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Alô, Cláudia Cruz, a história te chama

Toda vez que vejo a Cláudia Cruz lembro como a história é frágil.

No início dos anos 90, um amigo meu morava só com os irmãos depois de um acordo/divórcio complicado com os pais. Ele era o único menor de idade, mas o restante não era muito mais velho que ele. As idades rodavam em torno de vinte e poucos anos e apenas dois eram formados e trabalhavam. Era uma espécie de república/núcleo familiar de sitcom no qual fico muito feliz de ter feito participações especiais. Se tivesse escrito sobre isso na época, podia ter criado o Friends.

Cada irmão, como não podia deixar de ser, atendia a um esterótipo. O meu amigo era o sábio, apesar de ser o mais novo; o segundo era o devasso; o terceiro era o workaholic; e o mais velho era o romântico. Não é surpresa que o romântico fosse o que passava mais tempo com a gente; era um adolescente espiritual.

Ele costumava se apaixonar numa semana e se frustrar na próxima; suas paixões eram voláteis ao ponto de ele mesmo confundir os nomes das suas pretensas pretendentes; pra piorar, partia do amor ao ódio numa facilidade impressionante. Além disso ele alimentava as taras mais peculiares. Numa época, por exemplo, começou com uma paixão por grávidas que quase o fez ser preso no supermercado Pão de Açúcar após perseguir uma futura mãe por toda a loja.

Era um sujeito complicado, mas divertido. Em geral nos envolvia em seus dramas pedindo conselho e compartilhando suas emoções. Era uma divertida brincadeira de psicanalista que, confesso, teve seu quê na minha escolha de curso superior.

Num verão no início dos anos 90, ele apresentou a tara mais louca: encasquetou que ia casar com a Cláudia Cruz. Veja só, ele não falou namorar, pegar, trepar, ou nada do gênero. Ele falou CA-SAR. Quando começava o RJ TV, ele mandava todo mundo se calar e ficava comentando embevecido sobre a classe da sua amada da vez:

– Isso, sim, é mulher pra casar. Não é dessas vagabundas que se encontram pela rua. Imagina só a satisfação de chegar em casa e ter essa mulher te esperando. Que olhos, que rosto, que voz. Que VOZ!

Foi mais ou menos nessa época que ela virou a voz da Telerj. O doido, na falta de uma maneira de rever o RJ TV a todo momento, vivia ligando para os serviços de atendimento para ouvir a sua musa. O negócio começou a ficar tão preocupante que a gente resolveu ajudar além do usual

Acionamos um amigo que tinha a habilidade quase mágica de conseguir o telefone de qualquer pessoa só com a lista telefônica e acesso ao 102. Graças a ele tínhamos o telefone de todas as paquitas, para as quais, óbvio, nunca ligamos apesar de todas as nossas bravatas. Em dois dias de pesquisa, ele achou o telefone da Cláudia Cruz.

Anotamos o telefone num papelzinho e ofertamos a ele.

– O que é isso?
– Liga e vê.

Ele ligou, esperou, disse Alô, ouviu e resposta e imediatamente bateu o telefone na cara da Cláudia Cruz.

– Não acredito. Não acredito – ficou repetindo em choque.- Não a-cre-di-to!

Ao contrário do que imaginamos o acesso à sua paixão não o tornou mais ousado; pelo contrário, o paralisou completamente. Seu medo era jogar a chance fora. Usar a aproximação errada e perder para sempre a oportunidade de tornar a Cláudia a mãe de seus filhos. Para tentar ajudá-lo, resolvemos criar a maneira ideal para ele utilizar essa oportunidade.

Montamos uma força tarefa para produzir o telefonema. Alguns de nós escreviam o texto, outros revisavam, outros ensaiavam com ele e com o feedback dos ensaios criamos uma árvore de respostas que pretendia atender a qualquer situação que surgisse na ligação. Com isso, tínhamos certeza, o destino da Cláudia Cruz estava certo como esposa do irmão do nosso amigo.

Todo o processo tomou tempo. Não era a nossa atividade principal, se é que ir a escola e assistir à MTV pudessem ser considerados atividade principal, e as idas e voltas do roteiro, especialmente por conta das idiossincrasias do nosso Don Juan que insistia em incluir seus dotes de barítono no papo, atrasaram o telefonema em quase dois meses. Enfim, depois de diversos drafts e ensaios, ele estava pronto para ligar.

Óbvio que não foi uma ligação particular. Todos estavam lá para apoiá-lo. Suas calma e confiança animavam a todos. Ensaiamos mais algumas vezes, ele tomou uma dose de Steinhaeger para relaxar, colocou um copo d’água ao lado do telefone e lentamente discou: 5…4…2…X…X…X…X…

Dois segundos depois, o seu sorriso escorreu pela face e seus olhos perderam todo o brilho. Ele deixou o telefone cair no chão e escondeu o rosto entre a mãos, soluçando. Peguei o telefone e a própria Cláudia Cruz avisava:

– Esse número foi cancelado. Verifique o número e tente novamente. Muito obrigada.

Tentamos animá-lo, garantindo que o nosso amigo com certeza conseguiria o novo número, mas o baque tinha sido grande demais. Ele tinha perdido a esperança. Mesmo que tivesse o número não confiava mais que fosse conquistá-la.

Deixamos ele curtir o luto e quando o encontramos novamente, ele estava namorando com uma mulher mais velha, viúva e com uma filha, com a qual acabou casando e, pelas últimas vezes que o vi, vive feliz até hoje.

Quando eu vejo a Cláudia Cruz, lembro do irmão desse meu amigo e imagino o teria acontecido com o Brasil se ele tivesse conseguido falar com ela; se ele tivesse conseguido conquistá-la. Será que o Cunha teria perdido a gana de corromper tanto assim? Será que isso geraria um país mais justo? Será que a Cláudia Cruz era a proverbial borboleta que gera Tsunamis de corrupção? Nunca saberemos, mas sei que a história é frágil e qualquer oportunidade que temos de mudar a nossa vida e as daqueles que nos cercam tem que ser aproveitada. Afinal, quem sabe a pequena ação de coragem de hoje não torne o nosso mundo melhor amanhã? Mesmo que seja um simples telefonema a um afeto da televisão.

O Pula Pula da Corrupção

Imagino que a corrupção aconteça assim: naturalmente. Tava olhando a minha filha no Pula Pula quando uma mulher parou do meu lado.

– Oi, tudo bem? Tem mais alguém na fila? Depois da sua filha? Tem? O meu filho pode entrar depois? – apontou prum menino com cara de bobo que puxava pelo braço. – Será que tem alguém depois da sua filha? Tem?
– Acho que não. Melhor perguntar pro cara do Pula Pula.
– Cadê ele? Onde está o cara? Você sabe? O do Pula Pula? Sabe?
– Acho que está ali, ó.

Lá foi ela. Desenrolou com o cara e voltou pra perto de mim, apontando:

– Depois dela, é o meu filho. É o meu filho tá? É o meu filho. Esse aqui – disse apontando pro menino que estava com uma cara ainda mais boba. – Depois da filha dele, é o meu filho. OK?

Ficou um momento em silêncio ao meu lado e aí fez a proposta:

– Será que o meu filho podia pular junto com a sua filha? As crianças se divertem mais pulando juntas. Será que ela ia querer? Você acha que tem problema?
– Acho que não. Deixa eu perguntar pra ela. Filha, você quer pular junto com o amiguinho?

Minha filha assentiu com a cabeça. A mulher se adiantou.

– Sobe aí, filho. Sobe. Isso. Pula com a amiguinha. Vai. Vai.

O menino e minha filha começaram a pular juntos. Aí veio a segunda proposta:

– Vamos dobrar o tempo? Meu filho ia entrar depois, aí ia demorar 14 minutos. Quem estiver esperando ia esperar 14 minutos de qualquer jeito. Vamos dobrar o tempo? O meu filho e a sua filha ficam 14 minutos ao invés de 7. Ia ser assim de qualquer jeito.
– Sei lá. Não acho legal. Além disso, acho que tem aquele menino que está esperando. É mó chato.
– Ah, ele que espere. Você entende o que estou dizendo? Não está errado. Dobrar o tempo é natural. Eles iam esperar do mesmo jeito. Não é?
– Sei. O que você diz é lógico, mas não é ético.
– Como assim? Não estou roubando ninguém. Vou pagar pelo tempo dobrado.
– Sei, mas não me sinto bem. Sei como as crianças ficam quando precisam ficar esperando. É só uma questão de boa vizinhança.
– Boa vizinhança? Não entendi. Eles iam esperar 14 minutos mesmo. Estamos apenas usando o que é nosso direito. Se nossos filhos resolveram pular juntos, tem que ser beneficiados. Não acha? Não estou certa?

Antes que eu pudesse responder, ela saiu em direção ao cara do Pula Pula. Desenrolaram brevemente e ela voltou, acompanhada dele, apontando pra mim:

– Aí, fala pra ele. Fala pra ele.
– Tem problema, não, amigo- o cara do Pula Pula decretou.- Pode ficar os 14 minutos.
– Mas eu não quero…
– Se ele deixou- ela me cortou,- pra que fazer disso um cavalo de batalha? Deixa as crianças 14 minutos. Ó, lá, como eles estão se divertindo. Vai, filho, pula com a amiguinha. Pula.

As crianças pulavam alheias às maquinações nas quais eu estava sendo envolvido. O menino nem parecia mais tão bobo. Eu era o verdadeiro bobo na situação. Pela minha filha, decidi bater o pé e defender minha honra:

– Aqui, ó, não vou compactuar com isso. Não quero deixar minha filha 14 minutos. Combinei com ela 7 e 7 ela vai ficar. Se você quiser deixar seu filho 14 minutos, não é problema meu. Pode ficar, mas eu não vou ficar.

A mulher e o cara do Pula Pula se olharam surpresos. Ele segurou o meu braço e me puxou pra perto dele:

– Se for pelo dinheiro, pode ficar tranquilo. Essa é por conta da casa. Além disso, já passaram os 7 minutos há um tempo.

Olhei para a minha filha, pro menino bobo e pro menino já impaciente na fila. Mesmo contra a minha vontade tinha tomado parte do esquema. Poderia ter firmado a minha posição, retirado minha filha do Pula Pula, mas era tarde demais. Mesmo sem querer tinha sido objeto e ator de um esquema de corrupção.

Minha filha, talvez sentindo minha derrota, parou de pular e disse:

– Papai, quero sair. Estou cansada.

Em silêncio a tirei do Pula Pula. Pelo menos não fomos até o final do abuso.

O menino que esperava na fila se aproximou para subir no Pula Pula e ainda consegui ouvir a mulher fazendo a mesma proposta que fez pra mim para o próximo pai. Não sei o que ele respondeu, mas desconfio que o menino que de bobo não tinha nada dormiu bem após passar a noite inteira no Pula Pula; enquanto eu a passei acordado sem saber como me sentir ou como lidar com o que aconteceu.

O aniversário de “de Jesus”

Pai, hoje, se estivesse vivo, você completaria 92 anos. Ou 93. Ou 91, dependendo de quem contasse a história. Para alguns, você teria dito que, quando seus pais lhe deixaram órfão com menos de 10 anos, para que entrasse no colégio militar como interno era importante parecer mais novo. Ou mais velho. Ninguém chegava a uma conclusão. Quando pressionado, você sempre dizia: “Faz tanto tempo que eu nem me lembro mais. Usa o que estiver na certidão”. Então, 92.

O mesmo valia para a sua data de nascimento. Uns diziam que era 24, outros 25. Até nesse ponto, você também desconversava. Dizia que aniversário não importava. “Aniversário é todo dia”. Mais provável que fosse 25, o que explicaria o “de Jesus” no seu nome.

Quando você era vivo, seu aniversário tornava ainda mais pesada a minha maratona natalina. Logo eu, de família cristã nova, descendente de judeus de pai e mãe, vítima e produto da educação beneditina, ateu não praticante, tinha uma das mais complexas rotinas para comemorar o aniversário de Jesus.

No dia 23 tinha sempre um amigo oculto de tarde. De noite, a ceia antecipada da minha mãe. No 24, o almoço de enterro dos ossos. No 24 de noite ia em alguma festa onde minha mãe estivesse para lhe dar um abraço, para depois seguir à casa da minha sogra que sempre rendia um estica com os amigos da minha mulher, então namorada. Já totalmente exaurido, no 25 ainda tinha o seu aniversário. Ia das comemorações de Jesus a “de Jesus” em três dias de intensa comilança.

A festa não era lá essas coisas. A sua família oficial tinha, sim, suas razões para não ir com a minha cara, mas eram educados. E você não parecia aproveitar nada. Frente àquele grupo de pessoas comemorando seu aniversário, misturado com a festa de enterro dos ossos, você parecia distante. Não era o cara que tinha me criado.

Não era o cara que abraçava desconhecidos na rua, fingindo conhecê-los e puxando papos genéricos para constrangê-los. Não era o cara que passava trotes comigo e meus amigos de 8 anos de idade, entre campeonatos de arroto. Não era o cara que alegava conhecer qualquer cidade do nordeste, citando o açude, a igreja matriz e a corrupção dos políticos como referências. Não era o cara que comprou um celular de brinquedo para atender na rua e passar a quem lhe olhava dizendo “É pra você”. Não era esse cara.

Era um cara de uma família estranha. Um senhor que se presumia responsável. Um homem abatido pela suas próprias escolhas e pela sua falta de coragem de ser quem era e podia ser. Era um cara triste.

Inevitavelmente, após o seu câncer, foi esse papel opressivo e a depressão que ele gerou que o levaram há 14 anos atrás.

Sei que não fiz tudo o que podia. Nunca fazemos. Sempre tem algo mais a fazer. Podia ter insistido nisso ou naquilo, apesar de todo o time contra. Mas não deu. Confesso que chegou uma hora que desisti. Pelo menos desisti depois de todo mundo que só fingiu que tentou. De todo mundo que não o conhecia de fato. Não quero dizer “se você tivesse pelo menos…”, pois não quero culpá-lo. Não há culpas a distribuir. Há simplesmente a constatação que a vida muitas vezes não faz o menor sentido.

Mas às vezes faz. Olhando para a sua neta que nunca teve a oportunidade de conhecê-lo, não me furto a ver pequenos sinais seus nela. Boa parte disso é projeção, uma parte é desejo e outra é fruto da criação que lhe proporciono. Se puder fazer com que ela tenha pelo menos um pouco da sua criatividade e da sua alegria, considero que terei feito um bom trabalho como pai. Assim como você o fez, mesmo entre acertos e erros.

Então, nesse dia do seu aniversário, ou não, em que completaria 92,91 ou 93 anos, mesmo envolto em todas as incertezas que a sua vida e a nossa relação sugerem, sinta-se abraçado. Sinta-se abraçado no momento em que sua neta abrir seus presentes de Natal e vier me dar um beijo enquanto faz alguma gracinha que me remete a a você. Sinta-se vivo nessa relação e no orgulho que sinto de ser seu filho. Saiba que sempre estará vivo nas histórias que me contou mas nunca escreveu. Pois, se não as escreveu nem garantiu a imortalidade prometida por Leonard Cohen “when you done a line or two”, eu estou aqui as escrevendo para você. Elas merecem ser contadas e você merece que alguém as conte. Fico feliz que seja eu a fazer isso por você.

Feliz aniversário, “de Jesus”.

A traição do eleitor

Meu pai tinha um companheiro de FEB que de 4 em 4 anos se candidatava a vereador. Como um relógio, três meses antes da eleição municipal, lá vinha ele bater na nossa casa. Carregando um pacote de santinhos, ele fazia a longa jornada de Deodoro ao Flamengo sobre as próteses e as muletas que sustentavam seu corpo desde que perdera as duas pernas na Segunda Guerra. Seu slogan sempre mudava, mas nunca saía da linha: “Ele lutou por nós e vai continuar a lutar.”.

Se vontade contasse, ele seria o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Com a sua pensãozinha, bancava sozinho a campanha onde prometia melhorar saúde, educação, segurança e, óbvio, a condição dos ex-combates que queria representar. Como cumpriria essas promessas? Ele não sabia, mas tinha certeza que lutaria e ganharia. Como fez na guerra.

Era um analfabeto político mas queria escrever seu nome na história da câmara municipal carioca. Como, acredito, a maioria dos candidatos que fazem a festa da democracia parecer algo mais do que o convescote sinistro ao qual comparecem sempre os mesmos malandros.

Alheio a essas maquinações que movem a política, ele fazia a sua parte, lutando voto a voto pela cadeira a qual sentia ter direito moral. Por isso de 4 em 4 anos, ele vinha ao meu pai em busca de algo mais que um voto; em busca do apoio político e da influência que meu pai fingia ter.

Eles sentavam no sofá e discutiam estratégia de campanha durante a tarde toda. Parecia até que era sério. Colégios eleitorais, locais para corpo a corpo e às usuais críticas ao material gráfico eram discutidas à exaustão, antes de avaliarem as suas chances naquela eleição. A cada ano meu pai aumentava a quantidade de votos que conseguiria para ele. Num ano eram 100, no outro 500, até que um ano chegou a prometer 10 mil.

Quando ele ia embora, após me entregar um santinho, mesmo sabendo que eu não tinha idade para votar, eu perguntava ao meu pai:

– Como você vai conseguir esses votos todos?
– Não vou- meu pai respondia.- Uns foram feitos para concorrer e outros para ser eleitos. Deixa ele se divertir com o seu papel- e ia para a cozinha jogar o pacote de santinhos na lata de lixo.

Na época da ditadura, essas promessas nunca pareciam vazias. Os dados eleitorais não eram transparentes como agora e tudo podia ficar diluído nos votos que o candidato bem intencionado conseguia com seu próprio esforço. Mesmo assim, eu sentia que a cada visita aumentava a desconfiança do amigo sobre as bravatas do meu pai.

No ano dos 10 mil, para azar do meu pai, as coisas mudaram de figura. Era fim do governo Sarney e pela primeira vez os votos seriam divulgados por seção eleitoral. Meu pai não se ligou do impacto que isso teria em suas promessas até que o candidato bateu lá em casa depois da apuração.

– Cadê os 10 mil votos que você me prometeu? – o candidato pressionou o meu pai.
– Ué, não rolou?
– Não, não rolou. Eu tive só 2732 votos.
– Ó lá, já foi um bom resultado. 2000 votos já um bom resultado. Eu corri atrás, mas você sabe como é eleitor: um bicho traíra pacas.
– Ah, é? Ah, é? É traíra mesmo. Quer ver só? Olha aqui na sua seção: nem um voto pra mim. Nem um voto. Você nem votou em mim!
– Pronto, tá explicado!
– Tá explicado o quê?
– Taí, ó. Óbvio que votei em você. Logo tá explicado. Foi fraude. Foi fraude.

O amigo depois de um momento de surpresa, se acalmou, pediu desculpas ao meu pai pela falta de compostura e partiu sem me entregar nada. Quatro anos depois ele não voltou. Ou desistiu de se candidatar ou desistiu de acreditar no meu pai.

Meu pai nunca mais falou dele. Estava esquecido como uma filipeta de eleição passada. Hoje votei e pensei como esquecerei rapidamente daqueles em que votei e em que não votei; como reclamarei daqueles que apoiei esquecendo da minha implicação em toda essa lambança. A festa da democracia sempre termina em amnésia alcoólica e ressaca moral. Meu pai tinha razão: somos traíras pacas.

Tá tudo bem

No meio da reunião, a mãe que trabalha, e não trabalham todas?, atende o telefone:

– Que é filha? Tô no meio de uma reunião. É urgente? Tá tudo bem?
– Sim, sim, mãe. É urgente, mas, como você disse, tá tudo bem.
– Se tá tudo bem, por que você está me ligando?
– É o seguinte: o vovô foi dar uma volta na rua e foi atropelado, mas tá tudo bem.
– Como assim, seu avô foi atropelado e tá tudo bem?
– Calma, mãe, tá tudo bem. Ele foi atropelado mas foi de leve. Uma kombi tava dando ré, não viu ele e só o derrubou na rua. Como eu te disse, tá tudo bem.
– Graças a Deus. Então tá tudo bem com ele? Estão em casa?
– Mais ou menos e não. Tá tudo bem, mas quando caiu, ele quebrou a garrafa de cachaça que estava carregando e se cortou bastante.
– Garrafa de cachaça? Seu avô não tinha parado de beber? E você ainda diz que tá tudo bem?
– É, parece que o vovô voltou a beber escondido. Mas tá tudo bem. Os cortes foram superficiais, já as queimaduras são mais preocupantes.
– Queimaduras? Como pode estar tudo bem, minha filha? Você está maluca?
– Tô não, mãe. Tô bem. Que nem o vovô. Vou te explicar o lance das queimaduras. Parece que ele estava fumando quando caiu e a cachaça, como era meio barata, pegou fogo quando quebrou. Mas tá tudo bem.
– Tudo bem uma pinoia. Seu avô bêbado, fumando, mesmo depois que o médico mandou ele parar com tudo? Não dá! Não dá! Em que hospital vocês estão? Vou já pra aí!
– Não estamos em hospital, não, mãe. Estamos numa delegacia, mas tá tudo bem.
– Delegacia? Delegacia? Impossível estar tudo bem. O que aconteceu?
– Parece que o vovô estava fumando maconha quando caiu e quando a polícia veio socorrê-lo, ele resistiu e acabaram encontrando uns papéis de pó com ele e o prenderam. Mas tá tudo bem? Tirando alguns hematomas, os cortes, as queimaduras e as algemas, ele tá quase novo.
– Pó? Maconha? Esse velho enlouqueceu? E você ainda vem com esse papinho de tá tudo bem? Cadê ele? Ele tá aí perto de você? Chama ele. Chama ele que eu preciso falar umas verdades pra esse doido.
– Calma, mãe. Tá tudo bem, ele tá algemado, mas vou colocar o telefone no ouvido dele. Tá, mãe? Espera só um pouquinho.
– Algemado, preso, bebendo, fumando, drogado. Que diabos eu fiz para merecer isso? Como eu posso viver assim e ainda acharem que está tudo bem?

A neta avisa que a mãe vai falar e põe o telefone no ouvido do avô. Ele diz:

– E aí, filha, tá tudo bem?

Como eu larguei o futebol (e você também pode, mas não precisa)

Olá, meu nome é Lisandro Gaertner e eu já torci pra time de futebol. Sério. Quem já me viu nos esporádicos encontros para assistir aos jogos da Copa do Mundo, enfurnado na cozinha comendo, bebendo e falando de assuntos aleatórios, enquanto o povo torce na sala, pode até não acreditar, mas, sim, eu já fui um torcedor.

Comecei a torcer, como a maioria, por influência do meu pai. Tinha uns 4 anos quando ele me deu uma camisa do Internacional. Meu pai, como todo bom gaúcho exilado, sentia prazer em não torcer para os times do Rio, apesar de secretamente ser vascaíno. O esforço, em todo caso, foi inútil. Fiquei dizendo pra todo mundo que era Colorado por umas duas semanas, até que a brincadeira perdeu a graça e, puff, não era mais Internacional. Só voltei a me interessar por futebol na Classe de Alfabetização.

Influenciado por uns maus elementos de 5 anos que ficavam perto dos balanços no recreio, comecei a torcer pro Flamengo. Minha mãe, tricolor, e meu pai, vascaíno enrustido, mesmo contrariados, apoiaram. Compraram camisa pra mim e tudo. Mas não foi tão difícil. No início dos anos 80, o Brasil inteiro tinha um caso de amor com o Flamengo. Acompanhei inclusive no meio da madrugada a final do campeonato mundial no dia, não esqueço, 13 de dezembro de 1981. Imaginem que conquista prum menino de 7 anos “ser” campeão do mundo .

Mas nem tudo eram flores. O Flamengo, apesar de ter o seu time mais lendário, também perdia. E eu sofria. De chorar. Lembro de ter ido ao Maracanã assistir a um jogo com um amigo e seus pais e voltar aos prantos para casa. Minha mãe me acalentou e plantou a semente que quase dez anos depois ia permitir a minha libertação:

– Meu filho- ela me disse-, você não pode levar o futebol tão à sério.

Você não pode levar tão à sério. Você não pode levar tão à sério.

Depois daquele dia, virei a casaca. Não tenho vergonha de admitir. Virei a casaca mesmo. Pra agradar meu pai e me livrar do sofrimento que era torcer pro Flamengo, virei Vasco.

Taí uma das coisas que mais me incomoda nos esportes de clube em geral: o estigma de virar casaca. Esse tipo de pressão para se manter ao lado de algo que não mais lhe agrada ou dá prazer é uma espécie de treino perverso para a lealdade incondicional. Se as pessoas fossem livres para virar a casaca, talvez estivessem mais acostumados a mudar de ideia sobre tudo e a nossa convivência seria bem mais harmoniosa. Posso estar exagerando mas essa é a minha opinião. Pelo menos por enquanto.

Me mantive Vasco, sem me ligar muito em Futebol, até mais ou menos os 10 anos. Novamente sob a influência de péssimos colegas de classe, voltei a acompanhar os campeonatos. O Vasco estava passando por uma boa fase na época e calhou que todos os meus amigos mais próximos também eram vascaínos. Pra ter assunto no recreio, passei a acompanhar mais os jogos e inclusive tinha carteirinha do clube do Vascaíno Doente, que era distribuída pelo radialista e, óbvio, vascaíno doente Áureo Ameno.

A carteirinha

Sim, isso é real, mas não é a minha

Essa fase durou uns 4 anos. Mesmo torcendo e acompanhando tudo o que podia, não me lembro de ter criado inimizade com ninguém ou mesmo humilhado os torcedores dos nossos fregueses na época. Torcia, mas era uma torcida mais introspectiva. O que eu curtia mesmo era ouvir rádio AM, bater papo e ler todos os jornais. Nenhuma vez nesse período fui aos estádios ou assisti a jogos com outras pessoas. Sempre tive esse espírito de viúvo aposentado que joga damas no Largo do Machado.

Um dia, chegou meu fundo do poço. O Vasco ia enfrentar o Flamengo na final do Carioca pelo bicampeonato. Depois de um jogo tenso e sem gols, aos 44 minutos do segundo tempo, Cocada, saído do banco há dois minutos, em disparada, sozinho, cravou o gol que consolidou a última vitória do Vasco sobre o Flamengo numa final de campeonato carioca até hoje. Dormi de alma lavada.

No dia seguinte, meus pais me acordaram em festa com o Jornal dos Sports e com o poster do time do Vasco. Quando me deixaram sozinho após diversas felicitações, senti um vazio tremendo. Que diabos estava fazendo com a minha vida? Minha identidade e minha felicidade eram dependentes de algo externo a mim? Será que ser Vasco era o que me definia? Não, eu não queria acreditar nisso, mas as evidências eram tremendas. Gastava uma hora por dia lendo os cadernos de esporte; mais uma hora ouvindo aos comentários da manhã; quando tinha jogo, mais duas horas; e pra finalizar uma hora de comentário esportivo noturno. Sem contar o tempo que conversava sobre futebol, mais de 20% da minha vida era devotada ao Vasco, uma entidade cujos participantes estavam pouco se lixando para salvaguardar a minha alegria e a minha saúde mental. Era muito caro para se fazer parte de algo. Escolhi ser sozinho.

Então, do dia pra noite, nunca mais acompanhei futebol nem outros esportes. Aos poucos esse meu desapego começou a se espalhar por outras áreas da minha vida e me libertou também de religião, ufanismo, posicionamento político, séries de TV e todas essas outras coisas que o povo trata como sérias mas não passam de clubinho.

Graças a Deus, não virei estraga prazeres, nem fico fazendo campanha pros outros seguirem meu caminho. Quando um grupo de amigos assiste a um jogo, até acompanho respeitosamente, mas sinto que desaprendi o futebol e quase sempre me pego fazendo perguntas imbecis. É quase como não ser católico e rezar o Credo nos casamentos em que somos convidados. Não cremos mas gostamos uns dos outros o suficiente para fingir.

Compartilho essa minha história, pois ela pode ajudar quem precisa se libertar de outras idéias ou simplesmente precisa virar a casaca. Afinal, o que descobri foi que nada que dizem de você é verdade, apenas aquilo que você mesmo acredita que você é. Por isso, saiba, você não é flamengo, botafogo, vasco, fluminense, ou mesmo brasileiro. Você pode ser quem você quiser, como quiser e ninguém tem direito de lhe criticar por isso. E você também pode mudar de ideia. Quantas vezes quiser. Garanto, em alguns momentos, virar a casaca pode ser extremamente salutar. Bom, é nisso que acredito. Pelo menos por enquanto.

Mas, cá entre nós, vou te falar, esses pernas de pau que botaram pra jogar nas Olimpíadas tão desafiando até o meu desapego. Ô, gentinha mais desclassificada, meu santo Dalai Lama. Não há zen budismo que nos permita suportar essa seleção brasileira.