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Números da Vacina

Exatamente um ano e três meses depois da OMS declarar CoVid uma pandemia, fui tomar a minha primeira dose da vacina. Se você esquecer que vivemos num país desgovernado há dois anos e meio por um genocida que promove a doença e dificulta a imunização, dá até pra dizer que foi rápido; mas não foi. Foi uma eternidade; e nesse período perdemos pessoas queridas das nossas vidas e importantes para a nossa coletividade. Como não quero ser uma delas, como não quero ser mais uma das vítimas da campanha negacionista da milícia dos zero-zeros do Vivendas da Barra, fui me vacinar.

Ansioso, preparei uma bolsa no dia anterior com tudo que eu ia precisar: carteira de identidade e CPF; os dois atestados médicos de comorbidade e o exame positivo de CoVid para justificar estar entrando na repescagem; um livro, um fanzine, e uma graphic novel para me ocupar sem precisar ficar olhando pro celular; e uma caneta pro caso de querer escrever algo nas margens dos livros. Nunca se sabe que ideias podemos ter ou que curiosidades podemos presenciar.

Acordei às quatro e vinte e seis, bem mais cedo do que preciso, como sempre, e tentei matar o tempo até a hora de partir pro posto de vacinação: ouvi a Rádio Acoustika FM de Rio das Ostras; tolamente li os jornais, só pra me dar mais raiva do país, dos tiranetes fascistas que nos oprimem e seus seguidores acéfalos; e tentei tirar o gosto ruim de desamparo da garganta com uma overdose de palavras cruzadas. Sem sucesso.

Sete horas da manhã, me vesti; dei um beijo na minha mulher, que fez um infrutífero esforço para acordar; coloquei duas máscaras, uma cirúrgica e uma de tecido; e chamei um Uber para curtir uma fila. Cheguei na frente do Museu da República às sete e doze, e, óbvio, não era o primeiro. Na minha frente, vinte e uma pessoas esperavam, tomando café, conversando, fumando, como se estivessem aguardando para entrar numa boate. Li o fanzine, a graphic novel, quarenta e três páginas do meu livro, disse não a dois pedintes sem máscara, e logo deu oito da manhã, quando o posto deveria abrir, mas não abriu. No longuíssimo minuto e meio em que as portas demoraram para ser abertas e impediram os funcionários do posto de vir organizar a fila, mandei duas mensagens e meia reclamando da demora.

A fila andou e nos colocaram sentados em quatro filas de quinze cadeiras cada. Eu era o sétimo da segunda fila. Uma funcionária da secretaria de saúde passou por nós perguntando as idades ou as comorbidades que nos permitiam tomar a vacina: cinquenta e quatro, doença autoimune, cinquenta e sete, cinquenta e oito, obesidade, deficiência permanente, doença renal crônica, cinquenta e quatro, cinquenta e quatro, pressão alta, cinquenta e quatro, pressão alta. De três em três éramos encaminhados para duas mesas onde anotavam nossos nomes, cpf, identidades, idades, e as datas quando devemos voltar para a segunda dose. Pra mim, quatro de setembro. Uma espera de oitenta e quatro dias.

Segui pelo salão ministerial, observado pelos quadros de oito ex presidentes brasileiros, até uma saleta onde uma enfermeira me esperava. Ela pegou a ampola de cinco mililitros de Astrazeneca, encheu a seringa, pediu pra eu subir a manga direita da camisa, relaxar o braço e, pronto, estava vacinado. Ao mesmo tempo, tudo era diferente, e nada parecia ter mudado.

Agradeci à enfermeira, e saí do Museu da República segurando o algodão no meu braço, o único sinal de que algo havia acontecido ali. O sol bateu nos meus olhos e fiquei desorientado. Por um segundo senti todos os possíveis efeitos colaterais da vacina, febre, dor no corpo, cansaço, dor de cabeça, mas logo passou. Olhei pro céu azul e senti grossas gotas de chuva sobre o meu rosto. De onde viriam? Tive noventa e sete porcento de certeza que as coisas iam melhorar. Ainda havia, óbvio, muito o que esperar antes de melhorar, mas, definitivamente, menos que ontem; um dia a menos, pelo menos. E um dia, às vezes, faz toda a diferença. Hoje fez.

Publicado emArtigos

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