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O niilismo das provas da vida

Essa semana, eu caí na real que, hoje, a minha filha vai fazer a primeira prova da sua vida. Quer dizer, prova de verdade: em sala de aula, com tempo contado, pressão e sem poder colar com a anuência da escola. Prova, assim, tipo prova.

Mas a culpa de isso só rolar agora não é dela. Ela entrou no ensino fundamental junto com a pandemia e, por conta do formato online, todos os eufemisticamente chamados “trabalhos avaliativos” do primeiro e do segundo ano pelos quais ela já passou foram feitos em casa. Óbvio, com intensa supervisão; mais materna do que paterna, confesso.

Não admira, as notas da turma toda foram incríveis. Dez de ponta a ponta. Por que será?

Na sexta passada, quando a minha mulher me mandou um whatsapp com a lista de matérias que iam cair nas provas, comecei a perceber que a tensão tinha começado a subir.

– Você viu as matérias das provas? A gente precisa botar ela pra estudar- minha mulher vez ou outra repetia.- Se ela não estudar, vai tirar nota baixa, tá?
– É, vi. Sei, tá certo. Tem razão – eu meio que desconversava.

Essa semana, fui buscá-la na escola e os pais, que, ao contrário de mim, tem o hábito de manter relações sociais uns com os outros, comentavam:

– Viu que tem prova essa semana?
– Vi, estou tão preocupada.
– Como eles vão lidar com isso? Nunca fizeram prova, assim, em sala de aula.
– É, eu sei. Estou até sem conseguir dormir. Vocês já começaram a estudar?
– Ainda não, mas vamos.
– Nós também não começamos. Mas vamos, sim. Vamos, sim.

Nessa hora ficou claro pra mim a importância das provas escolares para as pessoas e como isso pode influenciar como elas lidarão com os demais desafios da vida. Desculpa, eu sei, pode até parecer papo de coach, mas não é.

Olhando de uma forma muito pragmática e piagetiana, prova deveria funcionar dessa maneira: o professor “ensina” e desafia o aluno; o aluno “estuda” e exercita os conceitos; nesse processo de experimentação, o aluno desenvolve uma nova estrutura cognitiva; e, enfim, como o processo escolar é coletivo, é aplicada uma avaliação, a tal prova, para verificar se o grupo chegou em conjunto a esse novo patamar, e quais são os gaps de aprendizagem que devem ser sanados.

Simples, né? Sem stress ou angústias. Mas não é assim que rola. Principalmente num país cheio de concurseiros que sonham com ascensão social, segurança eterna e aposentadorias antecipadas, a.k.a. desejo de morte, vindas do seu desempenho em provas que só se repetem de cinco em cinco anos.

Por conta dessa cultura, o pessoal considera que a prova, ao invés da avaliação de um processo de aprendizagem colaborativo entre o professor e o aluno, é uma espécie de teste mítico para abrir as portas para uma vida melhor.

Esse nivel de expectativa gera uma bruta tensão pré-prova e estudar acaba se tornando presa fácil da procrastinação obsessiva do “deveria estar estudando”; e o desespero pelo medo do fracasso lhe faz se martirizar, estudando de véspera até altas horas e dormindo com os livros sob o travesseiro para aprender por osmose. o que, pode crer, não funciona.

Essa relação tóxica com o processo avaliativo se torna uma referência para como você lidará com os seus desafios no mundo adulto, sejam eles, um treinamento, uma avaliação de projeto, uma sessão de feedback, a apresentação de relatório anual, e até um simples exame de sangue. O importante, parece, não é aprender com as experiências e melhorar, o importante é passar e deixar isso tudo para trás. Como já disse antes, desejo de morte.

Eu, pessoalmente, não consigo entender isso. Fui criado num colégio com prova mensal e testes surpresa à rodo. Além disso, reprovação lá era mato. Tinha uns anos em que se abriam até três turmas de recuperação por série para dar conta de todo mundo que ficava pendurado.

Esse clima de terror profundo tornava a experiência da prova uma vivência niilista de comprovação da falta de sentido da vida e das forças do acaso no seu futuro. Por isso não havia medo de fato, apenas resignação. Além de não acharmos que a prova poderia nos trazer algo de bom, pra que nos importar com o mal que ela podia nos fazer?

Então, incorporando minha melhor versão de Arthur Schopenhauer, lá fui eu estudar com a minha filha. Peguei a lista de temas e passei um a um com ela:

– Hum, esse lance aqui, como funciona?
– Assim, papai.
– Beleza, me dá um exemplo.
– Esse, tá certo?
– Tá. E se fosse assim?
– Aí era dessa forma.
– Beleza. Acho que você vai se dar bem. Amor, já estudei com ela!
– Já? Como já terminou? Impossível. Assim ela vai tirar nota baixa. Vem estudar com a mamãe, filha. Deixa esse seu pai maluco pra lá.

O pior é que eu acho que ela vai se dar bem, e, se não se der, a vida continua e tem mais prova pela frente. Pelo menos, agora, a gente vai saber o que ela não aprendeu e onde precisar melhorar. Afinal, é isso que importa, não?

Um necrológio urbano do Rio de Janeiro

Nasci na São Clemente, esquina com a Sorocaba, numa maternidade que não existe mais. Hoje é um daqueles prédios quase brutalistas dos anos 80, com muitas garagens e poucas pessoas.

Aprendi a andar e falar na Gustavo Sampaio, num quarto e sala com vista para a Atlântica. Nasci com o pé chato e caminhava na praia para curar. Curei. Depois de jovem e adulto(?) voltei a esse prédio para certas incursões bizarras e também pois tinha amigos que moravam lá. Me surpreendi com a imprecisão de minhas memórias. Física e Moralmente.

Na primeira infância estudei no Leblon em um colégio experimental. Voltava a pé pela praia com a minha mãe. Frequentei a praça do Lido antes de ser gradeada, a Ary Barroso, o Clube Radar e o Parque Peter Pan. Ia ao extinto cinema Ryan; ao, hoje fechado, Roxy; e ao, também fechado, Cinema Um. No seu lugar hoje tem um Hortifruti. Comecei a formar o meu paladar no Príncipe das Peixadas, que hoje é um Joaquina, e no Cervantes, em coma por conta da pandemia.

Na volta de uma visita ao meu avô em Campina Grande, descobri que tinha sido mudado pro Flamengo, para um prédio que ainda existe; e fui matriculado no colégio Bennett que virou uma universidade Univeritas. Não gostei da mudança e sempre quis sair de lá, o que só foi acontecer 17 anos depois.

Enquanto isso não acontecia, eu ia até onde minhas pernas permitiam. Andava de bicicleta nas calçadas no entorno do prédio, onde caí e tomei seis pontos no queixo; comprava gibi na banca do seu Antônio, já falecido; e ia à papelaria Líder comprar isopor e jogos de tabuleiro. A papelaria ainda existe, mas não tem esse nome, nem os mesmos donos.

Aprendi a ler e me colocaram para estudar num colégio em cima de um morro na rua Dom Gerardo, pertinho da praça Mauá. A rotina era pesada. Saía de casa às 7 da manhã e voltava às 6 da noite. Não me sobrava muito tempo pra ir a lugar algum, a não ser nos fins de semana. Aí os destinos eram o cinema São Luiz, na época uma só sala, e o cinema Largo do Machado, com duas salas, hoje usurpadas por um culto pentecostal. O programa cinéfilo sempre terminava no McDonalds ou nas sorveterias Babuska e Sem nome. Hoje não tem mais sorvete. Só uma Hering e uma Leader Magazine.

Me tornei adolescente e ganhei quilômetros de coleira. Ia à Biblioteca Nacional e à Machado de Assis; aos sebos da praça Tiradentes; às livrarias do Largo do Machado; e aos cinemas da Tijuca. Nenhum deles sobreviveu. Quer dizer, os sebos, as livrarias e os cinemas. As Bibliotecas ainda estão lá. Por enquanto.

O tempo passou e ganhei a noite. Caminhava sem destino pelo Catete e Flamengo, com breves paradas no Caneco 2, que virou um restaurante árabe, e no Machadão, transformado numa loja de vitaminas. Lá a gente ia para conversar sobre a vida, tomar chope, comer casquinha de siri e tomar caldo verde. Dá saudades.

Entrei na faculdade e me mudei espiritualmente para Copacabana. Quando não estava na sala de aula, primeiro na Gávea, depois na praia Vermelha, eu ia pra Copa pra beber nos bares da orla, da praça do Lido e no Cervantes, além de fazer amizades das quais não me orgulho. Ia também às saudosas boates, Galeria, Basement e 1904, e às diversas livrarias que não existem mais no bairro.

Para não dizer que não ia a outros lugares, frequentava o Mosca Feliz na Lauro Muller, que se mudou para a Lapa, e de nome para não ser reconhecido, e curti umas noites nas boates da Visconde Silva, onde eu não me encaixava mas era bem acolhido.

Um dia me vi sozinho em casa, todos da família tinham se mudado, e resolvi abandoná-la também. Fui para a Tijuca onde tirei um sabático de 2 anos, sem passar dos limites da Marquês de Valença e da São Francisco Xavier. Por obra e graça de entrar no mercado de trabalho, consegui voltar pra Copa onde fiquei também circunscrito a poucos quarteirões, nesse caso em torno da Djalma Ulrich, dividindo meu tempo entre o botequim Vedete e a creperia Yonza. Não sei que fim eles tiveram.

A idade adulta chegou e tornou o Rio um borrão geográfico para mim. Morei em Ipanema e em Botafogo, mas nesse período frequentei poucos lugares de nota como o Adriano na Real Grandeza, que ainda sobrevive, graças a Deus; mas, no mais, ficava dentro de casa. Esse afastamento da cidade chegou a um ponto em que a abandonei.

Fiquei 4 belos anos em BH. Não farei comentários, pois o necrológio é do Rio e não de Belo Horizonte. E os meus amigos que ainda moram lá dizem que ela merecia um necrológio à parte. Acabei voltando, mas a relação com o Rio azedou.

Voltei para Copacabana em plena preparação para as Olimpíadas. Não foi uma visão bonita. Uma cidade cheia de tapumes e com lugares tradicionais sendo transformados em armadilhas para turistas. Alguns lugares acabaram fechando pois não atendiam à visão pasteurizada que o Rio errou em seguir. Mais uma vez acabei me fechando em poucos quarteirões para criar relações mais humanas e significativas. Não queria ser cliente, mas, sim, freguês.

Por obra e graça da crise multifatorial que assola o país, me mudei pra praça São Salvador. Confesso que inicialmente achei estranho, mas me adaptei bem. Acabei fazendo amigos no Salvatore Café; comecei um fanzine local de humor político; mas assisti ao fechamento de negócios clássicos, como a papelaria Macris, que deu lugar a, Deus nos perdoe, uma hamburgueria gourmet.

Agora, esperando o momento certo para sair novamente às ruas, me questiono o que encontrarei nesta terra devastada. Tive a sorte de crescer numa cidade, mesmo em crise permanente, com história. A pandemia e as péssimas escolhas de nossos eleitores destruíram tudo que havia, sem deixar nada no lugar. Talvez haja uma maneira de olhar positivamente para isso; talvez seja o momento de construir a nova história da cidade. Afinal viver no espaço físico é um constante participar de velórios e nascimentos de uma arquitetura urbana que nos fala sobre quem somos e quem queremos ser. Espero que dessa vez não nos esqueçamos do que veio antes de nós, nem repitamos, mais uma vez, os erros com os quais não cansamos de desaprender.

Poesia precisa de prefácio?

Esse texto foi escrito para abrir o livro Passione Poética: & Poemas Entrecortados de Marcos Khan, já disponível na Amazon. Vou dizer pra vocês, nada mais difícil que escrever um prefácio. Sempre sai errado. Vejam aqui o quanto errei.

Hoje, flagrar alguém escrevendo poesia é como pegar um familiar num ato de perversidade sexual:

“Mas logo você? Por quê? POR QUÊ?”

Nessa época em que todos nos tornamos gera-dores de conteúdo para encher os vazios imencionáveis da nossa existência pós-pós-pós, a poesia foi a única forma de manifestação humana que não mereceu uma rede social exclusiva para se aproveitar do nosso trabalho digital escravo. Por quê? Eu tenho minhas suspeitas.

Poesia requer tempo. Tanto do autor como do leitor. Uma vez, numa oficina de contos na saudosa estação das letras, ouvi o grande Paulo Scott declarar:

“Ler poesia requer disponibilidade para embarcar na viagem do outro”

Fato. E num mundo cheio de espelhos, a quem importa tentar vivenciar e embarcar na subjetividade alheia?

Poesia não quer nada. E quer tudo. Por isso não tem objetividade, nem funciona como o tão desejado “call to action” das agências de publicidade (ainda existe isso?).

Ao terminar de ler um poema, você não sente vontade de consumir nada. Quando muito de dar um longo suspiro e pensar na pessoa amada.

E por último, poesia é… poesia… enfim, poesia é poesia.

E, por mais que nos Instagrams da vida, vez ou outra, surja um poeta de pé quebrado, rimando mulher com colher, e esperando ser convidado para declamar em festas de 15 anos de futuras socialites prafrentex, poesia deixou de ser um esporte popular. Tanto para assistir, como para praticar.

Então, ao descobrir Marcos Khan como poeta, me fiz a mesma pergunta que o mundo faz a qualquer poeta: “pra quê?”

Pra que escrever sobre o cotidiano de casais apaixonados?
Pra que expor seus encontros de civitate andante com as mazelas da cidade?
Para que nos lembrar que é possível sentir falta dos outros e degustar o sabor da saudade?
Pra que usar rima, métrica e redondilhas, nos fazendo fazer acrobacias verbais e orais em aliterações, numa linguagem de emoções que não cabe em 280 ou 140 caracteres?
Pra que exacerbar o sentimento e capturar os momentos do amanhecer e do anoitecer na espera do corpo da sua paixão?
Pra quê?
Pra quê?
Pra quê?

Eu lhe digo pra quê.

Marcos Khan, seguindo o conselho do melhor pior professor do mundo, Mr. Keating, faz o uso da linguagem pura, para o que ela foi inventada: cortejar as mulheres, e, por tabela, o mundo que nos cerca.

Há missão mais nobre que essa? Não precisa responder, leia seus poemas e veja o que ele tem a nos dizer sobre isso.

Então, saia de suas redes sociais, desligue seu celular e demais eletrônicos, e se permita viajar pela sua subjetividade, tomando o seu papel, ou o papel da sua musa, Cristiane, e o encontre andando sobre os versos que cobrem seu caminho pelas ruas de um Rio de Janeiro que não existe mais, mas deveria.

Pra quê? Você quer mesmo que eu repita?

Números da Vacina

Exatamente um ano e três meses depois da OMS declarar CoVid uma pandemia, fui tomar a minha primeira dose da vacina. Se você esquecer que vivemos num país desgovernado há dois anos e meio por um genocida que promove a doença e dificulta a imunização, dá até pra dizer que foi rápido; mas não foi. Foi uma eternidade; e nesse período perdemos pessoas queridas das nossas vidas e importantes para a nossa coletividade. Como não quero ser uma delas, como não quero ser mais uma das vítimas da campanha negacionista da milícia dos zero-zeros do Vivendas da Barra, fui me vacinar.

Ansioso, preparei uma bolsa no dia anterior com tudo que eu ia precisar: carteira de identidade e CPF; os dois atestados médicos de comorbidade e o exame positivo de CoVid para justificar estar entrando na repescagem; um livro, um fanzine, e uma graphic novel para me ocupar sem precisar ficar olhando pro celular; e uma caneta pro caso de querer escrever algo nas margens dos livros. Nunca se sabe que ideias podemos ter ou que curiosidades podemos presenciar.

Acordei às quatro e vinte e seis, bem mais cedo do que preciso, como sempre, e tentei matar o tempo até a hora de partir pro posto de vacinação: ouvi a Rádio Acoustika FM de Rio das Ostras; tolamente li os jornais, só pra me dar mais raiva do país, dos tiranetes fascistas que nos oprimem e seus seguidores acéfalos; e tentei tirar o gosto ruim de desamparo da garganta com uma overdose de palavras cruzadas. Sem sucesso.

Sete horas da manhã, me vesti; dei um beijo na minha mulher, que fez um infrutífero esforço para acordar; coloquei duas máscaras, uma cirúrgica e uma de tecido; e chamei um Uber para curtir uma fila. Cheguei na frente do Museu da República às sete e doze, e, óbvio, não era o primeiro. Na minha frente, vinte e uma pessoas esperavam, tomando café, conversando, fumando, como se estivessem aguardando para entrar numa boate. Li o fanzine, a graphic novel, quarenta e três páginas do meu livro, disse não a dois pedintes sem máscara, e logo deu oito da manhã, quando o posto deveria abrir, mas não abriu. No longuíssimo minuto e meio em que as portas demoraram para ser abertas e impediram os funcionários do posto de vir organizar a fila, mandei duas mensagens e meia reclamando da demora.

A fila andou e nos colocaram sentados em quatro filas de quinze cadeiras cada. Eu era o sétimo da segunda fila. Uma funcionária da secretaria de saúde passou por nós perguntando as idades ou as comorbidades que nos permitiam tomar a vacina: cinquenta e quatro, doença autoimune, cinquenta e sete, cinquenta e oito, obesidade, deficiência permanente, doença renal crônica, cinquenta e quatro, cinquenta e quatro, pressão alta, cinquenta e quatro, pressão alta. De três em três éramos encaminhados para duas mesas onde anotavam nossos nomes, cpf, identidades, idades, e as datas quando devemos voltar para a segunda dose. Pra mim, quatro de setembro. Uma espera de oitenta e quatro dias.

Segui pelo salão ministerial, observado pelos quadros de oito ex presidentes brasileiros, até uma saleta onde uma enfermeira me esperava. Ela pegou a ampola de cinco mililitros de Astrazeneca, encheu a seringa, pediu pra eu subir a manga direita da camisa, relaxar o braço e, pronto, estava vacinado. Ao mesmo tempo, tudo era diferente, e nada parecia ter mudado.

Agradeci à enfermeira, e saí do Museu da República segurando o algodão no meu braço, o único sinal de que algo havia acontecido ali. O sol bateu nos meus olhos e fiquei desorientado. Por um segundo senti todos os possíveis efeitos colaterais da vacina, febre, dor no corpo, cansaço, dor de cabeça, mas logo passou. Olhei pro céu azul e senti grossas gotas de chuva sobre o meu rosto. De onde viriam? Tive noventa e sete porcento de certeza que as coisas iam melhorar. Ainda havia, óbvio, muito o que esperar antes de melhorar, mas, definitivamente, menos que ontem; um dia a menos, pelo menos. E um dia, às vezes, faz toda a diferença. Hoje fez.

Os Segredos do Universo

No fim do século XX eu estava virando um adultinho. Tinha 3 empregos legais mas mal pagos; o dinheiro era curto, mas eu conseguia morar sozinho num quarto e sala de Copacabana; e sofria existencialmente para terminar na faculdade os dois créditos que me dariam o diploma que nunca quis. Meus dias eram ao mesmo tempo lotados de atividades e oportunidades para o ócio. Claro que eu reclamava da vida, quem não reclama?, mas eu tinha consciência da rara paz de espírito que me acometia naquela época. Porém a paz de espírito do meu vizinho parecia muito maior e isso me incomodava horrores.

Quando o dia terminava ou na troca de turno entre um emprego e outro, eu sempre esbarrava com ele no botequim embaixo do nosso prédio. De short, chinelos e sem camisa, jogando porrinha no balcão pra não pagar cerveja, expediente ao qual também recorri diversas vezes, ele me notava, a gente balançava a cabeça um pro outro e sorria. Eu, timidamente; ele, de forma ostensiva, quase pornográfica.

Quem podia lhe culpar por ser tão feliz? Pelo que o Bigode, o porteiro da noite, fofocou, ele estava com o boi na sombra. Dependendo da semana ele era o modesto herdeiro de uma fortuna, um contrabandista sob proteção à testemunha ou um aposentado de um banco estadual do sul por conta de uma doença crônica, tipo epilepsia ou algo que o valha.

Inválido ou não, ele era o retrato da saúde; sempre bronzeado, com aquela eterna pinta de estar indo pra ou vindo da praia. Apesar de odiar ir à praia, eu o invejava. Se eu tinha paz de espírito no meio de um furacão, ele a aproveitava numa rede em frente a uma praia deserta vendo o sol se pôr e curtindo a brisa que vem do mar para terra encerrando o dia. Enquanto eu era um artigo técnico sólido numa revista chata, ele era poesia escrita por Vinícius de Moraes num guardanapo de bar.

Apesar dessa inveja, a gente se dava bem. Dividíamos umas cervejas no botequim e ocasionalmente nos ajudávamos em pequenas tarefas um na casa do outro. Na verdade, eu sentia que ele tinha algo a me ensinar, mas eu tinha vergonha de pedir que ele me contasse o segredo do universo de viver com tranquilidade sem fazer nada e sem ter uma forma visível de renda. Eu queria que ele me ensinasse a ser um copacabanense de verdade. Um dia quase rolou.

Eu estava saindo de casa numa noite de sábado pra um programa chato mas obrigatório quando esbarrei com ele apoiado no umbral da sua porta tremendo.

– Opa, cê tá bem?
– Tô, não. Ajuda? Ajuda…

Corri em sua direção e o apoiei. Ele tremia bastante e jogou seu peso em cima de mim em busca de apoio. Apontou para o sofá me indicando para onde queria ir. Eu o deitei e fiquei parado no meio da sua sala sem saber o que fazer:

– Posso te ajudar com mais alguma coisa? Quer que eu ligue pra alguém?
– Isso, ligar pra alguém. Ligar…

Indicou onde estava o telefone e me pediu pra discar. Começou a ditar um número longo, com certeza um interurbano, o qual errou várias vezes. Enfim consegui que alguém atendesse e lhe passei o telefone. Ele começou a bater boca com alguém do outro lado da linha, aparentemente recuperado, e, apontando pra cozinha, me disse:

– Se quiser, pega um uisquinho aí no balcão.

Ele não estava passando mal. Estava bêbado. Menos mal.

Aceitei a sua oferta e fui encher um copo. No balcão, além da garrafa e dos copos, tinha uma pilha de livros. Todos do mesmo autor: ele. Nas contracapas, a mesma foto: ele, bronzeadíssimo, de camisa havaiana, óculos escuros com uma praia idílica ao fundo. O fotógrafo realmente captou a sua essência.

Ele desligou o telefone e fiz a pergunta idiota que precisava fazer:

– São seus?
– Sim, todos eles- respondeu vindo pra cozinha se servir de mais um copo.
– São sobre o que?

Ele encheu um copo generoso, tomou um belo gole e sorriu como se me contasse um segredo:

– Não dá pra ver? Autoajuda.

Os títulos não deixavam dúvida: Como viver sem ninguém lhe aporrinhar, Ponha a culpa nos outros, Escape dos seus credores sem medo, e assim por diante.

– São à sério?
– Claro, eu faço o que professo. É preciso liderar pelo exemplo.

Dei uma diagonal nos títulos e 3 me chamaram especialmente a atenção. Parecia ser uma trilogia chamada Os Segredos do Universo e cada um dos volumes tinha um subtítulo mais instigante que o outro: Como não Fazer Nada, Como Viver sem Dinheiro e Como não se Preocupar com o Futuro.

– E essa trilogia? É sobre o que?
– Como posso resumir? Bom, a maioria dos nossos problemas surgem pois temos a necessidade de validação externa. Queremos que pessoas, grupos e instituições nos amem. Esse amor vem na forma de símbolos sociais, como compromisso, status e dinheiro. Porém, mesmo quando nos entregam esses símbolos falsos de afeição, continuamos ansiosos, insatisfeitos e com medo que esse amor não seja real. Os livros falam sobre como não fazer nada pelos outros, já que eles não merecem sua atenção; como não se preocupar com dinheiro, a medida enganosa do amor capitalista; e como cagar pro dia seguinte, afinal, ele pode nem chegar.
– Uau- foi tudo o que pude dizer.

O interfone tocou e ele foi atender:

– Fala, Bigode. Quem é? Pode mandar subir.

Desligou o interfone e, com pressa, veio apertar a minha mão:

– Cara, muito obrigado pela ajuda. Agora você precisa ir que eu vou atender uma “pessoa”. Sacou? Passa outro dia pra gente tomar mais um uísque e conversar.

Antes que pudesse falar qualquer coisa, estava no corredor. Meio desorientado, retomei o rumo pro meu programa de sábado e, no caminho para o elevador, passei pela “pessoa” loira e mignon, metida num vestido preto de látex obscenamente justo, que iria lhe visitar. Com certeza ele teve um fim de sábado bem melhor do que eu.

Nas semanas seguintes fiquei com os seus livros na cabeça. Será que ele realmente explicava como viver como ele, sem fazer nada, sem se preocupar com dinheiro ou com a aceitação alheia ou mesmo se estaria vivo amanhã? Tomei coragem e bati na sua porta trazendo uma garrafa de uísque. Uma velhinha, que eu nunca tinha visto, atendeu. Perguntei dele e ela me esclareceu:

– Ah, meu filho, eu não sei. Mudei semana passada e já não tinha nada nem ninguém por aqui. O pessoal da imobiliária disse que o inquilino anterior sumiu sem avisar e deixou um bando de dívidas de aluguel e condomínio. Desculpa não poder ajudar.

Perguntei se por acaso o morador tinha deixado algum livro pela casa e ela lamentou, mas disse que não.

– Melhor sorte da próxima vez- ela resumiu minha cara de frustração.

Lá se foi a minha chance de conhecer Os Segredos do Universo nessa encarnação.

Às vezes, ainda hoje, 20 anos depois, num fim de dia duro e cansativo, eu me lembro desse vizinho, e vou nos sites de livros usados procurar pelos Segredos do Universo. Estou, como todos, em busca de uma saída, em busca de esperança, em busca de ajuda, mas até hoje nunca os encontrei. Esses foram segredos que o século XXI nos fez esquecer.

Não é você; sou eu, o comunista

Era batata. Sempre entre a quinta e a sexta cerveja, o espírito liberal na economia e conservador nos costumes, que possuiu seu corpo depois de uma desilusão amorosa, tomava controle. E não importava o assunto; futebol, novela, política, desenhos animados, tudo era justificativa para ele começar a desfiar o seu rosário do mal.

– Tá vendo só?- ele apontava algo que o desagradava.- Tá na cara que (insira posição política, orientação sexual, opinião artística) é influência de (comunismo, marxismo cultural, ideologia de gênero, organizações Globo, vereador de esquerda do Rio de Janeiro, ). O mundo está perdido. Perdido!

Eu discordava totalmente das suas opiniões. Primeiro porque eram basicamente preconceituosas, racistas, homofóbicas e reacionárias; segundo, pois eram burras ou simplesmente não faziam sentido. No início, por boa vontade, eu até tentava trazê-lo à razão, mas era inútil:

– O teu problema é que você lê demais- ele se defendia.- Todos esses conhecimentos de esquerda acabam te deixando mole e hippongo. Empatia é o caralho! O mundo é uma guerra. Uma Guerra!

Eu tentava relevar. Achava que era uma fase. Depois que a dor de cotovelo passasse e ele arrumasse uma nova namorada, as coisas iam melhorar. O tempo passou, ele eventualmente arrumou uma namorada, mas a doideira permaneceu e ele acabou terminando o relacionamento por conta das suas próprias fantasias políticas.

– Vê só se eu ia aceitar aquilo- ele contava a sua versão da separação.- Ela (escolha: votava no PSOL, lia Martha Medeiros, assistia novela da Globo, curtia Pablo Vitar). Isso não é pra mim. Eu preciso de uma mulher cristã. Cristã.

Dizia o homem que quase foi reprovado no catecismo.

Com o passar do tempo, como era impossível conviver com ele e eu não sabia se devia dar fim a uma amizade de quase 40 anos, comecei a me afastar. Ele chamava pra tomar cerveja na sexta, eu inventava um compromisso; dizia que ia passar no meu trabalho para a gente voltar juntos, eu ficava no escritório fingindo fazer serão; ele aparecia na porta do meu prédio… bom, nesse caso não conseguia me safar e acabava sendo obrigado a ouvir mais uma vez a sua cantilena protofascista.

– Eles querem acabar com o Brasil- ele profetizava.- Querem acabar com a propriedade privada, com a religião, com a nação. Querem nos tornar comunistas. Comunistas!

Numa última tentativa, busquei entender melhor a sua visão de mundo:

– Mas o que você quer dizer com isso?
– Como assim?- ele se espantou de eu ter reagido.
– O que seria esse tal comunismo?
– Ah, deixa eu te explicar. Primeiro todo mundo vai ser igual. Se você é mais competente que os outros, vai receber a mesma coisa. O preguiçoso e o sujeito bem sucedido, como eu, ganham o mesmo. Acabou a competitividade. Ninguém tem mais estímulo para ser mais produtivo. Totalmente igualitário. Igualitário!

Como considero a produtividade um mito tóxico e tenho certeza absoluta que se a humanidade fizesse menos viveria melhor, confesso que o começo me agradou.

– Continua. Continua.
– Vou continuar. Imagina só, viver num mundo que considere tudo válido. Todas as religiões e crenças têm o mesmo valor. Mas ao mesmo tempo considere que essas crenças não devem interferir na vida comunal. Todo mundo acredita no que quer, mas tem que viver em comunidade de forma secular. Um mundo sem Deus. Sem Deus!

Mais um ponto pro tal do Comunismo. Viver com pessoas que têm o direito de acreditar no que querem e sabem que aquilo é uma crença, e não uma realidade, é realmente tentador.

– E pra piorar,- ele se adiantou sem eu pedir- acabar com as nações. Todo o planeta, todo universo sob um só governo, uma só bandeira, desrespeitando as tradições locais e nacionais e ignorando as histórias e glórias das nações soberanas. Uma anarquia global. Global!

Essa me remeteu à ficção científica que lia na infância. Uma utopia, um mundo unido, sem guerras motivadas pela ambição de poucos ou justificadas pelas fantasias de destinos manifestos de países inventados. Um mundo igualitário, secular e global. Ele abriu os meus olhos:

– Sabe, cara,- eu declarei- acho que eu sou comunista.

Ele riu amarelo, meio fingindo que era brincadeira, percebeu que eu falava sério e mudou de assunto. Pela primeira vez em muito tempo, o espírito que possuía seu corpo se aquietou e pudemos ter uma conversa normal, entre seres humanos, e não entre estereótipos políticos da sociedade brasileira do século XXI.

Isso foi antes da pandemia e ele não mais me ligou. Nem eu o procurei. Vez ou outra ele me manda uma mensagem querendo chamar para uma aglomeração, mas eu recuso sem explicações e ele entende: sou comunista.

Não sei como será após a pandemia. Não sei se a amizade irá sobreviver ao meu comunismo ou se ele vai finalmente ter superado o coração partido e tirado essa mistura fatal de Paulo Guedes e Bolsonaro do seu coração. Se ele não mudar, pelo menos tá aí uma coisa que ele pode botar de verdade na conta do comunismo: o fim de uma amizade.