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Filho da ficção

Toda noite, antes de dormir, minha filha pede para eu contar uma história sobre o avô que ela não conheceu e já está morto há 20 anos. Meu pai. O que conto a ela? Conto suas mentiras? Há outra opção? Mentiras foram tudo o que ouvi.

Segundo me contou, ele nasceu em Santana do Livramento há quase 100 anos, no dia 24 ou 25 de dezembro. Nunca se decidia em qual. Dependendo da fonte, foi no ano de 1922, 1924 ou, até, 1926. Ele nunca confirmou pois ele mesmo talvez não soubesse. Dizia que nasceu exatamente na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Se tivesse nascido na cozinha, gostava de lembrar, seria uruguaio. Nasceu no quarto. Brasileiro.

Da sua infância, lembrava pouco. Aleijou uma tia por causa de uma brincadeira maldosa. Amarrou uma corda na cadeira em que ela ia sentar e a puxou exatamente quando ela largou o peso do corpo. Improvável. Teve um doberman que gostava de soltar quando recebiam visitas inconvenientes, como um vendedor de jóias que foi obrigado a se pendurar em um lustre para não ser mordido. Possível, considerando que mesmo velho tinha a mania de aparecer de cueca na sala quando queria que as visitas fossem embora. E, com raiva por não poder ir ao circo, abriu a jaula do leão e colocou a cidade em pânico. Mentira. Mas gosto de pensar que foi verdade.

Filho de um coronel que morreu cedo e de uma dona de casa que, ouvi dizer, morreu de cirrose, ficou órfão na tenra infância. Caçula de quatro irmãs, ele foi enviado ao Rio para morar com tios e, assim que teve idade, foi colocado interno no Colégio Militar.

O tio pelo jeito não gostava de suas brincadeiras. Meu pai costumava vestir as roupas do tio e fingia ser um vizinho de visita, ou ser o padeiro ou o leiteiro fazendo entregas. A sua brincadeira preferida era se vestir de mendigo e vender jornais do dia anterior no bonde. Um dia esbarrou com o tio. No susto, pulou do bonde em movimento e quase foi atropelado. Dizia.

Entrou no colégio militar e aí, sua história, como boa parte das histórias das figuras folclóricas do século XX, começou a se misturar com a história do Brasil e do mundo.

Segundo ele, tínhamos, temos, um parentesco distante com Getúlio Vargas. Por conta disso, contava, foi convidado a discursar para o presidente em uma de suas visitas ao colégio. O problema é que o odiava. De todo o coração. Não tinha explicação, nem história familiar ou um claro posicionamento político que justificasse o sentimento. Cheio de raiva, assumiu o dever do discurso e escreveu dois. Um apresentou à direção do colégio e foi aprovado; o outro, ilegal, leu na frente do presidente, e de todos alunos e professores, e acabou preso por duas semanas com apenas 12 anos. Estava se tornando homem.

Sexualmente teve a sua iniciação com as polacas da zona do mangue. Me confidenciou que nunca tirava as meias no ato, pois ficou com trauma. Em uma das suas primeiras vezes, enquanto se despia, fez menção de tirar as meias e foi impedido pela polaca cheia de sotaques e erres:

“Prra que tirarr meia? Pé não foderr.”

Parece uma história desnecessária mas é um detalhe importante na sua constituição emocional, na medida em que fica claro que aprendeu sobre o sexo, e de uma maneira torta, sobre o amor, com mulheres que ele dizia, o que imagino ser um enorme exagero, lerem o jornal durante o ato.

Em paralelo, nos fins de semana, vestia o uniforme de gala do colégio e penetrava nas festas tijucanas, aparentemente protegido pelo personagem. Porém foi pego inúmeras vezes, mas nunca punido.

Com essa mesma ilusão de sorte e direito adquirido, ele foi para a segunda guerra, nas suas palavras, “para derrubar Getúlio”. Outros dizem que ele foi fazer dinheiro, o que explica ele não fumar e pedir cigarros para vender aos italianos.

No seu tempo de combate, se desligou do Brasil. Chegou a fingir a própria morte e ter uma missa de sétimo dia rezada, para se livrar de uma namorada. Óbvio que esbarrou com ela na volta ao Brasil, mas, espertamente, fingiu ser seu próprio irmão gêmeo para escapar de uma briga. É difícil de acreditar que alguém cairia nessa história, mas se você o conhecesse, veria como ele tinha a lábia necessária para fazer alguém acreditar nisso.

Por toda a sua vida, ele entrava e saía de situações loucas com extrema facilidade, talvez mais por confiança do que por habilidade. Porém, quando eu nasci ficou, complicado manter uma história coerente.

Se fosse um sujeito calado, talvez eu tivesse ficado iludido por toda a minha vida; mas era um contador de histórias apaixonado pela própria voz e pelo incrível personagem que criou. Assim, um dia, quando eu tinha doze anos, o conflito de contexto entre as suas sedutoras fantasias e a monótona realidade explodiu na sua cara. Me descobri filho de uma ficção.

Nunca o confrontei, mas ele sabia que eu sabia. E, assim, vivemos por mais 15 anos. Ele se retraiu. Não contava as histórias que o fizeram famoso com a mesma verve; tentou se matar, mais como teatro do que como verdade; e exacerbou suas tendências hipocondríacas inventando doenças novas toda semana. Lembro de assistir, escondido atrás das cortinas, ele caminhando com dificuldade apoiado numa bengala, só para atravessar a rua correndo quando achava que não estava sendo observado.

Um dia uma doença de verdade o abateu e feriu justamente o que achava ter de melhor: a masculinidade torta que anos de colégio militar e fanfarronice lhe colocaram na cabeça. Durante a convalescência que levou à sua morte, eu, sob tratamento psicoterápico, tentei confrontá-lo sobre a verdade. Não tive sucesso. Nem ele devia saber mais o que era real ou não. Nos afastamos.

Ele morreu distante de mim, sem consciência de quem foi e de quem inventou que era. Quando quis velá-lo, fui expulso por seus parentes do cemitério. Uma história curiosa que parece bem com as que costumava contar.

Vez ou outra, quando sua neta me pede histórias sobre ele, eu penso em tudo isso e me pergunto por que não tenho mais fotos ou documentos que possam comprovar a sua existência. Eu busco, busco, mas não acho. Tudo o que restou dele foram as histórias, então, só me resta contá-las a conta gotas, até que elas deixem de ser suas, de ser minhas e se tornem de sua neta e de todos que as ouvirão.

Há quase 100 anos ele nasceu, mas sua vida é mais forte hoje do que nunca. Ele deixou de ser verdade, chata e previsível, e virou o que sempre quis ser: ficção. E eu, seu filho, graças a ele, virei um ficcionista.

Publicado emArtigos

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