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Como justificar um bigode

Acho que a última vez que fiquei sem barba, bigode, cavanhaque ou afins por mais de um mês foi em setembro de 1995. Mais precisamente no dia 10 de setembro de 1995. Era um feriadão de sete de setembro e eu, prestes a completar 21 anos, recebi como presente a ida da minha mãe para um congresso. Nunca, em toda a minha vida, tinha ficado com a casa só para mim por tanto tempo.

Estava com uma viagem marcada para a pousada de um amigo em Itaúnas mas não resisti à oportunidade e desmarquei. Consegui convencer alguns amigos a desistir também e tivemos 4 belos dias da mais completa devassidão. Em todos os sentidos. Do mais filosófico ao mais mundano.

Foi um evento tão cataclísmico para a vida dos envolvidos que, acredito, naqueles dias diversas linhas do tempo alternativas foram geradas. Foi quase como assistir à criação de uma série de universos de camarote. Pra resumir, como no Gênesis, “e viu Deus que era bom”. Nos também vimos. E foi muito bom.

No dia 10 de setembro pela manhã, véspera do meu aniversário, após a longa e pesada faxina para preparar a casa para a volta da minha mãe, fui tomar banho e me olhei no espelho. Amassei a cara com uma das mãos tentando recompor o que não tinha mais volta. Aquele rosto não me servia mais. Eu era outra pessoa. Tudo o que tinha passado naqueles quatro dias não me permitia mais transitar entre uma cara limpa e com barba. Eu precisava fazer uma escolha. Naquele dia, decidi não mais me barbear e isso me mudou.

O cavanhaque começou a me acompanhar e se tornou parte do meu rosto e da minha história. Saí da faculdade, entrei no mercado de trabalho, casei; sempre de cavanhaque. Minha mulher, por exemplo, só me viu sem cavanhaque uns 6 anos depois de nos conhecermos. Foi num desses momentos de transição na vida. Minhas duas empresas fechavam as portas e eu estava prestes a ser obrigado a assumir meu primeiro emprego de carteira assinada. Um sábado de noite, durante uma reprise de um sitcom da vida, levantei da cama para ir ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara e presto! estava sem barba.

Voltei para a cama, minha mulher continuava assistindo a TV. Ela lançou uns olhares de soslaio, até que finalmente perguntou:

– O que houve? Você está diferente…
– Tirei o cavanhaque.
– Ah, é… estranho.

Estranho. Fiquei recebendo esses olhares de estranheza, dela e de todos os conhecidos, por umas duas semanas e assim que a vida voltou aos eixos o cavanhaque também voltou.

Hoje passo por mais um desses momentos. Como não podia deixar de ser, um dia fui ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara (o que parece essencial nesse processo de mudança) e presto! tirei o cavanhaque. Na verdade, não todo. Deixei um bigode.

Ao contrário da cara limpa que não gera muitos comentários, por mais estranha que possa parecer em quem usa barba há muito tempo, o bigode gera. Muitos mesmo. Realmente é um estilo ultrapassado. Tirando hipsters, senhores de mais de 70 anos, avó portuguesa de piada de salão e vilões de novelas steampunk, ninguém mais usa bigode. Por isso uma boa parte do tempo de quem usa bigode é gasto explicando por que está de bigode. Cá entre nós, não há explicação. Como as mulheres ficam ruivas, os adolescentes fazem piercings, e executivos em crise de meia idade resolvem tatuar o Putin na batata da perna, o bigode é apenas uma maneira de evidenciar externamente uma mudança interna. Não tem propósito. As pessoas não parecem entender isso, portanto, para satisfazer essa curiosidade que não tem explicação, inventei 10 justificativas para estar de bigode:

1. Vou interpretar Stalin num curta metragem argentino
2. Descobri que fui ator pornô nos anos 70 na última encarnação
3. Tive um sonho em que era o Groucho Marx e acordei assim
4. É obrigatório para o curso de amarrar donzelas em linhas de trem
5. Sou agente infiltrado investigando corrupção em fazendas de produtos orgânicos
6. Faço parte de uma banda cover do Village People
7. Perdi uma aposta com o barbeiro
8. Fiquei sabendo que o Adam Lambert vai sair do Queen e resolvi me candidatar à vaga
9. É uma homenagem ao pedido de prisão de José Sarney

E finalmente,

10. É uma coisa sexual, acho que você não quer saber os detalhes…

Se essas justificativas forem bem divulgadas, aposto que daqui a pouco o bigode volta à moda. Vai ver assim vocês param de me perguntar por que estou usando bigode. Por falar nisso, querem que eu explique?

A missão divina de Rui Barbosa

Já fazia mais de 90 anos que Rui tinha morrido e, excetuando a entrevista de admissão no céu, nunca fora chamado à gerência. Ele tinha ouvido falar que algumas almas estavam sendo chamadas para conversar pela direção e depois eram realocadas no purgatório ou no inferno. Isso estava deixando todo mundo de cabelo em pé. Pra piorar, quem era chamado pra conversar não voltava e como estavam no céu ninguém conseguia mais informações a respeito. Vocês sabem, fofoca é pecado.

Assim, depois de ter sido convocado, Rui amargou um bom período de ansiedade até que chegou o dia em que entrou tímido e assustado na sala de São Pedro.

– Opa, Rui, senta aí.
– Obrigado, São Pedro.
– Tudo bem?
– Pra ser sincero, não. Sabe, a gente tem ouvido falar dessas realocações e não dá para não ficar nervoso.
– Entendo, entendo. Mas a tua questão vai ser outra, Rui.
– Outra?
– É, você vai ajudar a gente.
– Se eu puder ser útil…
– Será, será. O lance é o seguinte, provavelmente você não está ligado no que está rolando no Brasil, por isso vou te atualizar. Desde 1891, o Estado e A Igreja foram separados legalmente no Brasil. Lembra? Você até ajudou nisso.
– Lembro, lembro.
– Pois, é, o lance não funcionou às mil maravilhas e tal, mas pelo menos tava controlando os abusos. Pra gente essa separação é uma mão na roda. Como diz o filho do homem: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Não faz sentido pra gente o povo ficar tentando criar uma versão distorcida do céu na Terra. Além do mais, é tanta versão do livro de instruções e tanta interpretação errada que os que se dizem mais carolas acabam fazendo da Terra um inferno. Se eles soubessem que o Céu não tem nada a ver com o que eles imaginam…
– Foi exatamente o que pensamos na época.
– Então, hoje tem um grupo lá no parlamento brasileiro que tá começando a exagerar e a fazer o Torquemada parecer um santo. Por isso estamos revendo os processos da admissão de algumas almas por aqui. Se o povo tá se metendo no que é da Terra achando que está falando em nosso nome, acaba que o povo que tá no céu paga. Agora estabelecemos uma regra de legado.
– Regra de legado?
– É, se você produz algo, um livro, um filme, uma lei, que indiretamente faz o povo estragar a vida alheia na Terra, mesmo que tenha sido bem intencionado, tem que pagar um tempo no purgatório.
– E no inferno?
– É tem uns casos mais sinistros que tão indo lá pras profundezas, mas são exceção. O que a gente espera é que isso faça com o que povo deixe os outros em paz na Terra. Deixem as pessoas viverem como quiserem no mundo material que da questão divina a gente trata. Afinal de conta quem esses caras pensam que são? Deus?
– E como posso ajudar?
– Bom, Rui, o lance é o seguinte: vamos te reencarnar.
– Reencarnar?
– É, a gente não era muito fã de vocês positivistas mas dada a situação vamos precisar que alguns de vocês racionalistas voltem no Brasil pra botar mais ordem e progresso lá e ver se conseguem separar o Estado da religião de vez. Do jeito que tá não dá pra ficar. Somos divinos mas precisamos de razão também. E como você também era religioso, acho que vai conseguir um equilíbrio legal.
– Mas, São Pedro, não era mais fácil uma intervenção divina? Um sonho profético para esse pessoal que está pisando na bola?
– Já pensamos, tentamos e vimos que o tiro saiu pela culatra. Esse pessoal é tão ruim da cabeça que entendeu tudo errado. Sem contar com aqueles que já estão à serviço da concorrência.
– Tudo bem, mas vai levar mais de 20 anos para a gente dar resultado.
– Sei, sei, mas isso faz parte do plano. O povo também precisa sofrer um pouco para aprender que não pode acreditar em qualquer um que diz que fala em nosso nome. Até porque, cá entre nós, ninguém tem procuração para falar em nosso nome.
– E como fazemos?
– Bom, você entra na sala ao lado com o resto do pessoal que vamos reencarnar vocês daqui a pouquinho.

Rui se despede de São Pedro, entra na sala que lhe foi indicada, onde se espanta com todos os colegas e conhecidos que encontra: Benjamim, Comte, Euclides, Lemos, Roquette-Pinto, Rondon e…

– São Pedro!
– O que é, Rui?
– O que diabos gente como Dom Pedro II, João do Rio, Sérgio Porto e Vinícius de Moraes está fazendo aqui?
– Pô, Rui, com tanto racionalista, precisamos contrabalançar na emoção.

Eu te O-DÍ-O

Essa semana resolvi fazer uma experiência no Facebook e pagar pela divulgação de textos que estava publicando no meu blog. Nada demais. Como prometiam que eu alcançaria por volta de 2000 pessoas em 24 horas por apenas 4 reais, de bobeira, tentei.

Não tenho perfil nessa rede há uns 4 anos mas, como Milton Nascimento diz é “onde o povo está”, então, resolvi ver onde isso ia levar. Divulguei um texto sobre James Bond e outro sobre o Brexit. O que aprendi com a experiência?

O primeiro texto tinha uma análise bastante profunda da misoginia da franquia do 007 e teve uma boa quantidade de likes que não se reverteram nem em 10% de leitores. Em suma, o povo dá like sem ler.

O segundo texto, como tratava de um assunto do dia, teve uma boa quantidade de leitores e comentários, mas, cá entre nós, que lixo de público. Muita gente compartilhou além de dar os likes, mas quem comentou simplesmente queria destilar o seu ódio. Parece até que estão esperando para ficar indignados e mostrar que são os bastiões da moral num mundo decadente. Duvida? Dá uma olhadinha aqui:

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O que aprendi com a experiência? Facebook NO MORE.

Isso me lembra uma história do meu pai. Todo dia de manhã quando íamos tomar café, meu pai abria o jornal nas cartas dos leitores e desandava a rir. Uma vez perguntei do que ele ria tanto. Ele respondeu:

– Filho, um cara tem que ser muito maluco para ler um artigo, escrever uma carta, botar ela no correio e esperar quem alguém a leia.

A internet simplesmente facilitou o trabalho desses imbecis. Por mais que queira divulgar o que escrevo, descobri que aqui não é o meu lugar. Manterei a página, mas não vou esperar nem recorrer a formas de divulgação não orgânicas. Buscar público no Facebook, se não for pra bater palma pra maluco, é caminho para se estressar.

E como o meu pai bem terminava aquele papo:

– O pior maluco sou eu que leio essas cartas.

Não vou ser esse maluco.

Brexit, Trump e Bolsonaro: o Contra-Script do Amor

A queda do socialismo foi um golpe cognitivo tremendo. Óbvio que já tinha gente preparada. Gente trabalhada na psicanálise por anos de movimento hippie, amor livre e protestos pacifistas. Gente que já sabia o que fazer quando toda aquela animosidade acabasse. Quando o muro caiu, esse povo rapidamente se movimentou enquanto os outros que não acreditavam no que estava acontecendo simplesmente ficaram alí sentados em choque com saudades do que se foi.

Mas o tempo passa, as coisas mudam e o que era novidade começa a se tornar sistema; e, como tal, passa a dar defeito. Nada fatal mas é o suficiente para o povo da nostalgia do pior se levantar de dedo em riste e atacar: “A-HA! Eu disse que não ia funcionar!”.

E aí? Vamos reconstruir os muros?

Aí é que começa um troço interessante: tudo o que valorizávamos passa a ser ruim e tudo de ruim que motivou a criação do sistema atual passa a ser bom. É o que os analistas transacionais chamam de Contra-Script. O indivíduo que era de um jeito se torna o oposto para reforçar as mudanças que acha necessário fazer. É o traficante que vira pastor, a estrelinha infantil que vira diva sexy, o engenheiro careta de meia idade que vira ator alternativo, a mãe de família carola que vira uma devoradora de homens. Manja os tipos?

Esse comportamento que parece mega deplorável a nível individual se repete à exaustão e sob aplausos coletivamente. Partidos, comunidades, cidades e até nações caem nessa sem parar. Sempre tem um movimento para criar o “novo isso ou novo aquilo”, mas nunca tem um movimento para “melhorar o que conseguimos”. Esse tipo de movimentação acaba por nos colocar num círculo vicioso de dar um passo para frente e dois pra traz. Enfim, viver de retrocessos.

A saída da Inglaterra da Europa, os grupos que defendem o Bolsonaro e a candidatura do Trump são fenômenos desse tipo. São a vingança do instinto de morte que tinha sido enterrado na Guerra Fria. Lembram da Guerra Nuclear iminente, das ditaduras políticas, da censura e da patrulha comportamental? Tudo o que nos interessava naquela época era pular nas gargantas alheias e estraçalha-las, pois alguém precisava estar certo. Estávamos como Rambo e o Comando para matar transformando a violência em fetiche para ter prazer. Quando o muro caiu o movimento se inverteu; abafamos Thanatos e nos rendemos a Eros. Criamos mercados comuns, expandimos relações e o multiculturalismo, lutamos pela liberação dos costumes e comportamentos sociais. Enfim todos podiam estar certos. Éramos só amor. Não é à toa que o grande herói desse tempo é o Dude, Jeffrey Lebowski, com seu adágio: “Well, that is your opinion, man”.

O liberalismo em resumo

Mas não há bem que sempre dure. Assim, as medidas que permitiram uma grande quantidade de melhorias em nossas relações geraram diversas situações de risco. Fronteiras abertas levaram a migrações em massa de refugiados, facilitaram a entrada de terroristas e a expansão de epidemias. Ao invés de tratarmos essas questões como efeitos colaterais do remédio, botamos a culpa em Eros e trouxemos Thanatos de volta para o centro do picadeiro. Não somos simplesmente medrosos. Somos burros. Por que a gente é assim?

Talvez Anthony Burgess tenha a resposta. No seu livro M/F, e também no Laranja Mecânica, ele sugere que a humanidade oscila num conflito entre Pelágio e Santo Agostinho. Somos maus por natureza ou por escolha? Os problemas vem de fora ou de dentro? Precisamos vigiar fronteiras ou os cidadãos? Enfim devemos jogar nossa agressividade para dentro ou para fora? Enfim, Eros ou Thanatos?

Essa visão, mais pessimista que a minha, me remete a uma observação que ouvi certa vez de um delegado de polícia. Ele era um desses policiais da velha guarda, durão, que sentia saudade da Invernada de Olaria. Deu pra visualizar o personagem? Sempre depois de maldizer os problemas atuais fechava seus comentários com a seguinte frase:

– O problema do Brasil é ainda estar na ressaca da ditadura.

O que ele queria dizer é que diversos abusos se justificavam pelo abuso maior que o país tinha sofrido, num processo interminável de vingança contra o que vivemos anteriormente. Se transitamos entre Eros e Thanatos, Agostinho ou Pelágio, tanto faz. O importante é o movimento de embriaguez com o novo sistema e a ressaca inevitável que nos levará ao seu oposto como remédio para curá-la. Como qualquer bebida alcoólica, ideologias, sistemas de governo e teorias econômicas deveriam também ser consumidas com moderação.

É difícil não concordar com ele e ver que tempos difíceis se aproximam. O sistema atual rui, a embriaguez com o próximo começa e, como bêbados inexperientes, nos primeiros drinques é que surgem os maiores riscos.

Sempre fui um partidário de Eros, mesmo com todos os problemas que ele cria. Contudo não vivo sozinho no mundo e sei que as pessoas tem uma grande necessidade de se sentirem seguras. Precisamos aprender a balancear esses dois instintos e não abrir mão de um pelo outro. Precisamos crescer.

Mesmo nos muros pode haver amor

Mas, pelo jeito, não vai ser dessa vez. A Inglaterra sai da Europa, os bolsomitos gritam apoiando o estupro e Trump se prepara para construir o seu muro de Babel. Voltamos ao reino do instinto de morte. O que nos resta? Talvez montar uma comunidade hippie e esperar o momento em que mais uma vez  esses muros construídos sobre tantos já derrubados vão ruir. E nessa hora voltaremos, espero, para compor e não para destruir. Voltaremos, espero, pela derradeira vez. Voltaremos, espero, adultos.

Espero, espero, espero. Mas não acredito.

007, Licença para matar, Licença para morrer

Uma das coisas que sempre me incomodou na franquia do James Bond foi a licença para matar. Na minha cabeça não entrava que uma licença dessas pudesse funcionar fora territórios da Rainha, quiçá dentro do próprio Império Britânico. Era suspensão de descrença demais pra mim.

Vez ou outra eu até me pegava imaginando a cena da prisão do James Bond num país desses do leste europeu:

– Chefe, esse é o agente secreto que se infiltrou no nosso país, matou dezenas dos nossos soldados e criou prejuízos de milhões de dólares.
– Muito bem, seu desgraçado. Agora vai sentir a fria letra da lei socialista. Qual o nome desse bandido, camarada?
– James Bond, senhor.
– Pô, camarada, onde já se viu?!
– O que houve, senhor?
– O James Bond tem licença para matar. Não sabia? Todo mundo sabe disso. Libere ele agora. E vê se não comete esse engano novamente. Quer me colocar numa crise internacional? E o senhor, senhor Bond? O senhor está bem? Posso lhe oferecer algo? Um martini? Nossos planos secretos? Minha esposa?

Com o passar do tempo comecei a perceber que a tal licença tinha um viés psicanalítico. Ele não tinha licença legal para matar, ele apenas se sentia livre para matar, ou melhor, a Inglaterra se sentia livre para matar quem quisesse. Contudo, para o Bond, essa licença tinha um caráter mais perverso: era uma licença para matar mulheres.

Sério. Preste atenção. Tirando Sylvia Trench, que estava nos dois primeiros filmes, nenhuma delas volta para contar história nos filmes seguintes. Pra piorar, aquelas pelas quais ele realmente se apaixona, Tracy Bond e Vesper Lynd, morrem no mesmo filme em que aparecem. Mesmo que não seja por suas mãos, a culpa, sim, é claramente dele. Portanto não é possível que essas mulheres sumam por mágica. A licença para matar, mesmo que metaforicamente, tem muito a ver com a relação de Bond com o sexo feminino.

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Alguém viu uma dessas bond girls por aí?

Talvez por isso goste tanto de três dos quatro filmes do Daniel Craig. Se tirarmos o Quantum of Solace da jogada, temos uma bela trilogia sobre a sua relação com as mulheres. Em Cassino ele se apaixona, é traído e vê sua paixão morrer. Em Skyfall ele “morre” na mãos de uma mulher, volta do morte acompanhado de um vilão sexualmente ambivalente até chegar ao seu local de nascimento para ver sua “mãe”, M, morrer em seus braços. Em Spectre ele é confrontado a respeito da sua incapacidade de se relacionar por uma psicóloga com a qual finalmente parte abandonando a sua missão.

Óbvio que a relação do homem com a sua Pátria, ou melhor Mátria, está aqui presente. Como precisa se devotar à “Rainha”, um fantasma abstrato e perfeito, ele não consegue se envolver com mulheres de verdade. Por isso suas relações são hipersexualizadas e breves. Não é possível manter o teatro do super macho por tempo demais sem fraquejar. Nesses três filmes, a sua heterossexualidade é diversas vezes ameaçada, física e psicologicamente, o que lhe permite fazer um trabalho psicanalítico, não para se relacionar melhor com as mulheres, mas, sim, para se libertar do serviço para a sua Majestade. Quem diria que o objetivo verdadeiro de James Bond era abandonar sua aventura e se tornar um indivíduo autônomo?

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“Sorry, Queen Bessy, gotta see about a girl”

Por isso quando vejo essas discussões sobre o novo Bond, nada me parece bom. Claro que Idris Elba e Gillian Anderson são super atores e dariam conta muito bem desse recado. Sei também que colocar um negro ou uma mulher nesse papel, a epítome do macho heterossexual branco, tem seu valor social, político e também narrativo. Mas sou contra. Não porque acho que exista uma tradição a ser respeitada, mas porque acho que Bond deveria ter uma licença para morrer.

Convenhamos, um dos pontos principais do personagem é quem o emprega. 007 é um agente de um governo monárquico lutando pela sobrevida de um império anacrônico. Quando havia a guerra fria, a Inglaterra aparecia como um poder moderador entre os jovens impérios capitalista e socialista evitando o fim do mundo. Depois da queda do muro isso parou de fazer sentido. Mesmo antes, nos anos 80, os vilões mudaram. Tivemos traficantes com Timothy Dalton, e nos 90, boa parte dos vilões eram corporações e seus donos. O Império agora se apresentava como o regulador das relações comerciais que ameaçavam o homem comum. Com Daniel Craig, já sabíamos que o Império e as corporações eram parceiras no crime e fomos obrigados a engolir terroristas psicopatas e super conspirações. A situação ficou tão triste que para que houvesse um mínimo de simpatia pelo herói e o que ele defendia, em todos os últimos filmes, Bond está meio ou totalmente à margem do governo. Porém, para não desvinculá-lo totalmente da Rainha, sempre houve M como um bastião de moralidade num governo corrupto ou ineficiente.  Uma estratégia fraca que não teria funcionado não fosse o talento de Judy Dench e Ralph Fiennes.

Por isso acredito que colocar quem seja nesse papel será apenas uma maneira de perpetuar um herói que luta por um governo nada democrático em quem ninguém mais confia. Qualquer ator ou atriz, se não fosse numa obra retrô ou intertextual, tornaria 007 um pastiche de um ícone que não faz mais sentido.

O que proponho? Vamos deixar Bond descansar. Vamos lhe dar licença para morrer e deixá-lo como uma obra representativa de um período histórico específico. Isso não o tornará melhor nem pior, mas apenas o que é: um herói de uma época conservadora em que o que importava era manter o Status Quo política, social e culturalmente. Tentar revivê-lo, seja por ganância ou amor ao personagem, não passa de uma nostalgia doente por algo que não voltará.

Mas você pode dizer que ficaremos órfãos de um protetor, que fará falta um herói, um espião que salve o mundo de ameaças secretas. Temos muitos assim, mas eles precisam falar ao mundo que vivemos e não a uma monarquia democrática utópica que sabemos não existir. Eles podem ser de diversas etnias, gêneros, religiões, ideologias ou nacionalidades, mas precisam falar com a realidade política que vivemos.

Para os nossos tempos, o único substituto real que vejo para James Bond e que fala ao nosso mundo é o Mister Robot. Não conhece? Vá ver. Aproveite que ainda só teve uma temporada e deixe a segurança do nosso mundo nas mãos um hacker viciado e esquizoide que luta contra tudo o que aí está. Como o agente secreto de Joseph Conrad, Mr. Robot, ao contrário de James Bond, é um herói do nosso tempo, é o herói de uma revolução iminente.

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F*ck Society diz nosso novo herói

Sempre o Domingos

Eu tive um professor de Filosofia da Arte que era fenomenal. Era o tipo de sujeito que chorava explicando o plot de Antígona e explicitava as diferenças entre drama e tragédia simulando uma crise de diarreia protagonizada por Getúlio Vargas. Saca o tipo? Tive aula com ele no breve período em que, sabe se lá por que, calhei de estudar na PUC. Preso naquele Shangri-lá vizinho ao Baixo Gávea, onde todos eram belos e jovens, eu sempre me sentia um estrangeiro. Apesar dessa inadequação, resisti bravamente por dois anos, especialmente por conta de professores como esse.

Uma vez, falando do Asdrúbal Trouxe o Trombone, o professor resumiu a sua opinião sobre arte e universalidade:

– Porra! Se o troço só fala com dois terços da zona sul do Rio, por mais engraçado e legal que seja, não dá pra chamar de arte. Arte tem que ser universal. Universal. Por exemplo, a Antígona…- e desandava a chorar pelo destino da pobre coitada.

Na época concordei e assim que ouvi o comentário só me veio à mente o Domingos de Oliveira.

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Não apenas um, mas vários Domingos

É, o Domingos. Não sabe de quem estou falando? Todo mundo conhece o Domingos de Oliveira. É… Aquele cara dos filmes de baixo orçamento sobre a zona sul-sul do Rio de Janeiro. Isso. O cara que teve a cara de pau de criar um movimento tipo Dogma 99 para justificar suas produções; o B.O.A.A., Baixo Orçamento Alto Astral. É… aquele mesmo. O sujeito que inventou a Leila Diniz. O pai da Maria Mariana, mentor da peça e do livro que, sei lá por que, me infernizaram tanto em 1992/3. Sim, esse. Esse Domingos de Oliveira.

Já tinha visto alguns de seus filmes e claramente se encaixavam na definição do professor. Eram fenomenais, mas falavam com um público tão limitado geograficamente que não dava pra chamar de arte. Eram basicamente comédias românticas despretensiosas sobre a classe artística que transita na zona sul do Rio de Janeiro. Cheias de piadas internas sobre a Globo, garçons e casos amorosos. Enfim, histórias locais. Onde estaria a universalidade pedida pela “arte” naqueles porres e papos em bares dos baixos Gávea e Leblon? Aparentemente em lugar nenhum.

Os anos passaram, saí (ufa!) da PUC, juntei, desjuntei, entrei no mercado de trabalho, casei, comecei a fazer parte da farsa do mundo adulto, mudei para Belo Horizonte e um dia, num canal qualquer, numa madruga insone, estava passando Separações. É, Separações do Domingos de Oliveira.

Lembro que na primeira vez que assisti ri horrores. Mas não por um bom motivo. Havia no filme uma carga absurda de humor não proposital. Me parecia que certas cenas e situações, criadas para dar carga dramática ao filme, tinham sido tão exageradas que se tornaram cômicas. Você deve se lembrar da cena do poema Saudade. Lembra? Não? Sério? Você tem que ver.

Sem muita explicação o filme começou a pipocar em diversos momentos da minha vida e, estranhamente, à cada vez ele tomava uma conotação diferente. As cenas que me pareciam exageradas e histriônicas passaram a parecer críveis e a humanidade dos personagens cada vez mais forte.

Algumas situações eram ridículas? Sim, mas não o somos todos? Aos poucos, filme a filme, Domingos de Oliveira me mostrou que o meu professor estava errado. Toda arte é local. E só fala ao e sobre seu autor a quem quiser escutar. Cabe ao público ter uma posição ativa de ouvir e refletir. É nessa reflexão, nesse contato, que surge a arte. Na conjunção de duas sensibilidades é que ocorre a mágica catalização da experiência artística. Meu professor estava errado: a arte não é atributo de um objeto. Não há arte num quadro, num livro, num filme. A arte é um encontro. Sem esse encontro, o objeto e o público se tornam totalmente desprovidos de sentido. O encontro, a arte, é que lhes dá a razão de ser.

Ontem, o encontro foi com o documentário da Maria Ribeiro sobre ele, Domingos. E que encontro. Como os filmes do Domingos, de forma despretensiosa e pessoal, ela não só constrói um belo personagem como revela o seu olhar amoroso sobre talvez a maior de suas influências. Mais um encontro. Mais um apaixonar.

Todas as mulheres do mundo

Deus inventou a mulher, mas Domingos de Oliveira inventou Leila Diniz.

Fica claro no filme como a sua pessoalidade e as suas idiossincrasias o tornam uma avis rara. Parte do Cinema Novo e ao mesmo tempo considerado “alienado” frente aos seus contemporâneos. Na fronteira dos 80 anos, em tempos, agora minguantes, de grandes financiamentos, ainda se mantem fiel ao seu modelo minimalista de produção, ao seu grupo recorrente de amigos e colaboradores, às suas referências populares e  clássicas, e aos seus diversos e proclamados afetos. Talvez, como ele mesmo se define, Domingos de Oliveira seja o último hippie. Hippie por acreditar mais no amor que na política, por se cercar por e fomentar uma comunidade criativa e por acreditar mais no trabalho e na vida que na adulação e na posteridade. Um homem de obras em vida, um homem para dialogar com, e não um homem para se colocar num pedestal e se admirar. E por essa mesma razão ele se torna tão admirável. Uma contradição ambulante. Um hippie admirável de fato. Um homem lúcido como poucos.