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Pra quem tem medo da ameaça vermelha

Logo depois que o Jango assumiu, o país entrou em polvorosa. Tipo hoje. Mas à sério. Um grupo de oligarcas, executivos de multinacionais e ricos sem razão específica que costumava se encontrar para engraxar os sapatos juntos (não me perguntem o porquê, eram os anos 60) também se deixou contaminar pelo papo. Além de falar de suas famílias e suas amantes; de seus negócios e de suas negociatas; de vinhos e Whisky e de seus porres e suas ressacas; introduziram em seus papos a política.

Assim, todo dia de manhã, enquanto um grupo de quase escravos engraxava seus sapatos, eles ficavam lá conjecturando o futuro político da nação:

– Então vai ter golpe?
– Não, tem não.
– Então vamos virar uma nação comunista?
– Não, vira não.
– Então uma intervenção americana?
– Não, intervem não.
– Então, qual será o nosso futuro?
– Futuro? Futuro não.

No meio desse papo rico e intelectual, um dos oligarcas incorporou um Sócrates, o filósofo, não o jogador, e se virou para um dos engraxates para consultar o povo sobre a sua opinião:

– E você, rapaz? O que pensa disso? Iremos abraçar o comunismo no Brasil? Iremos nos tornar verdadeiramente comunistas?

O rapaz pensou, pensou, coçou o queixo, pensou um pouco mais e do alto da sua sabedoria respondeu:

– Se vamos virar comunistas ou não, sinceramente, num sei, mas se o comunismo vier, pode ficar tranquilo, nóis estraga.

Entra a claque, por favor.

Guia Turístico dos Ônibus do Rio de Janeiro

O casal de turistas sobe no ônibus na altura da Constante Ramos.

– Esse é o 127?- a mulher pergunta, num sotaque impossível de se identificar. Pode ser argentino, russo ou até mesmo do interior de São Paulo.
– NÃO! É O TRONCAL 1! UUUM! O 127 ACABOU! PRA ONDE VOCÊS VÃO? – o motorista gentilmente lhes atende.
– Quê?
– PRA ONDE VOCÊS VÃO? PRA ONDE?
– Ah, Rodoviária. Rodoviária?- ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – Rodoviária.
– SOBE. ESSE AQUI FAZ O MESMO CAMINHO.

Param na catraca e depois da regulamentar confusão para pagar (tiram menos dinheiro; puxam cartão de crédito; contam moeda; conversam sussurrando sobre algo curioso e inaudível; questionam o valor; pagam e esquecem de pegar o troco) eles se sentam. Nos bancos preferenciais para idosos.

– Falta muito? – a mulher pergunta ao cobrador.
– O quê?
– Falta muito? Quantos pontos?
– Ah, sei não, não sou dessa linha. Tô só cobrindo um amigo- vira-se pro motorista- Aí, quantos pontos faltam pra Rodoviária?
– O QUÊ?!
– Quantos pontos faltam pra Rodoviária?!
– AH, UM MONTE!

O cobrador se vira para a turista:

– Daqui a pouco chega. É rapidinho.
– E onde saltamos?
– Como assim? Vocês vão pra onde?
– Pra Rodoviária. Pra Rodoviária?- ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – É, pra Rodoviária.
– Ah, aí é fácil. O ponto final é a Rodoviária. Aí vocês vão saltar na… Rodoviária.

O Cobrador ri, os turistas riem e, mesmo sem ter ouvido direto, o motorista ri. O ônibus é só alegria. Assim como o Rio de Janeiro.

– Se bem que…- o cobrador acrescenta um porém.- Tem duas rodoviárias.
– Duas? Duas Rodoviárias?- ela se vira espantada para o homem. Ele balança a cabeça para mostrar que está ouvindo. – Tem certeza? São duas Rodoviárias?
– É, sim, são duas rodoviárias. Uma onde o ônibus para e a outra onde pega ônibus pra outras cidades. Cabo Frio, Petrópolis São Paulo. Essas coisas. Vocês vão para qual?

O casal se olha sem saber. Cochicham entre si tentando decidir o que fazer. Duas Rodoviárias? Por essa eles não esperavam.

– Vocês vão fazer o que lá?- o cobrador tenta ajudar.
– Vamos pegar uma amiga.
– De onde ela vem?
– Búzios. Búzios? – ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – Búzios.
– Ah, então é na outra.
– É longe?
– É longe?- o cobrador checa com o motorista.
– O QUÊ?
– O ponto final da Rodoviária. É longe?!
– O PONTO FINAL É A RODOVIÁRIA!!!
– Sei, mas o ponto final é LONGE da outra Rodoviária?!
– AH, DA OUTRA? MAIS OU MENOS!! MAS O CAMINHO É MEIO ESQUISITO!
– Tranquilo, é bem na frente- o cobrador confirma para a turista.
– E pra voltar?- ela continua.
– Pra voltar? Como assim?
– Pra voltar de onde a gente veio?
– Ah, aí pode voltar pra Rodoviária; a do ponto final; e pegar esse mesmo ônibus pra voltar.
– Mas a gente salta onde? Aqui em Copacabana- ela se vira para o homem. Ele balança a cabeça para mostrar que está ouvindo. – É, onde a gente salta em Copacabana?
– Ah, não sei. Ei, onde a gente pegou eles?!- o cobrador pergunta pro motorista.
– QUEM?
– Os turistas!
– AH, SEI LÁ. NÃO FOI NA CONSTANTE?
– Constante Ramos?!
– É. CONSTANTE.

O cobrador se vira para a turista:

– É só saltar perto da Constante Ramos.
– E como sabemos que está perto da Conselheiro Ramos? – ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – Como chegamos na Conselheiro Ramos?
– Constante Ramos- o cobrador corrige.

A moça pega o celular e começa a anotar.

– Olha, quando o ônibus chegar em Copa vão ter duas ruas,- o cobrador explica- uma é a Siqueira Campos… tá anotando?
– Sim. Sim.
– A outra é a… Aí, como é o nome daquela rua?!
– QUE RUA?!
– A que não é a Siqueira!
– A FIGUEIREDO?
– Isso, valeu, Figueiredo. Anota aí. Chegou em Copa, passou a Figueiredo, puxa a cordinha e vai pra Conselheiro, quer dizer, pra Constante Ramos.
– Ah, acho que não entendi.
– Deixa eu ver o que você anotou.
– Não- a turista protege seu celular.- Você não vai entender o que escrevi.
– Tá bom. Tá bom. Vamos ver como eu vou te explicar. Tem a Figueiredo, quando passar você faz sinal, aí salta na esquina da Constante.
– Na esquina da Figueiredo com a Constante? – ela se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente. – É na esquina? Da Figueiredo com a Constante?
– É. Pera aí. Acho que me confundi. Ei, a Figueiredo faz esquina com a Constante?
– O QUÊ? ESQUINA COM QUEM?
– A Figueiredo faz esquina com…

Pra mim essa foi a gota d’água. Baixo o livro que estava tentando ler sem sucesso por 10 minutos e dou a letra:

– Não, não, NÃO!!! O caminho não é esse. Você vai pegar o Troncal 1 na volta, ele vai passar pelo Túnel Novo, após um grande shopping chamado Rio Sul, e vai entrar na rua Barata Ribeiro. Anotou?
– Anotei- a turista assustada assente.
– Bom, ele vai seguir até passar por uma rua grande chamada Figueiredo Magalhães. É só ficar de olho nas placas. Sabe do que estou falando?
– Sim. Sim.
– Então quando passar da Figueiredo você vai puxar a cordinha e saltar no próximo ponto. Entendeu?
– Entendi.

Me calo e volto a ler. O ônibus inteiro fica em silêncio por todo o trajeto. Salto na Mem de Sá e enquanto o ônibus parte posso perceber os olhares de desprezo de todos os passageiros, dos turistas, do motorista e do cobrador sobre mim. Não resisto:

– Bem vindos ao Rio de Janeiro, idiotas!

A turista faz uma cara de espanto e se vira para confirmar com o homem. Ele balança a cabeça afirmativamente.

A morte do Cão e o anúncio do Ministro

Quando eu tinha uns 11 anos, ganhei de presente um Beagle. Foi uma alegria. O cachorro era maravilhoso: bonito, esperto e sapeca na medida certa. Motivado pela minha obsessão por Conan Doyle, dei-lhe o nome de Holmes. Ao mesmo tempo em que me divertia em ser perseguido por ele no aterro do Flamengo como um menino de 6 anos, curtia passear com o Holmes na rua e ver as meninas parando para acarinhá-lo e flertar comigo. Foi o melhor companheiro para a minha transição de criança para adolescente.

Infelizmente, depois de dois anos de muita alegria, ele caiu doente. Entra e sai do veterinário, ninguém descobria o que acontecia. Cancer, envenenamento, depressão; as teorias eram muitas, mas conclusão? Nenhuma. Isso não diminuía a dor que sentíamos ao vê-lo, antes tão alegre e bonito, definhar de tristeza.

Um sábado de tarde, meu pai me chamou e decretou:

– Vamos passar essa tarde com o Holmes, antes de ele morrer.

Sentamos na sala e tentamos fazê-lo brincar. Sem sucesso. Fazíamos carinho, mas ele não respondia. Num último arroubo ele se levantou, mas aparentemente ficara cego, e ricocheteava nos móveis tentando se agarrar à vida. Antes que pudéssemos aninhá-lo, ele caiu, golfou sangue e morreu.

Agora,  enquanto acompanho a crise política, só me lembro do Holmes. Vigio os noticiários online esperando nomeações de ministros e acompanhando os movimentos do judiciário como o menino que assiste seu cachorro morrer. Assim como aconteceu com o Holmes, ainda havia dentro de mim uma esperança que o Brasil não morresse, mas sei que era vã.

Meu pai, na sua sabedoria, já sabia que o máximo que podíamos fazer era homenagear aquele que nos fez feliz. Mesmo que estivessem corroídos internamente e envenenados, Holmes e o Brasil não mereciam ser lembrados por seus últimos momentos. Cegos, débeis, morrendo por razões misteriosas e ao mesmo tempo completamente aparentes.

Depois que Holmes morreu, meu pai o enrolou num lençol, deitou meu cachorro numa bolsa de palha e o levou para destino ignorado. Nunca discutimos o que aconteceu. Foi enterrado? Incinerado? Não queríamos saber. Tudo o que importava era que ele não estava mais lá.

Lembro do Holmes e penso no Brasil. Teremos um enterro tão desrespeitoso como o de Holmes? Quando nossos animais e países de estimação morrem, como podemos lidar com o luto de forma respeitosa? Alguém pode me responder? Eu não consigo pensar em nada. Só no Holmes. Só no Holmes.

Talvez só me reste comprar um cachorro.

Ecos

No meio da madrugada, o barulho da máquina de escrever elétrica me acordou. Segui o zumbido futurista do deslizar da esfera metálica da IBM até o quarto da minha mãe. Sob uma fraca luminária ela se esforçava para escrever curvada sobre aquela grande peça de metal verde. Fiquei ao seu lado por pelo menos uns 5 minutos antes que ela se desse conta da minha presença.

– Te acordei, filholo?

Ela me colocou no colo e me levou de volta pra cama.

– Desculpa, filholo, mas enquanto não terminar de escrever essa tese vou ser obrigada a passar as noites com o Umberto Eco.
– Quem é Umberto Eco?
– É um homem que eu não sei se amo ou odeio.

*

A greve da UFRJ levou as aulas mais uma vez para janeiro. Eu estava de férias do colégio, mas minha mãe não tinha com quem me deixar. O que fazer? Leva o menino pra faculdade. Ela me sentava no final da turma e eu passava as tardes vendo o povo discutir coisas que eu não entendia e, confesso, ainda não entendo direito.

Naquele dia foi diferente. De noite minha mãe me entregou um livro vermelho e grosso e me disse:

– Pra você não ficar boiando amanhã, lê das páginas 84 à 127.

Eu li. O livro falava dos números perfeitos, da arquitetura do paraíso, das falhas de Deus e como o homem não conseguia entendê-lo. Era isso que era a tal da Filosofia?

No dia seguinte assisti ao seminário dela sobre O Nome da Rosa me sentindo o tal. Não boiei tanto e lembro de até ter a empáfia de fazer perguntas. Nascia em mim o verme do esnobismo intelectual.

*

Fizeram o filme de O Nome da Rosa. Todos do colégio fomos assistir. Naquela época ou íamos ao cinema, ver o que estivesse passando, ou ficávamos de castigo assistindo ao Chacrinha. Pra alguns, que tinham suas chacretes preferidas, nem era castigo.

Duas horas depois de franciscanos versus beneditinos, saímos do filme em choque. Menos pelos peitos da Valentina Vargas, mais por descobrirmos que estudávamos no colégio dos vilões do filme.

– Putz, esses beneditinos são filhos da puta há muito tempo- chegamos à conclusão entre um chicken mcnugget e outro.
– Pois, é. O filme é medieval mas retrata igualzinho o que a gente vive hoje.
– Isso. Vivemos num labirinto de livros perseguidos por monges pervertidos.
– É.
– É.
– É.
– Não. Não. Não.
– Como assim, não?
– Vocês não entenderam nada. Não somos os franciscanos. Nós somos os beneditinos.

E no silêncio da concordância nos descobrimos como os vilões que ainda somos.

*

Meu sócio estava recebendo a sobrinha da namorada australiana  para passar o Réveillon no Rio. Quando ela cansou de praia, Cristo, botequim e Pão de Açúcar, ele me ligou pedindo ajuda:

– A menina diz que gosta de ler. Traz uma porra desses teus pockets em inglês aí pra ela.

Coisa difícil escolher livros pros outros. Especialmente para quem não se conhece.
Depois de duas horas de considerações, me decidi: O Pêndulo de Foucault.

Entreguei o livro pra menina. Dois dias depois, durante um almoço no trabalho, o meu sócio me devolve o livro.

– Uau, ela já leu?
– Nada. Nem chegou na página 10. Falou que era baboseira intelectual. Sabe como é? Australiana.

Fui vencido pelo anti-intelectualismo anglo saxão.

*

Quarta de cinzas. Um dos meus amigos de colégio me chama prum churrasco na sua casa. O resto da galera fura e sem ter muito o que fazer além de tomar cerveja e comer carne, acabamos passando a revista na biblioteca dele. Numa das estantes mais altas, uma cópia de O Nome da Rosa.

– Putz. É teu?
– Não. Alguém deixou aqui.
– Lembra do filme?
– Lembro. Lembro. Filme bom. Livro meeerda.
– Mas e o…
– Os peitos da Valentina Vargas?
– Não. O lance de descobrirmos que éramos os vilões do filme.
– Ah, isso. Esquece. Hoje em dia não dá pra ficar assumindo esse tipo de símbolo em público.

*

Umberto Eco morreu. Lembro que comprei O Número Zero e ainda não li. Assim que amanhecer vou procurar nas estantes. Vejo o quanto a minha casa se tornou um pequeno mosteiro beneditino. Labirintos de livros e armadilhas para os incautos em busca do saber/prazer. O quanto disso se deve a ele? Ou o quanto disso eu atribuo a ele?

Os símbolos, no fim da história, não parecem ter sentido na medida em que eles só se justificam pelo poder que tem de nos tornar símbolos para nós mesmos. Como os monges lambemos livros envenenados em busca de algo que não está lá. Vivemos em cidades cenográficas que fingimos ser reais.

Enquanto digito essas palavras numa extensão para o Chrome que simula o som de uma máquina de escrever, recebo um e-mail do EReaderIQ  avisando que o Cemitério de Praga está em promoção na Amazon. O e-book. Algo que Umberto Eco tanto odiava. Será um sinal de que ele, como ideia, está finalmente morto? Ou será que apenas estou transformando essa serendipidade em mais um símbolo vazio?

Compro o livro. Os símbolos e os signos que cuidem dos seus próprios significados.

Alegria, Alegria!

O excesso de festividades e essa alma celebrativa do brasileiro escondem uma grande melancolia. É só andar pelas ruas num dia como hoje para notar. Depois da grande festa, as pessoas se movem lentas, sem destino, passando por terríveis crises de consciência. Ressaqueadas. Física e moralmente.

Alguns mais guerreiros continuam a se intoxicar tentando voltar àquele estado inebriado de felicidade. É inútil e apenas esconde a vontade secreta de ficar infeliz. Mas mesmo assim tentamos.

Um casal de idosos, bêbados, abraçado numa esquina é estimulado por uma menina:

– Beija ela! Beija. Ela não vai lembrar de nada. Tá bêbada.
– Bêbada, nada- defende o consorte.

Se beijam. Provavelmente não lembrarão de nada.

Na padaria, lotada, um sujeito passa apertando mãos:

– I’m hungry. Tengo hambre. Tô com fome.

A miséria de fato e da espírito está globalizada.

Ele tenta pegar o dinheiro da mão de um gringo.

– Sorry, bro. No money.

O malandro não se abala e passa para o próximo da fila. Mais um poliglota humilhado.

A sensação é de que o brasileiro acha que alguém está sempre lhe devendo algo, que a razão da sua desgraça está no outro e não nele mesmo. Parece que lhe impediram de entrar na Igreja e quem entrou é obrigado a lhe ajudar. Afinal quem tem graça deve dá-la aos desgraçados.

E não há graça, nem riso que aplaque essa sensação. Por isso vamos festejar.

Um amigo que trabalhava com dependentes químicos uma vez me disse:

– O que o alcoólatra mais anseia é pelo momento da ressaca.

Assim é o brasileiro. Festeja pois quer ficar triste e não aceita a sua própria tristeza. Com a ressaca terá motivo para encarar o mal que lhe aflige, fingindo que é culpa do álcool. Não é só patético, é covarde.

Acho que já está mais do que na hora de elaborarmos esse luto e podermos festejar para ficarmos verdadeiramente felizes e não para encobrir a tristeza que não aceitamos.

Deve ser uma sensação mágica. Não lembro de ter experimentado. Sou, antes de tudo, um brasileiro.

Vim aqui lhe contar algo sobre 2016

Segunda feira, 6 da tarde. Os amigos se reúnem para o Chandon Sunset, evento bacana onde assistimos juntos na praia de Ipanema o pôr do sol, entre taças de espumante, para eles, e cerveja, para mim. Apesar do que dizia a previsão, o tempo, apesar de bem nublado, se mantinha estável. A bruta chuva prometida era ainda apenas uma promessa.

A cada rajada de vento ou pingo renegado, o povo murmurava entre si:

– Não vai chover. NÃO VAI CHO-VER.

Dito e feito. Choveu.

Mesmo sob um dilúvio, como muitos que estavam na praia, não arredamos pé. A chuva veio. A chuva foi. A chuva voltou. Ventou forte. Mas, graças a Deus, não rolou nenhum raio. Enfim ela acabou.

Comemoramos a nossa resiliência e perseverança. Alguém comentou:

– É preciso aguentar a chuva para ver o pôr do sol.

Tem razão. Tem razão.

*

Último almoço de trabalho do ano, Sushi e Kirin para engolir um ano difícil mas vitorioso. Mesmo que nos pênaltis. Conversamos sobre os acertos e erros do ano e, especialmente, sobre a falta de previsibilidade do ano que vem. Murmuramos entre nós:

– Tudo pode acontecer. TU-DO PO-DE A-CON-TE-CER.

Na hora de pagar o banquete a quilo de meia hora, o cartão alimentação, sinal da nossa sorte corporativa, é negado. A conta passou R$0,11 do que tinha pra esse mês. A caixa não se furtou a me dar o desconto. Com a boleta na mão, ela disse:

-Taí. Zeradinho pro ano que vem.

Tomara. Tomara.

*

No botequim da esquina, as famílias se reúnem para o último chopp do ano. Contam suas histórias de dureza e também as de superação. As crianças brincam na rua, enquanto os adultos, mesmo esperançosos, temem o que futuro trará para elas.

Na volta de mais um passeio no quarteirão com a minha filha, percebo que o celular que tinha deixado na mesa sumiu:

– Você não estava aqui?
– Fiquei o tempo todo. Não será que caiu no caminho?
– Não. Deixei aqui.

Procura. Procura. Não acha. Todos lamentam e alguém lembra de um velório em que um amigo se confundiu ao cumprimentar o colega cuja mãe tinha morrido:

– Vão-se as mãos, ficam-se os anéis.

Rimos. O que é perder algo material?

*

Por que estou lhe contando isso?

Sou um fiel crente na quarta dimensão. Vejo e acredito que o Universo está sempre nos mandando sinais. Para mim, fica evidente que o recado de agora é: o que é do passado lá deve ficar. E, complementando, a vida em 2016 será nova e, Oxalá, boa!

Por isso, vamos deixar 2015 para trás e viver 2016 como um novo começo. Um começo de relações, trabalhos, sonhos, conquistas, histórias e tudo mais que faz a vida ser boa.

Como dizia J.G. Balard: Eu resumiria o meu medo do futuro em apenas uma palavra: chato.

Vamos ter um 2016 interessante e divertido.

Por isso estou lhe contando isso.

Ah, e para avisar que estarei sem celular até o começo do ano que vem.