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Por que não estou indignado

Pelo que me dizem, o povo está indignado. Ouço pedaços de conversas nos botequins, leio bravatas na internet, vejo as manchetes nos tabloides e assisto a declarações nos telejornais. In-dig-na-ção. Por toda a parte. Como puderam roubar TANTO? Como fizeram isso com A GENTE? Como traíram a NOSSA confiança? Entendo o sentimento, mas não consigo ficar indignado.

Explico. Indignação requer surpresa.

– Como você pôde fazer ISSO comigo?
– Eu nunca pensei que VOCÊ fosse capaz disso.
– Quase não acreditei quando me contaram o que VOCÊ fez.

Indignação é uma sensação que depende de uma expectativa positiva sobre algo que posteriormente se mostra errada. Inesperadamente. Indignação requer esperança num mundo melhor. Uma esperança que eu nunca tive. Uma esperança que nunca terei.

Nunca esperei que o governo, ou qualquer instância de poder, fosse capaz de algo mais do que advogar e agir em ganho próprio. Nunca considerei que os Joões e Joanas Honestos das campanhas políticas fossem probos, bem intencionados ou, pelo menos, competentes. Nunca imaginei que um sistema tão não natural visasse o bem comum. Nunca confiei nos outros seres humanos.

Explico. Sou um ser humano também.

Apesar de não ser motivado pela Ira, Inveja, Soberba ou Avareza, sou guiado pelos outros 3 pecados capitais: Gula, Luxúria e Preguiça. Principalmente preguiça. Sou afeito a sensações. Todos os seres humanos são. Somos todos PECADORES.

Ao invés de esperar que o nosso caminho natural seja a bem aventurança, aprendi, desde cedo, que somos apenas guiados pelos nossos erros. Pelos nossos pecados preferidos. Se dermos a chance de alguém comer muito, encontraremos Glutões. Se mostrarmos riquezas, atrairemos Avaros. Se oferecermos poder apenas alimentaremos os Soberbos.

Nunca me surpreendeu que políticos, empreiteiros, ou milionários pensassem em algo mais do que dinheiro. Nunca imaginei que, dada a oportunidade de usar o poder, seres humanos fariam algo mais do que se locupletar. Nunca imaginei que a mão que afaga não quisesse matar com a mesma doçura.

Por isso não me indigno. Pois não perdi minha dignidade. Quem perdeu foram eles e quem os apoiou. Por isso não me indignarei quando os salvadores da pátria de hoje com certeza absoluta se tornarem os vilões do amanhã, como os vilões de hoje já foram os salvadores da pátria de outrora. Por isso não me indigno. Pois não dei, nem vendi a minha dignidade a ninguém. Pois a minha dignidade só pertence a mim e não a países, partidos, profetas ou pessoas. A minha dignidade sou eu.

Por isso não estou indignado e por isso, acredito, você não deveria perder a sua dignidade também. Afinal se há algo que ninguém pode tirar sem o nosso consentimento é a nossa dignidade. E se você, no seu grito de horror, declara aos quatro ventos estar indignado e ser indigno, tenho certeza que se sente culpado pelo mal que nos fazem passar. Tenha feito algo ou não. Mas isso não interessa mais, pois se você está indignado a culpa é só sua.

Eu não estou indignado. E você? Está?

Trainspotting 2 e a maldição do filme sobre a meia-idade

Saí de T2: Trainspotting com um gosto amargo na boca. Não, o filme não é ruim. É óbvio, não consegue captar o brilhantismo visual do primeiro, que 20 anos depois já ficou ultrapassado; nem a mensagem, hoje repetida à exaustão, surpreende, apesar de manter a sua força. Os problemas não foram esses. O principal problema que me causou esse mal estar foi perceber que ninguém sabe fazer filmes sobre a meia-idade.

Isso é uma coisa que me atinge diretamente. Por mais que não pense nisso a todo momento, estou na meia-idade. Tenho 42 anos e considerando que posso viver até uns 80, passei do limiar da metade da vida. Se continuar sedentário e obeso, essa expectativa cai e já posso me considerar da terceira idade, o que explicaria por que o período dos meus 20 e poucos anos parecia tanto uma crise de meia-idade. Mas isso não vem ao caso.

A ficha que me caiu é que somos ótimos para fazer filmes sobre a juventude e sobre a terceira idade, mas os filmes sobre a meia-idade sempre são um lixo.

Os filmes sobre a juventude são normalmente coming of age stories, histórias sobre amadurecimento. Guiados pelos nossos hormônios ou por crenças idiotas, fazemos merda atrás de merda até que por força das circunstâncias ou por uma revelação descobrimos o que é ser adulto.

Nos anos oitenta, essas histórias eram contadas com adolescentes e à vezes até crianças. Hoje nosso coming of age tá rolando lá pelos 30 anos. Eita, adolescência prolongada.

Os filmes sobre a terceira idade já pegam um caminho oposto; em geral são filmes sobre um resgate. Um resgate de virilidade, de liberdade, de amor, de emoção. Coisas que ficaram perdidas pelas trevas da meia-idade e que precisamos resgatar para novamente nos sentirmos jovens.

O filme normalmente termina com uma morte digna ou com a esperança que haverá (bastante) vida pela frente. Duas mentiras.

Quando chegamos aos filmes da meia-idade a porca torce o rabo. Primeiro, os personagens em geral são escrotos; gente amargurada que é vítima das suas próprias manias e não percebe o mal que realiza ao seu redor. São opressores porque podem ser e não se importam com os outros pois sofreram demais e consideram ter esse direito. Segundo, o evento deflagrador da ação é em geral uma morte. Um parente, um dos amigos de um grupo, até mesmo um desconhecido. Tem sempre alguém que faz esse povo sem carisma perceber que a morte está chegando e que eles precisam mudar. Invariavelmente a sua resposta é tentar ser jovens, sem a graça, o vigor ou a inocência da juventude. Ou seja, eles se mostram os idiotas que são. Depois de darem com os burros n’água e aceitarem sua mortalidade, retornam à sua escrotidão usual com um pouquinho mais de doçura.

Até os poucos filmes legais sobre a meia-idade (o Reencontro, Para o Resto das Nossas Vidas) seguem esse modelo e nos expulsam da sala o cinema com uma sensação de insuperável imobilidade.

Olhando por esse prisma, tanto as histórias de juventude como as da terceira idade são histórias de mudança, de rebelião. As da meia-idade são confirmações do status quo. Casais separados se juntam novamente, famílias se reúnem apesar de se odiarem, negócios falidos prosperam apenas o suficiente para não forçarem os protagonistas a mudarem de carreira. Enfim, histórias reacionárias. Enquanto os filmes de juventude e terceira idade te dizem “Do something”, os da meia-idade dizem “É isso o que temos pra hoje, mas relaxa”.

T2 foi por esse caminho. Os amigos aparentemente maduros dentro das suas perversidades são reunidos por causa da morte da mãe de Renton e retornam as suas atividades de juventude para no final (spoiler?) descobrirem que a vida é assim mesmo e se recolherem as suas respectivas insignificâncias.

Não vou dizer que não me diverti. Foi como encontrar velhos amigos e ouvi-los contar aquelas histórias épicas dos “nossos tempos”. As homenagens visuais são bem usadas e, se você vir o primeiro filme logo depois, como eu fiz, fica patente como os personagens ainda mantém a mesma força do primeiro filme, assim como o discurso “Choose Life” atualizado para os tempos atuais.

Mesmo assim, saí mal do cinema. O que a ficção tem a dizer pra minha idade é isso? Bom, você vai fazer 20 anos de carreira no ano que vem e é por aí que você tem ficar mesmo. Pense nas suas responsabilidades e tente inutilmente sufocar as suas culpas que, quando e se chegar na terceira idade, você pode resgatar um pouco de vida para não dizer que foi tudo um desperdício de tempo.

Num mundo em que estamos vivendo cada vez mais, é um crime que a nossa ficção sobre a nossa crescente meia-idade seja só isso. Talvez o verdadeiro crime seja pensarmos na vida como um único ciclo de Descoberta, Decadência e Aceitação da Morte.

Talvez precisemos olhar para a vida como uma série de ciclos que não se ligam mais a idades específicas. Mas, enquanto a indústria do cinema olhar para os espectadores como públicos alvo, e não como pessoas, continuaremos vítimas desses contos morais divididos pelas faixas etárias de 18 a 35, 35 a 65, 65 a morte, sobre como a vida é boa e só nós não percebemos.

Segundo a indústria do cinema, escolher a vida (choose life), e não simplesmente aceita-la, é um esporte para jovens.

Billions e a brincadeira de Mau

Quase toda a noite, perto da hora de dormir, a minha filha quer brincar de Mau. Conhece? Não?! É assim que ela explica:

– Eu sou o Bom. Eu vou pegar um brinquedo e finjo que vou dormir. Aí você é o Mau e tira o meu brinquedo. Depois eu sou o Mau.

É uma dinâmica interessante. A ação do Mau “contra” o Bom pode ser agressiva, dissimulada, manipuladora ou simplesmente caótica. A reação do Bom também varia. Revolta, medo, tristeza, negociação. Vale de um tudo nessa brincadeira. E não há motivo para ser Mau, nem Bom. Apenas os somos. É exatamente assim que me sinto quando vejo Billions. Me sinto assistindo a uma brincadeira de Mau.

Billions é uma série da Showtime que nos põe no meio do conflito entre o promotor de Nova York, Chuck Rhoades, vivido por Paul Giamatti, e o bilionário Bobby “Axe”, interpretado por Damian Lewis. É uma série rara. É uma série com dois protagonistas e dois antagonistas. É uma série que escapa à dicotomia do bom e do mau. Os personagens principais, assim, como minha filha brincam continuamente de mau, sem a narrativa pender a favor nem de um nem do outro.

Como não podia deixar de ser os personagens são espelhos. Chuck, o promotor, vem de dinheiro antigo, joga no limite das regras sempre as dobrando ao seu favor. Axe é um self made man, sempre encontrando as brechas que lhe permitem tirar o máximo de ganho. Ao contrário de conflitos tradicionais, não há um objeto que os dois desejem. Eles apenas querem mostrar a superioridade sobre o outro e vencer essa luta que ninguém lembra quem começou.

Em diversos momentos, são mostradas aos dois personagens opções para abandonar a disputa, mas eles se negam a parar de lutar. Continuam firmes no seu desejo de destruir um ao outro. Um pissing contest genial que mostra que, apesar de serem opostos, os personagens são iguais. Os dois são bullies.

Chuck é o Bully nerd com a cabela enfiada nos livros se preparando para a próxima briga de moral. Axe é o Bully marginal com sua camiseta do Mettalica esperando a próxima vítima dos seus insultos.

O incrível é que isso quebra um dos maiores tabus da dramaturgia: ter um protagonista pelo qual possamos torcer. Aqui temos dois que amamos e odiamos a todo momento.

O recado de Billions para nós roteiristas é que não precisamos de heróis. Precisamos de conflito. Taí uma lição que a indústria do cinema, tão empobrecida de idéias que depende de SUPER heróis e SUPER vilões para sobreviver, deveria aprender. Uma lição que está em Édipo, Othelo, Ricardo III. Uma lição que foi abafada pelo moralismo do Irmãos Grimm e pela ganância de Walt Disney que transformaram a ficção numa fábrica de lições de moral. Ficção não é isso. Ficção não é redenção. Ficção é desejo, conflito e emoção. Ficção é brincar de Mau. E brincar de Bom. Sem lições de moral. Só pelo prazer de podermos trocar de papéis e agirmos como somos. Humanos. Bons e maus. Ao mesmo tempo.

Ah, eu te disse pra assistir Billions? Não? Então, vá lá assistir. Agora.

Sejamos objetivos

Você sabe: eu sou direto. Quando se trabalha na minha área é preciso. Senão perdemos a atenção da pessoa. Entende o que estou dizendo? Por isso vou tentar resumir para você o que estou querendo dizer. Não que seja uma coisa só. Não é. São duas. Talvez três. Por isso é tão importante ser conciso. Se eu não conseguir deixar claro em poucos minutos o que eu quero te dizer, e é muita coisa, acho que  terei falhado na minha comunicação. E comunicação, você sabe, é importante. Não adianta a gente ficar falando e falando sem chegar a lugar nenhum. É importante, não, é essencial ter foco, meta, direção, clareza no que se quer dizer. Senão não chegamos a lugar nenhum e aí você já viu. Né? Por isso, como eu estava te dizendo, vou ser direto. Direto como normalmente sou. Afinal fui treinado para isso. Trabalhando tantos anos na minha área a gente pega jeito. Tanto pega que fica até chato. Eu falando aqui e já fico imaginando você pensando: “Que cara chato. Por que ele é tão direto? Não dava pra florear um pouquinho o que vai dizer? Contar uma piada, uma historinha? Dar um colorido nesse discurso?”. Eu te respondo: não, não dá. Se a gente perder tempo, que é um lance precioso, não estamos sendo produtivos. E isso a minha profissão me ensinou: a ser produtivo. Por isso talvez tenha me dado tão bem na minha carreira. Ser direto e conciso sempre ganhou o coração dos meus chefes e clientes. Teve uma vez por exemplo em que eu tinha que passar uma informação para o meu chefe, ou para um pessoal em treinamento, já não lembro direito, e aí eu tinha um tempão para falar. Me lembro de ter comentado com alguém, mas não lembro direito quem era, que era tempo demais. “Por que gastar tanto tempo para falar algo tão simples?”. Não que fosse algo simples. Era um lance complexo. Sabe? Como o que eu tenho para te falar. E não era só uma coisa. Eram duas, talvez, três. Mesmo assim, eu já te disse, acredito que o melhor é ser direto. Ser conciso é o objetivo. Ou, quem sabe, ser objetivo é ser conciso. Espera só um pouquinho. Vou anotar isso. Legal, né? Ser conciso é o objetivo, ser conciso é ser objetivo e… olha só, “Ser conciso e objetivo”. Vou usar numa próxima reunião. Quase um poema. Mas objetivo, ao contrário dos outros poemas. E conciso, claro. Claro, né? Como estava te dizendo, o meu lance é resumir. Deixar as coisas claras de forma objetiva. Direta, mesmo. Sejam uma, duas ou três coisas. É preciso focar no seu propósito e planejar a sua comunicação. Sim, o planejamento é fundamental. Não é perda de tempo. É investimento. Por exemplo, se eu não tivesse planejado o que e o como falar com você hoje, nós estaríamos perdendo nosso tempo aqui ao invés de sermos objetivos enquanto te digo a coisa que tenho a te dizer. Quer dizer, as três ou quatro coisas das quais precisamos falar. Por isso vou te pedir atenção. Afinal não adianta eu ser objetivo e você não escutar. Lá venho eu sendo objetivo e você pensando na morte da bezerra. Aí não deu. Se eu for objetivo, e como, já te disse, pretendo e serei, as informações serão passadas rapidamente, de forma cirúrgica. Se eu não tiver a sua atenção, vai ser como se um passarinho, um passarinho, não, um míssil passasse por você e você nem notasse. Sacou? Nem preciso dizer que o meu objetivo aqui, quer dizer, o objetivo de qualquer comunicação é que haja um entendimento. Não só seu, mas de ambas as partes. Uma equalização de informações e desejos. Enfim, toda a comunicação tem um quê de negociação. Eu te digo algo, você escuta, e vamos afinando a nossa concordância sobre a questão para que a verdade coletiva surja. E dessa verdade coletiva sobre essas coisas, quatro ou cinco, que eu vou te falar, é preciso surgir uma ação. Um plano integrado, uma agenda compartilhada que irá nos levar finalmente, de forma objetiva e certeira, é óbvio, onde queremos chegar. Chegou até aí? Claro que chegou. Você é uma pessoa esperta, inteligente e sagaz. Aposto que já tem a sua opinião formada, mas vai levar, com certeza, em consideração, de forma bem objetiva, o que te disse sobre as coisas, as cinco ou seis coisas, que eu tinha pra te falar, quando for emitir a sua opinião. Aí você vai definir a sua concordância, ou não, com as questões que a gente acabou de discutir. Então você concorda? Por favor, seja conciso na sua resposta, assim como eu fui na minha explanação. Posso contar com isso? Afinal ser objetivo é ser conciso. E ser conciso é o objetivo. Lembra que eu te falei isso? Claro, claro que lembra, fomos claros e objetivos nessa nossa discussão. Mas, então, não vamos ficar nos repetindo. Sejamos diretos. Então, o que você tem a dizer sobre essa, quer dizer, essas questões? Pode pensar. Pode pensar. Mas seja direto. Não temos tempo a perder. Ou será que temos?

Ódio rotativo

Nos anos 80, um dos meus programas preferidos com o meu pai era vê-lo brigar na Mesbla. Se você nasceu depois do fim da hiper inflação, deixa eu te situar. A Mesbla era uma rede lojas de departamentos assim como a Sloper e a Sears. Desculpe, referências tautológicas. Estou tentando explicar a um deficiente visual o que é o verde dizendo que é a mistura do azul com o amarelo. Esclarecendo melhor, Lojas de Departamentos eram shoppings primitivos. Ao invés de conglomerados de lojas num mesmo prédio, tínhamos uma só enorme loja com diversos departamentos, de lingerie a lanchas passando por instrumentos musicais e brinquedos. Pra quem não sabia exatamente o que queria comprar era ideal. Como os shoppings. Assim como para quem precisava comprar a crédito ou a prestação.

Na época da hiper inflação, crédito era uma coisa difícil. Bancos só serviam para guardar a sua poupança e dobrar o seu salário para ser usado no mês seguinte quando os preços tinham triplicado. Não eram essas máquinas de vender dinheiro e produtos financeiros de hoje. Viver nos anos 80 não era mole, mas precisávamos consumir, e por isso apelávamos para os carnês, que funcionavam como poupanças exclusivas para o consumo, como o Baú da Felicidade, e para o crédito das próprias lojas através de cartões que só podiam ser usados nelas. A inadimplência, acredito, era alta, mas escravizar um grande número de fregueses a sua marca devia ter lá suas vantagens.

Meu pai, como os demais brasileiros, não agiu diferente. Não tínhamos carnê do Baú, mas tínhamos um cartão. Da Mesbla. No início foi genial. Ganhei muitos brinquedos, que eu queria, e um violão e roupas, que eu não queria. Minha mãe deve ter feito lá suas compras e até o meu pai, um dedicado porém pretenso avaro, deve ter comprado uma coisa ou outra. Mas depois do sorvete, sempre vinha o palito. Então, todo mês, sempre num sábado, meu pai me pegava em casa e nos encaminhávamos para a Mesbla da rua do Passeio em peregrinação com um saco de dinheiro para pagar o cartão nos guichês da loja. Pensando bem agora tenho a impressão que ele achava que isso ia me ensinar algo. Se era isso, lamento, falhou.

No primeiro mês do cartão, meu pai entrou todo pimpão na loja, cumprimentou todo mundo e pagou sem reclamar. No segundo, entrou calado, esperou quieto na fila e conversou baixinho com a caixa sobre opções de rolamento da dívida. No terceiro, entrou batendo os pés, esperou impaciente na fila, bufou em frente a caixa e entregou o dinheiro contando nota a nota. No quarto…

Um aparte. Se hoje os juros são surreais, imagine esses mesmos juros com planos econômicos, mudança de moeda e preços corrigidos pela inflação. As alterações de valor real poderiam até ser pequenas mas a impressão de mudança era gigantesca. Não acredita? Então deixa eu te falar. Pra eu comprar revistinha na banca era preciso consultar uma tabela. As revistas não tinham preço, tinham um código que era reajustado mais de uma vez na semana. Por isso íamos todo dia na banca para comprar mais barato quando elas eram lançadas. Sentiu o drama?

Onde estava mesmo? Ah, no quarto mês. No quarto mês meu pai surtou. Entrou na loja nervoso, suando, mas chegou num espírito conciliador, desejando secretamente que a loja concordasse com ele. Ouviu as explicações do caixa, do gerente e até do segurança da loja. Não se convenceu. Tinha algo errado. Ele sabia que tinha algo errado. Tentou argumentar. Ficou mais nervoso. Deu uma volta na loja para se acalmar. Não adiantou. Voltou pros guichês. Falou tudo de novo esperando um resultado diferente. Não rolou. Aí o lance fedeu. Ameaçou, gritou e, depois de toda a algazarra, pagou a contragosto o valor total, chamou a atenção dos demais fregueses, rasgou o cartão teatralmente na frente de todo mundo e me puxou pra fora da loja:

– Nunca mais voltamos aqui, filho. Mesbla nunca mais! Nunca mais!

Mentira. Na semana seguinte voltamos. Minha mãe precisou de uma batedeira e meu pai foi pedir uma substituição do cartão:

– Desculpe, perdi o meu- alegou submisso.

Depois dessa primeira vez, o ciclo se repetiu. Muitas vezes. De quatro em quatro meses íamos do desenfreado êxtase do consumo ao espetáculo da rejeição do sistema capitalista. As lojas mudavam, mas o ciclo sempre estava lá. Sempre encerrado com o mea culpa do “preciso de crédito de novo”. Como eu disse, não era mole viver nos anos 80.

Depois de anos na faculdade de psicologia, agora entendo que esses rituais tinham lá sua razão de ser. Meu pai precisava reafirmar seu poder no mundo pelo direito ao consumo ao mesmo tempo que precisava externar a sua insatisfação em ser escravo desse mesmo processo. Neurótico básico. Odeia o que deseja. E ama se odiar. Como todos nós.

Ontem, fui pegar dinheiro no banco e o caixa eletrônico já informava sobre as mudanças no crédito rotativo. Se usado por mais de 30 dias ele seria bloqueado e o cliente obrigado a negociar a dívida. Não acho mal negócio mas vai interferir nos processos neuróticos de muita gente.

Infelizmente, ao contrário do meu pai, esse povo não vai ter a sua disposição uma plateia para vê-lo rasgar seu cartão para depois, em segredo, ir na semana seguinte pedir crédito novamente. Hoje, a distância imposta pela automatização dos sistemas de opressão nos impede de ter esses momentos de catarse. Vamos da raiva à resignação em segundos. Até o processo de destruição do nosso ego se tornou mais eficiente.

É claro que em alguns momentos a corda rompe e a gente surta. Me lembro de ter rasgado um talão de cheques novinho no meio de um carnaval de raiva do banco.

– Nunca mais uso cheque! – uma promessa que eu cumpri.

Mas isso foi no final dos anos 90. Na mesma época teve um amigo meu que, ao descobrir no meio de uma madrugada num 24 horas que não tinha dinheiro, mijou no banco todo. E tem aqueles casos mais atuais que a gente acha no youtube do pessoal que perde a linha com os pobres coitados dos atendentes telefônicos, que, como as tropas nazistas em Nuremberg, repetem a exaustão que só estão cumprindo ordens.

Apesar desses rompantes anedóticos, com certeza, nossas possibilidades de resistência e revolta inócuas estão reduzidas. Aprendemos nosso papel na máquina e, por mais que sintamos dor ao sermos espremidos, sofremos em silêncio soltando pequenos ais nas redes sociais.

Nesse cenário de crise talvez isso se torne uma oportunidade para o setor bancário. Você ganha direito a dar um tapa num gerente por ano no pacote de serviços hiper ódio master. E ao comprar nosso título de capitalização “Eu te odeio” concorre a dar um chute na bunda do nosso presidente.

E por que parar no setor bancário? A política que nos dá tanto ódio inextravasável é ideal. Todo ano sortearemos brasileiros que escolherão políticos para, supremo deleite, tomar um generoso copo de chorume em rede nacional. Se somos escravos dessas ignorantes elites financeiras e políticas e nada podemos mudar, acho importante que comecem a pensar em métodos para lidar com o nosso ódio ou perderão rapidamente os burros que puxam suas carroças por loucura, doença ou morte.

Já posso escolher o meu político para tomar o copo de chorume?

Obrigado, Crivella

Até que demorou.

Na semana passada, uma notícia passou discretamente pelos jornais cariocas: seria montada uma Operação “Linha Dura” na Praça São Salvador. O responsável pelo informe, o Coronel Paulo César Amêndola, secretário de Ordem Pública(?), alegou que os moradores estavam reclamando de “som alto, consumo de drogas, impedimento do acesso de carros dos moradores, e”, segundo ele, até “sexo nas calçadas” (sic).

Moro na frente da Praça e, confesso, não é mole. Meu apartamento é de fundos e às vezes, até no meio da madrugada, ouço palmas e gritos. O consumo de drogas também é visível, mas ao impedimento de acesso e ao sexo nas calçadas ainda não fui apresentado. A Praça São Salvador, como todos os agrupamentos humanos no Rio de Janeiro é, sim, uma bagunça.

Na sexta os guardas municipais chegaram e já esperávamos algum bafafá, mas choveu. No sábado, idem. Ficou pra depois.

No domingo, levamos a nossa filha ao parquinho, e a tradicional feirinha não estava lá. O chorinho corria solto, mas as barracas não estavam montadas e o público que frequenta a Praça no domingo pelo jeito decidiu ficar em casa. Em seu lugar apenas uma aglomeração dos expositores da feira em frente ao Corpo de Bombeiros discutindo com representantes da guarda municipal. Fui obrigado a conferir.

Pelo que escutei a feira não tinha todos os documentos necessários para ser montada e a lei do artesão, invocada pelo pessoal Chorinho para continuar com suas atividades, não serviu para garantir o seu funcionamento. A indignação era grande. Alguns dos expositores me reconheceram por conta de O Salvadorenho, meu fanzine, e me convocaram:

– Ó, é o cara do jornalzinho. Vem cá. Vem cá ouvir o que está acontecendo.

E eu ouvi. Gente reclamando que ia jogar quilos de comida fora; gente reclamando que o Chorinho não foi solidário e, ao invés de parar, continuou como se nada estivesse acontecendo; gente reclamando que a guarda estava atacando outras questões que não as alegadas pelo nosso estimado coronel; gente reclamando que se a feira era ilegal por que não foi fechada há mais tempo; gente reclamando do aviso da suspensão da feira em cima da hora; gente reclamando disso; gente reclamando daquilo. Gente reclamando.

Tentei botar panos quentes e pedir que o pessoal se unisse. Ao invés de ceder ao golpe mais antigo do governo (colocar cidadão contra cidadão), era importante que nos uníssemos contra governantes que só aplicam as leis quando lhes é conveniente. Era importante focar em ações para mantermos um dos raros espaços democráticos da cidade em funcionamento. Era importante, ao invés de só fazer resistência, encontrar uma maneira de nos tornarmos parte da solução e não do problema. Falei de tudo que era importante, mas ninguém me ouviu. Também pudera, analisando o meu discurso, estava sendo mais esquivo que o pessoal do município que impedia o povo de trabalhar sem uma justificativa verdadeiramente forte. Em minha defesa, não tinha o que dizer pra eles. A feira estava ilegal? Pelo jeito, sim. Isso prejudicava muita gente? Com certeza. O que dizer numa hora dessas além do usual “eu te entendo, mas você está errado também”?

Dei uma volta na praça e no comércio das redondezas. O impacto do fim da feira era óbvio. Botecos vazios, mas menos barulho. Tristeza, mas menos sujeira. Será possível ser animado e carioca sem bagunça? Acho que não.

Compramos o que alguns dos expositores conseguiram vender para minimizar seu prejuízo e voltamos pra casa num misto de desolação e espanto.

Crivella conseguiu. Mostrou sua “força” atacando o “centro de operações” dos apoiadores do Freixo. E, pior, acirrou a briga da feira contra o Chorinho, inimigos moderados de longa data. O que esperar do futuro? A liberação da feira na semana que vem e o fechamento do chorinho? O aumento da tensão em ambos os lados? Um fato violento que justifique ações mais duras? E, enfim, o gradeamento da praça?

Seja que caminho seguirmos, estamos assistindo ao início do sepultamento de mais um espaço de congraçamento popular.

Se olharmos para as justificativas do coronel para a sua ação, todas são válidas, mas lhes pergunto: a mesma reclamação não vale para outros lugares? A escolha da Praça para essa operação não é claramente uma retaliação conta o bairro que votou massivamente no candidato da oposição e onde ocorreu o escândalo que mais deu dor de cabeça ao prefeito durante a sua campanha? A ação pode ser correta, mas a sua justificativa política claramente mostra a face vingativa do nosso prefeito. Bem vindos ao Rio de Janeiro do Antigo Testamento.

Morei em Copacabana em frente ao Bip Bip e os problemas eram similares. Alfredinho, dono de um dos últimos pontos tradicionais do samba carioca, continua sendo alvo do ódio dos governos apesar do seu estabelecimento ser tombado. Acredito que diversos outros lugares sofram com isso. A Baratos da Ribeiro, da qual fui sócio, sofreu. E é sempre do mesmo jeito. Estamos errados nos excessos e no desleixo nas nossas ações de mobilização popular mas as ações governamentais são sempre desproporcionais e guiadas por motivos torpes. E como sabemos: se odiarem você o suficiente, encontrarão uma forma legal de ferrar com você.  Afinal para quê ter poder senão para utilizá-lo para atacar seus inimigos e alimentar seus egos carentes e famintos?

O fim de semana terminou num suspiro. No fim do dia, dei mais uma volta na praça e já via gente concordando com o governo. Tinha gente até dizendo que a feira impedia o povo de ir a pé até o Super Mercado. Pronto. Tava explicado o impedimento de acesso. Rapidamente tínhamos chegado ao ponto em que os empregados assumiam o discurso do Patrão. Crivella mostrou a que veio. Deve ter diploma de maldade da Faculdade Niccolo Machiavelli para membros da bancada evangélica.

Ontem, segunda feira, trazia a minha filha da escola e resolvemos passar no parquinho. Nem sinal do pipoqueiro ou do Pula Pula. Uma tristeza só. Por outro lado, havia uma presença significativa dos guardas municipais para inibir os ambulantes.

– Cadê o Pula Pula, papai?

– A guarda municipal não quer que tenha Pula Pula, filha.

– Porquê?

– Porque o governo odeia o nosso bairro- falei bem alto pros guardas ouvirem.

Eles apenas riram do meu arroubo passivo agressivo.

– O governo é bobo, papai. É bobo e feio.

– Tem razão, filha. É bobo pacas.

Obrigado, Marcelo Crivella, graças a você ficou mais fácil criar minha filha como anarquista.

* A foto em destaque é de um dos expositores da feira, Da Minha Mãe. Espero que possamos nos ver domingo que vem!