O crepúsculo dos deuses auto irônicos

Com dez anos de atraso, comecei a ler a “nova” série de quadrinhos do Gavião Arqueiro. Confesso, mais pela arte do David Aja do que por qualquer outra coisa. Não me arrependi. Pela arte, pelo ritmo e pela diagramação. Pela história… aí já é, bem, outra história.

Desde o final dos anos 90, após o massacre cognitivo, estético e moral da Image, começou um movimento brabo dos quadrinhos mainstream se tornarem autorreferenciais. Se os heróis tinham se tornado pastiches de si mesmos, como ciborgues cromados bidimensionais de seis braços e armas para cada um dos dedos, que sentido fazia ser um cara que botava collant para sair às ruas e lutar contra o crime por conta de algum trauma de infância? 

Os heróis precisavam, sim, de terapia, mas os autores resolveram transformá-los em sujeitos fracassados e amargos que recorriam ao sarcasmo para sobreviver. E foi interessante. Por um tempo. Lembro de ter acompanhado com bastante atenção o primeiro ano de Alias, com a Jessica Jones, mas depois comecei a ficar cansado. “Que diabo, será que ela não consegue mudar nem um pouquinho?”.

Não, não conseguia. Ao tentar subverter o estilo narrativo tradicional, esse movimento meio hipster de heróis auto irônicos repetia os próprios erros do gênero que tentava criticar. E, como os heróis dos anos 50, presos em ciclos grandiosos onde as maiores mudanças eram resolvidas com “tudo não passou de um sonho”, esses novos ou renovados heróis do século XXI continuavam paralisados pelos seus problemas, mas dessa vez justificavam tudo com um simples “putz, recaí”.

Sei que nos anos 80 foram feitas experiências bem interessantes e bem sucedidas de subverter o gênero. Zenith e Homem Animal do Morrison, as historinhas de super heróis dentro de Locas do Jaime Hernandez, The Jam, Concreto, As Tartarugas Ninjas e até a Orquídea Negra do Gaiman conseguiram botar um pouco de auto análise na figura do super herói. Porém, essas experiências tinham duas características que faltam a esses quadrinhos atuais: tinham início, meio e fim; e humor.

Os heróis sarcásticos de hoje, que lamentam suas vidas, suas escolhas, e vivem questionando a razão de “botarem collant para sair às ruas e lutar contra o crime por conta de algum trauma de infância” tentam apenas ser engraçados, sem a satisfação da auto-análise, enquanto continuam vítimas de um mercado que demanda a eterna continuidade dos seus títulos. Um bando de sísifos tristes. 

Assim, como personagens de um sitcom ruim, mas que cita filósofos e músicas pop, eles tentam questionar o que são ao mesmo tempo que prometem que nunca irão mudar. Por isso, por mais linda que seja a arte do David Aja, acabei abandonando a série. De coisas que não mudam e das quais a gente ri pra não chorar já me basta o noticiário político brasileiro.

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