
Quando os sucessivos encontros com o mágico o tornam banal?
O programa Inside the Actors Studio tinha seus momentos, quer dizer, tinha muitos momentos. James Lipton, mesmo com todo o seu pedantismo de ator americano que fez tanto Shakespeare que se acha inglês, conseguia estabelecer conexões tão pessoais com o público e com os entrevistados que muitas vezes eles descobriam algo surpreendente sobre si mesmos; como quando o Spielberg se ligou que os ETs de Contatos Imediatos estavam construindo uma ponte entre seus pais divorciados (uma musicista e um programador de computadores) através da comunicação por luzes, matemática e sons.
Tá, o Spielberg pode ter se surpreendido, mas, na boa, disso até eu já sabia.
Ontem fui assistir a D(isclosure) Day que estão alardeando como o fim da quadri/trilogia informal “Não estamos sós” do Spielberg, na qual se incluem, além do lançamento, Contatos Imediatos, E.T. e Guerra dos Mundos.
É curioso como cada um desses encontros atende a um momento histórico e pessoal diferente. Em Contatos há todo um backdrop de alienação humanista bem anos 70 com personagens que se encontram afastados uns dos outros e se unem pelo chamado alienígena. Em E.T. a alienação é familiar; o menino, filho de mãe solteira e desprezado pelos colegas e irmãos, se une à família graças à figura alienígena. Em Guerra dos Mundos, o pai, isolado da família com a qual “falhou”, tem, bem aos moldes dos filmes catástrofe, num ambiente pós 11 de setembro, a oportunidade de mostrar que ainda serve para alguma coisa.
Nessa última iteração com o tema, Spielberg, mais uma vez, coloca o contato extraterrestre como uma oportunidade de recuperar a empatia entre os humanos. Num mundo prestes a entrar em Guerra, um fato importante, mas que fica um pouco banalizado, em meio ao conflito maniqueísta entre os que querem esconder e revelar a verdade sobre a presença alienígena, a notícia de que não estamos sozinhos surge como a última esperança de acabar com as nossas desavenças infantis.
Tá, não é muito original, Alan Moore explorou isso de forma bem mais criativa e cínica em Watchmen, mas Spielberg dá bom uso ao tropo, mesmo que de forma um pouco fria. Como um criador, no ápice da sua maestria, ele faz escolhas estéticas que parecem (e são) difíceis para os outros, mas, para ele, não são nada arriscadas.
Spielberg segue um roteiro extremamente verborrágico e explicadinho, talvez para atender a quem está assistindo com cinco telas abertas, com alguns momentos de muita beleza plástica e outros de excitação um tanto artificial, como se o discurso tivesse se esvaziado pessoalmente, mesmo que ainda seja importante de ser dito, mais uma vez.
O engraçado é que é um pouco reducionista olhar para os filmes alienígenas de Spielberg apenas como aquelas ficções científicas em que aparecem seres de outros planetas. Boa parte de sua obra se debruça em contatos com outros mundos que são completamente alienígenas, às vezes para o público, às vezes para os protagonistas. De Soldado Ryan a Lista de Schindler, passando por A Cor Púrpura, O Império do Sol e Prenda-me se for Capaz, sempre temos como foco principal o contato com um outro desconhecido, às vezes fascinante, às vezes perigoso. Seja ele o alemão, o judeu, o oriental, a mulher, o negro, o adolescente, a criança, o criminoso, é esse outro, ao mesmo tempo tão longe e tão perto, que precisamos resgatar dentro de nós mesmos para dar sentido ao mundo em que vivemos.
Nesse quesito de proporcionar essa sensação de estranheza externa que nos revela que o estranho está dentro de nós, D Day é um dos seus filmes menos alienígenas. As personagens têm pouco a dizer sobre si e nada a resolver de particularmente pessoal; os riscos, mesmo que visualmente interessantes, não geram medo de perder algo, pois não há perigo real, apenas uma tese a se provar; e a ligação do público com os “estranhos” na tela parece tão impossível quanto a ligação entre a humanidade polarizada do século XXI, especialmente com as duas senhoras que, sabe-se lá por que, num cinema nem tão cheio escolheram se sentar coladas na minha poltrona. Viu? Não precisamos ir ao espaço para nos sentirmos extraterrestres.

Parecemos profundos e complexos, mas somos só rasos e artificialmente complicados
Spielberg parece aquele paciente que precisa pedir alta da análise, mas ficou viciado em se deitar no divã para encher o saco do terapeuta com as suas reclamações irresolvíveis da infância. Talvez, se ele voltar a ser sincero com o que atualmente o incomoda na humanidade, ainda tenha muitas excelentes histórias alienígenas para contar. Que tal uma sobre esse pessoal que, mesmo podendo escolher lugar no cinema, decide se sentar ao lado de desconhecidos? Esse é um tema realmente alienígena que eu adoraria ver alguém explorar.