Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Dias perfeitos

Na próxima vez é na próxima vez, agora é agora.

Todos os dias são perfeitos, mas poucos filmes podem dizer o mesmo. Esse é um deles. Me lembrou muito Cortina de Fumaça e Patterson. Vou escrever a respeito disso amanhã. Hoje preciso deixar meus sonhos processarem a experiência.

Enquanto isso, no Oscar, as pessoas se dividem entre a humanização de uma boneca e de um “destruidor de mundos”, e o verdadeiramente humano fica de lado. Pelo menos foi lembrado. Um bom sinal?

Alencar e as mulheres

Ontem, passando pela estátua de José de Alencar, em frente à praça de mesmo nome, minha filha notou que algum gaiato (ou gaiata) colocou uma flor, provavelmente recebida num desses eventos corporativos em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, na mão do escritor cearense.

– A gente devia subir lá pra pegar a flor da mão dele- minha filha sugeriu.
– Ué? Porquê?
– Essa flor é do Dia da Mulher. E ele não é mulher.
– É, tem razão, mas, na boa, ele teve a sua parte na luta pelos direitos das mulheres.
– Duvido!
– Sério. Lá no século XIX ele foi responsável por escrever vários livros sobre perfis femininos e botar as mulheres num protagonismo maior do que se fazia na época. Dentro dos limites culturais da época ele foi quase um feminista.
– Foi nada!
– Nos livros dele, as mulheres, se não eram as personagens principais, eram as forças motrizes das histórias. Teve Iracema, Ceci, Senhora, Lucíola, Diva, Til…
– Problema!- minha filha encerrou o assunto com seu irritante bordão pré adolescente.

E, assim, consegui dissuadir minha filha, feminista da quarta onda e meia, dos seus planos de alpinismo de estátuas e  deixamos Alencar com sua homenagem, devida ou indevida, intencional ou não, pelo destaque que deu às mulheres e suas causas num tempo em que elas tinham ainda menos voz do que hoje. O que foi, na minha opinião, até justo, afinal, a busca pela igualdade, tanto a de gênero como todas as outras, é uma luta coletiva, inclusive daqueles que não fazem parte dos grupos minorizados, como o próprio José Alencar, guardadas, óbvio, as devidas proporções. Mas, não posso negar, minha filha também tá cheia de razão.

“E assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante, sua existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação dessa alma, como no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz; uma forma devanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos de si própria.” – Til, José de Alencar

Um minuto de pareidolia

Deve ser a pareidolia falando, mas, ontem, ao ver o pessoal da TI levar embora o computador que me acompanhou nos últimos 4 anos e meio de trabalho, desde que comecei nesse “novo” emprego, não posso negar, bateu um pequeno luto.

“you say good bye…”

O trackpad já estava descascando da minha teimosia em não usar um mouse, e a tecla de seta esquerda tinha surtos de inesperada hiperatividade devido à minha obsessão em corrigir e ficar insatisfeito com o que escrevo, mas, mesmo o novo computador sendo uma necessidade, achei que a despedida foi prematura. Sempre é.

O que devo estar me assustando de verdade é o que essa troca significa. Sim, mudar de um computador é o fim de um ciclo. Quer dizer que fiquei tempo suficiente numa relação, não só com o computador, mas, de trabalho, para que as coisas comecem a quebrar à minha volta. Ao mesmo tempo, há a sensação de continuidade. Afinal estou vivendo a oportunidade do início de um novo ciclo, com um novo computador, e, por que não?, de uma nova relação.

Como serão esses novos tempos? Em que situações essa nova máquina irá me acompanhar? Teremos um relacionamento tão próximo, junto à minha família, como rolou na pandemia com o antigo computador? Ou seremos apenas colegas, que visitam a casa do outro no dia semanal de home office? E, mais importante, o que esse relacionamento irá refletir da minha relação com o trabalho em si? Perguntas, perguntas, perguntas…

Sim, estou exagerando, mas, me desculpem, como disse, é a pareidolia falando.

Toda a mudança de relacionamento desorienta

Adeus, dellzinho querido, boa sorte em sua nova vida. Olá, novo dell, seja bem vindo.

Ruínas Recentes

Pelas frestas das cidades, nos lugares que escapam à nossa atenção, os sinais de uma história recente se acumulam e apodrecem, como lembranças de um tempo que esquecemos rápido demais, como mau agouros de um futuro repetente. O que as novas gerações irão aprender, ou imaginar, sobre nós a partir dessas ruínas não intencionais?

Todo pirata…

Uma das verdades mais chatas na qual temos mais dificuldade de acreditar é que todo pirata quer se tornar um almirante. Talvez tomados pela ingenuidade de acharmos que hoje ainda existem valores que falam mais alto que o dinheiro, emprestamos nossa boa fé e nossa confiança a tantas empresas que aparecem prometendo fazer as coisas de forma diferente do que “as outras” estão fazendo.

O Substack, que começou se vendendo como uma alternativa às redes de mídia social, já dava claros sinais que seguiria o caminho daqueles que maldizia. Fez vista grossa a nazistas, criou ferramentas para tentar capturar a audiência do Twitter, morto a pauladas pelo Elon Musk, e começou a nos bombardear com subornos para trazermos mais usuários para a sua plataforma. Mas hoje, pra mim, um limiar definitivo foi ultrapassado.

Recebi um e-mail informando que havia uma mensagem da autora de uma newsletter que sigo e descobri que só conseguiria acessar se tivesse o app do Substack instalado. Enfim, a plataforma que prometia acabar com o modelo das ferramentas de mídia social através do contato “pessoal” do e-mail se assumiu como uma delas.

Como dizia Guilherme Arantes, “Adeus também foi feito pra se dizer”. Então, Substack, bye bye, so long, farewell.

Se alguém realmente quer conhecer uma plataforma que se opõe ao modelo das redes de mídia social, recomendo a daftsocial.com, onde você não segue ninguém, não pode apagar postagem, e só consegue publicar apenas o que couber no campo de assunto de um e-mail que envia pra plataforma. Uma rede verdadeiramente antisocial. Bom, pelo menos por enquanto… Por enquanto…

Mestres e Deuses

Recentemente reli o livro do Jaron Lanier sobre os porquês de se afastar de redes sociais e tive uma pequena epifania. Nosso problema não são as redes sociais, mas as estratégias de controle de comportamento; o que nos preocupa realmente é que pessoas ou métodos não transparentes e efetivos consigam promover mudanças ou incitar comportamentos com os quais não concordamos conscientemente.

Evitando a discussão de que “não existe livre arbítrio”, comecei a pensar se todos os conflitos humanos não se resumem basicamente a isso: apoiar ou rejeitar ferramentas de controle comportamental. O engraçado é que muito do que temos hoje e chamamos de cultura (religiões, pátrias, instituições, escolas) não passam disso: ferramentas de controle comportamental. Porém elas estão tão entranhadas nas nossas rotinas e rituais sociais que as consideramos, erroneamente, naturais, exatamente o que elas não são.

Concordo que as estratégias e ferramentas para influenciar comportamentos considerando contextos individuais estão mais poderosas e rápidas, mas, cá entre nós, conceito de indivíduo no qual elas se calcam é coisa de menos de 300 anos e os métodos em que elas se baseiam são velhos e conhecidos. Por exemplo, a sua principal cartilha de referência, o velho manual do Skinner, Ciência do Comportamento Humano, foi publicado há mais de 70 anos, e, junto com muitas práticas derivadas da atuação do exército americano, é a base das estratégias de engajamento e cultura corporativas, que promovem subrepticiamente a doença mental. E, disso, não vejo quase ninguém reclamar. Pelo menos, não publicamente.

A justificativa de proteger a infância e as “tradições” desse artefato do apocalipse é ainda mais furada, pois ignora que a infância é uma invenção; que os adultos, submetidos há anos de condicionamento, são mil vezes mais inflexíveis e vulneráveis do que elas; e que as tradições não passam de novidades que envelheceram e estão lutando contra moinhos de vento em seus leitos de morte.

Por isso, quando vejo o pessoal falando da IA como um dos arautos do fim do mundo, lembro do que já se falou da TV, dos computadores, das minissaias, do rock’n’roll, das revistas em quadrinhos, do jazz, da prensa, e até da Escrita. Enfim, vivemos em ciclos repetitivos de buscar ameaças à existência humana, como se ela fosse importante de fato, e de glorificar os métodos de controle comportamental com os quais estamos acostumados e que promovem as ideologias que professamos (ou que nos adestraram para professar). Afinal, pensamento livre é uma característica que só atribuímos a nós mesmos, enquanto ideologia é algo que só os outros têm.

Pensando bem, ignorem tudo o que escrevi. Segundo a minha própria defesa, todo esse argumento não passa do resultado de inúmeros processos de controle aos quais fui submetido. Como os que tecem loas ou gritam alertas sobre a Inteligência Artificial sou apenas uma peça num sistema que não conseguimos vislumbrar, cumprindo o papel para o qual fui criado e adestrado, mas completamente desconheço.

Talvez a única saída para esse ciclo perverso seja abandonar o medo e o desejo; nos libertar do mundo material; transcender nossos egos. Mas isso ninguém quer fazer. Enfim, o problema me parece não ser a inteligência artificial mas que ela é bem melhor que a gente num jogo da nossa própria criação.

O que nos falta lembrar é que esse jogo pseudo civilizatório, no qual a inteligência artificial prevalecerá, só é possível vencer por WO. Ou, como diria o Garbage, o futuro é meu, como sempre, sem deuses ou mestres para obedecer. A não ser aqueles que nós mesmos cultivamos e entronizamos.

The future is mine just the same
No master or gods to obey
I’ll make all the same mistakes
Over and over again