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O niilismo das provas da vida

Essa semana, eu caí na real que, hoje, a minha filha vai fazer a primeira prova da sua vida. Quer dizer, prova de verdade: em sala de aula, com tempo contado, pressão e sem poder colar com a anuência da escola. Prova, assim, tipo prova.

Mas a culpa de isso só rolar agora não é dela. Ela entrou no ensino fundamental junto com a pandemia e, por conta do formato online, todos os eufemisticamente chamados “trabalhos avaliativos” do primeiro e do segundo ano pelos quais ela já passou foram feitos em casa. Óbvio, com intensa supervisão; mais materna do que paterna, confesso.

Não admira, as notas da turma toda foram incríveis. Dez de ponta a ponta. Por que será?

Na sexta passada, quando a minha mulher me mandou um whatsapp com a lista de matérias que iam cair nas provas, comecei a perceber que a tensão tinha começado a subir.

– Você viu as matérias das provas? A gente precisa botar ela pra estudar- minha mulher vez ou outra repetia.- Se ela não estudar, vai tirar nota baixa, tá?
– É, vi. Sei, tá certo. Tem razão – eu meio que desconversava.

Essa semana, fui buscá-la na escola e os pais, que, ao contrário de mim, tem o hábito de manter relações sociais uns com os outros, comentavam:

– Viu que tem prova essa semana?
– Vi, estou tão preocupada.
– Como eles vão lidar com isso? Nunca fizeram prova, assim, em sala de aula.
– É, eu sei. Estou até sem conseguir dormir. Vocês já começaram a estudar?
– Ainda não, mas vamos.
– Nós também não começamos. Mas vamos, sim. Vamos, sim.

Nessa hora ficou claro pra mim a importância das provas escolares para as pessoas e como isso pode influenciar como elas lidarão com os demais desafios da vida. Desculpa, eu sei, pode até parecer papo de coach, mas não é.

Olhando de uma forma muito pragmática e piagetiana, prova deveria funcionar dessa maneira: o professor “ensina” e desafia o aluno; o aluno “estuda” e exercita os conceitos; nesse processo de experimentação, o aluno desenvolve uma nova estrutura cognitiva; e, enfim, como o processo escolar é coletivo, é aplicada uma avaliação, a tal prova, para verificar se o grupo chegou em conjunto a esse novo patamar, e quais são os gaps de aprendizagem que devem ser sanados.

Simples, né? Sem stress ou angústias. Mas não é assim que rola. Principalmente num país cheio de concurseiros que sonham com ascensão social, segurança eterna e aposentadorias antecipadas, a.k.a. desejo de morte, vindas do seu desempenho em provas que só se repetem de cinco em cinco anos.

Por conta dessa cultura, o pessoal considera que a prova, ao invés da avaliação de um processo de aprendizagem colaborativo entre o professor e o aluno, é uma espécie de teste mítico para abrir as portas para uma vida melhor.

Esse nivel de expectativa gera uma bruta tensão pré-prova e estudar acaba se tornando presa fácil da procrastinação obsessiva do “deveria estar estudando”; e o desespero pelo medo do fracasso lhe faz se martirizar, estudando de véspera até altas horas e dormindo com os livros sob o travesseiro para aprender por osmose. o que, pode crer, não funciona.

Essa relação tóxica com o processo avaliativo se torna uma referência para como você lidará com os seus desafios no mundo adulto, sejam eles, um treinamento, uma avaliação de projeto, uma sessão de feedback, a apresentação de relatório anual, e até um simples exame de sangue. O importante, parece, não é aprender com as experiências e melhorar, o importante é passar e deixar isso tudo para trás. Como já disse antes, desejo de morte.

Eu, pessoalmente, não consigo entender isso. Fui criado num colégio com prova mensal e testes surpresa à rodo. Além disso, reprovação lá era mato. Tinha uns anos em que se abriam até três turmas de recuperação por série para dar conta de todo mundo que ficava pendurado.

Esse clima de terror profundo tornava a experiência da prova uma vivência niilista de comprovação da falta de sentido da vida e das forças do acaso no seu futuro. Por isso não havia medo de fato, apenas resignação. Além de não acharmos que a prova poderia nos trazer algo de bom, pra que nos importar com o mal que ela podia nos fazer?

Então, incorporando minha melhor versão de Arthur Schopenhauer, lá fui eu estudar com a minha filha. Peguei a lista de temas e passei um a um com ela:

– Hum, esse lance aqui, como funciona?
– Assim, papai.
– Beleza, me dá um exemplo.
– Esse, tá certo?
– Tá. E se fosse assim?
– Aí era dessa forma.
– Beleza. Acho que você vai se dar bem. Amor, já estudei com ela!
– Já? Como já terminou? Impossível. Assim ela vai tirar nota baixa. Vem estudar com a mamãe, filha. Deixa esse seu pai maluco pra lá.

O pior é que eu acho que ela vai se dar bem, e, se não se der, a vida continua e tem mais prova pela frente. Pelo menos, agora, a gente vai saber o que ela não aprendeu e onde precisar melhorar. Afinal, é isso que importa, não?

Publicado emArtigos

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