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Os bons selvagens digitais

Quase toda semana, aparece por aí uma matéria exaltando a sabedoria dos nativos digitais. Colocamos aqueles nascidos pós ano 2000 num pedestal e consideramos que, como bons selvagens digitais d’aprés Rosseau, eles nasceram não só com o entendimento técnico como também com o aparato ético necessário para lidar com a tecnologia.

Não caiam nessa lorota. Isso é o mesmo que considerar que o povo que nasceu pós revolução sexual é aberto e respeita a pluralidade ou que os nascidos depois do fim da ditadura no Brasil são democratas de carteirinha. Muito pelo contrário. É só ver essa galera nova reprimida e careta pra perceber que certos movimentos normalmente geram o efeito oposto.

Por isso, vamos parar com essa postura. Isso não só nos levará a receber conselhos idiotas de ingênuos úteis como põe uma carga enorme nas costas de quem ainda não tem a noção de como lidar com isso. Além disso, não esqueçam: bom selvagem não existe. Hobbes já sabia disso.

Bom mocismo Zona Sul

Sábado. 9 e 57 da noite. Os bares na orla de Copacabana estão lotados. E com fila de espera. O menino que vende chiclete usa isso a seu favor, enquanto dribla os garçons que insistem em espantá-lo. Vende um chiclete aqui, leva um passa fora alí, consegue rodar um salão de restaurante inteiro sem ninguém importuná-lo. Fatura. Devagar, mas bem. Os seus minutos são cheios de altos e baixos. Não há tempo para lamentar nem para comemorar. Só há tempo para agir.

Entra em mais um bar. Os garçons ocupados com o movimento não o notam. Avança pelas mesas. Não. Não. Não. Não, muito obrigado. De nada. De nada? No outro lado do bar, uma mesa com uma mulher, um bebê e uma menina. Mais ou menos da sua idade. Mesa boa. Os bebês costumam amolecer as pessoas e os corações. Usa as pilastras para se esconder dos garçons, enquanto caminha o mais rápido que pode até a mesa. Chega ao seu destino.

– Vai um chiclete? Uma ajudinha, por favor?

A mulher o ignora e levanta ninando o bebê que começa a chorar. Perdi, perdi, pensa. Mas insiste com a menina:

– Um chiclete? Uma ajuda?

A menina olha para ele séria, franze os lábios e cruza os braços com uma expressão de pena.

– Pode vir aqui mais perto, por favor?- ela convida.

Ele atende. Ela quase encosta a boca no seu ouvido e começa a falar:

– Sabia que trabalho infantil é crime?
– Ahn?
– Crime. É, crime. Eu vi na televisão. Você devia estar estudando, brincando. Esses são os direitos das crianças. Você não devia estar trabalhando. Olha, não vou comprar o chiclete mas vou te dar uma coisa melhor…
– O quê?
– Um conselho. Fala com os teus pais que eles estão cometendo um crime quando te colocam pra trabalhar. Fala pra eles. Se quiser, vê na internet qual é a lei. Aposto que vai resolver o teu problema. Entendeu o que eu disse?
– Entendi?
– Bom, tomara que sábado que vem você possa estar em casa brincando e não vendendo chiclete. Tá bom? Então, ó, boa sorte, tá?
– Tá.
– E não esquece meu conselho, viu?

O menino se afasta da mesa chocado, esfrega o ouvido para limpar os perdigotos da menina e sai do bar sem olhar pra trás. A menina toma um gole de coca-cola e sorri triunfante. Fez uma boa ação hoje. O menino entra no próximo bar e continua a vender seus chicletes procurando evitar clientes malucos dessa vez. Tomara que tenha essa sorte.

Sábado. 10 e 23 da noite. No balanço geral, nenhum problema social foi resolvido em Copacabana. Apesar de todos os esforços do bom mocismo zona sul há alguns males que conselho sozinho não consegue curar. Uma pena. Uma pena.

Danem-se os idos de março

Na última semana, por e-mail, nas rodas de café, nas conversas entreouvidas no transporte coletivo, por mensagens de What’s app, estou sendo bombardeado por “indiscutíveis” sinais do apocalipse iminente. Ontem, um amigo, que considerava politicamente sensato, me mandou essa mensagem de áudio:

Fiquei decepcionado e preocupado. Se até uma das cabeças mais razoáveis que conheço está sucumbindo a esse terror barato, as coisas realmente não vão lá muito bem. A mensagem, como tantos outros boatos que circulam por aí, segue ipsis litteris casos que estudei na cadeira de psicopatologia: alucinação extracampina (algo acontece na floresta amazônica, longe dos olhos de todos; um alerta sempre dado por uma terceira pessoa não presente); delírios de perseguição (grupos guerrilheiros com mais de 20 mil armas; guerra civil iminente); e o delirio de ruína (tudo vai ser “trancado” (oi?); confisco como na época do Collor). Meus professores com certeza apostariam num diagnóstico claro de paranoia.

Saí às ruas com isso na cabeça. No caminho encontrei 3 blitzes. Uma antes e outra depois do mesmo túnel! Vejam só!? Meu sogro me ligou para reclamar que em São Paulo todos os caixas eletrônicos estão sem dinheiro. Tentei confirmar a informação e percebi diversos bancos com o autoatendimento fechado. Confesso, pressionado pela força da profecia autorealizável, comecei a me deixar infectar pela paranoia.

Que paranoia com os idos de março, Júlio.

Que paranoia é essa com os idos de março, Júlio?

E dá para evitar? Como já disse o Zizek, a fantasia com o apocalipse tem lá a sua sedutora função redentora. Quando nos encontramos numa situação desagradável da qual não conseguimos sair, um evento mágico ou fantástico que acabe com o que há sempre pode ser melhor que a indecisão ou a tensão presente. E estamos nesse momento horrível. Não há como negar isso.

Corrupção, seca, aumentos de energia, volta da inflação, demissões em massa. Quem quer viver nesse mundo? Melhor que ocorra algo, qualquer coisa, para nos tirar dessa realidade. Mesmo que seja para nos levar para uma pior. Será que o ISIS atua no Brasil? Calma, calma, perguntei só por curiosidade.

O problema é que ninguém pensa no momento depois do apocalipse. Ninguém pensa no que acontece depois da revelação divina que joga o mundo antigo para escanteio. Se um mundo acaba, outro começa. E como será esse novo mundo? Com isso ninguém quer lidar. Mas, lembre, já lidamos com isso antes.

Lembro, por exemplo, do dia seguinte ao confisco do Collor. Sim, sou velho. Fui lá eu e meu pai para uma fila de chocados e descontentes na frente do Bradesco tirar os 5o dólares a que tínhamos direito. Depois daquele trauma meu pai passou a dividir o dinheiro em 20 poupanças diferentes como se isso fosse resolver a questão. Um amigo, que casou semanas depois do ocorrido, conta que durante a festa os convidados ficaram sentados imóveis olhando para o vazio como se sofressem de síndrome de stress pós traumático enquanto o dj tocava ininterruptamente “Pintura Íntima”. Meu antigo sócio, que perdeu uma empresa por conta do confisco, teve pesadelos recorrentes com a Zélia até o começo dos 2000. Eróticos, dizem as más línguas. Ficamos traumatizados, sim, mas sobrevivemos.

E sobreviveremos agora. Aconteça o que acontecer, sobreviveremos. Talvez mais pobres, talvez mais tristes, mas certamente mais sábios. E não há preparação para isso. Afinal, só peru morre de véspera.

Isso me lembra um causo do livro 30 anos essa noite. No primeiro de abril de 64, Paulo Francis, crente que seria o primeiro a ser preso pela ditadura, se refugiou no apartamento de um amigo com várias garrafas de uísque. Depois de 3 dias, ressaqueado, ele emergiu de seu bunker, e, para a sua surpresa, encontrou a vida continuando normalmente. Como podia? Dominados pela ditadura, estávamos todos agindo como se nada houvesse ocorrido. A lição é: não há anomia que sempre dure, nem normalidade que nunca se acabe.

Assim, me recuso a me deixar infectar por essa paranoia. Mas vai que… Vai que o quê? Tá, rola o confisco e você malandramente guardou seu dinheiro embaixo do colchão. O povo todo fudido e você bem. Na boa, isso, além de não ser jeito de viver, é uma das origens dos problemas que temos hoje em dia.

Vamos viver, não pelos outros, mas apesar dos outros e, paradoxalmente, com os outros. A felicidade que buscamos não está no que nos é externo, mas em nós mesmos. E não há 13, 15 ou 45 que irão me dizer como me sentir.

Por isso, não me importa se você saiu às ruas no dia 13, se sairá hoje ou se muito pelo contrário. Peço apenas que lide melhor com o presente e dê mais valor ao que pode realmente pode fazê-lo feliz. Se seguíssemos esse conselho, pode crer, não estaríamos nessa situação hoje. Frances Ha sabe disso.

Acho que agora já basta de filmes de super heróis

Hoje o fandom teve mais uma agradável notícia: Vingadores 3, que a princípio se inspirará na saga Guerra Civil, contará com a distinta participação do Homem Aranha. Depois de anos preso na Sony junto com os X-Men, e após duas desastrosas sequências à trilogia de Sam Raimi, o Aranha se une novamente ao resto do universo Marvel.

Em meio aos urros de alegria e aos pequenos orgasmos do povo no twitter, não me escapou um grupo de fãs empolgados com a possibilidade de uma versão cinematográfica de Guerras Secretas. Nessa hora percebi que já tínhamos ido longe demais. Depois da aparição de Thanos e a histeria frente a uma possível versão do Desafio Infinito, saga da qual nunca ouvi um ser humano falar bem, agora estão achando bom uma versão da deplorável maxissérie Guerras Secretas?  Continue lendo

A fronteira

Decidido a finalizar o trabalho da semana anterior e fotografar campo e contracampo de todas as estátuas urbanas da orla da zona sul, tomei a difícil decisão de atravessar a fronteira. A dificuldade da decisão não se devia à distância, qualidade de acesso ou qualquer barreira física. O que realmente me assustava, e assusta, quando preciso atravessar a fronteira, é o choque cultural. A fronteira entre Copacabana e Ipanema/Leblon, mais que uma fronteira física, é uma fronteira conceitual; espiritual, quase.

Tanto é assim que a área onde um bairro começa e o outro termina é uma pororoca de idéias e emoções. Bares tradicionais e sujos são, ao mesmo tempo, elegantes e caros; pequenos locais que testemunharam momentos glamourosos vivem na infâmia; galerias alternativas dependentes das últimas novidades nunca saem de moda; e tudo culmina numa termas na rua Cunning que, como dizem alguns conhecidos, gourmetizou a prostituição. Essa distância entre Copacabana e Ipanema, de meras centenas de metros físicos, é na verdade contada em anos luz ideológicos.

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Campo e Contracampo

Campo e contracampo – O campo é o espaço que é focalizado pela câmara. Já o contracampo é uma sucessão de tomadas ou planos mostrando ora um, ora o outro interlocutor de um diálogo. (fonte)

Hoje em dia não é difícil achar pelas ruas estátuas mescladas ao cenário urbano. Ao  invés de estarem montadas em inatingíveis pedestais, como outrora,  as figuras dos mais recentes homenageados compartilham o espaço da cidade conosco, simples mortais. Seja numa mesa de bar, num banco de praça ou num canto de uma calçada, lá estão elas,  mostrando que são gente como a gente e, em contrapartida, prontas a terem suas “privacidades” invadidas por curiosos e turistas que muitas vezes nem sabem quem elas representam. Um momento TV Fama do moderno urbanismo.

Hoje de manhã, me perguntei o que esses habitantes imóveis da cidade, tão fotografados e observados, teriam como vista. O que seus olhos de bronze estariam observando enquanto eram observados? Como seria para eles serem não os objetos dos voyeurs, mas serem eles mesmos os voyeurs da cidade? Se as estátuas são o nosso campo, qual seria o contracampo?

Peguei uma bicicleta e fui lá matar a minha curiosidade.
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