“Pai Mãe Irmã Irmão” e outros rituais familiares Jarmuschianos

Jim Jarmusch, olha a ousadia!, entrou numas de afrontar Tolstoy. Não, ele não discordou abertamente que todas as famílias felizes se pareçam e que todas as infelizes o sejam das suas próprias maneiras. Ele apenas nos lembrou em Pai, Mãe, Irmã, Irmão que todas as famílias são igualmente felizes e infelizes, e, portanto, todas se parecem, enquanto são, ao mesmo tempo, diferentes. Enfim, sem qualificativos, morais ou estéticos, sua tese, há tese?, é que, boas ou ruins, todas as famílias apenas o são, famílias.

Como em suas outras antologias de repetição (Coffee and Cigarretes, Night on Earth, Mistery Train, Paterson, etc), ele abusa delicada e explicitamente dos elementos que tornam famílias em famílias: o Rolex ou presente misterioso; os livros (não) lidos ou (não) escritos; a dependência financeira e a trapaça; os papéis conflituosamente harmônicos; os segredos não contados mas que todos sabem; a enumeração das drogas e vergonhas; os brindes tortos e inadequados (enfim, é possível brindar com água, chá ou café?); as teorias conspiratórias sobre a água; as cores de roupas que se (des)combinam; e a inevitável pressa de encerrar o encontro que não era pra acontecer. Nesses pequenos detalhes se escondem o incômodo das relações distantes (no tempo e no espaço), e é, também, ali que as suas similaridades brilham.

Já as diferenças inescapáveis não se sobressaem no grandioso, mas disputam o mesmo espaço de tristeza, ou alegria, nas pequenezas do cotidiano: no café, no chá e na água; nas histórias de formação complicadas porém geradoras de orgulho; no movimentar dos personagens pelas cadeiras e outros assentos; nas cidades e trajetos diferentes; nas variadas formas de lidar com o luto de relações, com os parentes vivos e/ou mortos, que não existem mais ou sobrevivem apenas ligadas a aparelhos ritualísticos.

Porém, por mais incômodo que essas situações, ao mesmo tempo estranhas e familiares, gerem, nada muda, e os conflitos emergentes sempre acabam sendo abafados. Enquanto o mal-estar permanece, o desejo de liberdade da juventude, experimentado nostalgicamente pelos filhos já adultos- uma condição que realmente muda a dinâmica familiar de pais, mães, filhos, irmãs e irmãos-, os persegue na forma de skatistas anarquistas em câmera lenta, se movendo livremente por entre carros, compromissos, por entre o tempo e o espaço, imunes às responsabilidades que oprimem os ex-jovens.

Ao fim de cada episódio familiar, sem conclusões ou sentimentalismos, as portas simplesmente se fecham. As portas dos carros, das casas e dos armazéns são trancadas, provisoriamente, guardando histórias relembradas em rituais mágicos que nada mudam na vida real.

Como nas conversas sem fim de cafés e cigarros, nas viagens de taxi para lugar nenhum em uma noite sobre a Terra, e  no constante apitar do trem misterioso que une histórias num hotel em Memphis, em Pai Mãe Irmã Irmão passamos, sem julgamento ou conclusão, por apenas mais um encontro com, surpresa!, pais, mães, e irmãos. Nada mais, nada menos. Exatamente o que deveria ser, exatamente o que é.

Deveríamos esperar algo diferente? Talvez de Tolstoy, mas não de Jarmusch, não de Jarmusch.

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