Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Analogias Analógicas

Algo está quebrando, ou, quem sabe?, se consertando, se concertando. Não só em mim, mas em todo o mundo.

No trabalho, no intervalo do almoço, as pessoas fazem palavras cruzadas nas suas mesas com uma concentração inesperada. Hoje, num restaurante uma família, na mesa ao lado, fazia as suas, enquanto esperava com surpreendente calma a sua comida. As salas de cinema estão, não  exatamente cheias, mas mais cheias. As revistas voltam a ser vendidas e lidas em seus formatos físicos, pois falam de atividades analógicas e seria um contrassenso fazê-lo no digital.

Essa semana li Veja e Super Interessante o que provavelmente não fazia desde o século XX

O tempo, que parecia faltar, agora sobra e  eu consigo cochilar sem culpa nas tardes tediosas dos domingos e nas manhãs vazias dos sábados. A caminho de casa, eu escolho os trajetos mais longos, onde posso encontrar as coisas que eu não esperava encontrar. Ouço as tolices bem intencionadas das pessoas e o barulho (quase) harmônico do trânsito; sinto o cheiro fermentado das ruas e o odor  adstringente das lojas; saboreio a doçura da chuva e o defumado dos canos de descarga; sofro na pele o calor inclemente das tardes cariocas, suo, mas, apesar do incômodo, não assim acho tão ruim.  Sentir o que nos cerca é estar vivo e, por pior que seja a dor, ela é preferível ao embotamento ao qual nos submetemos por tanto tempo.

Enfim despertos, como viciados, recém saídos do fundo do poço, caminhamos pelas ruas vazias das cidades natais que não mais reconhecemos, para mastigar um pão estranho, lembrando que esquecemos como era o seu gosto. O gosto é bom? Ruim? Não sabemos dizer, mas, ao contrário de toda a virtualidade no qual nos escondemos por tão tempo, ele, pelo menos, é; ele, pelo menos, é.

[oei#42] Do embaraço injustificado da autopublicação à consciente e orgulhosa copublicação


É realmente estranho que a autopublicação tenha uma fama tão ruim, afinal, qual obra não tem um pouco dela? Excetuando-se as obras contratadas diretamente pelas editoras, qualquer texto submetido para publicação é um esforço inicial e individual de uma autora. Obcecada por uma visão que não lhe sai da mente, ou pelo “dever” de expor ao mundo uma realidade, mesmo que escondida numa ficção, essa autora dá início a esse processo de tornar públicas suas ideias e suas histórias a partir de um esforço e risco próprios.

Óbvio que no seu caminho para chegar ao público leitor, principal objetivo do processo de publicação, vários outros participantes entrarão nessa aventura, compartilhando riscos e agregando valor às etapas de desenvolvimento e ao produto final. Porém, a ideia corrente sobre esse processo é bem diferente.

Pela mitologia editorial do século XX, que ainda conta com uma legião de fiéis, uma pessoa iluminada surge do nada, levando uma obra à editora que, servindo como uma espécie de Gatekeeper, ao mesmo tempo avalia e concede qualidade a ela e à sua autora. Essa benção mezzo mística, mezzo capitalista, espera-se, irá garantir ou, pelo menos, aumentar as chances do seu sucesso financeiro e comercial. Essa fantasia pode até parecer inocente, mas acabou gerando exageros nas expectativas tanto do público quanto dos criadores.

O primeiro exagero é considerar que a obra só se justifica apenas quando “avalizada” por uma terceira instância, o que tornaria a autopublicação um atalho, ou, pior, uma anomalia. Claro que a editora pode conceder à obra e ao autor o capital simbólico que os tornará mais valiosos comercial e/ou criticamente. Porém isso não dá valor intrínseco à obra nem define uma superioridade do autor.

O segundo, derivado do primeiro, é que essa pretensa quantificação desse esforço e da qualidade do texto pelo volume de vendas ou pelo valor investido por uma editora é só o que basta pra conceder qualidade à obra. A obra não tem, ou, pelo menos, não deveria ter, apenas objetivos comerciais. A obra precisa, sim, como um investimento, retornar, com lucro, se possível, os valores despendidos para a sua realização, sejam eles monetários, emocionais e mentais, mas é necessário estabelecer outros objetivos que identifiquem seus reais critérios de sucesso.

Até o Snoopy é vítima dessa fantasia sobre o funcionamento do mercado editorial

Nesse ponto é impossível dissociar qualquer processo de levar uma obra ao público do processo de autopublicação. Por mais que uma editora possa ter em suas planilhas as expectativas de lucro a serem alcançadas, cabe ao autor nesse trabalho com a editora, ou com aqueles que arregimentou para essa empreitada, definir o que espera do encontro do público com suas palavras: esse, sim, o verdadeiro momento em que mediremos se a obra cumpriu o propósito para o qual ela nasceu. A definição, mesmo compartilhada, dos seus objetivos torna toda publicação uma autopublicação. A participação de editoras, de autopublicação ou não, distribuidoras, pontos de venda, designers, revisores, e todos os demais envolvidos nesse processo de desenvolvimento é essencial para que, para além do texto, a obra consiga se tornar o produto que irá atingir o seu propósito.

A determinação do percentual do trabalho realizado pelo autor talvez possa dar uma medida de quanto ela é uma autopublicação pura. Porém, ela nunca deixará de ser ao menos um pouco auto e, pelo envolvimento de tantas instâncias, e ,principalmente, de seu principal interlocutor, o leitor, a obra nunca deixará de ser também uma copublicação.

Em vez de ser tratada como uma longa linha fabril onde os riscos, sim, se diluem, mas junto com eles se vão os propósitos e engajamentos, toda publicação precisa ser encarada também como uma colaboração onde cada participante acrescenta novos valores e sentidos para o que nunca poderia existir sem os desejos individuais da autopublicação e a força do sentimento de coletividade da copublicação. Assim como criar uma criança, publicar um livro requer um vilarejo, ou quiçá, uma cidade, um país, ou, mesmo, um mundo inteiro, tanto de profissionais do livro como dos leitores para quem ele foi criado.

Under Pressure

Como eu estava dizendo, é impossível escapar, mas também é impossível não resistir. Sim, a pressão é contínua e vem por todos os lados, mas fingir que não a vê ou não tomar partido em nada ajuda. É preciso reconhecer que ela existe, e, melhor, até entender do que ela é feita. Mas não tenhamos ilusões, conhecer o que nos antagoniza, apesar de nos permitir resistir, por um tempo pelo menos, nunca resolverá os problemas que a pressão gera e que são, por ela, gerados. Sim, é impossível escapar, mas também é impossível não lutar. E, antes de nos congratular, lembremos: reconhecer, entender, e resistir a pressão, sem expectativas de vitória, não é heroísmo, mas, simplesmente viver. Enfim, o que há mais no viver do que resistir àquilo que não conseguimos evitar? Mas eu já falei isso, não? Como eu estava dizendo…

A equação de feliz ano novo (de novo)

O carnaval acabou (ou quase) e surge (novamente) a promessa de que o ano vai (enfim) começar. Será que (dessa vez) vai rolar? A primeira tentativa (frustrada?) foi no Réveillon, agora surge a (nova?) esperança pós Carnaval; mas, para alguns (ou muitos), só depois das eleições é que saberemos se teremos ano novo (de novo) de verdade. E olha que nem estou contando com os marcos pessoais (e intransferíveis) de cada um de nós, pelos quais esperamos (ansiosa ou temerosamente?), mas que parecem nunca chegar (ou sequer existir).

Afinal, o que esperamos dessas (múltiplas) viradas de ano? Quando finalmente iremos estar satisfeitos com o início (ou o fim) de um ano?  Como viciados à espera de redenção (ou de um definitivo fundo do poço), aguardamos por uma virada completa de 180° (e não uma das fakes e usuais de 360° ). Algo que simbolize que o passado se foi (afinal) e que o futuro pode (pelo amor de Deus) começar.

O fato é que nada muda se nada muda (ou se não mudarmos). Então, pode escolher o dia (Réveillon, Ano Novo Chinês, Quarta de cinzas, Eclipse, Ano Novo Astrológico, Eleição Presidencial, ou Rex Manning Day). Qualquer data é válida para começarmos tudo de novo com (apenas?) uma certeza: vamos continuar abertos aprendendo (e mudando), pois essa virada definitiva (sério, que acreditamos nisso?), na boa, nunca vai rolar (ou quem sabe rola todos os dias e só não aproveitamos (ou percebemos que ela rolou (de novo))).

Então, para comemorar esse (mais novo) ano novo (de novo), deixo vocês com Tessa Violet explicando (de novo) por que (se nos permitimos aprender e errar)  tudo é novo (de novo). Feliz ano novo (vocês entenderam (não? (então, deixa que eu explico (de novo)))).

 

 

Por quem uivam os ventos com aspas

Pra começo de conversa, aviso: tentei ler O Morro dos Ventos Uivantes na adolescência, mas não avancei. Como quase todos os romances góticos, ele me causou uma estranheza peculiar. Explico, sempre me incomodo ao acompanhar histórias em que as personagens são afligidas por emoções potentes demais. Sejam elas amor, ódio, amizade, fascinação, luxúria ou mesmo apatia. Engraçado que não me incomodo com isso na poesia, onde o momento é mais fugidio e sempre dá a impressão de ter acabado de passar; mas na prosa… sei lá, sempre me parece que o fio de pensamento corrente da prosa pede uma reflexão que inviabilizaria essa comoção emocional toda. Pelo menos em histórias longas.

Heath e Cat, acho que vocês tão levando esse namorico a sério demais…

Esclarecido o meu lugar de fala, vou te dizer, não achei essa nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes tão ruim quanto estão pintando por aí. Sim, tem uns momentos de comédia não intencional, a história não se decide entre um romance rasgado e uma discussão sobre o amor como uma forma de dominação BDSM, e cada uma das atuações parece estar numa sintonia diferente como se um comitê de diretores (ou produtores) estivesse cuidando do filme, o que, vai ver, pode ter sido verdade.

Enfim, é só uma versão, espertamente titulada com aspas, e, como tal, tem seus belos momentos idiossincráticos. O reflexo do quarto de Cathy como o seu corpo, com pintas e sanguessugas subindo pelas paredes; a cenografia exagerada e corporal, com a lareira ladeada por mãos, as cores sólidas e fortes nos momentos mais marcantes da história; e a divertida introdução dos personagens enquanto crianças, que consegue manter com muita competência o ritmo e a tensão perversa da hipocrisia desejante da sociedade inglesa.

Cathy querendo rasgar a própria carne é um bom toque quase Cronenberg da cenografia

Como versão, acho que atingiu com louvor o objetivo de toda versão: expressar o que a autora queria mostrar da própria leitura da obra. Talvez, pra variar, o problema seja novamente o público que, dividido entre o purismo impossível da fidelidade a uma obra que já é infiel de nascimento, e os bate bocas de internet sobre “a vida, o universo e tudo mais”, vive obcecado em encontrar respostas a perguntas que ninguém formulou. Minha dica? Relaxem, se agraciem com as dúvidas da vida e das artes, e, com um amplo sorriso no rosto, toda vez que virem alguém recontando uma história que fala ao seu coração, digam um sonoro “show, ok, sei lá”.

Ah, e se você não concorda comigo, beleza, a gente sempre pode curtir a versão da Kate Bush juntos. 3 minutos e 45 minutos de amor louco eu aguento sem problemas e até curto.