Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

[oei#27] O assustador risco do livro enquanto um ativo cultural e financeiro das editoras

Um livro pode ser muitas coisas. Quanto ao seu formato, ele pode ser físico, em áudio, ou digital. Em relação ao seu objetivo, ele pode ser uma fonte de informação, uma ferramenta de aprendizado, um parceiro de diálogo e reflexão, ou uma porta para uma outra realidade, que nos promete diversão ou entretenimento. Se considerarmos o seu papel dentro do mercado editorial ele pode ser um projeto, um produto de um projeto, ou mesmo um investimento dentro de um catálogo, com o qual buscamos atingir resultados financeiros, artísticos, culturais ou sociais. Mas, em todas essas suas encarnações e pluralidades, uma coisa todos os livros serão: arriscados.

O livro, seja como produto, como projeto, ou como investimento, é arriscado. Ele é uma ideia que, ao ser planejada, executada, e distribuída ao seu público, por toda uma complexa cadeia de valor, toma concretude, mesmo quando digital, e corre diversos riscos que podem impedi-lo, ou não, de atingir os objetivos aos quais ele se propõe em sua concepção. Ser arriscado não quer dizer que ele é mais afeito ao fracasso ou ao sucesso, mas que há pouca certeza quanto aos eventos que irão ocorrer ao seu redor que poderão impactar positiva ou negativamente os seus resultados. E, dadas as informações do mercado, ele não é só sujeito a muitos riscos, ele é arriscadíssimo.

Quando olhamos para as pesquisas sobre o mercado editorial, tanto no Brasil como no exterior, as notícias nunca parecem boas. Sempre temos sinais de retração, com o fechamento de pontos de vendas, concentração de resultados em poucos livros, gêneros, editoras e vendedores, e, inclusive, dados, nem sempre confiáveis, que indicam que a grande maioria dos títulos não consegue passar a barreira de mil volumes vendidos. Isso faz com que o faturamento das editoras se concentre em alguns títulos de destaque e no retorno contínuo de alguns livros de catálogo que financiam toda uma operação que aparenta sempre estar só um pouco acima do que a constituiria como um investimento de retorno baixo demais para valer a pena. Tudo isso constitui o livro como um investimento arriscado, tanto nos critérios “artísticos” ou culturais, quanto nos financeiros e econômicos. Assim, viveríamos, como bem colocado por Ênio Silveira, fundador da editora Civilização Brasileira, entre o feijão e o sonho:

O editor, que se preze como tal, vive sempre oscilando entre dois polos, bem caracterizados pelo livro de Orígenes Lessa, O Feijão e o Sonho. Se ele se dedica só ao feijão, ele não é bom editor. E se ele se dedica só ao sonho, ele quebra a cara muito rapidamente, numa sociedade capitalista ele está fadado ao insucesso. O contraponto feijão/sonho é que dá a justa medida da qualidade de um editor – (da Coleção Editando o editor, n.3)

Porém, mesmo com esses flagrantes riscos envolvidos na nossa atividade, quando vamos nos debruçar sobre como os livros, enquanto projetos ou produtos, são geridos, ou mesmo sobre o retorno do investimento realizado por todos os integrantes dessa cadeia de valor, os dados disponíveis são poucos, pouco claros, pouco conclusivos, e, em alguns casos, completamente inexistentes.

Se o mercado do livro é um mercado tão arriscado por que razão não temos estratégias ou ferramentas específicas para lidar com esses riscos? Será que o livro enquanto uma “não-commodity” impede que tenhamos estratégias genéricas ou comuns que se apliquem a todos os lançamentos ou produtos de catálogo? Ou será que o baixo retorno esperado do livro enquanto investimento não compensa o gasto com estratégias mais robustas de gestão de risco que, além de poderem ter pouco impacto, irão encarecer ainda mais o produto final?

Mesmo que o mercado editorial se apresente como uma indústria de baixo retorno sobre o investimento, sempre vítima de um conflito entre o atingimento dos seus nobres objetivos de promoção cultural e intelectual, e sua sustentabilidade financeira, a importância do livro como símbolo e ponto central do nosso processo civilizatório pede insistentemente que a gestão dos seus riscos seja aprimorada a fim de aumentar as possibilidades de sucesso dos seus empreendimentos individuais e do próprio setor como um todo.

Para começar a endereçar esse dilema, é preciso estabelecer uma conversa com os diversos setores envolvidos com o livro, para buscar entender como os seus riscos, enquanto produto, projeto e investimento, são considerados, gerenciados, mitigados, eliminados, absorvidos e remediados no processo de gestão editorial. Só a partir do entendimento do conceito de risco para aqueles que fazem do livro a nossa profissão, poderemos encontrar, através de uma adequada gestão dos riscos, o equilíbrio entre o capital simbólico e financeiro do livro, e permitir que de alguma forma possamos fazer as pazes entre o feijão e o sonho que alimentam e sustentam o nosso propósito de vida.

[oei#26] O falso conflito entre leitura e escuta nos inescapáveis livros de som

Leia essa frase: No Princípio era o texto.

Ouça essa frase:

 

Quando vejo booktubers ou booktokers discutindo os méritos de considerar a audição de audiobooks como leitura por simples questões de contabilidade, sempre me pego lembrando: no princípio era o texto. Mas no princípio, esse texto, para o futuro leitor, e mesmo também para o autor que o concebeu era fala. Uma fala, muitas vezes, interna e íntima, mas uma fala.

E é essa fala que a escrita reproduz na história humana e na história pessoal de todos nós leitores. Não é à toa que o primeiro contato de todo o leitor, atual e futuro, com o texto é, ou foi, através da voz de outro. O texto então nos surge através da história contada pelos pais, pelas professoras, ou, hoje, pelas ferramentas online que distribuem vozes digitais, reais ou artificiais, transportando histórias dos mais distantes rincões do mundo até os computadores de mão que carregamos em nossos bolsos.

Essa fala, essa história, pode até ser contada na tradicional transmissão oral da cultura, mas quando ela é feita a partir do livro, é ali que o futuro leitor percebe que aquele objeto, físico ou digital, carrega, escondido nos sinais gráficos que representam palavras, um som. Um som estável e permanente, que se repete independendo de quem as lê. É nessa vocalização do texto que descobrimos a permanência da leitura.

Assim, após a aquisição da habilidade de decodificar as letras e as palavras, o leitor se torna, ele mesmo, o narrador do texto que se coloca à sua frente. Então a sua voz se sobrepõe à voz dos pais, dos professores, e dos mediadores de leitura. Ler, óbvio, é um dos primeiros sinais de independência do indivíduo, lhe permitindo ter discussões internas sobre as ideias dos outros, e lhe ensinando a processar a experiência alheia através da sua própria voz.

Por isso, a discussão sobre a validade do audiobook como leitura sempre me parece vã. O audiobook não é novo. Desde a possibilidade de registro sonoro, já esteve em todas as suas formas de reprodução, do vinil, passando pelo cassete e pelo CD, até o inescapável formato digital.

Mas tendemos a esquecer que o livro, que como uma forma de reprodução gráfica de massa também tem pouco tempo, foi concebido como uma forma de transmitir a voz de oradores, de poetas, de dramaturgos, de contadores de história. Enfim, o primeiro audiobook, o primeiro livro de som, foi o escrito.

Seja ele gráfico ou em áudio, o livro estará sempre cumprindo a sua missão de transmitir a fala do outro para as nossas mentes, da forma que for mais adequada ou conveniente às condições que tenhamos para participar dessa conversa, e de acordo com as nossas preferências de leitura ou audição. Pois o livro sempre será uma interface com a fala do outro com quem queremos nos relacionar. E a fala é a origem e o final de toda essa relação.

Leia essa frase: No Princípio era a fala.
Ouça essa frase:

Recordações do Futuro

Quando chegar nas Barcas, ela responderá aos insistentes pedidos dos amigos para sair na primeira noite do feriadão com um enfado ensaiado: “Esse FDS não dá, gente. Vou ter que visitar os meus pais. Mas devo voltar logo. Affff. :-/”.

Passará pela catraca como se nunca tivesse deixado de morar na ilha, e cumprirá o seu ritual alimentar pré-embarque: um misto quente gorduroso e uma coca normal.

A Barca chegará, ela aguardará as prioridades embarcarem e irá para o lado esquerdo do segundo andar para acompanhar a vista do Rio enquanto se movimenta pela Baía de Guanabara.

Quando a Barca passar por debaixo da Ponte, instintivamente tirará uma foto e postará nas suas redes sociais, com a mensagem: “Partiu Ilha”. Esse aviso servirá tanto aos amigos para não procurá-la, como aos pais para irem buscá-la.

A viagem será, como sempre tranquila, mas ela, como sempre, contará, como carneirinhos, a quantidade de coletes salva vidas visíveis.

Quando a Ilha estiver à vista, os visitantes de primeira viagem, pouco acostumados com suas belezas, irão para as janelas apreciar a mini torre da Mesbla, a praia da Imbuca, o Iate Clube, ansiosos por pisar logo em suas terras. Ela, também ansiosa, resistirá à tentação de agir exatamente como os visitantes.

A Barca atracará e ela já poderá ver os pais acenando da praça. Com um enfado ensaiado, ela suspirará alto para que os que a cercam na Barca ouçam seu falso desagrado.

Assim que sair da Estação, ela será beijada, abraçada, e soterrada de perguntas dos pais:

— Como está? E os estudos? E o trabalho? E a casa nova? E os amigos? E o amor?

Fazendo sua melhor imitação de si mesma adolescente, ela vai responder:

— Tudo bem. Normal. Legal. OK. Bem. Ai, que brega, vocês…

Pra não perder a tradição, mais uma surpresa. Em vez de pegarem um Tuc Tuc para chegar na casa dos pais, o pai mostrará, todo orgulhoso, o Tuc Tuc que comprou para circular por conta própria na ilha. Ela revirará os olhos e suspirará num discreto exagero:

— Vocês têm cada uma…

Ela sentará com a mãe na parte de trás e o pai as conduzirá pela orla. Pra aproveitar esse primeiro passeio, não irão direto para casa, mas passarão por todas as praias. Pela Imbuca, pela Coqueiros, pela Moreninha, e pararão na praia José Bonifácio para comer um pastel e tomar um mate. Quando retomarem o trajeto e passarem na pedra dos namorados, a mãe irá cutucá-la.

— Ai, mãe, me deixa.

Chegarão na casa sempre em construção. Aberto o portão, os gatos, velhos amigos, a reconhecerão e esfregarão seu cheiro em suas pernas. Isso a fará sorrir. Um pouco, mas o suficiente para que os pais notem.

A mãe arrumará suas coisas no quarto e irá mostrar todas as novidades que fizeram na casa desde que ela veio da última vez: o chuveirão perto da piscina, a sala de TV do lado da biblioteca, e uma extensão do galinheiro que os gatos adoram invadir. Os pais, surpresos com o tanto que construíram e sem o menor sinal de soberba, só dirão:

— Caramba, você tem que vir aqui mais vezes…

Ela concordará, mas não dirá nada pra não dar o braço a torcer.

O pai servirá seu famoso chili, contará velhas histórias que fazem todos rirem e chorarem, e eles comerão até se fartar. Depois do jantar, observando as estrelas se moverem preguiçosamente, eles ficarão conversando no quintal sobre tudo o que ela disse que não queria falar a respeito: sobre como ela está, sobre o estudo, sobre o trabalho, sobre os amigos e até sobre os amores. Enfim, sem perceber, ela dormirá encostada no ombro da mãe, como fazia quando criança. O pai, apesar das costas, da idade, do joelho, das articulações, e de tudo mais que poderia impedi-lo, a levará no colo até a cama. Ela fingirá dormir por todo o trajeto.

A mãe a cobrirá, lhe dará um beijo na testa, e fechará a porta.

Quando perceber que está realmente sozinha, ela pegará o celular e mandará, sorrindo, mais uma mensagem de enfado ensaiado aos amigos: “Pô, gente, o lance aqui pegou. Acho que vou ficar o feriadão inteiro nos meus pais. Que saco. Aff. :-/”

As inaugurações de Paquetá

A primeira vez em que verti sangue em Paquetá foi no parque Darke. Caminhando depois de ter desenhado o caminho sombreado pelas árvores, uma pequena ponta, de vidro, metal, ou pedra, não pude identificar, atravessou o chinelo fino e furou minha pele. Caminhei mancando até a farmácia onde limpei o pé com água mineral, apliquei Merthiolate e protegi a ferida com um band-aid.

A primeira vez em que passei o ano novo em Paquetá foi na virada de 24/25. Uma noite sem grandes atrações, apesar do divertido show da Roda de Santa Rita, que terminei sem fogos e com a clareza que a passagem de ano, como a de qualquer dia, é um ritual artificial.

A primeira vez em que dormi em Paquetá foi para participar das festas do dia de São Roque. Fazia décadas que não ia à ilha. Levei uma cópia de A Moreninha que li na rede enquanto as pessoas sambavam nas ruas de terra homenageando um santo do qual nada sabiam.

A primeira vez em que as charretes elétricas começaram a circular em Paquetá foi em 2016. Preocupados com o bem estar e com os custos de manutenção dos cavalos que puxavam as clássicas charretes da ilha, a sua utilização foi proibida depois de um longo processo de acordo entre OAB-RJ, Prefeitura e os Charreteiros. Na época foi um choque, mas hoje ninguém se lembra mais daquela época.

A primeira vez em que fui à Paquetá foi aos meus seis anos de idade. Passeei pelos pontos turísticos usuais e, mesmo sem ter a menor perspectiva de ter um amor ou uma namorada sequer, joguei uma pedrinha que ficou estática sobre a pedra dos Namorados. Fora isso a única coisa que me marcou foi o mar sujo e lodoso.

A primeira vez em que Paquetá foi tratado como um bairro da cidade do Rio foi logo após a fusão entre o estado do Rio e o estado da Guanabara. Apesar de ter transitado longamente entre os dois estados em diversos momentos de sua existência, Paquetá ainda continua como um lugar a parte, nem cá, nem lá, com uma lógica única.

A primeira vez em que Paquetá foi iluminada por luz elétrica foi na década de 1920, com cabos da Light & Power vindos de Bonsucesso.

A primeira vez em que Paquetá teve um sistema de coleta e tratamento de esgotos foi em 1912, o que foi uma implementação pioneira em todo o país, seguindo-se à inauguração do sistema de captação de águas do Alto Suruí, em Magé, vindo por dutos submarinos até Paquetá em 1908. Ele substituiu o uso de poços, já que os antigos moradores não dispunham de fontes naturais de água.

A primeira vez em que Paquetá insurgiu contra a República foi na Revolta da Armada em 1893. Durante esse período a ilha foi usada como base de operações dos revoltosos, e foi isolada do Rio de Janeiro por seis meses, o que afastou muitas famílias da localidade. No fim da Revolta muitos moradores foram punidos, acusados de colaborar com os revoltosos.

A primeira vez em que Paquetá foi usada como cenário de um livro foi no lançamento de A Moreninha em 1844. Apesar de não ser explicitamente citada, as descrições dos locais onde se passa a trama coincidem com as paisagens da ilha, permitindo a associação.

A primeira vez em que Paquetá teve um serviço regular de Barcas foi em 1838, o que permitiu a sua popularização como destino de férias e veraneio.

A primeira vez em que Paquetá foi usada como exílio foi quando José Bonifácio, que nomeia uma de suas maiores praias, foi morar em prisão domiciliar na Ilha por motivos políticos após abandonar a corte em 1829.

A primeira vez em que Paquetá foi palco de uma guerra foi durante o embate entre portugueses e franceses que culminou com a fundação da cidade do Rio de Janeiro em 1565. A ilha foi um dos mais importantes focos da resistência França Antártica à expedição de Estácio de Sá.

A primeira vez em que Paquetá foi vista pelos europeus foi na formação da França Antártica em 1555, quando provavelmente recebeu o seu nome que dizem deriva da grande quantidade de pacas na ilha.

A primeira vez em que o que viria a se chamar de Paquetá foi habitada pelos Tamoios se perdeu nos registros das tribos que formavam esse conjunto de povos e foram exterminadas pelos colonizadores e invasores.

A primeira vez em Pacas caminharam sobre Paquetá deveria ser objeto de lendas.

A primeira vez em que a ilha surgiu como formação geográfica provavelmente no período Cenozoico quando a Baía de Guanabara se formou a partir de uma depressão tectônica entre a Serra dos Órgãos e diversos maciços costeiros.

A primeira vez de todas as primeiras vezes de Paquetá sempre será considerada a primeira vez de algo que nunca aconteceu, mas que, futuramente, pode acontecer. Quem pode dizer o contrário? Eu? Você? Melhor, pela primeira vez, deixar pra lá.

Notas (de rodapé) sobre Paquetá

Paquetá é uma encantadora1 ilha localizada no coração2 da Baía de Guanabara, a aproximadamente 15 quilômetros do centro do Rio de Janeiro. Seu acesso é feito por barcas que partem em horários regulares3 da Estação Praça XV, proporcionando aos visitantes uma travessia tranquila e cênica até esse refúgio singular.

Originalmente habitada pelos indígenas Tamoios, a ilha foi ocupada por colonizadores portugueses4 a partir de 1555. Durante os períodos Colonial e do Império, Paquetá foi um importante ponto de veraneio para a elite carioca e figura constante na história do Brasil, abrigando personalidades como D. João VI e José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que chegou a residir na ilha5.

Um dos grandes orgulhos de Paquetá é seu papel na literatura brasileira: a ilha é cenário do primeiro romance do romantismo nacional, A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo6. Inspirados pela obra, diversos pontos turísticos homenageiam o livro, como o Mirante da Moreninha, a Pedra da Moreninha e a Praia da Moreninha, além de construções históricas que remontam à época retratada na narrativa7.

A partir do século XX, Paquetá consolidou-se como destino de férias e fins de semana para os cariocas em busca de uma atmosfera serena, quase atemporal. Suas ruas de terra batida8, sua arborização exuberante e seu ritmo tranquilo9 remetem a um passado preservado.

Um dos maiores encantos da ilha é o fato de que, até hoje, não se permitem carros particulares10. Antigamente, o transporte era feito por charretes puxadas por cavalos. Atualmente, com o objetivo de preservar o bem-estar animal, os cavalos foram substituídos por charretes elétricas, triciclos e pequenos veículos sustentáveis, apelidados carinhosamente de “tuc-tucs”11.

Embora mantenha seu espírito nostálgico12, Paquetá tem atraído novos moradores — jovens, artistas e profissionais em busca de qualidade de vida e contato com a natureza, sem abrir mão da proximidade com a capital fluminense. A recente melhoria da balneabilidade de suas praias13, aliada ao florescimento cultural representado por eventos locais e blocos de carnaval como O Boto Marinho e A Pérola da Guanabara, tem despertado crescente interesse na ilha.

Esse novo ciclo, no entanto, levanta debates sobre o futuro de Paquetá. O aumento do turismo e da procura por imóveis pode levar a um processo de gentrificação14 que transforme suas características essenciais. Por isso, visitar Paquetá é também um convite à valorização e à preservação de um lugar onde o tempo parece passar mais devagar e a história caminha ao lado do presente15.

A falta que faz uma livraria em Paquetá

Pra mim era inacreditável que Paquetá, berço do Romance Brasileiro, não tivesse uma livraria sequer. Nem uma banca de jornal, ou, ao menos, um display na estação das Barcas vendendo edições de A Moreninha, tinha.

Quando externei esse espanto ao dono da pousada, ele me corrigiu:

— Paquetá não tem livraria, mas tem uma livreira.

Antes que eu pedisse, ele explicou:

— Parece que ela já teve loja há muito tempo e vende os livros direto da sua casa. Não é bem uma livraria, mas ela é uma livreira. Entendeu?

Entendi. Pedi o endereço. O dono da pousada disse que achava que ela morava perto do Clube Municipal mais ou menos na altura da Biblioteca Pública, mas não tinha certeza. Como acontece em todos esses casos, me sugeriu procurar na Internet.

Não tinha uma página, nem a informação da existência de uma loja de livros em Paquetá, afinal, não era uma livraria que eu procurava, mas uma livreira. Por sorte, no Estante Virtual havia um perfil com poucos livros e, a partir dele, eu, no aplicativo de mapas, achei uma referência exatamente na altura indicada pelo dono da pousada.

Pedi sua bicicleta emprestada e parti em direção à loja, quer dizer, à livreira. Mesmo com o mapa, me perdi, e fui obrigado a atravessar o parque onde se encontra a Pedra da Moreninha, o que considerei um bom agouro.

Quando avistei o Clube Municipal, tive certeza que em breve chegaria ao meu destino. Estava enganado. O número do mapa não existia e eu não consegui identificar dentre as casas fechadas qual delas seria a casa da livreira.

Pra não perder a viagem, resolvi bater palmas na frente da única casa que vi ter uma estante com livros. Em vão. Ninguém me atendeu. Não desisti e continuei. Acabei chamando a atenção de um vizinho que me atendeu do seu muro.

— Tá procurando quem?

— A livraria, quer dizer, a livreira. Me disseram que ela vive aqui.

— Você tá falando da Myrian?

— É- fingi que a conhecia.- Sabe que horas ela abre a loja?

— Sei não. Eu sei que ela tem um bando de livros, mas, pra dizer a verdade, nem sabia que era livraria.

— Não é livraria, mas ela é livreira- tentei explicar e acabei complicando.

— Seja como for, amigo, deu azar ela tá viajando e não sei quando ela volta.

*

Voltei à Paquetá alguns meses depois, e ainda estava com a ideia da livraria na cabeça. Dessa vez, fiz meu dever de casa e percebi que algumas coisas tinham mudado. Ela não era só mais uma livreira. Constava uma loja num outro endereço, agora mais perto das barcas, mas não havia outra forma de contato que não pintar lá.

Deixei passar uns dias e apareci na frente da casa. Mais uma vez fechada e sem campainha. A diferença é que dessa vez não havia livros à vista, mas, em compensação, tinha uma grande quantidade de animais de estimação de todos os tipos no jardim que dava pra ver através das grades do muro.

Sem muita esperança bati palmas até cansar, pois, abafadas pelos latidos e miados dos animais de estimação, não houve vizinho para escutar eu aplaudir novamente uma casa vazia.

*

Quando retornei à Paquetá pro ano novo, na internet, além do endereço – ele continuava o mesmo-, já tinha um telefone com, pasmem, whatsapp. Pra não dar sorte ao azar, assim que cheguei à ilha já mandei mensagem:

<Opa, bom dia, estava querendo conhecer a livraria. Vão estar abertos no fim de ano?>

Depois de um dia, nem duplo tique tinha. A mensagem tinha sido enviada, mas não tinha sido recebida.

Passei novamente na porta do sebo, mas fiquei com vergonha, ou cansaço de novamente aplaudir a minha persistência em conhecer uma livraria. Afinal, essa era uma relação que estava tendo unilateralmente com alguém que eu nem sabia se existia, e, se existisse, nem sabia da minha existência.

O ano virou, e precisei voltar ao continente. Na Barca de volta, enfim, a resposta:

<Oi, desculpa a demora, meu celular quebrou. Ainda está na ilha?>

Não, não estava, mas ia voltar.

*

Quando voltei uns 3 meses depois, já estava trocando mensagens com a Myrian há um tempo. Ela até mencionou achar que era curiosa essa confusão entre livreira e livraria, e contou que, quando o José Bonifácio foi exilado em Paquetá, sua biblioteca foi chamada de livraria, não por ser um comércio, mas por ser uma grande quantidade de livros: uma livra-ria.

A pressa e a ansiedade de conhecer a loja estavam, por assim dizer, controladas. Assim deu pra chegar com calma, e uns dois dias de pouso na ilha, depois de um almoço no azulzinho, fui, enfim, visitar a livraria e a livreira.

A casa continuava na mesma rua, mas tinha mudado pro outro lado. A mesma numeração era compartilhada por três casas diferente, mas a dela, a Myrian informou, era a azul.

Parei na frente do portão de ferro e os cachorros vieram logo me receber. Nem precisei tocar a campainha, ou bater palmas. Alertada pelos latidos, Myrian apareceu na porta da casa e a abriu:

— Enfim…

— Enfim.

Entrei.