Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Kaputt! A História é história, mas isso é outra história

“The feeling of the old world fading away comes from witnessing culture lose “the ability to grasp and articulate the present,” but it is not, as Fisher says, because the present no longer exists, it’s just that the present, now, is so beyond what a human mind can hold.” – Heather McCalden

A nossa pretensa onisciência, proporcionada por ferramentas cibernéticas indutoras de psicose, talvez venha a provocar um corte epistemológico forte demais para nossa História e nossas histórias sobreviverem. Agora que tudo acontece ao mesmo tempo, incluindo o passado e o futuro, ambos, futuro e passado, deixam de existir; e o presente, em vez de um tempo intermediário, separando o que fomos do que seremos, se torna um espaço de inescapável paralisia emocional, sem esperança ou segurança, onde futuros impossíveis e passados adulterados conflitam pelo controle de nossas mentes e corpos, que não só não podem resistir, mas nada farão.

Porém, por outro lado, pode ser que seja a nossa concepção de tempo esteja mudando, como causa ou consequência desse nosso presente tóxico. Já vivemos choques de futuro, d’après Alvin Toffler, desse tipo em eras, ou épocas, anteriores, nas quais, intuímos, os tempos eram percebidos de forma diferente, mas não temos como saber se estamos afogando no presente enquanto nossos pulmões se transformam em guelras, nem temos registros fidedignos ou compreensíveis do passado para confirmar nossas hipóteses.

Enquanto isso, só nos resta meditar, esperando que um dia tudo não mude, mas, pelo menos, passe a fazer sentido ou, quem sabe?, aprendamos a não nos importar. Essa, sim, é a verdadeira diferença entre ser o tempo, sentir o tempo e viver o tempo.

Ao Super, o que é o do Super; A Lex, o que é do Lex

Um dos sinais que o filme, os quadrinhos, a animação ou qualquer manifestação midiática do Homem de Aço vai ser ao menos interessante é o quanto a “maldade” de Lex é bem trabalhada pelos autores. Mais do que um conquistador tecnológico, mais do que um executivo sem escrúpulos, mais do que um tirano invejoso, Lex precisa se mostrar abjeto ao público e a seus valores, representando exatamente o oposto do que o Superman defende. Esse contraste é o que nos mostrará de que lado estamos, nos engajará emocionalmente com a obra e nos fará torcer pelo herói.

Hoje de manhã, reassistindo à versão do James Gunn, me perguntei se o novo Lex atendia a esse requisito, e infelizmente, apesar da bela interpretação do Nicholas Hoult, não posso dizer que sim. Apesar de ser um reinvenção legal,  lembrei de uma história do John Byrne que seria mil vezes mais adequada para mostrar o Lex exercitando exatamente o oposto da empatia punkrocker dessa nova versão do Super.

É uma história curta mas marcante. Dá pra vocês lerem aqui. Em resumo: Lex, num restaurante de beira de estrada, a 900 milhas de Metropolis, faz uma proposta indecente a uma garçonete (alguns anos antes da Demi Moore aceitar a sua) para que ela lhe acompanhe por um mês, largando seu marido e toda a sua vida “limitada”, em troca de 1 milhão de dólares. O  que acontece depois? Você precisa ler, mas pode ter certeza representa exatamente tudo o que os nossos valores negam.

O que ela deveria responder? Ou, melhor, o que você responderia?

A conclusão da história é tão emblemática que é impossível não admirar a falta de limites na maldade do Lex, que não precisa de um Superman para dar as caras. Pode parecer até estranho dizer isso, mas, cá entre nós, é impossível amar o Super, sem ter uma forte ligação emocional com Lex. Afinal, os dois vivem dentro de nós e é isso o que os faz funcionar tão bem. Pro bem ou pro mal, o nosso bem e o nosso mal.

Mulher Solteira, quer dizer, Casada procura Empregada

(sim, contém spoilers, mas como ninguém lê isso aqui, nem sei por que estou avisando)

Tem certas coisas que dão saudades. Uma delas é a finada sessão de pré-estreia nos sábados à meia noite no Star Ipanema. Não importava o filme, lá estava eu e uns amigos abnegados, na fila, tentando comprar ingresso para assistir antes do restante da população a histórias que nem sempre valiam a pena serem assistidas depois, mesmo na TV.

Os tempos mudaram. Há muito não existem mais pré-estreias de verdade. Os filmes têm soft openings, começando a ser exibidos antes do lançamento em diversos horários e salas de cinema diferentes. E o Star Ipanema? Nem fala nisso, que me dá gatilho, foi substituído, como muitos cinemas de rua, por uma Casa & Vídeo que nem sei se ainda permanece lá.

Um dos filmes que me lembro vivamente de ter assistido numa dessas pré-estreias foi o Mulher Solteira Procura. Na época eu tinha uma paixonite adolescente pela Jennifer Jason Leigh, e juntar ela com a Bridget Fonda, numa obra do Barbet Schroeder, diretor de O Reverso da Fortuna e Barfly, tornou a pré-estreia uma questão de honra para mim.

Sim, eu já sabia que não seria um bom filme, mas ele atenderia a uma série de necessidades inconscientes que eu tinha na época e, como antigamente, gosto era uma questão privada, não tenho vergonha de confessar, até que curti a experiência ao ponto de ler o romance em que se baseou e reassistir algumas vezes no VHS.

Em 1992, uma queria virar a outra

Hoje, fui a um dos poucos cinemas de rua que ainda temos no Rio: o São Luiz, que, como o Star, fica dentro de uma galeria que finge ser shopping. Mesmo sem querer, para tornar a experiência mais analógica, em vez de comprar o ingresso na Internet, dessa vez comprei no próprio cinema como fazia na época da pedra lascada. O filme? Tá, não era uma pré-estreia, mas um filme que já está há muito tempo em cartaz e quase todo mundo já viu: A Empregada, thriller dirigido por Paul Feig, que serve de veículo para Sydney Sweeney e Amanda Seyfried.

Engraçado que, por outras razões, durante a exibição eu não parava de pensar em Mulher Solteira Procura. As similaridades entre as histórias não são tantas, mas alguns pontos de contato geram reflexões interessantes sobre as mudanças no papel feminino na sociedade, nas suas representações na mídia, nas relações de companheirismo e poder entre as mulheres e com os homens dos anos 1990s para cá.

Em ambos os filmes mulheres parecidas fisicamente, ou tratadas como tal, vão morar juntas, e há diferenças de poder entre elas, que geram relações tóxicas, motivadas por inveja e segredos. Óbvio que há nas histórias movimentos de troca de papel que não saem como o previsto, porém a resolução e a origem dos conflitos nas histórias diferem, o que mostra o que mudou, e, também, o que não mudou.

Em 2025, é o olhar masculino que tenta torná-las iguais

Sim, a competição entre mulheres ainda existe e suas relações são carregadas de comparações negativas especialmente nos papéis tradicionais familiares e sociais, porém a causa desses conflitos e a sua resolução mudou nesses 30 anos. Como se estivéssemos utilizando a técnica dos 5 porquês, para identificar as causas raiz dos problemas, estamos nos aprofundando nas razões que geram essas animosidades desnecessárias que destroem a sororidade e trazendo resoluções diferentes para resolvê-las. Em 1992, relação entre as mulheres se tornava perigosa por traumas familiares, com uma explicação psicanalítica rasteira; em 2025, é a masculinidade tóxica e o sexismo estrutural, se aproveitando de múltiplas fragilidades, que jogam as mulheres umas contra as outras, na busca justificada, mas egoísta, pela sobrevivência individual.

Óbvio que os cenários e estilos são diferentes. Mulher Solteira se pretende como um thriller mais sério e se passa numa terceira onda, quase pós, feminista; enquanto A Empregada parece até mais retrógrado com um bando de trad wives oprimindo uma trabalhadora precarizada, mas tem mais humor, nada surpreendente se tratando de um filme do diretor de Missão Madrinha de Casamento.

Agora se tem uma coisa que realmente uniu os dois filmes foi o prazer de vê-los no cinema e com um público vivo reagindo a sustos e viradas de roteiro. Como toda a história de vingança e libertação, é sempre melhor vivenciá-la em grupo. Rimos juntos das partes despropositadamente cômicas, nos assustamos juntos com os perigos vividos pelas protagonistas, e vibramos em uníssono com as suas vitórias. Assim, como fiz em 1992, saí do cinema, ciente que não foi um filme bom, mas, mesmo assim, curti demais.

Aproveitei a livraria aberta no caminho de casa e comprei o livro para vivenciar novamente a sua história. Afinal, quando as mulheres conseguem se libertar das relações e dos algozes que as oprimem, mesmo na ficção, de uma certa maneira, nos libertamos todos.

Agora, estou curioso para ver, espero, novamente num cinema de rua e com uma plateia animada, como esse mesmo conflito será representado daqui a uns anos. Qual será o novo porquê que precisaremos enfrentar em prol da sororidade?

Graça Infinita contra os perigos da conformidade

É uma pena que Infinite Jest tenha virado esse red flag de masculinidade tóxica esquerdomacho style. David Foster Wallace tinha excelentes sacadas. Na verdade, acabou conhecido pela mais besta delas: a dos peixes não saberem que estão na água.

Ele também escreveu uns contos incríveis. Um dos meus preferidos está em “Oblivion: Stories”  e conta a história de uma mulher que ficou com uma expressão constante de terror devido a um erro numa cirurgia plástica e tanto a sua família como o resto do mundo precisam conviver com essa antecipação de tragédia como se fosse normal.

Outra excelente fonte pra conhecer o autor é o filme baseado na adaptação do livro de David Lipsky sobre o fim da turnê de Infinite Jest. Como seus textos, ele é recheado de grandes momentos, como o abaixo, em que David Foster Wallace prevê o nosso futuro próximo.

Ele não viveu para ver esse futuro previsível, mas deixou uma obra que combate até fisicamente isso. Há poucas justificativas para um livro ter mais de mil páginas. Lutar contra as forças da comodidade que nos engolirão completamente em pouco tempo é uma das melhores. Será que temos chance de ganhar essa guerra? A própria história de Wallace não nos dá muitas esperanças, mas é um bom sinal que nos 30 anos de Infinite Jest ainda estejamos podendo discuti-lo por aí. Alguns de nós, pelo menos.

A inescapável psicose induzida pela Internet

Warren Ellis escreve na Internet sobre as pessoas que escrevem na Internet sobre como a Internet está as deixando loucas e, por isso, saíram (?), ou querem sair, da Internet. Enquanto isso eu lhes escrevo da Internet para dizer que concordo com quem concorda e com quem discorda, e, como Tancredo Neves, especialmente com aqueles que nem discordam, nem concordam muito pelo contrário.

Como motivação, para saíram da Internet, de onde falo com vocês compartilho a palavra sagrada de Howard Beale sobre outra rede que nos deixou loucos: a televisa.

 

[oei#41] As distribuidoras como ferramenta de gestão do conhecimento no mercado editorial

De todos os atores do campo editorial, aqueles que talvez tenham sido mais impactados pelas mudanças tecnológicas e de mercado tenham sido as distribuidoras. Tradicionalmente consideradas como agentes logísticos, responsáveis pelo armazenamento, transporte e comunicação com os pontos de venda, as distribuidoras viram seu processo ser virado de dentro pra fora pelos avanços nas tecnologias de informação e comunicação, pela entrada de novos competidores e pela popularização de novas formas de comercialização, como o crowdfunding e o POD.

Esse abalo num cenário há muito estabilizado levou as editoras e pontos de venda, início e fim da cadeia do livro, a questionarem o valor gerado pela distribuição, que corria o risco de ser considerada uma simples atravessadora no processo de chegada do produto ao consumidor final. Isso gerou um grande risco, às vezes concretizado, das distribuidoras serem substituídas por estruturas internas ou ter suas funções distribuídas a outros entrantes no setor. Porém, como dizem, toda crise gera oportunidades, e a maior de todas é a de, frente a um cenário em que a sua identidade e missão são questionadas, rever seu propósito e descobrir qual é o seu verdadeiro diferencial competitivo.

As distribuidoras, confrontadas por esse novo arranjo de forças e responsabilidades, que criou uma confusão de papéis entre suas ações comerciais e as de seus clientes, tiveram que olhar para seus processos, propostas de valor e estruturas de custos e receitas. Nesse exercício, a verdade que salta aos olhos e que, talvez por ser tão ululante, escapa a percepção de muitos, é o seu papel de HUB do mercado editorial.

Além de servir como interligação entre diversos atores (editoras, gráficas, pontos de venda), as distribuidoras também gerem as informações que são necessárias ao correto transporte e circulação dos produtos editoriais durante seu ciclo de vida. Do lançamento à reposição, da entrega à devolução dos consignados, só as distribuidoras tem acesso às informações relacionadas a tempo, volume, custo, velocidade, e peculiaridades dessa maturação dos produtos.

Essa informação não é só valiosa, mas essencial para a melhoria do processo decisório, tanto das editoras como dos que vendem os livros aos leitores, no que tange a iniciar a reimpressão de obras, curadoria de acervos de maior retorno, que regiões precisam de ações de marketing e em quais produtos devemos concentrar nossos esforços e recursos. Essa concentração de dados, quando bem analisados, permitirá a percepção com maior clareza dos tempos, movimentos e do perfil dos consumidores finais, nos fazendo entender se a identidade que forjamos para nossas empresas está em consonância com o público que atendemos.

Toda essa inteligência de negócios, organizada em ferramentas de BI, ainda poderá, caso as editoras e livrarias saibam dividir as informações de forma segura e responsável, ajudar a estabelecer diálogos entre competidores e parceiros para o desenvolvimento de ações que ataquem problemas comuns, como a redução do público leitor e a dificuldade de atendimento a regiões que não fazem parte da capilarização de nossos pontos de presença.

As distribuidoras deixam, assim, o século XX, onde eram vistas erroneamente como custo, para se tornar claramente geradoras de valor. Mais que simples concentradoras de frete e rotas logísticas, elas passarão a ser vistas como empresas de inteligência comercial com a missão não só de mudar o mindset restritivo e tradicional do setor, mas também de captar, coletar, organizar e consolidar os dados do ciclo de vidas de nossos produtos para transformar esses dados e informações no conhecimento que irá promover um crescimento tanto de seus clientes individuais como de todo o mercado.