feliz aniversário, “de Jesus”.

A traição do eleitor

Meu pai tinha um companheiro de FEB que de 4 em 4 anos se candidatava a vereador. Como um relógio, três meses antes da eleição municipal, lá vinha ele bater na nossa casa. Carregando um pacote de santinhos, ele fazia a longa jornada de Deodoro ao Flamengo sobre as próteses e as muletas que sustentavam seu corpo desde que perdera as duas pernas na Segunda Guerra. Seu slogan sempre mudava, mas nunca saía da linha: “Ele lutou por nós e vai continuar a lutar.”.

Se vontade contasse, ele seria o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Com a sua pensãozinha, bancava sozinho a campanha onde prometia melhorar saúde, educação, segurança e, óbvio, a condição dos ex-combates que queria representar. Como cumpriria essas promessas? Ele não sabia, mas tinha certeza que lutaria e ganharia. Como fez na guerra.

Era um analfabeto político mas queria escrever seu nome na história da câmara municipal carioca. Como, acredito, a maioria dos candidatos que fazem a festa da democracia parecer algo mais do que o convescote sinistro ao qual comparecem sempre os mesmos malandros.

Alheio a essas maquinações que movem a política, ele fazia a sua parte, lutando voto a voto pela cadeira a qual sentia ter direito moral. Por isso de 4 em 4 anos, ele vinha ao meu pai em busca de algo mais que um voto; em busca do apoio político e da influência que meu pai fingia ter.

Eles sentavam no sofá e discutiam estratégia de campanha durante a tarde toda. Parecia até que era sério. Colégios eleitorais, locais para corpo a corpo e às usuais críticas ao material gráfico eram discutidas à exaustão, antes de avaliarem as suas chances naquela eleição. A cada ano meu pai aumentava a quantidade de votos que conseguiria para ele. Num ano eram 100, no outro 500, até que um ano chegou a prometer 10 mil.

Quando ele ia embora, após me entregar um santinho, mesmo sabendo que eu não tinha idade para votar, eu perguntava ao meu pai:

– Como você vai conseguir esses votos todos?
– Não vou- meu pai respondia.- Uns foram feitos para concorrer e outros para ser eleitos. Deixa ele se divertir com o seu papel- e ia para a cozinha jogar o pacote de santinhos na lata de lixo.

Na época da ditadura, essas promessas nunca pareciam vazias. Os dados eleitorais não eram transparentes como agora e tudo podia ficar diluído nos votos que o candidato bem intencionado conseguia com seu próprio esforço. Mesmo assim, eu sentia que a cada visita aumentava a desconfiança do amigo sobre as bravatas do meu pai.

No ano dos 10 mil, para azar do meu pai, as coisas mudaram de figura. Era fim do governo Sarney e pela primeira vez os votos seriam divulgados por seção eleitoral. Meu pai não se ligou do impacto que isso teria em suas promessas até que o candidato bateu lá em casa depois da apuração.

– Cadê os 10 mil votos que você me prometeu? – o candidato pressionou o meu pai.
– Ué, não rolou?
– Não, não rolou. Eu tive só 2732 votos.
– Ó lá, já foi um bom resultado. 2000 votos já um bom resultado. Eu corri atrás, mas você sabe como é eleitor: um bicho traíra pacas.
– Ah, é? Ah, é? É traíra mesmo. Quer ver só? Olha aqui na sua seção: nem um voto pra mim. Nem um voto. Você nem votou em mim!
– Pronto, tá explicado!
– Tá explicado o quê?
– Taí, ó. Óbvio que votei em você. Logo tá explicado. Foi fraude. Foi fraude.

O amigo depois de um momento de surpresa, se acalmou, pediu desculpas ao meu pai pela falta de compostura e partiu sem me entregar nada. Quatro anos depois ele não voltou. Ou desistiu de se candidatar ou desistiu de acreditar no meu pai.

Meu pai nunca mais falou dele. Estava esquecido como uma filipeta de eleição passada. Hoje votei e pensei como esquecerei rapidamente daqueles em que votei e em que não votei; como reclamarei daqueles que apoiei esquecendo da minha implicação em toda essa lambança. A festa da democracia sempre termina em amnésia alcoólica e ressaca moral. Meu pai tinha razão: somos traíras pacas.