Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Da Pupa à Polpa – edição 2024

Como pai de uma pré-pré-adolescente, acaba que sempre tiro férias durante o recesso escolar. Quando ela era menor, a gente fazia vários programas, mas, hoje,  sou obrigado a passar longos tempos em salas de espera de colônias de férias, espaços de co-working em shoppings, ou cafeterias, aguardando a minha filha terminar os seus próprios programas, para que eu cuide da principal atribuição de um pai nos anos 2020: a logística. Por essas e outras, eu, em vez de usar o tempo pra descansar, algo que ainda não entendi exatamente como funciona, normalmente utilizo o período para fazer outras coisas, coisas mais divertidas, que não poderia fazer no dia a dia.

Dessa vez, resolvi, nessas curtas férias de inverno, escrever um conto Pulp em 14 dias, e convido você a fazer isso comigo. Essa é a oficina “Da Pupa à Polpa”!

Aqui um banner se vc quiser divulgar no seu blog. As pessoas ainda tem blogs? Quer dizer, além de mim?

Me baseando na fórmula de Plot do Lester Dent, criador do Doc Savage, e nas clássicas dicas para escrever um livro em 3 dias de Michael Moorcock, autor de tantos livros de ficção científica e fantasia, que nem o ChatGPT se arrisca a contar, vou conduzir um grupo de escrita onde iremos preparar, escrever e finalizar um conto Pulp em 14 dias. Ou seja, iremos passar de uma ideia em pupa, em seus estágios iniciais de metamorfose, até ela estar pronta pra ser impressa em papel de Polpa, como todo romance barato e escrito com rapidez merece.

O ChatGPT não me deixa mentir. Moorcock escreveu pacas!

Interessou? Segue a pauta dos 3 encontros dessa oficina:

  1. Mise en Place (20/07/2024)
    1. Preparando os ingredientes
    2. Escrevendo a receita
    3. Planejando o trabalho
  2. Preparo (27/07/2024)
    1. Desafios da escrita rápida
    2. Lidando com bloqueios e desvios
    3. Corrigindo rotas e evitando acidentes
  3. Empratamento (03/08/2024)
    1. Revisão e Edição
    2. Opções Gráficas e Capa
    3. Servindo o Livro física e digitalmente

Se esse desafio te animou, e quer encarar essa jornada junto comigo, clica aqui e faça seu cadastro!

Nos vemos dentro da Polpa!

PS: Ah, como a maioria das coisas que eu faço, essa oficina é de graça por três razões:

  • eu não sei botar preço nesses cursos,
  • tenho vergonha de agir como vendedor,
  • e, todo mundo sabe, vou fazer de qualquer jeito.

Mas, se quiser dar uma força com uma doação, a minha pré-pré-adolescente vai agradecer por poder comer mais pipocas em múltiplas sessões de Divertidamente 2, enquanto o pai escreve histórias de vigilantes mascarados viajantes do tempo lutando contra magos malignos e alienígenas antropófagos, a esperando no foyer do cinema.

E se conhecer alguma pessoa que possa se interessar por essa loucura, repasse o link desse post, com um dos cards  abaixo (escolha a sua versão, feed ou story) pra ela.

Ah, e boas férias para todos nós!

O nome do elefantinho

Uma função do nome que a gente costuma esquecer é servir de escudo. En geral, o que tem nome está protegido. Dentro da granja, todas as galinhas são potencial canja; menos a Giselda, que você cuidou quando nasceu fraca e, um dia, por esse apego, acabou dando um nome pra ela. Por isso há uma diferença entre os animais domésticos, que servem à, e são servidos na casa, e os animais de estimação, que você ama e, notem, sempre tem um nome.

O mesmo serve pras pessoas. Quando elas tem nome, matá-las se torna assassinato; quando elas são uma categoria, apenas baixas de guerra. Racistas e homofóbicos; intolerantes e preconceituosos; militares e militaristas se apropriam dessa tática cognitiva não só ignorando o nome dos outros, mas tirando os nomes que os outros tem, e os substituindo por alcunhas. Assim matam as pessoas incluídas nas categorias que acham diferir deles sem nenhum peso nas consciências que fingem ter.

Agora descobriram que os elefantes tem nomes que eles mesmos dão uns ao outros. Quando descobrirmos que todos os animais tem nomes, será impossível não se render ao vegetarianismo, a não ser, óbvio, aos sociopatas. Afinal, toda sociopatia começa quando negamos ao outro o direito a um nome.

Dessa forma, toda a generalização seria um ato de guerra; e toda a particularização, um ato de misericórdia. Talvez, quando Deus disse ao homem, no Éden, para dar nome aos animais, o propósito não era dominá-los, mas torná-los objetos da sua estima. Fica a dica: nomeie algo e o ame, hoje.

O tempo? Eu acho…

Eu acho que sempre tenho tempo. Quer dizer, eu acho que acho tempo. E, muitas vezes, não só acho, eu acho, o tempo. O que eu não acho é tempo pra descansar. Todo o tempo disponível, que eu acho, eu acho que poderia ser melhor usado com algo que acho mais útil que descansar. É por isso, eu acho, que eu acho que estou tão cansado. Acho que o melhor seria se eu conseguisse aquietar o facho, ser mais macho, comer um nacho, senão, em pouco tempo, sem descanso, eu acho que eu racho. Mas quem sou eu pra confiar no que eu acho? Na verdade, eu acho que um dos meus maiores problemas é que o tempo todo eu acho que eu acho que sei quais são os meus problemas. Mas desculpe, vou parar de incomodar e te deixar descansar. Afinal, eu acho que o meu tempo de descanso, que eu acho que não aproveitei nada, acabou de acabar. Quer dizer, eu acho.

Sonhos Kafknianos

Você acorda de sonhos intranquilos e se põe a trabalhar. Escreve o sonho literalmente. Literalmente, como lhe ensinaram na escola onírica. Depois de lê-lo em voz alta, se pergunta se há algum sentido naquilo. Ou, melhor, se pergunta se alguém vai entender o sentido que esperava que ele tivesse, o sonho. Afinal, o sonho, já dizia Freud, como outras manifestações psicopatológicas da vida cotidiana, dá sentido a várias neuroses do indivíduo. Mas a pergunta é: será que essa manifestação neurótica vai ressoar, será que os outros irão se identificar com o sonho que só você sonhou?

Você tenta revisar o sonho, torná-lo mais atraente, trazer elementos de outros sonhos que estão fazendo sucesso por aí. E se não fosse você o sonhador, mas outra pessoa? Outra pessoa mais parecida com o leitor do sonho? Outra pessoa mais parecida com os desprovidos ou deficientes de orinicidade? Será que assim o sonho não faria mais sentido (para os outros, que não sonham) ou, quem sabe, teria maior aceitação?

Você desiste de mudar o sonho. Que valor teria um sonho que os outros queiram sonhar mas que não tenha partido de você? O que outros vão sonhar a seu respeito se souberem que você está fingindo o que sonhou? Será que, um dia, sonharão sonhar com o que você sonha?

Você desiste de editar seu sonho, apaga tudo o que escreveu, e tenta se entregar às sensações que o sonho lhe proporcionou, ir ao seu âmago, usar as imagens oníricas apenas como uma plataforma para alcançar o sentido que só você poderia de fato apreender ou criar. Mas é inútil.

Você, mais uma vez, lê o sonho em voz alta e, mesmo você, não consegue entender ou criar um vínculo com ele. Qual é o propósito de um sonho que só você pode sonhar e não consegue mobilizar ninguém? Ou, pior, qual é o valor de um sonho que mobiliza a todos, mas não é verdadeiramente seu?

O cansaço toma seu corpo e sua mente e, mesmo tendo levantado da cama há pouco tempo, você se deita em busca de descanso e acolhimento. O sono vem. Derrotado, como um eterno menino problemático e tímido da república tcheca, você se entrega. E sonha.

Você acorda, mais uma vez, de mais sonhos intranquilos (existem outros?), e se põe, mais uma vez, a trabalhar, sonhando que dessa vez você tenha sonhado o sonho com o qual sempre sonhou sonhar. Não será esse um sonho impossível? Não seria mais fácil acordar? Não, melhor sonhar. Melhor sonhar.

Esse texto foi escrito respondendo ao desafio da Newsletter Toranja. Faça você também esse desafio!

Um tom ainda mais branco do pálido

Até 1994, quando ouvi falarem de A Whiter Shade of Pale, numa exibição de meia noite de The Commitments no cinema Cândido Mendes, como a música mais incompreensível da história, eu só a tinha escutado uma vez. A memória da música era clara, mas eu não conseguia entender o contexto do comentário. Sim, eu lembrava da estranheza da canção, mas algo me faltava para fazer essa ponte cognitiva tão certeira. Óbvio que esse incômodo ativou a minha curiosidade, e, com ela, o meu desejo, sim, de ouvir a música de novo.

Mas eram os anos 90, pré internet, e, na época, matar uma curiosidade requeria trabalho. E sorte. Muita sorte.

Como de costume, deixei o desejo no estacionamento do meu inconsciente e, em toda incursão em sebo, ou loja de discos, sim, elas ainda existiam, eu tentava encontrá-la. Sem sucesso.

Depois de uns meses de busca, a curiosidade estava quase esquecida sob uma montanha de novos interesses quando, num domingo de tarde, depois de tomar um bolo num encontro, sim, na época as pessoas podiam te deixar esperando sem explicação e você não tinha como localizá-las, entrei num sebo de discos do lado da Modern Sound de Copacabana, e lá, na sessão de grupos de rock, tinha uma coletânea chamada Tensões e Emoções com a música.

Segunda música da esquerda pra direita na primeira linha.

Corri pra casa, e coloquei o disco na vitrola para matar a minha curiosidade. Sim, era melhor, e pior, do que imaginava. A música não fazia o menor sentido, mas ao mesmo tempo parecia que tudo que ela dizia estava ligado ao que estava passando no momento: o bolo, o sentimento de rejeição, e, ao mesmo tempo, a sorte e a recompensa de achar o disco, ou melhor, a música que tanto procurava. Tudo, sim, não passava de um tom ainda mais branco de pálido.

Botei a música pra tocar de novo, e saltou à minha vista, na capa de um caderno para jovens no jornal de domingo, um casal de adolescentes dando dicas para o dia dos namorados. Um dia que passei sozinho, mas ouvindo Procol Harum. Peguei o meu diário da época, que tenho até hoje sob pilhas de outros tantos parcialmente escritos, mas nunca terminados, e, num breve relato, lamentei a minha sorte, e comemorei o meu azar.

Hoje, 30 anos depois desse momento mágico, ouvindo uma playlist automática, a música volta de surpresa à minha vida. Tudo ao mesmo tempo parece diferente e igual. Matar curiosidades é mais fácil, e as recompensas não são mais tão mágicas, porém a música, como a vida, continua estranha e surpreendente. Ao mesmo tempo não fazem sentido e são exatamente o que deveriam ser. Como de costume, abro, às vésperas de mais um dia dos namorados, o meu diário, agora digital, e relato tudo o que mudou, e o que não mudou, nesses 30 anos. Tudo é igual e diferente, sim, mas o Procol Harum continua a fazer (e a não fazer) todo sentido.

And so it was laterWhen the miller told this taleThat her face at first just ghostlyTurned a whiter shade of pale

She said, “There is no reasonAnd the truth is plain to see”

Megalopolis e o fim do cinema de erros e certos

As críticas de Megalopolis, o novo filme do Coppola, estão me agradando. Não por falarem bem (ou mal) do filme, mas justamente por estarem incertas a respeito dele. A do Vulture inclusive chama o filme de uma loucura impossível de não amar. Existe melhor definição para arte?

Parece que, depois de anos de filmes dando continuidade a franquias vazias ou adaptando obras às quais deviam(?) fidelidade infantil, finalmente estamos saindo da era dos filmes que acertam e erram para voltar ao conceito dos filmes que simplesmente são (cinema). Vamos torcer que esse tempo perdure.

Dentre as críticas que li, dou destaque pra essa do NYT escrita na forma de perguntas e respostas, e a do Star que faz um bom um retrato da polarização de opiniões a respeito do filme.

O triste é saber que a distribuição de Megalopolis é incerta, mas o que mais esperar de um filme como esse? Simplesmente esperar o incerto ansiosamente. Como sempre deveria ser com o cinema.