2026.06.29 – “No one dared, no one cared to tell me where the pretty girls are”

  • Estava zapeando (assim fazemos isso?) e calhei  de esbarrar com uma reprise da primeira temporada de GIRLS. É surpreendente como tudo se beneficia de distanciamento histórico. Obras em seu lançamento são carregadas de ansiedade. Pra pior e/ou pra melhor. GIRLS foi um desses casos que sofreu de ambos. Enquanto metade do mundo batia palmas às inegáveis inteligência e pertinência da série de Lena Dunham, metade reclamava da falta de propósito da nudez, das cenas gráficas de sexo e da superficialidade das personagens. Vista hoje é claramente um trabalho feito com muito esmero que tenta com muita sinceridade ser a voz da sua geração, ou, como a própria Hannah fala, “Uma voz de uma geração”. E não são assim todas as vozes?
  • Comparadas com a juventude de hoje assexuada, careta, medicada e destruída pelo brainrot, as meninas de GIRLS se mostram extremamente reais e profundas. E qual a novidade? A juventude atual sempre parece a pior, e a nossa, ó, saudades, é incomparável. Com seu envelhecimento, as juventudes alheias se tornam até simpáticas ou, no mínimo, dignas de pena. Sei que é algo horrível de se dizer/escrever, mas fazer o quê? O sentimento é esse mesmo. Temos muita dificuldade em conseguir medir a experiência humana pela vivência alheia, especialmente entre gerações.
  • Por falar nisso, fica a dica aí pra essa geração Z que se treme toda quando vê sexo no cinema: GIRLS é um belo exemplo onde as cenas de sexo são extremamente importantes pra narrativa.
  • No segundo episódio, o aborto (não necessário e não realizado) de Jessa me fez pensar como esse momento se tornou uma espécie de rito de passagem para as mulheres em diversos filmes e séries. De Picardias Estudantis a Euphoria, passando por Sex Education e Anos Dourados, a escolha consciente pelo término da gravidez é tratada, mesmo que de formas diferentes, como um momento em que a mulher se responsabiliza pelo seu futuro e afirma seu direito de escolher como levar sua própria vida. É basicamente impossível discutir a liberdade feminina sem considerar a liberdade de exercer seus direitos reprodutivos. Enquanto isso mulheres se elegem ao congresso brasileiro para pedir a diminuição dos direitos da mulher. Vai entender este país (ou outros)…
  • Mas o Brasil ganhou do Japão e isso que importa, não? Sério que preciso responder isso?
  • These precious thingsLet them bleed nowLet them wash away” – Precious Things – Tori Amos

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