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Tá tudo bem

No meio da reunião, a mãe que trabalha, e não trabalham todas?, atende o telefone:

– Que é filha? Tô no meio de uma reunião. É urgente? Tá tudo bem?
– Sim, sim, mãe. É urgente, mas, como você disse, tá tudo bem.
– Se tá tudo bem, por que você está me ligando?
– É o seguinte: o vovô foi dar uma volta na rua e foi atropelado, mas tá tudo bem.
– Como assim, seu avô foi atropelado e tá tudo bem?
– Calma, mãe, tá tudo bem. Ele foi atropelado mas foi de leve. Uma kombi tava dando ré, não viu ele e só o derrubou na rua. Como eu te disse, tá tudo bem.
– Graças a Deus. Então tá tudo bem com ele? Estão em casa?
– Mais ou menos e não. Tá tudo bem, mas quando caiu, ele quebrou a garrafa de cachaça que estava carregando e se cortou bastante.
– Garrafa de cachaça? Seu avô não tinha parado de beber? E você ainda diz que tá tudo bem?
– É, parece que o vovô voltou a beber escondido. Mas tá tudo bem. Os cortes foram superficiais, já as queimaduras são mais preocupantes.
– Queimaduras? Como pode estar tudo bem, minha filha? Você está maluca?
– Tô não, mãe. Tô bem. Que nem o vovô. Vou te explicar o lance das queimaduras. Parece que ele estava fumando quando caiu e a cachaça, como era meio barata, pegou fogo quando quebrou. Mas tá tudo bem.
– Tudo bem uma pinoia. Seu avô bêbado, fumando, mesmo depois que o médico mandou ele parar com tudo? Não dá! Não dá! Em que hospital vocês estão? Vou já pra aí!
– Não estamos em hospital, não, mãe. Estamos numa delegacia, mas tá tudo bem.
– Delegacia? Delegacia? Impossível estar tudo bem. O que aconteceu?
– Parece que o vovô estava fumando maconha quando caiu e quando a polícia veio socorrê-lo, ele resistiu e acabaram encontrando uns papéis de pó com ele e o prenderam. Mas tá tudo bem? Tirando alguns hematomas, os cortes, as queimaduras e as algemas, ele tá quase novo.
– Pó? Maconha? Esse velho enlouqueceu? E você ainda vem com esse papinho de tá tudo bem? Cadê ele? Ele tá aí perto de você? Chama ele. Chama ele que eu preciso falar umas verdades pra esse doido.
– Calma, mãe. Tá tudo bem, ele tá algemado, mas vou colocar o telefone no ouvido dele. Tá, mãe? Espera só um pouquinho.
– Algemado, preso, bebendo, fumando, drogado. Que diabos eu fiz para merecer isso? Como eu posso viver assim e ainda acharem que está tudo bem?

A neta avisa que a mãe vai falar e põe o telefone no ouvido do avô. Ele diz:

– E aí, filha, tá tudo bem?

Como eu larguei o futebol (e você também pode, mas não precisa)

Olá, meu nome é Lisandro Gaertner e eu já torci pra time de futebol. Sério. Quem já me viu nos esporádicos encontros para assistir aos jogos da Copa do Mundo, enfurnado na cozinha comendo, bebendo e falando de assuntos aleatórios, enquanto o povo torce na sala, pode até não acreditar, mas, sim, eu já fui um torcedor.

Comecei a torcer, como a maioria, por influência do meu pai. Tinha uns 4 anos quando ele me deu uma camisa do Internacional. Meu pai, como todo bom gaúcho exilado, sentia prazer em não torcer para os times do Rio, apesar de secretamente ser vascaíno. O esforço, em todo caso, foi inútil. Fiquei dizendo pra todo mundo que era Colorado por umas duas semanas, até que a brincadeira perdeu a graça e, puff, não era mais Internacional. Só voltei a me interessar por futebol na Classe de Alfabetização.

Influenciado por uns maus elementos de 5 anos que ficavam perto dos balanços no recreio, comecei a torcer pro Flamengo. Minha mãe, tricolor, e meu pai, vascaíno enrustido, mesmo contrariados, apoiaram. Compraram camisa pra mim e tudo. Mas não foi tão difícil. No início dos anos 80, o Brasil inteiro tinha um caso de amor com o Flamengo. Acompanhei inclusive no meio da madrugada a final do campeonato mundial no dia, não esqueço, 13 de dezembro de 1981. Imaginem que conquista prum menino de 7 anos “ser” campeão do mundo .

Mas nem tudo eram flores. O Flamengo, apesar de ter o seu time mais lendário, também perdia. E eu sofria. De chorar. Lembro de ter ido ao Maracanã assistir a um jogo com um amigo e seus pais e voltar aos prantos para casa. Minha mãe me acalentou e plantou a semente que quase dez anos depois ia permitir a minha libertação:

– Meu filho- ela me disse-, você não pode levar o futebol tão à sério.

Você não pode levar tão à sério. Você não pode levar tão à sério.

Depois daquele dia, virei a casaca. Não tenho vergonha de admitir. Virei a casaca mesmo. Pra agradar meu pai e me livrar do sofrimento que era torcer pro Flamengo, virei Vasco.

Taí uma das coisas que mais me incomoda nos esportes de clube em geral: o estigma de virar casaca. Esse tipo de pressão para se manter ao lado de algo que não mais lhe agrada ou dá prazer é uma espécie de treino perverso para a lealdade incondicional. Se as pessoas fossem livres para virar a casaca, talvez estivessem mais acostumados a mudar de ideia sobre tudo e a nossa convivência seria bem mais harmoniosa. Posso estar exagerando mas essa é a minha opinião. Pelo menos por enquanto.

Me mantive Vasco, sem me ligar muito em Futebol, até mais ou menos os 10 anos. Novamente sob a influência de péssimos colegas de classe, voltei a acompanhar os campeonatos. O Vasco estava passando por uma boa fase na época e calhou que todos os meus amigos mais próximos também eram vascaínos. Pra ter assunto no recreio, passei a acompanhar mais os jogos e inclusive tinha carteirinha do clube do Vascaíno Doente, que era distribuída pelo radialista e, óbvio, vascaíno doente Áureo Ameno.

A carteirinha

Sim, isso é real, mas não é a minha

Essa fase durou uns 4 anos. Mesmo torcendo e acompanhando tudo o que podia, não me lembro de ter criado inimizade com ninguém ou mesmo humilhado os torcedores dos nossos fregueses na época. Torcia, mas era uma torcida mais introspectiva. O que eu curtia mesmo era ouvir rádio AM, bater papo e ler todos os jornais. Nenhuma vez nesse período fui aos estádios ou assisti a jogos com outras pessoas. Sempre tive esse espírito de viúvo aposentado que joga damas no Largo do Machado.

Um dia, chegou meu fundo do poço. O Vasco ia enfrentar o Flamengo na final do Carioca pelo bicampeonato. Depois de um jogo tenso e sem gols, aos 44 minutos do segundo tempo, Cocada, saído do banco há dois minutos, em disparada, sozinho, cravou o gol que consolidou a última vitória do Vasco sobre o Flamengo numa final de campeonato carioca até hoje. Dormi de alma lavada.

No dia seguinte, meus pais me acordaram em festa com o Jornal dos Sports e com o poster do time do Vasco. Quando me deixaram sozinho após diversas felicitações, senti um vazio tremendo. Que diabos estava fazendo com a minha vida? Minha identidade e minha felicidade eram dependentes de algo externo a mim? Será que ser Vasco era o que me definia? Não, eu não queria acreditar nisso, mas as evidências eram tremendas. Gastava uma hora por dia lendo os cadernos de esporte; mais uma hora ouvindo aos comentários da manhã; quando tinha jogo, mais duas horas; e pra finalizar uma hora de comentário esportivo noturno. Sem contar o tempo que conversava sobre futebol, mais de 20% da minha vida era devotada ao Vasco, uma entidade cujos participantes estavam pouco se lixando para salvaguardar a minha alegria e a minha saúde mental. Era muito caro para se fazer parte de algo. Escolhi ser sozinho.

Então, do dia pra noite, nunca mais acompanhei futebol nem outros esportes. Aos poucos esse meu desapego começou a se espalhar por outras áreas da minha vida e me libertou também de religião, ufanismo, posicionamento político, séries de TV e todas essas outras coisas que o povo trata como sérias mas não passam de clubinho.

Graças a Deus, não virei estraga prazeres, nem fico fazendo campanha pros outros seguirem meu caminho. Quando um grupo de amigos assiste a um jogo, até acompanho respeitosamente, mas sinto que desaprendi o futebol e quase sempre me pego fazendo perguntas imbecis. É quase como não ser católico e rezar o Credo nos casamentos em que somos convidados. Não cremos mas gostamos uns dos outros o suficiente para fingir.

Compartilho essa minha história, pois ela pode ajudar quem precisa se libertar de outras idéias ou simplesmente precisa virar a casaca. Afinal, o que descobri foi que nada que dizem de você é verdade, apenas aquilo que você mesmo acredita que você é. Por isso, saiba, você não é flamengo, botafogo, vasco, fluminense, ou mesmo brasileiro. Você pode ser quem você quiser, como quiser e ninguém tem direito de lhe criticar por isso. E você também pode mudar de ideia. Quantas vezes quiser. Garanto, em alguns momentos, virar a casaca pode ser extremamente salutar. Bom, é nisso que acredito. Pelo menos por enquanto.

Mas, cá entre nós, vou te falar, esses pernas de pau que botaram pra jogar nas Olimpíadas tão desafiando até o meu desapego. Ô, gentinha mais desclassificada, meu santo Dalai Lama. Não há zen budismo que nos permita suportar essa seleção brasileira.

Como justificar um bigode

Acho que a última vez que fiquei sem barba, bigode, cavanhaque ou afins por mais de um mês foi em setembro de 1995. Mais precisamente no dia 10 de setembro de 1995. Era um feriadão de sete de setembro e eu, prestes a completar 21 anos, recebi como presente a ida da minha mãe para um congresso. Nunca, em toda a minha vida, tinha ficado com a casa só para mim por tanto tempo.

Estava com uma viagem marcada para a pousada de um amigo em Itaúnas mas não resisti à oportunidade e desmarquei. Consegui convencer alguns amigos a desistir também e tivemos 4 belos dias da mais completa devassidão. Em todos os sentidos. Do mais filosófico ao mais mundano.

Foi um evento tão cataclísmico para a vida dos envolvidos que, acredito, naqueles dias diversas linhas do tempo alternativas foram geradas. Foi quase como assistir à criação de uma série de universos de camarote. Pra resumir, como no Gênesis, “e viu Deus que era bom”. Nos também vimos. E foi muito bom.

No dia 10 de setembro pela manhã, véspera do meu aniversário, após a longa e pesada faxina para preparar a casa para a volta da minha mãe, fui tomar banho e me olhei no espelho. Amassei a cara com uma das mãos tentando recompor o que não tinha mais volta. Aquele rosto não me servia mais. Eu era outra pessoa. Tudo o que tinha passado naqueles quatro dias não me permitia mais transitar entre uma cara limpa e com barba. Eu precisava fazer uma escolha. Naquele dia, decidi não mais me barbear e isso me mudou.

O cavanhaque começou a me acompanhar e se tornou parte do meu rosto e da minha história. Saí da faculdade, entrei no mercado de trabalho, casei; sempre de cavanhaque. Minha mulher, por exemplo, só me viu sem cavanhaque uns 6 anos depois de nos conhecermos. Foi num desses momentos de transição na vida. Minhas duas empresas fechavam as portas e eu estava prestes a ser obrigado a assumir meu primeiro emprego de carteira assinada. Um sábado de noite, durante uma reprise de um sitcom da vida, levantei da cama para ir ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara e presto! estava sem barba.

Voltei para a cama, minha mulher continuava assistindo a TV. Ela lançou uns olhares de soslaio, até que finalmente perguntou:

– O que houve? Você está diferente…
– Tirei o cavanhaque.
– Ah, é… estranho.

Estranho. Fiquei recebendo esses olhares de estranheza, dela e de todos os conhecidos, por umas duas semanas e assim que a vida voltou aos eixos o cavanhaque também voltou.

Hoje passo por mais um desses momentos. Como não podia deixar de ser, um dia fui ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara (o que parece essencial nesse processo de mudança) e presto! tirei o cavanhaque. Na verdade, não todo. Deixei um bigode.

Ao contrário da cara limpa que não gera muitos comentários, por mais estranha que possa parecer em quem usa barba há muito tempo, o bigode gera. Muitos mesmo. Realmente é um estilo ultrapassado. Tirando hipsters, senhores de mais de 70 anos, avó portuguesa de piada de salão e vilões de novelas steampunk, ninguém mais usa bigode. Por isso uma boa parte do tempo de quem usa bigode é gasto explicando por que está de bigode. Cá entre nós, não há explicação. Como as mulheres ficam ruivas, os adolescentes fazem piercings, e executivos em crise de meia idade resolvem tatuar o Putin na batata da perna, o bigode é apenas uma maneira de evidenciar externamente uma mudança interna. Não tem propósito. As pessoas não parecem entender isso, portanto, para satisfazer essa curiosidade que não tem explicação, inventei 10 justificativas para estar de bigode:

1. Vou interpretar Stalin num curta metragem argentino
2. Descobri que fui ator pornô nos anos 70 na última encarnação
3. Tive um sonho em que era o Groucho Marx e acordei assim
4. É obrigatório para o curso de amarrar donzelas em linhas de trem
5. Sou agente infiltrado investigando corrupção em fazendas de produtos orgânicos
6. Faço parte de uma banda cover do Village People
7. Perdi uma aposta com o barbeiro
8. Fiquei sabendo que o Adam Lambert vai sair do Queen e resolvi me candidatar à vaga
9. É uma homenagem ao pedido de prisão de José Sarney

E finalmente,

10. É uma coisa sexual, acho que você não quer saber os detalhes…

Se essas justificativas forem bem divulgadas, aposto que daqui a pouco o bigode volta à moda. Vai ver assim vocês param de me perguntar por que estou usando bigode. Por falar nisso, querem que eu explique?

A missão divina de Rui Barbosa

Já fazia mais de 90 anos que Rui tinha morrido e, excetuando a entrevista de admissão no céu, nunca fora chamado à gerência. Ele tinha ouvido falar que algumas almas estavam sendo chamadas para conversar pela direção e depois eram realocadas no purgatório ou no inferno. Isso estava deixando todo mundo de cabelo em pé. Pra piorar, quem era chamado pra conversar não voltava e como estavam no céu ninguém conseguia mais informações a respeito. Vocês sabem, fofoca é pecado.

Assim, depois de ter sido convocado, Rui amargou um bom período de ansiedade até que chegou o dia em que entrou tímido e assustado na sala de São Pedro.

– Opa, Rui, senta aí.
– Obrigado, São Pedro.
– Tudo bem?
– Pra ser sincero, não. Sabe, a gente tem ouvido falar dessas realocações e não dá para não ficar nervoso.
– Entendo, entendo. Mas a tua questão vai ser outra, Rui.
– Outra?
– É, você vai ajudar a gente.
– Se eu puder ser útil…
– Será, será. O lance é o seguinte, provavelmente você não está ligado no que está rolando no Brasil, por isso vou te atualizar. Desde 1891, o Estado e A Igreja foram separados legalmente no Brasil. Lembra? Você até ajudou nisso.
– Lembro, lembro.
– Pois, é, o lance não funcionou às mil maravilhas e tal, mas pelo menos tava controlando os abusos. Pra gente essa separação é uma mão na roda. Como diz o filho do homem: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Não faz sentido pra gente o povo ficar tentando criar uma versão distorcida do céu na Terra. Além do mais, é tanta versão do livro de instruções e tanta interpretação errada que os que se dizem mais carolas acabam fazendo da Terra um inferno. Se eles soubessem que o Céu não tem nada a ver com o que eles imaginam…
– Foi exatamente o que pensamos na época.
– Então, hoje tem um grupo lá no parlamento brasileiro que tá começando a exagerar e a fazer o Torquemada parecer um santo. Por isso estamos revendo os processos da admissão de algumas almas por aqui. Se o povo tá se metendo no que é da Terra achando que está falando em nosso nome, acaba que o povo que tá no céu paga. Agora estabelecemos uma regra de legado.
– Regra de legado?
– É, se você produz algo, um livro, um filme, uma lei, que indiretamente faz o povo estragar a vida alheia na Terra, mesmo que tenha sido bem intencionado, tem que pagar um tempo no purgatório.
– E no inferno?
– É tem uns casos mais sinistros que tão indo lá pras profundezas, mas são exceção. O que a gente espera é que isso faça com o que povo deixe os outros em paz na Terra. Deixem as pessoas viverem como quiserem no mundo material que da questão divina a gente trata. Afinal de conta quem esses caras pensam que são? Deus?
– E como posso ajudar?
– Bom, Rui, o lance é o seguinte: vamos te reencarnar.
– Reencarnar?
– É, a gente não era muito fã de vocês positivistas mas dada a situação vamos precisar que alguns de vocês racionalistas voltem no Brasil pra botar mais ordem e progresso lá e ver se conseguem separar o Estado da religião de vez. Do jeito que tá não dá pra ficar. Somos divinos mas precisamos de razão também. E como você também era religioso, acho que vai conseguir um equilíbrio legal.
– Mas, São Pedro, não era mais fácil uma intervenção divina? Um sonho profético para esse pessoal que está pisando na bola?
– Já pensamos, tentamos e vimos que o tiro saiu pela culatra. Esse pessoal é tão ruim da cabeça que entendeu tudo errado. Sem contar com aqueles que já estão à serviço da concorrência.
– Tudo bem, mas vai levar mais de 20 anos para a gente dar resultado.
– Sei, sei, mas isso faz parte do plano. O povo também precisa sofrer um pouco para aprender que não pode acreditar em qualquer um que diz que fala em nosso nome. Até porque, cá entre nós, ninguém tem procuração para falar em nosso nome.
– E como fazemos?
– Bom, você entra na sala ao lado com o resto do pessoal que vamos reencarnar vocês daqui a pouquinho.

Rui se despede de São Pedro, entra na sala que lhe foi indicada, onde se espanta com todos os colegas e conhecidos que encontra: Benjamim, Comte, Euclides, Lemos, Roquette-Pinto, Rondon e…

– São Pedro!
– O que é, Rui?
– O que diabos gente como Dom Pedro II, João do Rio, Sérgio Porto e Vinícius de Moraes está fazendo aqui?
– Pô, Rui, com tanto racionalista, precisamos contrabalançar na emoção.

Eu te O-DÍ-O

Essa semana resolvi fazer uma experiência no Facebook e pagar pela divulgação de textos que estava publicando no meu blog. Nada demais. Como prometiam que eu alcançaria por volta de 2000 pessoas em 24 horas por apenas 4 reais, de bobeira, tentei.

Não tenho perfil nessa rede há uns 4 anos mas, como Milton Nascimento diz é “onde o povo está”, então, resolvi ver onde isso ia levar. Divulguei um texto sobre James Bond e outro sobre o Brexit. O que aprendi com a experiência?

O primeiro texto tinha uma análise bastante profunda da misoginia da franquia do 007 e teve uma boa quantidade de likes que não se reverteram nem em 10% de leitores. Em suma, o povo dá like sem ler.

O segundo texto, como tratava de um assunto do dia, teve uma boa quantidade de leitores e comentários, mas, cá entre nós, que lixo de público. Muita gente compartilhou além de dar os likes, mas quem comentou simplesmente queria destilar o seu ódio. Parece até que estão esperando para ficar indignados e mostrar que são os bastiões da moral num mundo decadente. Duvida? Dá uma olhadinha aqui:

odio
O que aprendi com a experiência? Facebook NO MORE.

Isso me lembra uma história do meu pai. Todo dia de manhã quando íamos tomar café, meu pai abria o jornal nas cartas dos leitores e desandava a rir. Uma vez perguntei do que ele ria tanto. Ele respondeu:

– Filho, um cara tem que ser muito maluco para ler um artigo, escrever uma carta, botar ela no correio e esperar quem alguém a leia.

A internet simplesmente facilitou o trabalho desses imbecis. Por mais que queira divulgar o que escrevo, descobri que aqui não é o meu lugar. Manterei a página, mas não vou esperar nem recorrer a formas de divulgação não orgânicas. Buscar público no Facebook, se não for pra bater palma pra maluco, é caminho para se estressar.

E como o meu pai bem terminava aquele papo:

– O pior maluco sou eu que leio essas cartas.

Não vou ser esse maluco.

Brexit, Trump e Bolsonaro: o Contra-Script do Amor

A queda do socialismo foi um golpe cognitivo tremendo. Óbvio que já tinha gente preparada. Gente trabalhada na psicanálise por anos de movimento hippie, amor livre e protestos pacifistas. Gente que já sabia o que fazer quando toda aquela animosidade acabasse. Quando o muro caiu, esse povo rapidamente se movimentou enquanto os outros que não acreditavam no que estava acontecendo simplesmente ficaram alí sentados em choque com saudades do que se foi.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e o que era novidade começa a se tornar sistema; e, como tal, passa a dar defeito. Nada fatal mas é o suficiente para o povo da nostalgia do pior se levantar de dedo em riste e atacar: “A-HA! Eu disse que não ia funcionar!”.

E aí? Vamos reconstruir os muros?

Aí é que começa um troço interessante: tudo o que valorizávamos passa a ser ruim e tudo de ruim que motivou a criação do sistema atual passa a ser bom. É o que os analistas transacionais chamam de Contra-Script. O indivíduo que era de um jeito se torna o oposto para reforçar as mudanças que acha necessário fazer. É o traficante que vira pastor, a estrelinha infantil que vira diva sexy, o engenheiro careta de meia idade que vira ator alternativo, a mãe de família carola que vira uma devoradora de homens. Manja os tipos?

Esse comportamento que parece mega deplorável a nível individual se repete à exaustão e sob aplausos coletivamente. Partidos, comunidades, cidades e até nações caem nessa sem parar. Sempre tem um movimento para criar o “novo isso ou novo aquilo”, mas nunca tem um movimento para “melhorar o que conseguimos”. Esse tipo de movimentação acaba por nos colocar num círculo vicioso de dar um passo para frente e dois pra traz. Enfim, viver de retrocessos.

A saída da Inglaterra da Europa, os grupos que defendem o Bolsonaro e a candidatura do Trump são fenômenos desse tipo. São a vingança do instinto de morte que tinha sido enterrado na Guerra Fria. Lembram da Guerra Nuclear iminente, das ditaduras políticas, da censura e da patrulha comportamental? Tudo o que nos interessava naquela época era pular nas gargantas alheias e estraçalha-las, pois alguém precisava estar certo. Estávamos como Rambo e o Comando para matar transformando a violência em fetiche para ter prazer. Quando o muro caiu o movimento se inverteu; abafamos Thanatos e nos rendemos a Eros. Criamos mercados comuns, expandimos relações e o multiculturalismo, lutamos pela liberação dos costumes e comportamentos sociais. Enfim todos podiam estar certos. Éramos só amor. Não é à toa que o grande herói desse tempo é o Dude, Jeffrey Lebowski, com seu adágio: “Well, that is your opinion, man”.

O liberalismo em resumo

Mas não há bem que sempre dure. Assim, as medidas que permitiram uma grande quantidade de melhorias em nossas relações geraram diversas situações de risco. Fronteiras abertas levaram a migrações em massa de refugiados, facilitaram a entrada de terroristas e a expansão de epidemias. Ao invés de tratarmos essas questões como efeitos colaterais do remédio, botamos a culpa em Eros e trouxemos Thanatos de volta para o centro do picadeiro. Não somos simplesmente medrosos. Somos burros. Por que a gente é assim?

Talvez Anthony Burgess tenha a resposta. No seu livro M/F, e também no Laranja Mecânica, ele sugere que a humanidade oscila num conflito entre Pelágio e Santo Agostinho. Somos maus por natureza ou por escolha? Os problemas vem de fora ou de dentro? Precisamos vigiar fronteiras ou os cidadãos? Enfim devemos jogar nossa agressividade para dentro ou para fora? Enfim, Eros ou Thanatos?

Essa visão, mais pessimista que a minha, me remete a uma observação que ouvi certa vez de um delegado de polícia. Ele era um desses policiais da velha guarda, durão, que sentia saudade da Invernada de Olaria. Deu pra visualizar o personagem? Sempre depois de maldizer os problemas atuais fechava seus comentários com a seguinte frase:

– O problema do Brasil é ainda estar na ressaca da ditadura.

O que ele queria dizer é que diversos abusos se justificavam pelo abuso maior que o país tinha sofrido, num processo interminável de vingança contra o que vivemos anteriormente. Se transitamos entre Eros e Thanatos, Agostinho ou Pelágio, tanto faz. O importante é o movimento de embriaguez com o novo sistema e a ressaca inevitável que nos levará ao seu oposto como remédio para curá-la. Como qualquer bebida alcoólica, ideologias, sistemas de governo e teorias econômicas deveriam também ser consumidas com moderação.

É difícil não concordar com ele e ver que tempos difíceis se aproximam. O sistema atual rui, a embriaguez com o próximo começa e, como bêbados inexperientes, nos primeiros drinques é que surgem os maiores riscos.

Sempre fui um partidário de Eros, mesmo com todos os problemas que ele cria. Contudo não vivo sozinho no mundo e sei que as pessoas tem uma grande necessidade de se sentirem seguras. Precisamos aprender a balancear esses dois instintos e não abrir mão de um pelo outro. Precisamos crescer.

Mesmo nos muros pode haver amor

Mas, pelo jeito, não vai ser dessa vez. A Inglaterra sai da Europa, os bolsomitos gritam apoiando o estupro e Trump se prepara para construir o seu muro de Babel. Voltamos ao reino do instinto de morte. O que nos resta? Talvez montar uma comunidade hippie e esperar o momento em que mais uma vez  esses muros construídos sobre tantos já derrubados vão ruir. E nessa hora voltaremos, espero, para compor e não para destruir. Voltaremos, espero, pela derradeira vez. Voltaremos, espero, adultos.

Espero, espero, espero. Mas não acredito.