A missão divina de Rui Barbosa

Já fazia mais de 90 anos que Rui tinha morrido e, excetuando a entrevista de admissão no céu, nunca fora chamado à gerência. Ele tinha ouvido falar que algumas almas estavam sendo chamadas para conversar pela direção e depois eram realocadas no purgatório ou no inferno. Isso estava deixando todo mundo de cabelo em pé. Pra piorar, quem era chamado pra conversar não voltava e como estavam no céu ninguém conseguia mais informações a respeito. Vocês sabem, fofoca é pecado.

Assim, depois de ter sido convocado, Rui amargou um bom período de ansiedade até que chegou o dia em que entrou tímido e assustado na sala de São Pedro.

– Opa, Rui, senta aí.
– Obrigado, São Pedro.
– Tudo bem?
– Pra ser sincero, não. Sabe, a gente tem ouvido falar dessas realocações e não dá para não ficar nervoso.
– Entendo, entendo. Mas a tua questão vai ser outra, Rui.
– Outra?
– É, você vai ajudar a gente.
– Se eu puder ser útil…
– Será, será. O lance é o seguinte, provavelmente você não está ligado no que está rolando no Brasil, por isso vou te atualizar. Desde 1891, o Estado e A Igreja foram separados legalmente no Brasil. Lembra? Você até ajudou nisso.
– Lembro, lembro.
– Pois, é, o lance não funcionou às mil maravilhas e tal, mas pelo menos tava controlando os abusos. Pra gente essa separação é uma mão na roda. Como diz o filho do homem: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Não faz sentido pra gente o povo ficar tentando criar uma versão distorcida do céu na Terra. Além do mais, é tanta versão do livro de instruções e tanta interpretação errada que os que se dizem mais carolas acabam fazendo da Terra um inferno. Se eles soubessem que o Céu não tem nada a ver com o que eles imaginam…
– Foi exatamente o que pensamos na época.
– Então, hoje tem um grupo lá no parlamento brasileiro que tá começando a exagerar e a fazer o Torquemada parecer um santo. Por isso estamos revendo os processos da admissão de algumas almas por aqui. Se o povo tá se metendo no que é da Terra achando que está falando em nosso nome, acaba que o povo que tá no céu paga. Agora estabelecemos uma regra de legado.
– Regra de legado?
– É, se você produz algo, um livro, um filme, uma lei, que indiretamente faz o povo estragar a vida alheia na Terra, mesmo que tenha sido bem intencionado, tem que pagar um tempo no purgatório.
– E no inferno?
– É tem uns casos mais sinistros que tão indo lá pras profundezas, mas são exceção. O que a gente espera é que isso faça com o que povo deixe os outros em paz na Terra. Deixem as pessoas viverem como quiserem no mundo material que da questão divina a gente trata. Afinal de conta quem esses caras pensam que são? Deus?
– E como posso ajudar?
– Bom, Rui, o lance é o seguinte: vamos te reencarnar.
– Reencarnar?
– É, a gente não era muito fã de vocês positivistas mas dada a situação vamos precisar que alguns de vocês racionalistas voltem no Brasil pra botar mais ordem e progresso lá e ver se conseguem separar o Estado da religião de vez. Do jeito que tá não dá pra ficar. Somos divinos mas precisamos de razão também. E como você também era religioso, acho que vai conseguir um equilíbrio legal.
– Mas, São Pedro, não era mais fácil uma intervenção divina? Um sonho profético para esse pessoal que está pisando na bola?
– Já pensamos, tentamos e vimos que o tiro saiu pela culatra. Esse pessoal é tão ruim da cabeça que entendeu tudo errado. Sem contar com aqueles que já estão à serviço da concorrência.
– Tudo bem, mas vai levar mais de 20 anos para a gente dar resultado.
– Sei, sei, mas isso faz parte do plano. O povo também precisa sofrer um pouco para aprender que não pode acreditar em qualquer um que diz que fala em nosso nome. Até porque, cá entre nós, ninguém tem procuração para falar em nosso nome.
– E como fazemos?
– Bom, você entra na sala ao lado com o resto do pessoal que vamos reencarnar vocês daqui a pouquinho.

Rui se despede de São Pedro, entra na sala que lhe foi indicada, onde se espanta com todos os colegas e conhecidos que encontra: Benjamim, Comte, Euclides, Lemos, Roquette-Pinto, Rondon e…

– São Pedro!
– O que é, Rui?
– O que diabos gente como Dom Pedro II, João do Rio, Sérgio Porto e Vinícius de Moraes está fazendo aqui?
– Pô, Rui, com tanto racionalista, precisamos contrabalançar na emoção.

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