Escrevendo o tal do Tao

Algo se quebrou ou se consertou em mim durante a pandemia. Depois de anos de um longo e aparentemente interminável- perdão pelo plágio, Fran Lebowitz- embargo de escritor, simplesmente acordo e escrevo.

Não me importa mais se vai ficar bom ou ruim. Simplesmente escrevo, pois é isso que faço. Todos os dias.

Parece fácil, mas levei uns bons 25 anos pra retomar esse ímpeto. Lembro que fazia isso dos meus 12 aos meus 21 anos. Era simples. Algo se ligava em mim e eu escrevia. Em cadernos, folhas soltas, na máquina de escrever, nas paredes. Compulsivamente e sem expectativas.

Um dia isso parou. Como se algo tivesse morrido em mim. Eu senti essa morte, mas não enlutei. Continuei vivendo como se estivesse tudo normal e tentando recuperar esse instinto perdido.

Nesse período cheguei a ser um, abre aspas, “escritor profissional”. Acordava e escrevia, para sobre-viver. Mesmo embargado. Não me importava o que me mandavam escrever: artigos sobre  tecnologia, livros de vendas, jogos educativos, procedimentos, discursos, manuais, o diabo. Eu acordava e escrevia. Mas não era a mesma coisa.

Por mais que sentisse que plantava pequenas pistas pro escritor que há em mim nesses textos sem amor, essas pequenas autoindulgências não eram suficientes. Eu sentia que algo me faltava e, sem saber o que era, comecei a achar que o problema era meu. Até era, mas não da maneira que eu imaginava.

Por isso comecei a ler compulsivamente sobre narrativa, roteiro, literatura e a fazer cursos tentando me enganar que eu não sabia escrever. Era como um pássaro fazendo curso de piloto. Eu queria, mas tinha desaprendido ou me recusava a voar com as minhas próprias asas. E comecei a colocar a culpa nas recompensas que não vinham para não fazer o que simplesmente tinha que fazer. Comecei a acreditar que escrevia pra agradar os outros e não para mim. Esqueci que nunca foi sobre o destino. Eu esqueci de trilhar o caminho.

Mas agora, não sei exatamente como, lembrei.

Algo se quebrou ou se consertou em mim durante a pandemia. E agora me sinto no meu caminho, no meu tao. Se bem que só cheguei aqui por conta dos desvios da vida. Que eu não me desvie mais. Jamais. E que eu continue a escrever. Sempre. Dessa vez para viver.

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