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Os cacos

Os cacos pequenos são os piores. Dizem que eles duram por anos, escondidos, entre as frestas de tacos, nos rejuntes dos pisos, nas quinas embaixo dos móveis, até que um dia, quando você menos esperar, eles furarão o seu pé e você sangrará, lembrando do copo que se foi.

Se o copo era grosso e forte é pior. Dizem que um corte profundo no pé, no lugar certo, ou, melhor, no lugar errado, pode lhe matar. Se pegar numa veia, ou numa artéria específica, você pode se esvair em sangue até morrer. Parece exagero, e, cá entre nós, deve ser, mas vai que, mas vai que.

Os copos finos e leves são outro problema. Você pode pisar nos seus cacos, sentir uma picada leve, não sangrar e esquecer. Enquanto isso, essas pequenas farpas mortais de vidro caminham lenta e silenciosamente pelo seu corpo, até apunhalar a sua mente ou o seu coração. E quando você vê, ou não vê, morreu de copo quebrado.

Mas o pior mesmo é a lembrança. A lembrança do copo que se foi. A lembrança evocada pelo sangue, pela dor, pelo medo da morte. Afinal, um copo não simplesmente quebra, um copo tem uma história. O dia em que vocês se encontraram, por acaso ou desejo; o que ocorreu para ele fazer parte da sua vida, foi um presente ou uma compra?; quando foi a primeira vez que o usou, de forma festiva ou rotineira, e como se sentiu ao segurá-lo; como cuidou dele, teve carinho ou desleixo?; a primeira vez que ele quase quebrou, afinal nenhum copo quebra de uma só vez; se você se preocupou em perdê-lo ou não; e, enfim, o dia em que ele quebrou.

O dia em que o copo quebra é mais importante que o exato momento em que ele se estilhaça, é um dia cheio de momentos premonitórios. Há toda uma mise-en-scène, uma preparação espiritual para que ele finalmente cumpra o seu fim.

Tudo pode começar com uma briga, causada pelo copo ser a herança de uma ex; por vocês terem ganho ele de um desafeto; por conta da vez em que você quase o quebrou; ou porque você nunca soube como lavá-lo direito. Então, no seu último dia o copo se tornará o assunto de longas conversas; será utilizado de uma maneira pouco usual; despertará admiração ou asco; presenciará um aumento de tensão entre os personagens do seu drama; e, enfim, se quebrará. Um belo momento de metalinguagem, em que o objeto estético que demarca o fim de algo mais experimenta, ele mesmo, o seu fim.

O copo poderá quebrar em pedaços minúsculos, em grandes nacos ou apenas rachar superficialmente. Seja como for, ele sempre deixará cacos invisíveis que irão assombrá-lo por toda sua vida, para lhe lembrar que nada termina, até o que terminou. E um dia, sem perceber, você irá pisar neles e sentir que o tempo passou, mas pouco mudou, pois a sua memória permanece e ela, como os cacos, é impossível de ser extinguida.

O que fazer? Se esse reencontro é inevitável, não tenha medo. Pise forte no chão da cozinha e nas suas memórias, e receba com amor e gratidão as lembranças quebradas e os cacos íntegros que formam a ilusão de ser você.

Publicado emArtigos

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