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Ainda era alta madrugada quando colocaram a canoa na beira d’água. A Lua iluminava parte do rio, mas, devido ao escuro, era impossível ver a outra margem onde deviam chegar.

– Será que é muito longe?
– Nunca veio nesse rio de dia?
– Não. Você?
– Não sei, não lembro. Mas não deve ser longe. Melhor atravessar o rio do que ficar aqui.
– Isso, sim.

Empurraram a canoa. O primeiro entrou nela e começou a botar tudo pra dentro: os baldes, as provisões, os remos.

– Não esquece das varas!

O segundo trouxe as varas de pesca e as entregou pro primeiro.

– Você realmente acha que a gente vai conseguir pescar?
– Não sei. Vai quê.
– Isso, vai quê.

O segundo empurrou a canoa e saltou pra dentro, enquanto o primeiro começava a remar. Na inércia a canoa se afastou da margem e, aos poucos, não conseguiam ver mais nada: nem um lado, nem o outro. A névoa da madrugada os cercou e não sabiam mais de onde vinham, nem pra onde iam. Na dúvida, remaram. Era tudo o que lhes restava.

– Que horas são?
– Não sei.
– O sol já devia ter nascido, não?
– Não sei. Para de pensar nisso, e vamos remar.
– Isso, sim.

Em breve ia amanhecer e tudo seria diferente. Eles, o rio, tudo. Pelo menos era o que esperavam. Sem passado, nem futuro, remaram em direção aos vapores do destino, que continuava, como sempre, uma incógnita. Pelos menos não tinham esquecido as varas de pesca. Vai quê, vai quê.

Publicado emFicção

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