Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Centro

Há centro nenhum.

No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem.

Muito se engana, quem busca por uma causa central. No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem. O contexto é feito de bordas, apenas as arestas seguram o mundo.

A ansiedade por uma explicação central é que gera a ilusão de que tudo emana de apenas um ponto. Esse ponto é uma fantasia que só atende à nossa segurança psicológica que busca simplificar a insustentável complexidade do mundo.

Muito se engana, quem busca por uma causa central. No meio de tudo, há centro de nenhum, apenas as margens existem. O contexto é feito de bordas, apenas as arestas seguram o mundo.

Essas arestas sem nodos, num balé constante de inequívoca mutação, dão as formas que atribuímos ao mundo. Porém não há um ponto nevrálgico, ou alvo que proverbiais balas de prata possam atingir para tornar tudo melhor.

Muito se engana, quem busca por uma causa central. No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem. O contexto é feito de bordas, apenas as arestas seguram o mundo.

No meio de tudo, há centro nenhum, apenas as margens existem.

Há centro nenhum.

Centro.

Primaverar

Sem o conhecimento de seus devotos, os deuses, sob carnes mortais, uma vez a cada cem anos, viviam por um dia sobre a Terra para tentar entender o que experienciavam aqueles que os temiam.

Nessas oportunidades, eles sentiam calor e frio. Nessas oportunidades, eles sentiam medo e paixão. Nessas oportunidades, eles se extasiavam com a vida e se desesperavam com a morte; dois conceitos que nunca poderiam experimentar enquanto divindades.

Nessas oportunidades, com os pés nus sobre a terra, e as cabeças descobertas sob os céus, eles podiam entender como era não estar lá, nem cá; eles podiam entender a dor e o prazer de serem provisórios, efêmeros; de serem os que podem não ser e, ao mesmo tempo, são.

Nessas oportunidades, todos eles aproveitavam para lançar suas sementes sobre a Terra, na forma de monumentos, histórias, canções, ideias, ou, mesmo, descendentes. Criavam com isso os laços que não os deixariam esquecer que os palácios etéreos, de onde comandavam o universo, não passavam de construções emocionais cimentadas pelos grãos gerados pelo que a humanidade planta, todos os dias, com suas preces, súplicas e devoções.

Nessas oportunidades, aqueles que estavam além do tempo aprendiam a florescer, a primaverar. Contemos os nossos grãos.

A luz

Remamos. Remávamos.

Não esperávamos mais nada quando, com os braços já cansados de tanto remar no escuro, sem saber exatamente se todo o nosso esforço verdadeiramente levava o barco, se não ao nosso destino, a alguma costa, ela brilhou.

No meio da noite sem estrelas, uma luz, enorme, mas discreta, resoluta, mas fugidia, nos fez lembrar que íamos para algum lugar, que havia alguém a nos esperar, e que algo desejava que chegássemos lá.

A luz, piscando, aparecia, e desaparecia, mas tinha um lugarzinho constante no meio da nossa escuridão.

-É um farol?
-Não! É uma estrela.
-Ou, quem sabe, é uma embarcação que veio nos resgatar…

Não tínhamos certeza de nada, mas tínhamos um rumo. Mesmo desejando coisas diferentes, todos nós queríamos chegar juntos ao mesmo lugar. Nas costas desse novo universo haveria possibilidades para que todos os sonhos se realizassem. Nas costas desse novo universo os nossos braços e mentes cansadas seriam recompensadas por todas essas diferentes esperanças que, esperávamos, não fossem vãs.

Remávamos. Remamos.

Dança da chuva

Pediu uma água no balcão da boate e foi recebida com incredulidade:

-Água?
-É, água.
-De que tipo?
-Normal.
-Do filtro ou mineral?
-Se tiver do filtro… é de graça, né?
-É, mas não tem.
-Então, por que ofereceu?
-Sei lá, não estou acostumada a servir água.

Pegou a garrafa da mão relutante da bartender e se encaminhou para a pista. No caminho, foi parada algumas vezes:

-Água?!
-É.
-Tá tudo bem?
-Tá, por que não estaria?
-Não sei, não estou acostumada a te ver bebendo… água.

Tentou dançar, mas, entre uma música ou outra, sempre tinha alguém pra se surpreender:

-Água?
-Porquê? Algum problema?
-Não, não. Deixa quieto, não está mais aqui quem falou.

O ápice foi quando a história da água chegou ao DJ que, num misto de zoeira e indignação, não se furtou a dedicar a ela um remix tribal house de Água Mineral da Timbalada, emendando na versão do Biquini Cavadão pra Chove Chuva do Benjor.

Sob os risos de toda a boate, ela, de saco e bexiga cheias, saiu puta da boate em direção à sua casa. No trajeto, como não podia deixar de ser, choveu, e ela, louca pra mijar, dando mais um motivo a quem a criticava, aproveitou pra se aliviar vestida, no meio da rua.

Quem disse que havia um limite pro quanto alguém pode ficar molhada? Quem disse que a dança da chuva não funcionava?

“Chove chuva, chove sem parar…”

[oei#09] Os (des)enobrecimentos gráficos que tornam o livro (m)eu

Na minha infância, quando pintava uma grana extra em casa, comprávamos livros. Enciclopédias, coleções, livros grandes em capa dura com letras douradas e fitilhos. A coisa era tão séria que, mesmo não sendo religiosos, tínhamos uma enorme bíblia, de capa dura imitando couro, com douração trilateral, sobre um suporte de leitura no meio da sala. Minha mãe, ateia convicta, se explicava:

– É pelas ilustrações do Doré.

Não era exatamente essa, mas dá pra ter uma ideia de como era preciso concordar com ela.

E fazia suas críticas:

– Se bem que eu ficaria feliz em tirar aquela foto desse reaça do João Paulo II da introdução.

Vai entender…

Graças ao Círculo do Livro, e suas edições “especiais”, cresci acostumado com as ditas encadernações de luxo. Enquanto o povo era obrigado a viver com livros em brochura, de bolso, sem orelhas e colados, eu ganhava de aniversário coleções em capa dura, costuradas, e envernizadas de Monteiro Lobato e Sherlock Holmes.

O detalhe do Saci fazia toda a diferença, mas, confesso, a edição grampeada da Brasiliense fazia mais a minha cabeça

Eram bonitos de se ver, mas, confesso, muitas vezes abria mão de ler o Shakespeare na edição de obras completas em papel Bíblia que tínhamos em casa para enfiar no bolso de trás da calça, uma edição fininha, de capa vermelha, quase se desfazendo da Ediouro.

– É por comodidade- eu mentia.

Era por amor.

Quantas noites passamos sonhando juntos…

Aquela pequena edição de Sonhos de uma Noite de Verão me acompanhava nos pontos de ônibus, nas esperas nos Fast Foods, e era “vagabunda” o suficiente para ser anotada à exaustão. Como dizia o Stanislaw Ponte Preta, era “vaca, porém honesta”.

Cercado por edições raras e caras, sendo vigiado super egoicamente pelo Freud gravado em ouro e fogo na capa preta da sua coleção da Imago, eu construí, quase em segredo, uma coleção de pequenos livros, muitos de bolso, resgatados em sebos, feiras do livro, e saldos, que representava a minha forma de amar os livros: sem pompa, sem circunstância, mas com muito fervor.

Aqui estou, mais um dia, sob o olhar psicanalítico do vigia

Por isso, quando tocava a capa fosca e rugosa dos meus pockets de ficção científica da DelRey e cheirava seu miolo quase florestal, o texto adquiria um gosto diferente daquele que as edições sérias e sem vincos de manuseio da Hemus me proporcionava. O texto podia ser quase o mesmo, mas o livro e a experiência eram outras. Por consequência, eu também era diferente quando as lia.

Hoje, depois de muito penar pela fantasia das edições de luxo, eu sei, o livro nobre não é o que passou por acabamentos mais caros, mas o que foi cuidadosamente pensado para ser não mais meu, mas mais eu.