Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

À espera de um milagre

As maiores tragédias dos nossos tempos não são as guerras, não são as ditaduras, não é a violência enraizada nas nossas relações formais e informais: é a falta de sensação de pertencimento. Essa impossibilidade de olhar para o outro e saber como ser generoso e receber a sua generosidade é o que causa todos esses males. Em vez de terminar com as guerras com mais violência ou reagir com igual vilania às atrocidades que nos submetem, deveríamos reforçar as nossas relações mais próximas, criando uma rede de apoio que sufoque todo esse ódio, e o medo que o alimenta, para, enfim, tornar a humanidade, de fato, uma comunidade. Quando esse dia chegar, como Kevin Kelly bem nos lembra, estaremos prontos a aceitar os milagres que todos merecemos receber.

Mas, confesso, é muito difícil manter essa fé quando as bombas da ignorância e da ganância explodem ao nosso redor. A cada estrondo, a cada mentira, a cada último suspiro dado por um inocente pego no fogo cruzado desses narcisistas amedrontados, a pergunta ecoa nas nossas mentes: quando (e se) nos emendaremos?  Será que um dia teremos a coragem de abandonar o medo e caminhar a estrada não trilhada?

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

As lições cinematográficas não esperadas das madrugadas

Há muito tempo, quando não tínhamos um mundo de opções de distrações opiáceas para entorpecer nossas cognições e nossos sentidos, era preciso aceitar a fricção estética dos filmes ruins das madrugadas. Restritos a meia dúzia de canais que precisavam despejar os longas-metragens de qualidade duvidosa que as estações de TV precisaram comprar para adquirir os direitos de exibir os blockbusters que realmente traziam público e anunciantes, nós passávamos por uma educação cinematográfica forçada, aprendendo o que não prestava e tentando dar sentido e afeto ao que não tinha senso.

Que escola foram os filmes B da Hammer

Mas quem disse que isso era ruim? Ninguém se tornou um gênio sob uma dieta exclusiva de clássicos, Tarantino que o diga. É preciso receber doses cavalares de filmes/livros/músicas de B a Z para adquirir musculatura estética pra criar algo que preste.

Depois perguntam por que hoje em dia não se cria nada bom. Sem o gosto ruim da película ingênua, produzimos apenas gerações de imitadores em busca de um sucesso medíocre. Falta aos novos criadores, oprimidos por vergonhosas preferências irônicas, a paciência e a generosidade de saber assistir a filmes ruins. Ah, um pouco de insônia também sempre ajuda.

Morte à Comédia Romântica, Longa Vida à Comédia de Amor

Desculpa avisar, gente, mas o romantismo morreu. Sim, os aspectos de ingenuidade e paixão que ligávamos ao amor, desde os exageros mórbidos do ultrarromantismo até romances água com açúcar que caracterizaram o gênero por décadas e séculos, não passam mais pelo nosso teste de suspensão de realidade. Porém isso não quer dizer que não possamos ter excelentes obras que falem sobre o amor.

Amor e romantismo, é importante lembrar, não são sinônimos. Nós simplesmente encaixávamos tudo dentro de um mesmo gênero em prateleiras de livrarias, videolocadoras, serviços de streamings, e lojas virtuais, e passamos a acreditar que essa relação de proximidade era de identidade. Não, não é.

Por mais que o romance tradicional hoje possa parecer datado e seus tropos não façam mais sentido (afinal, quem ainda acredita, além da Glória Perez, em amor impossível ou “proibido”?), as histórias sobre amor, inclusive as comédias, continuam não só relevantes, como super atuais e necessárias.

Ontem encarei uma sessão dupla de comédias românti… quer dizer, de amor, que provam esse meu ponto.

A primeira foi a comédia espanhola Volveréis. O filme conta a história de um casal madrileno em processo de separação, saudável e amigável, eles não cansam de nos lembrar, que, seguindo uma ideia ao mesmo tempo estapafúrdia e sedutora do pai da moça, resolvem fazer uma festa de fim de relacionamento. Enquanto os preparativos da festa e os avisos de separação a amigos e familiares rolam, o quase ex casal tenta organizadamente tratar das partes práticas dos começos das suas novas vidas de solteirice. Em momento algum da história se discute a razão do fim do relacionamento, nem vemos qualquer animosidade realmente marcante entre eles. A relação parece apenas ter se esgotado. Talvez por isso, os amigos e familiares não aceitem tão bem esse fim quanto o casal aparenta aceitar, e propõem constantes questionamentos que eles evitam responder. O humor da situação vem justamente do pragmatismo do casal e da performance do fim maduro e equilibrado do relacionamento que é exacerbada pelo filme dentro do filme, estrelado pelo namorado e dirigido pela namorada que adentra a narrativa “real” do casal.

“Sim, estamos estamos nos separando, mas estamos ótimos”

O segundo foi Follamente, em português, O Primeiro Encontro, um filme italiano sobre, conseguem adivinhar?, o primeiro encontro de um possível futuro casal, num sábado à noite, durante uma final de futebol, para um jantar romântico(?) na casa da mulher. Apesar de estarem sozinhos em cena por quase todo o filme, as vozes em suas cabeças, quatro para cada um, representando diferentes aspectos de suas personalidades (o sexual; o racional; o romântico, olha quem apareceu por aqui; e o desequilibrado) discutem impelindo ou impedindo as suas ações. Além disso, em seu refúgio, o encontro também é invadido pelas vidas pregressas dos, torcemos, futuros namorados na figura de filhos e antigos relacionamentos fracassados. Apesar do protagonismo dos diálogos internos, aos poucos, a comunicação direta entre eles começa a acontecer, permitindo até que essas facetas de suas personalidades saiam de suas cabeças para falarem umas com as outras.

O diretor cercado pelas vozes das cabeças das protagonistas

Além de serem excelentes comédias muito atuais e realistas, dentro de toda a fantasia que propõem, os filmes ainda carregam uma outra similaridade: tratam o amor como um trabalho de construção. Seja no trabalho social e emocional do fim do relacionamento, como no trabalho psicológico e de autoanálise do seu início, ambos os filmes e casais explicitam que, mais do que paixões avassaladoras, os amores ou, se preferir, romances precisam de esforço, dedicação e delicadeza para funcionar ou, ao menos, existir.

Para quem já tinha achado que o amor era um fotograma fora dos cinemas, desde Como Perder um Homem em 10 Dias, a execrável comédia romântica(?) que transformou o amor num job precarizado, ver essas histórias em que se relacionar é, sim, um trabalho, mas um trabalho de amor, dá até um quentinho no coração. Quem diria que no final de 2025 poderíamos voltar a ter esperança no amor cinematográfico?

Meu desejo pra você em 2026

Que em 2026 você tenha clareza de pensamento. Afinal, como dizia o Spy vs. Spy, “Reality’s a matter of a clarity of mind”. Ou seja, não importa se as coisas vão bem ou mal, a clareza de pensamento sempre vai te ajudar a lidar melhor com a vida.

Been years gone byI’ve just abused my mindMy body’s paid the priceCome to a forkI can go up and downOr use my mouth too muchOh lord, protect my words(…)All the things I’ve saidYou know they don’t all addNow who’s a moddle head

Prospectiva 2026

Toda virada de ano (e, dependendo da minha ansiedade, de semestre) eu chamo a minha taróloga pra bater um papo sobre minhas expectativas e temores a respeito do futuro. A parte mais difícil do processo não é encarar o que (de ruim) pode acontecer, mas saber o que perguntar. Normalmente essa dificuldade vem de uma falta de honestidade comigo mesmo. Como assumir o que eu quero, não só para os outros, mas para mim mesmo?

Sim, sou desses; tenho vergonha das minhas parcas ambições. Mas esse ano fui até melhor nesse quesito e cutuquei o problema na raiz: como entrar em contato direto com os meus desejos em vez de ficar me satisfazendo com a ajuda que presto na resolução dos problemas alheios?

A resposta não foi, como esperado, algo que eu esperasse. Invés de dispender mais esforço ou me debruçar racionalmente sobre o problema, minhas formas usuais de encarar quase tudo, o recado foi: deixa rolar. Sério? Pra um sujeito como eu, acostumado a evitar a possível fadiga futura trabalhando antecipadamente, é um exercício cruel.

Confesso que relutei em aceitar. Como simplesmente mudar a chave e viver de forma livre, como o Louco do Tarot, dando voltas por aí, sem me preocupar com os precipícios que nos cercam? Óbvio que precisei de ajuda pra encontrar um caminho intermediário. Lembrei logo e resolvi reler o The Happiness Project da Gretchen Rubin, em que ela, uma control freak, como eu, entrou numa jornada de 12 meses  para ser conscientemente mais feliz. Tá, eu sei que estou burlando o tal do “deixar rolar”, mas foi o que deu para eu permitir, ordeiramente, as coisas me surpreenderem mais na vida, sem que as minhas fantasias de ruína tomem conta da minha mente.

Leitura iniciada na praia. Mais relaxada que isso impossível!

No primeiro mês, o foco é ter mais energia, tornando o caminhar uma prática, enquanto se livra dos pesos extras que carrega, pra prestar mais atenção ao que está na sua cara e você se venda pra não ver. Hoje, já senti que o lance está funcionando. De manhã, na volta de umas compras aleatórias, atravessando uma rua pela qual passo sempre em modo automático, esbarrei com um veículo impossível de ignorar no qual deveria estar fazendo essa viagem de liberdade por 2026.

Isso não é um automóvel, é um sinal divino.

Agora vem a pergunta: ele simplesmente cruzou o meu caminho ou sempre esteve lá e só consegui vê-lo agora? Tá, eu sei, é exagero, mas não custa nada dar uma moral pras surpresas que bestificam a nossa razão. É, pelo jeito, o inesperado chegou com tudo. Seja bem vindo!