Uma dose de esperança com duas gotas de pessimismo

Esse fim de semana me bateu que não vamos sair dessa tão cedo. “Dessa o quê?” você me pergunta. Bom, dessa tudo. Dessa Pandemia, dessa situação política, dessa crise econômica, desse home office, desse home schooling. Você sabe: dessas coisas. E, pra piorar, a esperança, cada vez mais distante, de “re-normalização” está nos dificultando assumir esse provisório como um, digamos, semi-permanente.

Não sei pra vocês, mas, pra mim, isso tem mexido bastante com a minha capacidade de dar uma ordem, pelo menos narrativa, na minha vida. Meu sentimento é que, como naquele poema do Bukowski, “the days run away like wild horses over the hills”. Um mês parece um ano; um dia some num minuto. As rotinas se misturam com os fatos especiais e tudo perde um pouco da cor. Aí, quando alguém me pergunta o que fiz ontem ou no ano passado, a resposta é quase sempre a mesma: “Não lembro, você lembra?”. Ninguém lembra.

Por isso, tenho me dedicado tanto a registrar meu dia a dia e ter um pouco mais de controle sobre as minhas memórias e, por que não?, sobre a minha vida. Nas páginas matinais do Caminho do Artista; em posts nesse blog; e em pequenos comentários na minha rede antissocial. Mas não estava dando vazão. Eu preciso de algo menos público e mais sucinto; não preciso de crônicas que transformem a minha vida em ficção; preciso de gatilhos que ativem minha memória e me lembrem que vivi.

Foi nessa busca que esbarrei com o diário de 5 anos.

É um pequeno caderno, com um dia em cada página. Cada página está dividida em 5 espaços, um para cada ano, onde posso escrever apenas algumas linhas sobre cada dia. É um exercício de tentar resumir o dia e uma maneira de, depois, relembrar o que de mais importante me aconteceu nesses intermináveis 5 anos de “tempos interessantes” que, acredito, iremos viver.

Pode parecer pessimismo considerar que esse período vai durar 5 anos, mas ao mesmo tempo esse diário é um símbolo da minha esperança que estarei aqui até ele terminar, e que haverá tinta e vontade para que eu preencha as suas páginas todos os dias.

Esperar pelo melhor e se preparar para o pior, ou, como no antigo provérbio russo, apropriado pelo Reagan: confiar, mas verificar. Acho que hoje em dia esse é o máximo de otimismo que nos resta, e que bom que ele ainda exista.

Dia 26 de janeiro de 2021: escrevi um post sobre o diário de 5 anos.

É um começo. O que escreverei em 25 de janeiro de 2026?

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