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007, Licença para matar, Licença para morrer

Uma das coisas que sempre me incomodou na franquia do James Bond foi a licença para matar. Na minha cabeça não entrava que uma licença dessas pudesse funcionar fora territórios da Rainha, quiçá dentro do próprio Império Britânico. Era suspensão de descrença demais pra mim.

Vez ou outra eu até me pegava imaginando a cena da prisão do James Bond num país desses do leste europeu:

– Chefe, esse é o agente secreto que se infiltrou no nosso país, matou dezenas dos nossos soldados e criou prejuízos de milhões de dólares.
– Muito bem, seu desgraçado. Agora vai sentir a fria letra da lei socialista. Qual o nome desse bandido, camarada?
– James Bond, senhor.
– Pô, camarada, onde já se viu?!
– O que houve, senhor?
– O James Bond tem licença para matar. Não sabia? Todo mundo sabe disso. Libere ele agora. E vê se não comete esse engano novamente. Quer me colocar numa crise internacional? E o senhor, senhor Bond? O senhor está bem? Posso lhe oferecer algo? Um martini? Nossos planos secretos? Minha esposa?

Com o passar do tempo comecei a perceber que a tal licença tinha um viés psicanalítico. Ele não tinha licença legal para matar, ele apenas se sentia livre para matar, ou melhor, a Inglaterra se sentia livre para matar quem quisesse. Contudo, para o Bond, essa licença tinha um caráter mais perverso: era uma licença para matar mulheres.

Sério. Preste atenção. Tirando Sylvia Trench, que estava nos dois primeiros filmes, nenhuma delas volta para contar história nos filmes seguintes. Pra piorar, aquelas pelas quais ele realmente se apaixona, Tracy Bond e Vesper Lynd, morrem no mesmo filme em que aparecem. Mesmo que não seja por suas mãos, a culpa, sim, é claramente dele. Portanto não é possível que essas mulheres sumam por mágica. A licença para matar, mesmo que metaforicamente, tem muito a ver com a relação de Bond com o sexo feminino.

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Alguém viu uma dessas bond girls por aí?

Talvez por isso goste tanto de três dos quatro filmes do Daniel Craig. Se tirarmos o Quantum of Solace da jogada, temos uma bela trilogia sobre a sua relação com as mulheres. Em Cassino ele se apaixona, é traído e vê sua paixão morrer. Em Skyfall ele “morre” na mãos de uma mulher, volta do morte acompanhado de um vilão sexualmente ambivalente até chegar ao seu local de nascimento para ver sua “mãe”, M, morrer em seus braços. Em Spectre ele é confrontado a respeito da sua incapacidade de se relacionar por uma psicóloga com a qual finalmente parte abandonando a sua missão.

Óbvio que a relação do homem com a sua Pátria, ou melhor Mátria, está aqui presente. Como precisa se devotar à “Rainha”, um fantasma abstrato e perfeito, ele não consegue se envolver com mulheres de verdade. Por isso suas relações são hipersexualizadas e breves. Não é possível manter o teatro do super macho por tempo demais sem fraquejar. Nesses três filmes, a sua heterossexualidade é diversas vezes ameaçada, física e psicologicamente, o que lhe permite fazer um trabalho psicanalítico, não para se relacionar melhor com as mulheres, mas, sim, para se libertar do serviço para a sua Majestade. Quem diria que o objetivo verdadeiro de James Bond era abandonar sua aventura e se tornar um indivíduo autônomo?

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“Sorry, Queen Bessy, gotta see about a girl”

Por isso quando vejo essas discussões sobre o novo Bond, nada me parece bom. Claro que Idris Elba e Gillian Anderson são super atores e dariam conta muito bem desse recado. Sei também que colocar um negro ou uma mulher nesse papel, a epítome do macho heterossexual branco, tem seu valor social, político e também narrativo. Mas sou contra. Não porque acho que exista uma tradição a ser respeitada, mas porque acho que Bond deveria ter uma licença para morrer.

Convenhamos, um dos pontos principais do personagem é quem o emprega. 007 é um agente de um governo monárquico lutando pela sobrevida de um império anacrônico. Quando havia a guerra fria, a Inglaterra aparecia como um poder moderador entre os jovens impérios capitalista e socialista evitando o fim do mundo. Depois da queda do muro isso parou de fazer sentido. Mesmo antes, nos anos 80, os vilões mudaram. Tivemos traficantes com Timothy Dalton, e nos 90, boa parte dos vilões eram corporações e seus donos. O Império agora se apresentava como o regulador das relações comerciais que ameaçavam o homem comum. Com Daniel Craig, já sabíamos que o Império e as corporações eram parceiras no crime e fomos obrigados a engolir terroristas psicopatas e super conspirações. A situação ficou tão triste que para que houvesse um mínimo de simpatia pelo herói e o que ele defendia, em todos os últimos filmes, Bond está meio ou totalmente à margem do governo. Porém, para não desvinculá-lo totalmente da Rainha, sempre houve M como um bastião de moralidade num governo corrupto ou ineficiente.  Uma estratégia fraca que não teria funcionado não fosse o talento de Judy Dench e Ralph Fiennes.

Por isso acredito que colocar quem seja nesse papel será apenas uma maneira de perpetuar um herói que luta por um governo nada democrático em quem ninguém mais confia. Qualquer ator ou atriz, se não fosse numa obra retrô ou intertextual, tornaria 007 um pastiche de um ícone que não faz mais sentido.

O que proponho? Vamos deixar Bond descansar. Vamos lhe dar licença para morrer e deixá-lo como uma obra representativa de um período histórico específico. Isso não o tornará melhor nem pior, mas apenas o que é: um herói de uma época conservadora em que o que importava era manter o Status Quo política, social e culturalmente. Tentar revivê-lo, seja por ganância ou amor ao personagem, não passa de uma nostalgia doente por algo que não voltará.

Mas você pode dizer que ficaremos órfãos de um protetor, que fará falta um herói, um espião que salve o mundo de ameaças secretas. Temos muitos assim, mas eles precisam falar ao mundo que vivemos e não a uma monarquia democrática utópica que sabemos não existir. Eles podem ser de diversas etnias, gêneros, religiões, ideologias ou nacionalidades, mas precisam falar com a realidade política que vivemos.

Para os nossos tempos, o único substituto real que vejo para James Bond e que fala ao nosso mundo é o Mister Robot. Não conhece? Vá ver. Aproveite que ainda só teve uma temporada e deixe a segurança do nosso mundo nas mãos um hacker viciado e esquizoide que luta contra tudo o que aí está. Como o agente secreto de Joseph Conrad, Mr. Robot, ao contrário de James Bond, é um herói do nosso tempo, é o herói de uma revolução iminente.

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F*ck Society diz nosso novo herói

Sempre o Domingos

Eu tive um professor de Filosofia da Arte que era fenomenal. Era o tipo de sujeito que chorava explicando o plot de Antígona e explicitava as diferenças entre drama e tragédia simulando uma crise de diarreia protagonizada por Getúlio Vargas. Saca o tipo? Tive aula com ele no breve período em que, sabe se lá por que, calhei de estudar na PUC. Preso naquele Shangri-lá vizinho ao Baixo Gávea, onde todos eram belos e jovens, eu sempre me sentia um estrangeiro. Apesar dessa inadequação, resisti bravamente por dois anos, especialmente por conta de professores como esse.

Uma vez, falando do Asdrúbal Trouxe o Trombone, o professor resumiu a sua opinião sobre arte e universalidade:

– Porra! Se o troço só fala com dois terços da zona sul do Rio, por mais engraçado e legal que seja, não dá pra chamar de arte. Arte tem que ser universal. Universal. Por exemplo, a Antígona…- e desandava a chorar pelo destino da pobre coitada.

Na época concordei e assim que ouvi o comentário só me veio à mente o Domingos de Oliveira.

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Não apenas um, mas vários Domingos

É, o Domingos. Não sabe de quem estou falando? Todo mundo conhece o Domingos de Oliveira. É… Aquele cara dos filmes de baixo orçamento sobre a zona sul-sul do Rio de Janeiro. Isso. O cara que teve a cara de pau de criar um movimento tipo Dogma 99 para justificar suas produções; o B.O.A.A., Baixo Orçamento Alto Astral. É… aquele mesmo. O sujeito que inventou a Leila Diniz. O pai da Maria Mariana, mentor da peça e do livro que, sei lá por que, me infernizaram tanto em 1992/3. Sim, esse. Esse Domingos de Oliveira.

Já tinha visto alguns de seus filmes e claramente se encaixavam na definição do professor. Eram fenomenais, mas falavam com um público tão limitado geograficamente que não dava pra chamar de arte. Eram basicamente comédias românticas despretensiosas sobre a classe artística que transita na zona sul do Rio de Janeiro. Cheias de piadas internas sobre a Globo, garçons e casos amorosos. Enfim, histórias locais. Onde estaria a universalidade pedida pela “arte” naqueles porres e papos em bares dos baixos Gávea e Leblon? Aparentemente em lugar nenhum.

Os anos passaram, saí (ufa!) da PUC, juntei, desjuntei, entrei no mercado de trabalho, casei, comecei a fazer parte da farsa do mundo adulto, mudei para Belo Horizonte e um dia, num canal qualquer, numa madruga insone, estava passando Separações. É, Separações do Domingos de Oliveira.

Lembro que na primeira vez que assisti ri horrores. Mas não por um bom motivo. Havia no filme uma carga absurda de humor não proposital. Me parecia que certas cenas e situações, criadas para dar carga dramática ao filme, tinham sido tão exageradas que se tornaram cômicas. Você deve se lembrar da cena do poema Saudade. Lembra? Não? Sério? Você tem que ver.

Sem muita explicação o filme começou a pipocar em diversos momentos da minha vida e, estranhamente, à cada vez ele tomava uma conotação diferente. As cenas que me pareciam exageradas e histriônicas passaram a parecer críveis e a humanidade dos personagens cada vez mais forte.

Algumas situações eram ridículas? Sim, mas não o somos todos? Aos poucos, filme a filme, Domingos de Oliveira me mostrou que o meu professor estava errado. Toda arte é local. E só fala ao e sobre seu autor a quem quiser escutar. Cabe ao público ter uma posição ativa de ouvir e refletir. É nessa reflexão, nesse contato, que surge a arte. Na conjunção de duas sensibilidades é que ocorre a mágica catalização da experiência artística. Meu professor estava errado: a arte não é atributo de um objeto. Não há arte num quadro, num livro, num filme. A arte é um encontro. Sem esse encontro, o objeto e o público se tornam totalmente desprovidos de sentido. O encontro, a arte, é que lhes dá a razão de ser.

Ontem, o encontro foi com o documentário da Maria Ribeiro sobre ele, Domingos. E que encontro. Como os filmes do Domingos, de forma despretensiosa e pessoal, ela não só constrói um belo personagem como revela o seu olhar amoroso sobre talvez a maior de suas influências. Mais um encontro. Mais um apaixonar.

Todas as mulheres do mundo

Deus inventou a mulher, mas Domingos de Oliveira inventou Leila Diniz.

Fica claro no filme como a sua pessoalidade e as suas idiossincrasias o tornam uma avis rara. Parte do Cinema Novo e ao mesmo tempo considerado “alienado” frente aos seus contemporâneos. Na fronteira dos 80 anos, em tempos, agora minguantes, de grandes financiamentos, ainda se mantem fiel ao seu modelo minimalista de produção, ao seu grupo recorrente de amigos e colaboradores, às suas referências populares e  clássicas, e aos seus diversos e proclamados afetos. Talvez, como ele mesmo se define, Domingos de Oliveira seja o último hippie. Hippie por acreditar mais no amor que na política, por se cercar por e fomentar uma comunidade criativa e por acreditar mais no trabalho e na vida que na adulação e na posteridade. Um homem de obras em vida, um homem para dialogar com, e não um homem para se colocar num pedestal e se admirar. E por essa mesma razão ele se torna tão admirável. Uma contradição ambulante. Um hippie admirável de fato. Um homem lúcido como poucos.

 

Pra quem tem medo da ameaça vermelha

Logo depois que o Jango assumiu, o país entrou em polvorosa. Tipo hoje. Mas à sério. Um grupo de oligarcas, executivos de multinacionais e ricos sem razão específica que costumava se encontrar para engraxar os sapatos juntos (não me perguntem o porquê, eram os anos 60) também se deixou contaminar pelo papo. Além de falar de suas famílias e suas amantes; de seus negócios e de suas negociatas; de vinhos e Whisky e de seus porres e suas ressacas; introduziram em seus papos a política.

Assim, todo dia de manhã, enquanto um grupo de quase escravos engraxava seus sapatos, eles ficavam lá conjecturando o futuro político da nação:

– Então vai ter golpe?
– Não, tem não.
– Então vamos virar uma nação comunista?
– Não, vira não.
– Então uma intervenção americana?
– Não, intervem não.
– Então, qual será o nosso futuro?
– Futuro? Futuro não.

No meio desse papo rico e intelectual, um dos oligarcas incorporou um Sócrates, o filósofo, não o jogador, e se virou para um dos engraxates para consultar o povo sobre a sua opinião:

– E você, rapaz? O que pensa disso? Iremos abraçar o comunismo no Brasil? Iremos nos tornar verdadeiramente comunistas?

O rapaz pensou, pensou, coçou o queixo, pensou um pouco mais e do alto da sua sabedoria respondeu:

– Se vamos virar comunistas ou não, sinceramente, num sei, mas se o comunismo vier, pode ficar tranquilo, nóis estraga.

Entra a claque, por favor.

Guia Turístico dos Ônibus do Rio de Janeiro

O casal de turistas sobe no ônibus na altura da Constante Ramos.

– Esse é o 127?- a mulher pergunta, num sotaque impossível de se identificar. Pode ser argentino, russo ou até mesmo do interior de São Paulo.
– NÃO! É O TRONCAL 1! UUUM! O 127 ACABOU! PRA ONDE VOCÊS VÃO? – o motorista gentilmente lhes atende.
– Quê?
– PRA ONDE VOCÊS VÃO? PRA ONDE?
– Ah, Rodoviária. Rodoviária?- ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – Rodoviária.
– SOBE. ESSE AQUI FAZ O MESMO CAMINHO.

Param na catraca e depois da regulamentar confusão para pagar (tiram menos dinheiro; puxam cartão de crédito; contam moeda; conversam sussurrando sobre algo curioso e inaudível; questionam o valor; pagam e esquecem de pegar o troco) eles se sentam. Nos bancos preferenciais para idosos.

– Falta muito? – a mulher pergunta ao cobrador.
– O quê?
– Falta muito? Quantos pontos?
– Ah, sei não, não sou dessa linha. Tô só cobrindo um amigo- vira-se pro motorista- Aí, quantos pontos faltam pra Rodoviária?
– O QUÊ?!
– Quantos pontos faltam pra Rodoviária?!
– AH, UM MONTE!

O cobrador se vira para a turista:

– Daqui a pouco chega. É rapidinho.
– E onde saltamos?
– Como assim? Vocês vão pra onde?
– Pra Rodoviária. Pra Rodoviária?- ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – É, pra Rodoviária.
– Ah, aí é fácil. O ponto final é a Rodoviária. Aí vocês vão saltar na… Rodoviária.

O Cobrador ri, os turistas riem e, mesmo sem ter ouvido direto, o motorista ri. O ônibus é só alegria. Assim como o Rio de Janeiro.

– Se bem que…- o cobrador acrescenta um porém.- Tem duas rodoviárias.
– Duas? Duas Rodoviárias?- ela se vira espantada para o homem. Ele balança a cabeça para mostrar que está ouvindo. – Tem certeza? São duas Rodoviárias?
– É, sim, são duas rodoviárias. Uma onde o ônibus para e a outra onde pega ônibus pra outras cidades. Cabo Frio, Petrópolis São Paulo. Essas coisas. Vocês vão para qual?

O casal se olha sem saber. Cochicham entre si tentando decidir o que fazer. Duas Rodoviárias? Por essa eles não esperavam.

– Vocês vão fazer o que lá?- o cobrador tenta ajudar.
– Vamos pegar uma amiga.
– De onde ela vem?
– Búzios. Búzios? – ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – Búzios.
– Ah, então é na outra.
– É longe?
– É longe?- o cobrador checa com o motorista.
– O QUÊ?
– O ponto final da Rodoviária. É longe?!
– O PONTO FINAL É A RODOVIÁRIA!!!
– Sei, mas o ponto final é LONGE da outra Rodoviária?!
– AH, DA OUTRA? MAIS OU MENOS!! MAS O CAMINHO É MEIO ESQUISITO!
– Tranquilo, é bem na frente- o cobrador confirma para a turista.
– E pra voltar?- ela continua.
– Pra voltar? Como assim?
– Pra voltar de onde a gente veio?
– Ah, aí pode voltar pra Rodoviária; a do ponto final; e pegar esse mesmo ônibus pra voltar.
– Mas a gente salta onde? Aqui em Copacabana- ela se vira para o homem. Ele balança a cabeça para mostrar que está ouvindo. – É, onde a gente salta em Copacabana?
– Ah, não sei. Ei, onde a gente pegou eles?!- o cobrador pergunta pro motorista.
– QUEM?
– Os turistas!
– AH, SEI LÁ. NÃO FOI NA CONSTANTE?
– Constante Ramos?!
– É. CONSTANTE.

O cobrador se vira para a turista:

– É só saltar perto da Constante Ramos.
– E como sabemos que está perto da Conselheiro Ramos? – ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – Como chegamos na Conselheiro Ramos?
– Constante Ramos- o cobrador corrige.

A moça pega o celular e começa a anotar.

– Olha, quando o ônibus chegar em Copa vão ter duas ruas,- o cobrador explica- uma é a Siqueira Campos… tá anotando?
– Sim. Sim.
– A outra é a… Aí, como é o nome daquela rua?!
– QUE RUA?!
– A que não é a Siqueira!
– A FIGUEIREDO?
– Isso, valeu, Figueiredo. Anota aí. Chegou em Copa, passou a Figueiredo, puxa a cordinha e vai pra Conselheiro, quer dizer, pra Constante Ramos.
– Ah, acho que não entendi.
– Deixa eu ver o que você anotou.
– Não- a turista protege seu celular.- Você não vai entender o que escrevi.
– Tá bom. Tá bom. Vamos ver como eu vou te explicar. Tem a Figueiredo, quando passar você faz sinal, aí salta na esquina da Constante.
– Na esquina da Figueiredo com a Constante? – ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – É na esquina? Da Figueiredo com a Constante?
– É. Pera aí. Acho que me confundi. Ei, a Figueiredo faz esquina com a Constante?
– O QUÊ? ESQUINA COM QUEM?
– A Figueiredo faz esquina com…

Pra mim essa foi a gota d’água. Baixo o livro que estava tentando ler sem sucesso por 10 minutos e dou a letra:

– Não, não, NÃO!!! O caminho não é esse. Você vai pegar o Troncal 1 na volta, ele vai passar pelo Túnel Novo, após um grande shopping chamado Rio Sul, e vai entrar na rua Barata Ribeiro. Anotou?
– Anotei- a turista assustada assente.
– Bom, ele vai seguir até passar por uma rua grande chamada Figueiredo Magalhães. É só ficar de olho nas placas. Sabe do que estou falando?
– Sim. Sim.
– Então quando passar da Figueiredo você vai puxar a cordinha e saltar no próximo ponto. Entendeu?
– Entendi.

Me calo e volto a ler. O ônibus inteiro fica em silêncio por todo o trajeto. Salto na Mem de Sá e enquanto o ônibus parte posso perceber os olhares de desprezo de todos os passageiros, dos turistas, do motorista e do cobrador sobre mim. Não resisto:

– Bem vindos ao Rio de Janeiro, idiotas!

A turista faz uma cara de espanto e se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente.

A morte do Cão e o anúncio do Ministro

Quando eu tinha uns 11 anos, ganhei de presente um Beagle. Foi uma alegria. O cachorro era maravilhoso: bonito, esperto e sapeca na medida certa. Motivado pela minha obsessão por Conan Doyle, dei-lhe o nome de Holmes. Ao mesmo tempo em que me divertia em ser perseguido por ele no aterro do Flamengo como um menino de 6 anos, curtia passear com o Holmes na rua e ver as meninas parando para acarinhá-lo e flertar comigo. Foi o melhor companheiro para a minha transição de criança para adolescente.

Infelizmente, depois de dois anos de muita alegria, ele caiu doente. Entra e sai do veterinário, ninguém descobria o que acontecia. Cancer, envenenamento, depressão; as teorias eram muitas, mas conclusão? Nenhuma. Isso não diminuía a dor que sentíamos ao vê-lo, antes tão alegre e bonito, definhar de tristeza.

Um sábado de tarde, meu pai me chamou e decretou:

– Vamos passar essa tarde com o Holmes, antes de ele morrer.

Sentamos na sala e tentamos fazê-lo brincar. Sem sucesso. Fazíamos carinho, mas ele não respondia. Num último arroubo ele se levantou, mas aparentemente ficara cego, e ricocheteava nos móveis tentando se agarrar à vida. Antes que pudéssemos aninhá-lo, ele caiu, golfou sangue e morreu.

Agora,  enquanto acompanho a crise política, só me lembro do Holmes. Vigio os noticiários online esperando nomeações de ministros e acompanhando os movimentos do judiciário como o menino que assiste seu cachorro morrer. Assim como aconteceu com o Holmes, ainda havia dentro de mim uma esperança que o Brasil não morresse, mas sei que era vã.

Meu pai, na sua sabedoria, já sabia que o máximo que podíamos fazer era homenagear aquele que nos fez feliz. Mesmo que estivessem corroídos internamente e envenenados, Holmes e o Brasil não mereciam ser lembrados por seus últimos momentos. Cegos, débeis, morrendo por razões misteriosas e ao mesmo tempo completamente aparentes.

Depois que Holmes morreu, meu pai o enrolou num lençol, deitou meu cachorro numa bolsa de palha e o levou para destino ignorado. Nunca discutimos o que aconteceu. Foi enterrado? Incinerado? Não queríamos saber. Tudo o que importava era que ele não estava mais lá.

Lembro do Holmes e penso no Brasil. Teremos um enterro tão desrespeitoso como o de Holmes? Quando nossos animais e países de estimação morrem, como podemos lidar com o luto de forma respeitosa? Alguém pode me responder? Eu não consigo pensar em nada. Só no Holmes. Só no Holmes.

Talvez só me reste comprar um cachorro.

Ecos

No meio da madrugada, o barulho da máquina de escrever elétrica me acordou. Segui o zumbido futurista do deslizar da esfera metálica da IBM até o quarto da minha mãe. Sob uma fraca luminária ela se esforçava para escrever curvada sobre aquela grande peça de metal verde. Fiquei ao seu lado por pelo menos uns 5 minutos antes que ela se desse conta da minha presença.

– Te acordei, filholo?

Ela me colocou no colo e me levou de volta pra cama.

– Desculpa, filholo, mas enquanto não terminar de escrever essa tese vou ser obrigada a passar as noites com o Umberto Eco.
– Quem é Umberto Eco?
– É um homem que eu não sei se amo ou odeio.

*

A greve da UFRJ levou as aulas mais uma vez para janeiro. Eu estava de férias do colégio, mas minha mãe não tinha com quem me deixar. O que fazer? Leva o menino pra faculdade. Ela me sentava no final da turma e eu passava as tardes vendo o povo discutir coisas que eu não entendia e, confesso, ainda não entendo direito.

Naquele dia foi diferente. De noite minha mãe me entregou um livro vermelho e grosso e me disse:

– Pra você não ficar boiando amanhã, lê das páginas 84 à 127.

Eu li. O livro falava dos números perfeitos, da arquitetura do paraíso, das falhas de Deus e como o homem não conseguia entendê-lo. Era isso que era a tal da Filosofia?

No dia seguinte assisti ao seminário dela sobre O Nome da Rosa me sentindo o tal. Não boiei tanto e lembro de até ter a empáfia de fazer perguntas. Nascia em mim o verme do esnobismo intelectual.

*

Fizeram o filme de O Nome da Rosa. Todos do colégio fomos assistir. Naquela época ou íamos ao cinema, ver o que estivesse passando, ou ficávamos de castigo assistindo ao Chacrinha. Pra alguns, que tinham suas chacretes preferidas, nem era castigo.

Duas horas depois de franciscanos versus beneditinos, saímos do filme em choque. Menos pelos peitos da Valentina Vargas, mais por descobrirmos que estudávamos no colégio dos vilões do filme.

– Putz, esses beneditinos são filhos da puta há muito tempo- chegamos à conclusão entre um chicken mcnugget e outro.
– Pois, é. O filme é medieval mas retrata igualzinho o que a gente vive hoje.
– Isso. Vivemos num labirinto de livros perseguidos por monges pervertidos.
– É.
– É.
– É.
– Não. Não. Não.
– Como assim, não?
– Vocês não entenderam nada. Não somos os franciscanos. Nós somos os beneditinos.

E no silêncio da concordância nos descobrimos como os vilões que ainda somos.

*

Meu sócio estava recebendo a sobrinha da namorada australiana  para passar o Réveillon no Rio. Quando ela cansou de praia, Cristo, botequim e Pão de Açúcar, ele me ligou pedindo ajuda:

– A menina diz que gosta de ler. Traz uma porra desses teus pockets em inglês aí pra ela.

Coisa difícil escolher livros pros outros. Especialmente para quem não se conhece.
Depois de duas horas de considerações, me decidi: O Pêndulo de Foucault.

Entreguei o livro pra menina. Dois dias depois, durante um almoço no trabalho, o meu sócio me devolve o livro.

– Uau, ela já leu?
– Nada. Nem chegou na página 10. Falou que era baboseira intelectual. Sabe como é? Australiana.

Fui vencido pelo anti-intelectualismo anglo saxão.

*

Quarta de cinzas. Um dos meus amigos de colégio me chama prum churrasco na sua casa. O resto da galera fura e sem ter muito o que fazer além de tomar cerveja e comer carne, acabamos passando a revista na biblioteca dele. Numa das estantes mais altas, uma cópia de O Nome da Rosa.

– Putz. É teu?
– Não. Alguém deixou aqui.
– Lembra do filme?
– Lembro. Lembro. Filme bom. Livro meeerda.
– Mas e o…
– Os peitos da Valentina Vargas?
– Não. O lance de descobrirmos que éramos os vilões do filme.
– Ah, isso. Esquece. Hoje em dia não dá pra ficar assumindo esse tipo de símbolo em público.

*

Umberto Eco morreu. Lembro que comprei O Número Zero e ainda não li. Assim que amanhecer vou procurar nas estantes. Vejo o quanto a minha casa se tornou um pequeno mosteiro beneditino. Labirintos de livros e armadilhas para os incautos em busca do saber/prazer. O quanto disso se deve a ele? Ou o quanto disso eu atribuo a ele?

Os símbolos, no fim da história, não parecem ter sentido na medida em que eles só se justificam pelo poder que tem de nos tornar símbolos para nós mesmos. Como os monges lambemos livros envenenados em busca de algo que não está lá. Vivemos em cidades cenográficas que fingimos ser reais.

Enquanto digito essas palavras numa extensão para o Chrome que simula o som de uma máquina de escrever, recebo um e-mail do EReaderIQ  avisando que o Cemitério de Praga está em promoção na Amazon. O e-book. Algo que Umberto Eco tanto odiava. Será um sinal de que ele, como ideia, está finalmente morto? Ou será que apenas estou transformando essa serendipidade em mais um símbolo vazio?

Compro o livro. Os símbolos e os signos que cuidem dos seus próprios significados.