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Como justificar um bigode

Acho que a última vez que fiquei sem barba, bigode, cavanhaque ou afins por mais de um mês foi em setembro de 1995. Mais precisamente no dia 10 de setembro de 1995. Era um feriadão de sete de setembro e eu, prestes a completar 21 anos, recebi como presente a ida da minha mãe para um congresso. Nunca, em toda a minha vida, tinha ficado com a casa só para mim por tanto tempo.

Estava com uma viagem marcada para a pousada de um amigo em Itaúnas mas não resisti à oportunidade e desmarquei. Consegui convencer alguns amigos a desistir também e tivemos 4 belos dias da mais completa devassidão. Em todos os sentidos. Do mais filosófico ao mais mundano.

Foi um evento tão cataclísmico para a vida dos envolvidos que, acredito, naqueles dias diversas linhas do tempo alternativas foram geradas. Foi quase como assistir à criação de uma série de universos de camarote. Pra resumir, como no Gênesis, “e viu Deus que era bom”. Nos também vimos. E foi muito bom.

No dia 10 de setembro pela manhã, véspera do meu aniversário, após a longa e pesada faxina para preparar a casa para a volta da minha mãe, fui tomar banho e me olhei no espelho. Amassei a cara com uma das mãos tentando recompor o que não tinha mais volta. Aquele rosto não me servia mais. Eu era outra pessoa. Tudo o que tinha passado naqueles quatro dias não me permitia mais transitar entre uma cara limpa e com barba. Eu precisava fazer uma escolha. Naquele dia, decidi não mais me barbear e isso me mudou.

O cavanhaque começou a me acompanhar e se tornou parte do meu rosto e da minha história. Saí da faculdade, entrei no mercado de trabalho, casei; sempre de cavanhaque. Minha mulher, por exemplo, só me viu sem cavanhaque uns 6 anos depois de nos conhecermos. Foi num desses momentos de transição na vida. Minhas duas empresas fechavam as portas e eu estava prestes a ser obrigado a assumir meu primeiro emprego de carteira assinada. Um sábado de noite, durante uma reprise de um sitcom da vida, levantei da cama para ir ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara e presto! estava sem barba.

Voltei para a cama, minha mulher continuava assistindo a TV. Ela lançou uns olhares de soslaio, até que finalmente perguntou:

– O que houve? Você está diferente…
– Tirei o cavanhaque.
– Ah, é… estranho.

Estranho. Fiquei recebendo esses olhares de estranheza, dela e de todos os conhecidos, por umas duas semanas e assim que a vida voltou aos eixos o cavanhaque também voltou.

Hoje passo por mais um desses momentos. Como não podia deixar de ser, um dia fui ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara (o que parece essencial nesse processo de mudança) e presto! tirei o cavanhaque. Na verdade, não todo. Deixei um bigode.

Ao contrário da cara limpa que não gera muitos comentários, por mais estranha que possa parecer em quem usa barba há muito tempo, o bigode gera. Muitos mesmo. Realmente é um estilo ultrapassado. Tirando hipsters, senhores de mais de 70 anos, avó portuguesa de piada de salão e vilões de novelas steampunk, ninguém mais usa bigode. Por isso uma boa parte do tempo de quem usa bigode é gasto explicando por que está de bigode. Cá entre nós, não há explicação. Como as mulheres ficam ruivas, os adolescentes fazem piercings, e executivos em crise de meia idade resolvem tatuar o Putin na batata da perna, o bigode é apenas uma maneira de evidenciar externamente uma mudança interna. Não tem propósito. As pessoas não parecem entender isso, portanto, para satisfazer essa curiosidade que não tem explicação, inventei 10 justificativas para estar de bigode:

1. Vou interpretar Stalin num curta metragem argentino
2. Descobri que fui ator pornô nos anos 70 na última encarnação
3. Tive um sonho em que era o Groucho Marx e acordei assim
4. É obrigatório para o curso de amarrar donzelas em linhas de trem
5. Sou agente infiltrado investigando corrupção em fazendas de produtos orgânicos
6. Faço parte de uma banda cover do Village People
7. Perdi uma aposta com o barbeiro
8. Fiquei sabendo que o Adam Lambert vai sair do Queen e resolvi me candidatar à vaga
9. É uma homenagem ao pedido de prisão de José Sarney

E finalmente,

10. É uma coisa sexual, acho que você não quer saber os detalhes…

Se essas justificativas forem bem divulgadas, aposto que daqui a pouco o bigode volta à moda. Vai ver assim vocês param de me perguntar por que estou usando bigode. Por falar nisso, querem que eu explique?

Publicado emEnsaios

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