Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

(Diz se) 9 não são vinte

A primeira década é subestimada.

Espremida entre o nascimento e a ansiada adolescência, a primeira década, consumida pelas falhas da memória em primeiro uso, parece um tempo a ser esquecido.

Mas, apesar de você não lembrar quase nada da primeira metade dessa década, a segunda metade, mesmo que guardada em névoas espectrais e nostálgicas, estabelece muito do que você é, pois, traumaticamente, foi quando ocorreram todos seus primeiros encontros.

Os primeiros amigos; as primeiras desilusões; as primeiras emoções fortes. Os primeiros amores; os primeiros livros; os primeiros filmes. Os primeiros aprendizados; os primeiros sonhos; as primeiras frustrações.

E por mais que a falta da organização lógico formal, que irá dominar o restante da sua vida, impeça você de resgatar todos esses momentos, eles, tenha certeza, serão a sua razão para fazer tudo o que viver daqui pra frente.

A razão do seu medo de elevador. A razão de você não gostar de andar de ônibus. A razão de você querer comer sushi toda vez que entrar de férias. A razão de você adorar ficar de cabeça pra baixo e subverter a maneira de se sentar em todos os móveis e cadeiras. A razão de odiar mastigar gelo. A razão de desconfiar demais de figuras de autoridades e confiar além da conta em novas amizades. A razão da sua raiva de palhaças pois um dia uma delas te jogou numa piscina com uma bundada. Enfim, a razão de todas as coisas que parecerão não ter razão de ser, mas tem. E ó se tem.

Nesses primeiros dez anos, que antecederam a sua adolescência, você teve contato com as experiências primais que serão rebuscadas em suas próximas rodadas.

Os afetos virarão romances. As brincadeiras virarão vocações. Os medos virarão crenças. As conquistas virarão valores. As fantasias virarão planos de vida.

E, enquanto planeja e executa essa vida futura, você esquecerá desses 10 primeiros anos. Os anos que lhe fizeram se apaixonar pela vida; os anos que lhe deixaram curiosa sobre até onde você e o mundo podem chegar; esses 10 primeiros anos estarão escondidos embaixo de fotos com pessoas das quais não lembrará, e de histórias que seus pais contarão e você terá certeza que não foram bem assim.

Por isso, agora que começa a sua jornada em direção aos 20 anos, lhe peço: não esqueça dessa sua primeira década. A década em que lhe conhecemos e, por incrível que pareça, a década em que mais esteve com a gente, de uma maneira que jamais estará.

Assim, lhe desejando sorte nesse gradual se descolar dos seus pais, eu só lhe peço que não esqueça de tudo que passamos juntos e de todas as experiências que são a base da pessoa incrível que você é e será.

Mas não precisa ser que nem o Casimiro de Abreu que está enterrado lá na Igrejinha perto da casa da tia Dé. Afinal “que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”, como você sempre diz, é dessas coisas super bregas que só o seu pai gosta.

Então, sem mais blá-blá-blá, lhe desejamos um feliz aniversário, uma incrível segunda década, esperando que tenhamos lhe ajudado a ser um pouco mais feliz nessa primeira!

Beijos do seu pai e da sua mãe que a amam.

Li e Gabi

O melhor presente de Natal pra você é VOCÊ!

Avaliado no Brasil em 24 de dezembro de 2023
Compra verificada

Dentre todos os presentes de Natal que ganhei, e me dei; dentre todo lixo que consumimos para fazer rodar a economia artrítica do capitalismo tardio; dentre todo o arsenal de recomendações vazias criadas por essa inteligência artificial brutalmente mercantilista; esse, com certeza, foi o melhor.

Na boa, já fazia tempo que eu estava atrás de um desses, e, depois de tanto procurar, finalmente eu achei: um headphone tradiça.

Sim, um head-phone. Um fone pra colocar na cabeça, tipo o que a gente fazia na época da idade da pedra; não um dispositivo intra-auricular, com ou sem fio, que plugam nossa mente para ficarem latindo ordens na forma de podcasts, ou de música criada por algoritmos; muito menos uma armadilha tecnológica para nos sequestrar para reuniões sem fim e sem propósito com espíritos sem corpo; simplesmente, um headphone.

O som, confesso, não é dos melhores, afinal parece com o som do mundo real, o que não é bom, mas, como já diz o nome, é real. E isso já basta. Ou, pelo menos, deveria.

Com esse headphone, e sua exagerada estrutura de metal, ninguém mais terá desculpa pra dizer que não sabia que eu explicitamente não quero falar com ninguém, que quero estar sozinho com os meus pensamentos e com a minha música, distante de todos que queiram me incomodar.

Sinceramente, é bom poder, depois de anos te terror e loucura lutando pela nossa sobrevivência orgânica, nossa coerência moral, e nossa sanidade mental, nos virar para nós mesmos e só prestar atenção na nossa própria voz, falando e ouvindo as maiores loucuras criadas pelas nossas cabeças.

Acho, inclusive, que esse headphone vai até me ajudar a redescobrir, depois de tanto tempo imerso nos desejos alheios, o que eu realmente quero pra mim. Chupa, René Girard, e seu desejo mimético!

Pra completar a minha felicidade, só faltaria eu me tornar um insulano, ganhador da mega da virada, sem celular, conduzindo experiências insanas em Paquetá. Tipo uma mistura da Moreninha com o Dr. Moreau, aquele da outra ilha.

Ah, quase ia esquecendo! O melhor: ele não tem microfone, o que significa que, quando eu o estiver usando, não terei como falar com ninguém. Estarei só eu, sozinho, comigo e eu mesmo. Ligou pra mim, sorry!, caiu na caixa postal que eu não checo.

Recomendo para todos que quiserem passar um belo 2024 na suas saudosas próprias companhias, exatamente como eu pretendo fazer.

Bom Natal e que vocês possam curtir um belo 2024 com as melhores pessoas, a.k.a., vocês mesmas.

AVALIAÇÃO:

Os fantasmas da sala

Entrei jovem
escondido
Minha mãe não podia nem sonhar que tinha ido lá
Fui recebido por uma senhora idosa
aparentemente mal intencionada
que me deu um
doce
e passou a
mão
na minha cabeça
disfarçando o ódio que tinha de
mim

Lá voltei
um jovem
adulto
Ia visitar meu pai
adoecido
após sua operação
A mesma senhora estava lá mas
não me recebia mais
com doces
nem
afagos na
cabeça
Melhor
Eu preferia a sinceridade

Na próxima vez que estive lá
precisei arrombar a porta
para poder
entrar
A senhora não estava mais

Nem meu
pai
Ambos mortos
Mas seus sinais
e seus fantasmas
estavam espalhados pela casa
na forma de
boletos
e dos livros que eu amava
e ela
odiava
pois a faziam
se lembrar de
mim

Hoje me sento nessa sala
e penso
em como esse lugar é meu
e não é
Minha filha cresce por essa sala e dou a ela
um destino melhor
do que a senhora dos doces
sequer poderia
imaginar

Sonho em sair dessa sala
da qual sou um prisioneiro
fantasma
desde a primeira vez que nela
entrei
Mas
SIM
consigo me ver velho
recebendo a minha filha
no mesmo lugar que meu pai me
recebia
Sem velhas doces
ou amarguras
Com a certeza que conquistei esse espaço
que sempre foi
meu

Como ser grande

Se vejo uma nuvem
devo voar
Se vejo uma tela
devo pintar
Se vejo uma história
devo contar
Se vejo um prato
devo provar
Se vejo um ouvido
devo cantar
Se vejo uma roda
devo dançar
Se vejo uma piscina
devo nadar
Se vejo uma vida
devo amar

Se novo
luto?
Se vejo
devo?
Se velho
cedo?
SIM
Mas não tão cedo

Bate e Volta

O ninho não fica vazio de uma hora pra outra. O abandono acontece, como uma falência, paulatinamente e de repente. Ele, acostumado a ser abandonado, já antevia o de repente no paulatinamente que vive todos os dias.

Hoje é um desses dias, mas é noite.

Dá dez horas e o celular vibra. Mensagem dela:

PODE VIR ME BUSCAR.

Ele vai. Sem pressa. Tem tempo de se banhar, se arrumar e, inclusive, ir a pé. Se chegar rápido, sabe, ela vai reclamar. E se chegar tarde também. Fazer o quê?

Pega a Esteves Junior e encara a rua escura, protegida da luz dos postes pelas grossas copas das árvores baixas. Passa em frente aos barbeiros, onde a essa hora ainda tem gente cortando o cabelo; para na Marlene, toma uma água tônica e conversa com quem estava lá sobre assuntos que não tomarão o menor espaço na sua memória; dá um oi pra Naná e promete passar, no dia seguinte, pra comprar aquele novo queijo que chegou hoje. Na Upa Pet, com uma fila de pets doentes, tadinhos!, na porta, dobra a direita e pega a Paissandu.

Sob as sombras das palmeiras imperiais, adornando o caminho do palácio Laranjeiras até o mar, esbarra na princesa Isabel a caminho da praia do Flamengo indo desafiar a moral do segundo império para dar um mergulho e tentar, sem sucesso, acabar com a escravidão no Brasil.

Licença, princesa.

Toda, plebeu.

É uma graça essa menina. O orgulho do pai.

Na esquina da Ypiranga, espera ver o Paulinho sentado em seu banco, na portaria do prédio do Ouro distribuindo seus doces para as crianças. Mas ele não está lá, mas ao mesmo tempo está. Na memória, sente o gosto da maizena e do dia, em que o viu sem as chagas que carrega no rosto, depois de ser liberado do hospital sob massivas doses de analgésicos.

Antes de chegar ao Colégio Excelência, ele atravessa a rua para ser não ser atacado pelos piolhos, criados no sangue fresco do maternal, que ostensivamente se escondem nos rejuntes dos tijolos do muro que lhes serve de tocaia para surpreender os pedestres que querem atacar.

Chega na Pinheiro Machado e espera o eterno sinal da Coelho Neto fechar. Olha para suas mãos e sente elas se enrugarem e decaírem como se o relógio estivesse contra si. Na esquina paralisada pelo vermelho do sinal, meninos de rua cospem fogo e fazem malabares preparando a procissão de um rei proscrito que o povo não abraçou, mas votou.

Finalmente o sinal fecha e ele atravessa. Na fronteira entre o Estádio do Fluminense e o Palácio das Laranjeiras os ratos que nos governam saem de suas tocas com escoltas policiais, parando o trânsito e esmagando a nossa liberdade, enquanto os ratos do clube amistosamente se banqueteiam com o lixo refinado dos sócios do pó de arroz.

Atravessa o contra fluxo vindo da Tijuca e sente através do Túnel Santa Bárbara o eco dos gritos dos sambistas fantasmas da Marquês de Sapucaí em busca de paz de espírito, consolo e conselho que nunca terão.

Entra finalmente na Álvaro Chaves e, para chegar na porta do Clube onde a buscará, precisa desviar de hordas atemporais de debutantes endividadoras de pais que flanam faceiras em direção à inescapável maturidade que tentam evitar com sete saias de filó. Infelizmente, antes que elas consigam dobrar a Soares Cabral, viram as mentirosas baratas que, segundo as cantigas que cantavam na infância, usavam apenas uma saia de filó.

E, enfim, a vê. Nem criança, nem adolescente, nem adulta, batendo o pé na porta do clube enquanto olha pro celular. Ainda sem saias de filó, ou anáguas, mas uma promessa não concretizada de abandono do ninho.

Oi, filha.

Oi, pai. Você demorou.

Pois, é. Você não imagina quanto.

E fazem mais uma vez o caminho de volta em direção ao ninho. Não será dessa vez que ele ficará abandonado de vez. Não dessa vez. Em vez.

O Coffee

O participante chega cedo demais no evento e só a encontra a equipe de organização preparando tudo. Meio que pra puxar um papo, chega para um deles e pergunta:

-Que horas começa a palestra mesmo?
-8:30.
-Cedo.
-É, cedo.
-E vai ter?
-O quê?
-Você sabe…
-O quê?
-O Coffee.
-Ah, sim. Vai.
-Que horas?
-8:30.
-Ué, mas essa não era a hora da palestra?
-É.
-Mas e o coffee?
-Mesmo horário. É welcome, não break.
-Ah, entendi.
-Entendeu?
-Pra dizer a verdade, não, mas vai ter pão de queijo?
-Vai.
-E vai começar às 8:30?
-Isso.
-Então, tá bom.
-Então, tá.

*

Os demais participantes chegam e tomam o salão. Os garçons trazem as comidas e as servem. Sucos, café, sanduíches, bolos e, óbvio, os pães de queijo. O participante madrugador come de se fartar. Deslocado, cola no mesmo membro da equipe de produção e tenta puxar um papo.

-Tava ótimo.
-O quê?
-O coffee break.
-O welcome.
-O quê?
-O welcome coffee.
-O que é isso mesmo?
-Ao invés de um café no intervalo, é um no início do evento. Welcome de boas vindas.
-Ah, é, mesmo, saquei. AHAHAHAH!
-Tá rindo de quê?
-Tinha aquela piada antiga do Maguila, lembra?
-Maguila?
-É, Maguila, aquele um boxeador meio bagaceira, peso pesado, agenciado pelo Luciano do Vale que teve um sucesso mais ou menos, e vivia dizendo que ia lutar com o Mike Tyson.
-E lutou?
-Lutou.
-Com o Mike Tyson?!
-Não, com o Mike Tyson, não. Se lutasse ia tomar puta coça.
-Imagino. E a piada? Como era?
-Ah, tá. Dizem que ele foi pra uma luta numa cidade do interior americano e pra receber ele colocaram uma faixa na rua principal dizendo: “Welcome Maguila”. Ele leu a faixa e ficou puto: “Quem foi que disse que esse Wel me come? Vou encher ele de porrada”.
-…
-Não gostou?
-É engraçadinha.
-Se você conhecesse o Maguila ia ser bem mais engraçado.
-Pode ser. Pode ser.
-AHAHAHAH!
-O que foi?
-Agora fiquei imaginando o Wel Come Coffee.
-…
-Não entendeu? O (pausa) WEL (pausa) CO-ME (pausa)CO-FFEE.
-…
-Ah, dá uma chance. Até que foi engraçada.
-Na boa, cara, não foi. Não foi.

*

Na volta do banheiro, o participante piadista vê a equipe de garçons reabastecendo a mesa. Distraído quase esbarra no mesmo pobre coitado da equipe da produção:

-Opa! Desculpa.
-Nada. Tranquilo.
-Me esclarece um troço? O que diabos eles estão trazendo?
-Agora é o Coffee Break.
-Welcome Coffee. Coffee Break. Haja comida. Haja estômago.
-Pois, é.
-Não vou nem almoçar.
-Nem eu.
-Vocês devem comer bem aqui.
-De vez em quando.
-Mas aposto que cansa comer essas comidas de festa todas as horas.
-Até cansa, mas é uma boa economia no ticket.
-Ah, isso é. Isso é.

*

Evento terminado, os convidados deixam o salão. A equipe de produção começa a arrumar a sala para o próximo evento. O participante comilão, cheio de comida nos bolsos, e carregando uns pães de queijo, se aproxima da sua vítima preferida para se despedir. Porquê? Não temos a menor ideia.

-Pô, amigão, obrigado por tudo.
-Nada, nada.
-Palestra show.
-Que bom que gostou.
-E os coffees… vou te falar, tô lotado.
-Imagino.
-O que você quer dizer com isso?
-Nada.
-Tá achando que eu comi demais?
-Eu, não. Todo mundo assim. O Coffee é pra isso mesmo.
-Ora bolas, onde já se viu? A gente é convidado pra vir num evento importante e ainda é ofendido.
-Senhor, eu não quis…
-Não quis o quê?
-Não quis ofender.
-Mas ofendeu! Que diabos. Vocês vão ver só como ele detonar vocês na avaliação.
-Mas senhor…
-Senhor, nada! Passar bem.

Com almoço e jantar escondidos nos bolsos, o participante irritadinho foi embora e jurou: nunca mais ia penetrar nos eventos técnicos daquela instituição. Se bem que o Coffee…Ah, o Coffee, que delícia, que delícia!