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Lidando com a Maré

Hoje parecia até um dia daqueles. Sabe? Um daqueles dias que a gente nem ousa falar o nome. Um dia de (bate na madeira) falta daquilo ou excesso daquilo outro. Entendeu, né? Um dia que a gente preferia esquecer. Fila, falta de dinheiro, confusão, congestionamento; negócios não fechados, promessas não cumpridas; chuva quando estamos na rua, e estiagem assim que botamos o pé dentro de casa. Um dia daqueles, deu pra sentir?

Na verdade acho que não tem sido um dia daqueles; tem sido um ano, ou melhor, uns anos daqueles. As coisas pioram; aceitamos um montão de abusos para que elas melhorem; melhoram, mas parece pouco; logo depois, piora de um jeito que a gente nem imaginava que ia piorar; uma constante espera por sermos surpreendidos negativamente. Uma lista de tristezas pontuada por esperanças perdidas e promessas frustradas. Um ano, ou melhor, uma década pra esquecer.

Mas a gente não esquece; a gente fica com raiva. A frustração é o prólogo da ira. Queremos fazer algo, brigamos com os outros, prometemos nos revoltar, mas, no fim das contas, jogamos toda essa agressividade não dirigida pra nós mesmos e ficamos cada vez mais deprimidos.

Um círculo vicioso que mina as nossas forças e nos deixa com cada vez menos energia para lutar pelo pouco que os tempos atuais nos permitem conseguir.

Quando tenho um desses dias, sempre me lembro do Praião de Barra de São João. Seu nome remete tanto à sua extensão como ao tamanho do seu mar. Um mar agitado de ondas altas que quebram quase em cima da areia e não serve direito nem pro banho nem pros surfistas. É uma daquelas praias varridas por um vento constante, onde as famílias se escondem nos quiosques para tomar cerveja e acompanhar os poucos corajosos que arriscam entrar no seu mar.

Meu amigo Ronald é um desses corajosos. E, graças a ele, eu me tornei um desses também.

Numa das primeiras vezes em que fui ao Praião, ele se levantou para entrar no mar e me chamou.

– Tá falando sério? – foi o que consegui responder.
– Tô. Pode vir. Vou te ensinar a entrar nesse mar.

Ficamos parados na beira, e ele me explicou:

– Um mar desse tamanho tem que ser respeitado. Não temido. É preciso saber entrar, aceitar os seus movimentos e sair. Tudo tem a ver com a economia de energia. Se fizer força e resistir no momento errado, vai ficar fraco pra quando aparecer a oportunidade de sair e o mar vai te levar. Se for afoito demais, vai ajudar o mar a te levar embora e nunca mais vai voltar. É preciso aceitar a maré. Ela não é boa, nem má. Ela apenas se move e vai te levar pro lugar que você deve ir se não lutar com ela.

“O mar vem e vai. Quando ele te puxar, deixa ele fazer a força e relaxe. Se ficar tranquilo, daqui a pouco estará no mesmo lugar onde entrou. Quando ele te empurrar pra praia, ajude ele e acompanhe seu movimento, que ele te ajudará a sair.

“É só saber a hora de descansar e a hora de nadar que você vai ficar bem. Vamos entrar?”

Entramos.

Confesso que, nas primeiras ondas, achei que fosse me afogar. A maré vinha e ia tão rapidamente que parecia tragado por um redemoinho. Via uma onda e com medo mergulhava sem saber onde ela ia me levar, resistindo e nadando sem saber se ia pra frente ou pra trás. Ronald, tranquilo, tentava me orientar:

– Deixa ela te levar. Deixa ela te levar.

Respirei fundo e segui sua orientação. Larguei o corpo sobre a água e comecei a boiar. O mar me carregava de um lado pro outro, a princípio atabalhoadamente, até que, como um par de dançarinos, encontramos o nosso ritmo. Em pouco tempo, sem ansiedade ou medo, tinha passado a arrebentação.

As pessoas que estavam na areia olhavam preocupadas como se fosse o último momento em que nos veriam vivos, mas, onde estávamos, parecíamos estar sentados num muro vendo a vida do lugar mais seguro do mundo.

– Pronto pra voltar? – Ronald perguntou.
– Sim, sim.
– Vamos aproveitar aquela onda grande vindo depois dessa.

Deixamos a primeira onda passar nos carregando primeiro pra frente, depois para trás. Quando fomos deixados em frente a onda grande, Ronald gritou:

– Nada. Nada!

E nadei. A onda nos empurrou e apenas seguimos o movimento dela. A onda nos levou pra antes da arrebentação e com apenas um pouco de esforço, chegamos na areia e saímos do mar. Estávamos vivos. Estávamos salvos. Soubemos respeitar o mar.

Quando sinto que não há saída e o mar de prognósticos negativos e tristezas vão nos afogar, eu lembro do Praião. Lembro que há a hora de deixar a água te levar e economizar energia. Lembro que é importante sentir os momentos propícios para se mover ou para ficar parado. Lembro que uma hora virá a onda certa para nos levar ao lugar seguro, ao lado de nossos amigos e familiares, e que, nessa hora, é preciso ter força para nadar. Lembro que precisamos respeitar os ritmos e não temê-los. Lembro que precisamos lidar com os ritmos e não tentar dominá-los.

Sim, quando vivo uma situação dessas, eu penso no Praião. Especialmente agora, depois de tudo o que estamos passando, eu penso no Praião. Por isso, eu sei e quero que vocês saibam que estaremos vivos e estaremos a salvo se respeitarmos as marés e as águas agitadas onde estamos. Desde que não tenhamos medo, nem sejamos afoitos, esse mar de loucura, medo, maldade e incompreensão não irá nos afogar. Se soubermos lidar com ele, agir na hora certa e não comprar brigas na hora errada, estaremos bem. Estaremos salvos. Estaremos vivos.

Afinal, não há dias bons, nem ruins; não há dias daqueles, nem desses; há apenas dias e o que fazemos deles. E na minha opinião, acho que a onda que irá nos levar à praia não tarda a chegar. Por isso, vamos guardar nossas forças e na hora certa gritaremos uns aos outros:

– Vai.Nada. Nada. Nada!

Publicado emEnsaios

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