Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Boca de Urna

O Brasil pode ter mais de 150 milhões de eleitores, mas para a família Campos Pinto quem decide as eleições mesmo é o primo Gui. Desde a primeira eleição pra presidente pós ditadura, quando a família se digladiava entre o plantel de candidatos afoitos pra ser o primeiro presidente eleito de forma direta depois de décadas, ele, do alto dos seus 16 anos, desvirginou seu título e acertou na mosca quem ia ser eleito:

-Sei não, mas esse janotinha do caçador de marajás é bem capaz de levar esse lance. Vou cravar logo nele.

Se votou ou não votou, ninguém sabe, mas a mística foi criada. Ele não só adivinhava a pessoa que ia ganhar a eleição, como também votava nela. Além disso, se mudasse de ideia, ela não ia se manter no poder; o que se comprovou quando saiu nas passeatas de cara pintada em apoio ao impeachment.

Depois de acertar algumas eleições municipais, em 94, ficou bastante tempo na corda bamba, mas, no fim das contas, disse que ia de FHC:

-O Lula vai ter seu momento, mas não é agora.

Bisou FHC em 98, mas, em 2002, não teve dúvida. Contra o Serra, era Lula desde criancinha, mesmo sem nunca ter sido.

-Acho que já tá na hora do operariado entrar no poder.

Não era um especialista em política, nem um partidário. Mudava de voto sem uma razão clara; se arrependia, como todo ser humano; e tinha momentos em que preferia não se manifestar:

-Dessa vez era melhor ninguém ganhar mesmo.

Mas, mesmo sem declarar voto, todo mundo achava que a pessoa em quem ele depositasse sua confiança, e seu voto seria eleita.

Quando a polarização apertou pós 2015, ele se afastou total de política. Mas, como cabos eleitorais em campanha de boca de urna, os parentes o puxavam de um lado e do outro querendo suas previsões e seu voto. Convidavam ele para jantares, viagens, passeios, sempre com outros pretextos, mas no meio dessas oportunidades sempre queriam saber:

-Então, Gui, em quem você vai votar desta vez?

Ele aceitava os convites, mas se limitava a dar suas opiniões, em geral negativas, sobre todos os candidatos e dizer:

-Desta vez tá difícil. Ainda estou analisando.

Os últimos anos foram particularmente difíceis para a família Campos Pinto. A vó Mercedes parou de falar com a tia Heloise; e o Ruizinho deu um piti depois da eleição pra prefeito de 2020 e se indispôs com todo mundo. Mas se havia uma pessoa que ainda tinha trânsito livre em todos os núcleos familiares, não importando suas afiliações políticas, era o primo Gui.

Nesta eleição, os ânimos estão mais acirrados do que nunca. Até os parentes de outras cidades querem saber em quem ele votaria se morasse lá. Mas, sem muita explicação, o primo Gui se refugiou em Paquetá e não atende ninguém a não ser em caso de vida ou morte, bolão de megasena da virada, ou festa com boca livre.

Semana passada fui visitá-lo e, como não sou da família, tomei a liberdade de perguntar, não em quem ele ia votar, mas por que ele tinha se isolado. Ele me respondeu:

-Cansei disso tudo, amigo. Dá muito trabalho manter o controle da política brasileira.

Medalha de ouro

Depois de três dias firmes na promessa de não fumar, recaiu. Ou quase.

Acordou agitado, no meio da noite, com a garganta coçando e a língua dormente por um cigarro; de um sonho sobre um bar de jazz com buffet de café da manhã em que todos ainda podiam fumar em espaços públicos e fechados. Bons tempos, bons tempos.

Foi nos esconderijos tradicionais, onde guardava maços para descumprir suas próprias resoluções de não mais fumar, mas não encontrou nem uma guimba de Medalha de Ouro, seu mata rato preferido. Da janela, procurou as luzes dos botequins debaixo do seu prédio, mas parecia que todos estavam fechados. Só lhe restava, de esperança, a banca 24 horas da esquina da Barão do Flamengo. Se ela não tivesse cigarros, ou, por um milagre infernal, estivesse fechada, teria que ir até ao posto da Ruy Barbosa ou da Farani. Ato que envolvia, na sua opinião, maiores riscos para a sua saúde do que um possível câncer de pulmão.

Colocou um short, chinelos, uma camiseta rasgada, que o confundisse com a população de rua local, e, no bolso, levou apenas o dinheiro contado pra dois maços. Celular, documentos, carteira, por precaução, ficariam em casa.

Passou pela portaria discretamente para não acordar o porteiro nem passar vergonha de sair vestido de cosplay de mendigo. Atravessou a praça do Largo do Machado quase marchando, num misto de bravura e medo que, esperava, fosse protege-lo de possíveis assaltantes. Acelerou o passo na rua do Catete e já da entrada, fechada, do metrô, conseguiu ver a luz branca da banca. Havia uma esperança, havia uma esperança.

Atravessou o sinal aberto entre as poucas motos de entregadores de aplicativo que cortavam o asfalto, jogando gás carbônico na atmosfera, e levavam as últimas refeições  cheias de ingredientes ultra processados aos insones, e em dois pulos estava no seu destino.

Atravessou a pequena multidão de boêmios que fumavam seus últimos cigarros e tomavam a saideira na banca depois que os bares do Flamengo já tinham fechado, e, de dedo em riste, revelou seu desejo ao mundo:

-Tem Medalha de Ouro maço?

-Tem. Branco ou Vermelho?

-Vermelho!

O jornaleiro trouxe o maço de Medalha de Ouro vermelho, e, desconfiado do cliente maltrapilho, o segurou à distância até ver o dinheiro. Ele entendeu o recado e buscou a grana no bolso. Não encontrou. No seu lugar havia apenas um furo. Assim como a camisa, seu short também estava rasgado.

Nem se dignou a explicar nada. Abaixou a cabeça e, entre os boêmios, que bebiam e fumavam, se deixou caminhar para casa, olhando para o chão, na esperança de encontrar o dinheiro perdido. Não encontrou.

Chegou na portaria do prédio e lembrou que esqueceu de trazer a chave. Bateu no portão e nas grades de ferro, mas o porteiro nem se abalou. Que remédio? Teria que esperar ele acordar naturalmente ou algum morador sair pra trabalhar na madrugada. Se não tivesse perdido o dinheiro, não saía da sua cabeça, pelo menos poderia esperar fumando, como naquele velho tango: “Fumar es un placer/ Genial, sensual/ Fumando espero”…

Sentou-se na escadaria do edifício e tudo o que podia sentir era ódio. Ódio de si, por fazer tanto esforço pra se matar; ódio da raça humana, por fazer tanto esforço pra se matar entre si. A extinção, pensou, devia ser um esporte olímpico, com categorias tanto coletivas, como individuais. Todas as nações, e todos os seres humanos empatariam em primeiro lugar. Medalha de Ouro para todos nós.

Livre. Nunca. Mais.

Acordou resoluto. Já não tinha mais nada a perder. Faria o que lhe desse na telha. Consequências, boas ou ruins, nada significavam ; não eram ganhos, nem perdas; eram apenas experiências.

Mal levantou da calçada, foi interpelado por um policial. Não lhe deixou terminar a sua cantilena agressiva. Não tinha culpa, nem medo para lhe orientar as ações, então lhe deu um beijo no rosto e um abraço fraterno.

Deixou o policial boquiaberto, para embarcar num ônibus que chegava no ponto. Entrou pela porta da frente e pediu carona ao motorista. Recebeu de volta uma risada e um chute na barriga que o jogou de volta à rua. O motorista, ainda rindo, arrancou o ônibus, e saiu atirando impropérios.

Não se deixou abater, e caminhou, mesmo sem saber pra onde ir. Na quarta esquina resolveu parar. Ir ou não ir significavam a mesma coisa. Então, para que andar? Sentou embaixo de uma marquise, fechou os olhos e, mesmo não estando cansado, dormiu.

Os sonhos lhe escaparam enquanto as pessoas desviavam dele na rua. Não era um objeto, nem um agente; estava se tornando apenas um elemento do ambiente.

Quando acordou, já era noite. Na rua vazia, um grupo de jovens, ao mesmo tempo ameaçadores e frágeis, se aproximou dele com pedaços de pau e garrafas. Sem dizer uma palavra, começaram a espancá-lo.

Ele não reagiu. Viver ou morrer nada significavam. Tudo era o mesmo. Tudo era diferente. Estava, enfim, imune às expectativas das consequências. Da vida? Talvez.

Sua visão foi se tornando cada vez mais vermelha e turva. Sentiu o ar lhe abandonar pela última vez, e sorriu um sorriso sem dentes. Finalmente estava livre, como tudo o que nada quer.

Feliz, triste; não fazia mais diferença. Não fazia. Mais. Nunca fez. Nunca fará. Nunca. Mais.

Livre.

Prima Opinio

Desde que as opiniões de pessoas vivas foram tornadas ilegais, não houve expectativa maior pela morte de um potencial pensador do que a de Gaius Marcus. Seus admiradores, num paradoxal misto de eros e tanatos, adoravam sua companhia silenciosa e calorosa, ao mesmo tempo em que ansiavam pelo momento em que ele morreria num acidente- as mortes naturais não eram mais naturais-, ou por vontade própria, e poderiam ouvir o que ele extraiu da experiência da vida.

Décadas se passaram e o seu silêncio sincero e sábio só exacerbava essa antecipação. Mesmo sabendo dos riscos de os vivos proferirem suas ideias em voz alta, correndo o risco de se tornarem párias em vida, ou de promoverem uma polarização indesejada na frágil coletividade humana, alguns, secretamente, óbvio, se perguntavam se não já estávamos maduros o suficiente para falar o que pensamos, e ouvir os pensamentos que os outros tinham a compartilhar. Movidos pelo medo de repetir o nosso triste passado de conflitos e violência sem sentido, esses poucos afoitos controlaram suas ansiedades, não se manifestaram, e esperaram pacientemente pelo dia em que, após o cessar de suas funções vitais, as ideias de Gaius Marcus seriam divulgadas.

Demorou alguns séculos, mas esse dia chegou. Sem aviso, Gaius Marcus se dirigiu às plêiades obtuárias, e deixou sua forma física se dissolver para retornar ao caldo primordial da criação. Excitados, seus seguidores rumaram com pressa às planícies ecoantes onde, das trombetas neurais, seus pensamentos, agora póstumos, e, portanto, legais, seriam espalhados aos 7 ventos cósmicos. Depois de um aparentemente eterno momento de espera, sua voz clara e segura, depois de um breve pigarro, resumiu toda a sua reflexão sobre a existência em uma só frase:

-Eu não sei. E você?

Boas vindas ao Futuro

O Amanhã
não vai prestar.

Amanhã,
meu trabalho,
que prometeu nunca retornar ao velho normal,
infelizmente,
vai voltar 100%
pro presencial.

Amanhã,
tenho que levar
meus avós
negacionistas
para tomar
uma dose da vacina
que salvou as suas vidas
e na qual
eles insistem
em não acreditar.

Amanhã,
vou ser obrigado a
colocar o aparelho de DVD
pra consertar
pra conseguir
assistir
a um filme que
os serviços de streaming
cismam em não disponibilizar.

Amanhã,
vou aos Correios pra
enviar
uma confirmação judicial
de que a mensagem de um e-mail
que disseram que me mandaram
nunca pintou na
minha caixa de en-
trada.

Amanhã,
preciso comprar
uma passagem de avião
pra participar de uma reunião
com pessoas que não
tolero
numa cidade que odeio
e que poderíamos fazer pela in-
ternet.

O Amanhã
nunca presta.

Meu único consolo é que
o amanhã faz
o ontem
sempre ser
melhor.

[oei#08] A viralidade gráfica dos livros e sentimentos reproduzíveis

Dezembro de 1990.

Surge, no dia da entrega das provas finais do curso de inglês, a assustadora e sedutora possibilidade de compartilhar com o alvo de meu afeto as odes de amor que lhe dediquei. Mas como fazer isso? Como compartilhar as páginas soltas e caóticas de prosa poética, que, movido pela paixão, escrevi sobre ela?

Sim, esse era o problema: eu escrevi sobre ela e não para ela. Nunca me passou pela cabeça que seria necessário publicar, tornar público, esse meu sentimento, mesmo que o público fosse de uma pessoa só. Seria preciso pensar, planejar e produzir algo especial, algo que completasse o seu destino, algo que eu quase poderia chamar de, por que não?, um livro. Enfim, eu precisava tornar o texto algo reproduzível para que ele fosse, finalmente, além do seu autor.

Usar Xerox não seria uma boa opção. Além do custo, proibitivo para um aluno do segundo grau do século XX, a página fotocopiada tornaria os meus sentimentos repetidos e banais. Era preciso mostrar a dor, o esforço, o artesanato que simbolizaria todo o meu amor. Comprei numa papelaria no Largo do Machado um caderno interessante, porém não muito chamativo, para mostrar a beleza das simples e surpreendentes coisas que ela representava para mim.

A edição, sola e remanescente, 34 anos depois

Reproduzi, como numa espécie de diário, todos os textos, dividindo-os em partes pelas datas de criação, exibindo a evolução da minha paixão.

Reescrevi a mão todos os textos e, como detalhe, incluí um cartão grampeado à segunda capa que serviria de introdução, indicando a ela, mas fingindo que isso servia a outros, como melhor ler e aproveitar os textos que criei.

Num prazo curto, consegui deixar tudo pronto e, no dia da entrega, do meu lançamento, rumei cheio de esperança para tornar público, mesmo que seu nome não estivesse explícito em nenhum lugar, o meu amor.

Ela não apareceu.

Novembro de 1991.

O que era paixão se tornou uma desilusão, mas eu continuei escrevendo. Em vez de doces odes de amor em prosa poética, poemas curtos ultrarromânticos se tornaram a minha forma de expressão. Como miséria adora companhia, resolvi juntar os melhores, ou, quem sabe, os piores, num fanzine. Produzi uma master em papel ofício, com as ilustrações recortadas de revistas, textos datilografados numa IBM esfera e títulos desenhados à mão. Para reproduzir, dessa vez usei sem pudor a fotocopiadora do trabalho do meu pai. Se, antes, meu sentimento era raro e nobre, agora ele era baixo e barato. Cada texto merece a forma de reprodutibilidade que melhor o representa.

Fiz poucas cópias e as distribuí entre minhas professoras e professores de português, alguns amigos, na banca do Osny na esquina da Rio Branco com a rua da Assembleia, e uma delas enviei para a revista Animal. Querendo tornar pública a minha tristeza, mas não a minha identidade, não fiz uma página de créditos e ainda fiz o favor de publicar sob pseudônimo. A revista Animal destacou o meu fanzine na sua página de publicações alternativas, mas fez questão de frisar que eu queria ser divulgado, mas não queria ser encontrado.

Não estavam errados.

Setembro de 2024.

Num sebo especializado no encalhe de editoras, contemplo o mar de esforço físico, de papel e tinta, voltado a transformar em realidade os textos que os autores um dia imaginaram escrever e hoje se tornaram livros, mas não encontraram leitores. Falharam? Falharam como eu?

Não, enquanto eu não busquei a reprodutibilidade nem o reconhecimento, esses livros, como vírus analógicos carregando ideias que querem ser reproduzidas em castelos de impressão e mentes impressionáveis, compostos de miolos em preto e branco envoltos em capas coloridas, simplesmente não acharam os organismos hospedeiros adequados nos quais poderiam se replicar.

É num momento como esse em que fica clara a distância entre os universos de escrever e publicar. Sim, eles são universos distantes, mas são também cheios de pontes e escolhas que irão dar materialidade, através de linguagem e suprimentos gráficos, às mudanças que queremos ver no mundo. Desde amores não correspondidos e depressões juvenis até revoluções políticas ou culinárias. Nenhuma delas seria, nem se tornará, possível sem o momento mágico em que as ideias deixam os manuscritos e viram matrizes reproduzíveis para a sua repetição. Querem viralizar? Então, sem pudor, exercitem seus pontos finais e liguem as rotativas. Há (mais) algo (novo?) que o mundo precisa ler e conhecer. Torço para que, dessa vez, vocês sejam ouvidos, lidos e correspondidos. Como eu não fui.