
O mais comum é olharmos para o paratexto como tudo aquilo que orbita o texto. São a capa e o título chamativos, decididos pelo editor depois de muitas brigas com o autor sem noção; são a apresentação e o prefácio que tentam justificar um texto que, cá entre nós, deveria se sustentar sozinho; são o posfácio e as notas, espalhadas por capítulos, rodapés e fins de livros, que buscam explicar o que páginas e páginas de argumentação ou narrativa já deveriam ter deixado claro. Porém, são os epitextos imateriais que realmente fazem o livro cumprir a sua função na sociedade, indo além do que o texto sozinho (mesmo num perfeito e impossível entendimento do público leitor fantasiado pelo autor) nunca poderia atingir.
O texto, afinal, não se encerra em si mesmo. Seu papel é excitar, mover e transformar os leitores, e mesmo a audiência que não precisa lê-lo, mas deve sentir seus impactos, em direção aos seus objetivos e expectativas, tanto os conscientes como os inconscientes. Os livros são máquinas de transformação. Alguns nos deixam mais leves, felizes ou, pelo menos, temporariamente entretidos; outros nos fazem passar por experiências que nunca teríamos, mudando nossa maneira de pensar; e há aqueles que nos tiram de nossas poltronas e nos motivam a, com eles em punho, fazer revoluções, das mais pessoais às brutalmente globais.
Essas ideias, essas reflexões, essas paráfrases e essas conversas, todas essas ações paratextuais, inspiradas ou estimuladas pelas obras, são a sua razão de ser. É através da ação do texto na nossa cognição e em nossas identidades que nós, leitores, criamos novos textos e novas histórias, em nossas mentes ou na realidade, fazendo com que a imaginação dos autores se torne carne.
Nessas interações e no impacto que geram é que os livros atingem seu ápice, tornando-se mitos. Essas cargas simbólicas nem sempre intencionais podem ser desde preocupantes, como a de O Apanhador no Campo de Centeio (que inspirou, sabe-se lá por que, tantos assassinos), até mesmo jocosas, tal como a de O Pequeno Príncipe, que ganhou a alcunha de “livro das misses” por ser muito citado, mas pouco lido pelas “inocentes” rainhas da beleza.
O Mercado Editorial pode viver do e para o texto, preocupando-se primordialmente com a construção de todo o arcabouço necessário para a sua comercialização, incluindo aqui os peritextos que compõem a obra. Porém, o livro nasce, é escrito, concebido e criado para a marca que pode deixar na vida humana e na nossa civilização. A experiência e a história humanas são contadas a partir da escrita; não é surpresa alguma, portanto, que o que entendemos por realidade seja nada mais que uma série de reflexos paratextuais. Os livros, sim, foram feitos para serem lidos, mas cumprem seus destinos manifestos quando se tornam paratextos nos corações e mentes não só dos leitores, mas de toda a humanidade.
Essa ideia me parece algo que eu li em algum livro. Qual foi, mesmo? Não importa mais. Agora eu já me tornei o paratexto do texto que me formou. Missão cumprida.