Em defesa de O Hobbit

Cometi o maior pecado que um jogador de RPG podia cometer nos anos 90: eu não gostava de Senhor dos Anéis. E olha que eu tentei.

A primeira vez que arrisquei ler foi uma edição da Artenova em 6 volumes que tinha na biblioteca Machado de Assis em Botafogo. Quando chegou na morte do Boromir, eu me indignava: “Que diabos! Esse homem tá todo flechado e continua falando por páginas e páginas?”. Desisti. Na segunda tentativa peguei a edição da Europa América, aquela de capa preta chique, na biblioteca do colégio e avancei até ao “congresso” do Ents. A cada parágrafo eu balançava a cabeça e pensava: “Cacete, como essas árvores falam”. Desisti novamente.  Pra não sair muito feio dessa história, li o Hobbit. Achei legal mas bem desconexo, como as histórias que às vezes invento pra botar a minha filha pra dormir, mas foi só isso. Graças a Deus, o mundo do RPG mudou, Vampire chegou e os rpgistas migraram pra Anne Rice e A Entrevista com o Vampiro, que, confesso, só li até a morte da Cláudia por revolta, porque o Louis é chato demais.

Por isso, quando o Peter Jackson começou a lançar os filmes de Senhor dos Anéis, eu não tinha muitas expectativas. Não era um fanzoca, mas confiava que ia ser bom. Acho Almas Gêmeas uma obra prima e Espíritos é um filme sui generis mesmo que comercial. Também o que esperar de um cara que começou fazendo filmes trash gore de propósito? Tudo que ele criava, mesmo que fosse ruim, tinha que ser proposital e impressionante.

Imagino como ele ralou pra fazer os filme da trilogia. Cá entre nós, em quase mil páginas só tem um fiapo de plot,  várias situações são totalmente sem nexo e a única forma de se criar algum tipo de empatia com os personagens unidimensionais é imaginar jogando eles num RPG. OK, a história de fundo e o mundo são imaginativos pacas, mas cadê o drama? Muitas vezes eu me perguntava se Sauron e Saruman não estavam fazendo o certo acabando com aquele povo chato e pernóstico de Rohan e Gondor. Assim, fui pros filmes sem o menor temor. E amei.

Peter Jackson tomou, óbvio, enormes liberdades com a obra. Limou coisas queridas dos nerds, e.g. Tom Bombadil, e conseguiu inexplicavelmente criar drama e conflito onde não havia. Deu uma história de verdade a uma narrativa fraca passada num cenário riquíssimo e elaborado. Uma conquista inquestionável, na minha opinião.

Todo mundo curtiu também, ele ganhou Oscar e tudo, mas Nerd é Nerd, e, com o passar do tempo, o pessoal começou a se prender a detalhes pra falar mal do filme. Como não era um fã dos livros, passei ao largo dessa discussão. Porém, quando Peter Jackson disse que ia produzir o Hobbit com o Guillermo del Toro dirigindo, o debate se tornou inescapável.

Tinha os que adoravam a ideia, tinha os que odiavam. Eu, confesso, gosto do Hobbit. É um conto de fadas bem legal. É quase como um amigo de RPG das antigas descrevia as suas aventuras: uma enorme quantidade de encontros complicados em sequência que dão a impressão de ser uma narrativa coesa e serão resolvidos num Deus Ex Machina fora da vista dos personagens. Pessoalmente tinha dúvidas se era adaptável e se o estilo dark do Del Toro ia casar bem com o material já consolidado pela trilogia de filmes anterior.

O tempo passou, a produção dos filmes virou uma novela; Del Toro saiu do projeto, Peter Jackson assumiu; os dois filmes viraram três; e, pimba, quando menos esperávamos tava nos cinemas.

Não é uma obra prima, e nem chega perto dos divertidos filmes da trilogia anterior, mas, na boa, o desafio era muito pior. Um livro curto, sem estrutura, cheio de umas canções e poemas doidos. Não dava pra tornar numa narrativa cinematográfica com qualidade sem tomar muitas liberdades. E foi isso o que Peter Jackson fez: tomou muitas liberdades. Dessa vez incluindo coisas que não estavam no livro.

Aí o povo se empombou. Pior que limar Tom Bombadil era: dar uma história e um arco dramático pro Bard, que só aparece no livro pra dar aquela flechada; incutir alguma motivação nobre naqueles anões mercenários; estabelecer algum tipo de personalidade pro Bilbo; tornar Azog, quase uma nota de rodapé no texto, num vilão razoável; e dar um tema pra história. Sim, ele conseguiu até dar um tema pro Hobbit: a ganância versus o senso de comunidade. Mas na cabeça dos nerds da internet, ele estava dessacralizando o livro da sua infância, que uns 80% dos que reclamavam não leram.

Então, numa história que parecia quase uma confusão típica de Sessão da Tarde, Peter Jackson conseguiu introduzir um tema que costurou toda a narrativa. Os anões partem em sua aventura para recuperar a sua terra natal e sua comunidade, mas acabam, pelo menos seu líder, consumidos pela ganância; Smaug, sentado naquele enorme tesouro, nos lembra do que move os seres humanos e como a cobiça nos torna solitários; a Cidade do Lago vivia controlada por homens gananciosos contra os quais Bard se colocava pelo bem comum; Legolas e Tauriel, que não estavam na história original, tentam criar algum tipo de harmonia entre os povos enquanto os velhos líderes são guiados por antigas rusgas por despeito e desejo de poder; e o Gollum… preciso falar dele? Acho que não. Seja como for o Hobbit enfim tinha um tema.

Tá, concordo, não foi bem desenvolvido. O quase romance de Tauriel e Kili ficou quase cômico; Bilbo, que de arrombador deveria passar a conciliador, é quase um espectador passivo do drama; e a introdução da história do conselho pra dar liga com a trilogia do Senhor dos Anéis foi ao mesmo tempo demais e de menos. Enfim, os filmes tiveram vários problemas, mas nenhum deles tira o mérito de se conseguir dar uma estrutura onde não havia quase nada.

Por isso, quando vejo a galera malhando O Hobbit, sempre o defendo. Não é um grande filme, mas admiro muito o trabalho criativo e conceitual que foi feito nele. Quem nunca sentou pra escrever e vive reclamando que o Batman do filme tal não é o verdadeiro, pois nunca ouviu falar de Bat-Mite, nem de Ace, o Bat-cão, tem todo o direito de achar o filme ruim, mas não pode desmerecer as conquistas narrativas realizadas em cima de um material difícil e, pior, popular. Escrever e criar não requerem somente desejo de agradar os outros e de sucesso financeiro, envolvem na verdade muito trabalho, análise e coragem. E nesses quesitos O Hobbit, com todas as suas falhas, é uma grande conquista.

Fala aí

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.