Essa dependência é de morte

Meu pai costumava contar uma piada besta sobre como a independência do Brasil foi um erro. Na verdade Dom Pedro, depois de se aliviar nas margens do Ypiranga, teria gritado:

– Essa incontinência é de morte

Mal entendido feito, o Brasil se libertou de Portugal. Ou quase.

O problema do Brasil é que nunca tivemos uma revolução de fato. Tivemos revoltas. Muitas. Mas revolução, onde o povo se levanta e muda a forma de governo? Longe disso. A história do Brasil se move em golpes que gostam de se chamar de revolução: a independência, a república, o estado novo, a “gloriosa”, e, o distanciamento histórico nos dirá, se estamos num novo desses golpes disfarçados de revolução.

É sempre a história de uma briga de poder nos bastidores que chega numa resolução quase sempre pacífica mas ao mesmo tempo teatral. Alguns se revoltam e há mortes e tortura, mas pra maioria da população é business as usual. Não sei pra vocês, mas isso me dá uma certa vergonha. Fazer parte de uma nação de servos acomodados que, rapidamente, se acostumam a qualquer alma sebosa que tenha dois dedos de ambição e meia dúzia de imbecis para fazer coro é constrangedor.

Por isso, toda vez que vejo a direita bradando que a nossa bandeira nunca será vermelha e a esquerda se calando intimidada, eu penso: “Seria bom pacas que a nossa bandeira fosse vermelha”. Claro, afinal o vermelho na bandeira não significa comunismo, coisa que só se leva a sério no Brasil, como dizia Paulo Francis. Vermelho na bandeira significa derramamento de sangue em uma revolução popular. Algo que nunca tivemos e bem precisamos.

Por isso a direita, óbvio, não quer a bandeira vermelha, e a esquerda, por omissão, concorda. O que as “zelites” querem é a passagem de poder pacífica e teatral de sempre pra chamar de revolução ou, como dizem desde 1985, Nova qualquer coisa, república, política e o que seja.

Mas, nesse dia da in(hum-hum)dependência, confortavelmente deitado sob um cobertor, escrevendo sobre revolução, me questiono se realmente queremos, quer dizer, quero fazer parte dessa história. Seria muito mais confortável que alguém tivesse feito a revolução pra gente há 198 anos. Agora, com boletos, trabalho, etc e tal, será que podemos deixar essa revolução pro dia 8? Afinal de contas hoje, esqueceu?, é feriado.

Dá uma super vergonha da gente ser assim, mas, talvez, quem sabe, essa propensão a inércia seja uma vantagem evolutiva e quando formos atacados por ETs só os brasileiros sobrevivam por essa espetacular e vergonhosa capacidade de não se revoltar. Um povo único que só se move em casos extremos, como Dom Pedro com a sua incontinência.

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