Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

As Helenas do Leblon versus o(s) revolucionário(s) da São Salvador

Por uma dessas coincidências quase folhetinescas, nesse domingo, eu amanheci no Leblon, exatamente no dia seguinte à morte de Manoel Carlos. E nada disso foi motivado pelo passamento do novelista mais importante do bairro. Eu estava no prolongamento ficcional de Ipanema para um compromisso marcado com antecedência: minha última aula do curso de meditação transcendental às 8 da manhã. Programa mais Helena do Leblon, impossível.

Óbvio que ao saltar na praça Antero de Quental, a minha percepção já estava completamente maculada pela perda. Assim, pelo caminho do curso, meus olhos passaram a procurar tudo o que fizesse coro ou contradissesse a obra do Maneco.

Primeira dissonância: a população de rua. Invisível nas novelas, ela acordava ostensivamente sob as marquises, na frente da saída do metrô, se espalhando pelo bairro em profusão, mas de forma discreta e recolhida. Para tentar me seduzir a tornar a realidade brutal mais próxima de uma cena deletada de Laços de Família, um homem sem teto, vestindo um tubinho vermelho colado ao corpo, se fazia de guarda de trânsito, organizando o já tumultuado cruzamento entre a Ataulfo de Paiva e a Bartolomeu Mitre. Por sorte não foi atropelado. Até quando vi.

Primeira ressonância: o silêncio quase figurativo. Era cedo, mas havia movimento pelas ruas. Bastante. Pessoas passando com compras de supermercado; pessoas indo para praia; pessoas conversando sem fazer barulho, como se fizessem figuração para uma cena que, eu sabia, estava lá, mas não conseguia precisar. Para resolver o mistério, fiz com os olhos o caminho que a cenografia, os figurinos, e a iluminação pareciam me indicar e, enfim, encontrei a cena de Maneco: um jovem casal com um carrinho de bebê tirando uma selfie com o filhote. Detalhe: os três de óculos escuros.

Durante a meditação, precisei ficar desviando das Helenas do Leblon que surgiam como pensamentos intrusivos no meio do meu mergulho pelas águas profundas do meu inconsciente. Como elas conseguiam se manter financeiramente se eram tão pouco profissionais em suas carreiras? Por que todas eram mães tão tóxicas que não percebiam como prejudicavam tanto suas filhas ao mimá-las? O que as levava a se envolver por tanto tempo com indivíduos imoralmente priápicos até aceitarem o amor das bem-aventuradas moscas mortas que se humilhavam por elas? Por que todas suas amigas eram pobres, conseguiam morar no Leblon e tinham namorados/maridos impotentes? O que lhes dava o direito de serem patroas tão racistas e por que nunca foram denunciadas por suas empregadas domésticas? Ah, e, por último, por que diabos o Maneco afirmava serem elas inspiradas por Helena de Tróia? Homero me salve!

O curso acabou, me deixando ainda com um zumbido mezzo troiano mezzo leblonense nos ouvidos. Novamente à mercê da Ataulfo de Paiva, já com o dia alto, Leblon veio com força total para cima de mim. Pessoas bem-vestidas tomando brunch em mesas nas calçadas sem serem importunadas; pessoas aparentemente cultas lendo jornais de papel ou discutindo livros cuidadosamente dispostos entre mimosas e croissants; pessoas veranis fazendo compras modestas em pequenos comércios que, com certeza, não têm como pagar o aluguel do metro quadrado mais caro do Brasil; pessoas saídas de sites de fofoca, acompanhantes, ou notícias estacionando carros, atravessando ruas, sendo banais. Sim, esse foi o retrato 3×4 que o Leblon me apresentou como identidade pós morte do seu criador: uma cena super produzida de cinema sobre banalidades sem propósito.

Sem me encaixar naquele cenário e sem saber o que fazer por ali, peguei o metrô e fui me refugiar onde eu fazia sentido como pessoa. 17 minutos e 7 estações de metrô depois, eu estava na praça São Salvador. O chorinho já começava a tocar seus primeiros acordes; as primeiras garrafas de Heineken do dia começavam a ser abertas; e os primeiros revolucionários de ar-condicionado enfrentavam um sol infernal nas mesas dos bares e nas calçadas planejando as últimas revoluções que nunca iriam acontecer.

Frente a todo esse espetáculo, que eu, de certa forma, também ajudo a ressignificar em contos e crônicas, me perguntei: quem sou eu para falar mal do Maneco e de seu bairro inventado? Não é porque eu não me sinto à vontade na barriga do seu cavalo leblonense que eu não faça parte do mesmo exército que busca resgatar Helenas ficcionais que nunca poderão ser salvas. Sim, o curso acabou, mas ainda tenho muito para meditar.

Marty McFly, mártir da Geração X

Como tantos de nós, nascidos entre 1965 e 1980, Marty, criado por conta própria, foi obrigado a viajar pelo tempo, do passado ao presente e de volta para o futuro, para resolver os problemas da sua família boomer disfuncional.

McFly family at the dinner table in Back to the Future

Quando ele achou que estava tudo resolvido, surpresa!, mais um chamado, agora para resolver os problemas de seus filhos millenials.

Back to the future part II meal

Se isso não o torna a epítome da Geração X, não sei o que melhor pode nos representar. Quando será que ele terá um tempo para poder realizar os sonhos que deixou para trás em nome dos seus antepassados e da sua descendência?

r/shittymoviedetails - a person sitting in a chair playing a guitar

 

Tecno feudalismo, i.e., o socialismo oligárquico americano do pós capitalismo

Muito curioso que, com o dinheiro obtido da venda dos recursos naturais roubados da Venezuela, Trump force o país invadido a comprar apenas produtos americanos. É um processo curioso em que se “liberta” um país de uma ditadura “socialista” para lhe impor um “livre mercado” onde você só pode vender para um cliente e comprar de apenas um produtor.

O quanto isso, me pergunto, se confunde com um socialismo sem ideais socialistas? Parece que os EUA simplesmente abraçaram as estratégias da União Soviética com os países sob a sua esfera de influência pós II Guerra Mundial, misturada com uma autocracia que beneficia os negócios dos amigos pessoais do rei, quer dizer, da família real, quer dizer, da figura patética, quer dizer, do presidente americano.

Na boa, não entendo mais como nada funciona no mundo. Enfim, a única coisa que me passa pela cabeça é gritar junto com o Sílvio Brito: Pare o mundo que eu quero descer.

Tá tudo errado, tá tudo erradoDesorientado segue o mundoEnquanto eu morro estando aqui parado
Tá tudo errado, tá tudo erradoSó quero ter você do ladoPra mandar o resto pros diabos.
Mas há de melhorar?

The (Kitchen Sink) Stuff, quer dizer, Pluribus

Confesso, não assisti à primeira temporada até o final, mas já no sexto episódio estou cansando. O excesso de exposição e o “mistério”, que parece uma colcha de retalhos de outros filmes (e.g.The Stuff, Soylent Green, The Quiet Earth, West World, M.I.B., etc) numa sucessiva cadeia de “oh, quem diria?”, não conseguem me prender a atenção por parecerem justamente feitos só pra isso.

Oh, Carol, Charlton Heston já tinha cantado essa pedra…

A personagem principal, da qual muita gente está reclamando, não é, na minha opinião, tão odiosa assim para ser o motivo pelo qual a série não tem graça. Ela, como o livro “sério” da Carol, é só “nice”, quer dizer, “meh!”. Se a Carol fosse mesmo uma Karen, como tem sido acusada por aí, eu acho que seria muito mais interessante. E as comparações que tenho lido com Invasores de Corpos (ou Vampiros Almas)? É sério isso?  É quase como comparar 1984 com Admirável Mundo Novo. Pluribus está muito mais próximo de O Fim da Infância do Arthur C. Clarke do que  do(s) filme(s) inspirados pelo livro do Jack Finney.

Objetivamente, meu principal incômodo é que a série perde oportunidades ótimas e atualíssimas para discutir nossas resistências para aceitar (ou lutar por) um mundo melhor e o nosso hábito em instrumentalizar o hedonismo em prol da inconsciência narcisista.  Talvez se a Carol, ao contrário do que rola, lutasse para ser integrada e não conseguisse, a metáfora seria mais forte.

Além disso, não fossem os aliens (são aliens?) vilões antropófagos bem educados, a história com certeza seria bem mais intrigante e  empolgante. Mas, pelo jeito, como os aliens (vem cá, são aliens mesmo? eu disse que não vi até o fim) , o Vince Gilligan não só quer agradar todo mundo como adora ficar explicando as coisas o tempo inteiro.

Sorry, Vince, nessa você me perdeu…

A ressurgência do sucesso mineiro

Quando eu ainda estava envolvido no mercado de RPG, sempre me espantava com as inclinações regionais dos criadores e empresas.  No Rio sempre me parecia que o pessoal buscava investir em alguma criação que chamasse atenção pelo seu capital cultural e possibilitasse retorno financeiro por editais ou na forma de status. Já em São Paulo, o que parecia pesar mais era o capital econômico e a orientação do público. Pra onde o vento soprasse mais forte, com muita eficiência e velocidade, o pessoal conseguia produzir material que atendesse às expectativas ou desejos mais pontuais, e, às vezes, efêmeros, da massa de consumidores. Mas em Minas o lance era diferente. Em Minas toda vez que eu conversava com os criadores sobre suas expectativas de retorno sobre o investimento (financeiro, de tempo e emocional) envolvido nas suas criações, a resposta que normalmente recebia era: “ah, véio, fizemos isso pois é muito doido”.

Quando vejo pra onde o mercado editorial (do qual o RPG também faz parte) se move com a IA, me pergunto se não estamos chegando num ponto de inflexão em que a maximização dos resultados se torne impossível pela pasteurização dos outputs das máquinas baseados em dados gerados pelos próprios algoritmos que os criam.

Será realmente lindo quando pudermos abraçar essa “doideira” mineira como a verdadeira forma de sucesso. Um sucesso que todos podem fazer, pois, mesmo que sejamos todos doidos, seremos sempre doidos às nossas próprias maneiras.

Mergulha!

O que o Rock nos deu e o Punk Rock popularizou, em contraposição aos megashows em arenas onde a divisão entre artistas e plateia é clara e intransponível, foi o stage diving. Um momento de pura vulnerabilidade em que a estrela se coloca na mão do seu público. Será ela amparada? Ou acabará estatelada no chão?

Ao contrário do que possa parecer isso nada tem a ver com vaidade, mas, sim, com a confiança de fazer parte de uma tribo que vai estar ali pra te socorrer. Não admira que o próprio público também se sinta à vontade de subir ao palco para se atirar sobre seus iguais. Afinal, plateia, músicos, palco, audiência, somos todos iguais; o que nos difere é apenas o papel que desempenhamos no momento.

 

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“Keep your hands up and keep your phones down! If you don’t catch me, I will fucking die!”

Superman tinha razão: solidariedade e confiança são o verdadeiro punk rock!