Ele venceu

Ontem, finalmente o jornal não veio mais. Quase não percebi. Cancelei a assinatura há um mês, e, por conta de um crédito devido a postergações e suspensões, iria continuar recebendo ele durante um tempo. Ontem, acabou. Nem fez diferença. Não o lia mais.

Dobrado como chegava em casa, dobrado e não aberto, ele ia pra lixeira. Nem as palavras cruzadas, que tanto amo, e eram a minha recompensa mental após ler tantas tragédias, eu fazia mais. Tinha medo de encontrar com ele.

Podia ser num desafio, numa foto, numa charge, numa notícia. Eu tinha medo de vê-lo. Só a sugestão do seu nome já me dava, e dá, asco. Se alguém fala B-O, eu já interrompo a pessoa:

– Você não vai falar dele, não, é?

Na televisão também estou escapando. Começa o jornal, eu ponho no guia de canais e procuro algo pra me entorpecer:

– Olha, tá passando O Diabo veste Prada de novo.

Confesso, cansei. Confesso, desisti.

No início da pandemia, fazia coro com os outros moradores da São Salvador e gritava pela janela como se dissesse palavras mágicas que tivessem o poder de exorcizá-lo. Às vezes, a gente encontrava resistência de um apoiador dele e o panelaço virava bate boca. Mas não durava muito, a nossa voz era mais forte.

O tempo passou, a pandemia se estendeu e aos poucos, nossa voz foi minguando. Não fui mais a janela e, quando alguém gritava, eu olhava pro relógio e alertava minha mulher:

– Deu oito horas.

A nossa indignação virou sino de igreja: um hábito sem sentido.

Ontem, o jornal não veio mais. Ontem, não assisti televisão. Ontem, percebi, ninguém grita mais às oito horas. Cansamos. Ele venceu.

O excesso de abuso, desrespeito e ignorância se tornou um lugar comum. Os absurdos, a falta de humanidade, o ódio e o sarcasmo não nos chocam; depois de tanto apanhar ficamos anestesiados. Como reféns de longos sequestros, consideramos o cativeiro normal. Chegamos ao ponto em que consideramos que o câncer veio pra ficar e, completando o ciclo do luto, aceitamos: o país morreu. 100%, figurativamente. 100 mil pessoas, literalmente.

Mas, eu te digo; todo dia, quando dá oito horas eu vou até a janela e sinto vontade de gritar. Sinto vontade de rasgar as minhas cordas vocais e vociferar toda a minha indignação com a excrescência que a vida comunal no país se tornou. Mas tenho medo.

Tenho medo que meu grito abafado não encontre mais ouvidos vivos dispostos a apoiá-lo. Tenho medo que os seguidores dele respondam e, dessa vez, a sua voz seja maior. Tenho medo que o país tenha se tornado a Utopia dele e a minha Distopia. Tenho medo.

Por isso, vou à janela calado e rezo. Rezo para que algo mude; para que quando sairmos de nossos bunkers, ao fim da pandemia, a natureza esteja florescendo e esse filme de terror esteja no passado; rezo para que algo se acenda no coração da população. Pois, no meu, a chama morreu.

Mas aos que perderam a força ainda resta a fé. Isso ainda tenho, mas me pergunto: o que restará quando a fé acabar? Rezo para que não precisemos responder a essa pergunta.

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