
A prensa inaugurou não só a era do livro moderno, como também foi o estopim da criação da economia industrial. Foi a sua invenção e popularização, como uma das primeiras formas de produção em massa baseada em tecnologia, que abriu espaço para a mecanização do trabalho em diversas outras frentes. Apesar desse pioneirismo, ao contrário de outros setores, o processo editorial continuou por séculos concentrando muitas atividades num grupo reduzido de pessoas.
Editoras e gráficas se confundiam, assim como livrarias, livreiros e distribuidoras, chegando ao ponto em que os próprios autores assumissem diversas dessas tarefas no processo de criação do livro, a fim de que suas obras chegassem aos leitores. Além disso, a profissão de autor não era considerada algo exclusivo, e os escritores precisavam compor sua sustentabilidade financeira com diversas outras formas de rendimento, quando não eram simplesmente “herdeiros”, o que tornava a “profissão” algo quase proibido para a população em geral.
No século XX, seguindo o modelo da linha de montagem taylorista, o processo editorial também acabou decomposto na busca de maior produtividade e especialização. Nessa redefinição de tarefas e responsabilidades, os papéis de agentes e dos setores de aquisição das editoras começaram a se delinear de uma forma mais clara, buscando garantir um melhor relacionamento comercial e negociações que trouxessem benefícios equilibrados tanto para os criadores das obras quanto para aqueles que queriam o direito de reproduzi-las.
Às agências literárias cabia liberar os autores das preocupações do trabalho comercial, permitindo que se entregassem com mais liberdade e foco ao que fazem de melhor: criar. Já os setores de aquisição buscavam manter relacionamentos com os representantes dos autores para compor seus portfólios de investimentos com obras de maior possibilidade de retorno financeiro e simbólico, alinhadas aos posicionamentos estratégicos e de marketing de suas editoras.

Arte e comércio: uma falsa dicotomia? – de 6 Degrees of Separation
Essa divisão de responsabilidades facilitou as relações e deu mais clareza aos acordos comerciais, mas, em vez de se apresentar como um serviço prestado aos autores, o seu agenciamento seguiu um salutar caminho de compartilhar com o autor os riscos. Ao ser pago por comissão, o agente, assim como a editora, se tornou um investidor no trabalho do escritor. A implicação de todos os envolvidos cria cadeias de confiança que tornam o trabalho não só mais organizado como também psicologicamente seguro para todas as partes, algo aparentemente contraditório no modelo taylorista.
A chegada da internet e da digitalização, assim como a da prensa em seu tempo, transformou o trabalho e as relações comerciais. Ao mesmo tempo em que as novas tecnologias facilitaram a aproximação entre autores, editoras e leitores, também aumentaram a produção de originais dificultando o processo de curadoria de agentes e setores de aquisição. Nessa nova configuração, os autores tiveram que se tornar responsáveis pela sua própria divulgação. Isso os inseriu no mercado de celebridades, fazendo com que o produto começasse a se tornar cada vez mais quem cria e cada vez menos o que é criado.
É nesse novo cenário de maior incerteza e excesso de informação, marcado pela exaltação de gênios de ocasião e por cancelamentos de obras e autores, que os setores de aquisição e agentes estão precisando reposicionar seus relacionamentos em resposta não só às novas tecnologias, mas também às novas relações com o texto, o livro e a leitura.
Mesmo com tantas mudanças tecnológicas e sociais, ainda continuamos guiados pelo clichê ou, quem sabe?, dogma de que “escrever está no campo da arte, enquanto publicar está no campo dos negócios”. Será que hoje essa dicotomia ainda faz sentido? Cabe às agências literárias e aos setores de aquisição fazer com que essa tal “transcendente magia literária” consiga conversar de igual pra igual com a objetividade dos relacionamentos comerciais que mantêm o nosso mercado financeiramente saudável. Um trabalho certamente difícil, mas que não depende de nenhuma mágica para acontecer .

Um diálogo possível desde que entendidas as responsabilidades de cada um – de My Salinger’s Year