Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Projeto de Ladrão

Era só chegar meu aniversário, o Natal, o dia das crianças, que meu pai deixava escondida no cantinho da boca, pronta pra ser usada, a velha frase:

-Você quer que eu roube?

Não importava o que fosse, ou a razão para querê-lo, meu pai sempre respondia aos meus desejos, grandes ou pequenos, com o mesmo questionamento:

-Você quer que eu roube?

Não, eu não queria que ele roubasse. Se não pudéssemos comprar, eu até entenderia. Ou acho que entenderia, se me dessem a chance de entendê-lo. Só não queria sentir que meu desejo fosse transformar meu pai num ladrão, e eu no filho de um ladrão.

Quando via meus amigos com os brinquedos que eu desejava, eu me perguntava: será que seus pais roubaram para conseguir aquilo? Será que vivíamos cercados por um círculo secreto de bandidos, roubando uns dos outros para oferecer aos filhos, futuros ladrões, o produto de suas vilanias? Se todos eram desonestos, por que cabia a mim, e, óbvio, a meu pai o papel dos últimos honestos do mundo? Não parecia justo; não parecia honesto; não parecia, quer dizer, não era honesto ser o único honesto num mundo de ladrões.

Para piorar essa impressão, meu pai ainda reforçava que todos esses bens materiais, conseguidos de forma ilegal, não tinham o destino certo:

-Vê só os pais dos teus amigos. Todos com carro do ano, mas, quando você vai comer na casa deles, o que te oferecem? Cream Cracker e água. Vê só se pode: Cream Cracker e água.

Um dia, na casa de um desses amigos ricos, não deu outra: me serviram Cream Cracker e água. E eu nunca mais esqueci das palavras do meu pai e do que elas significavam para a nossa missão de vida: ganhar dinheiro honestamente para dar o melhor tratamento aos outros.

Assim, em casa, não tínhamos na garagem um carro do ano, quer dizer, sequer tínhamos garagem ou carro, de que ano fosse, mas, quando recebíamos as pessoas, a mesa era farta e ao mesmo tempo humilde.

-Isso? Que nada, não deu trabalho nenhum. É um prazer recebê-los.

Não era. Dava um trabalhão, mas a gente ficava feliz por não ser ladrão. Porém, ser um excelente anfitrião não dava conta de todos os meus desejos e, para atendê-los, eu precisei aprender a roubar. De forma honesta.

Quando eu queria algo que os outros tinham, eu tratava de obtê-lo, legalmente, por algum tipo de subterfúgio. Meus amigos tinham jogos de Atari que eu queria? Eu trocava com eles por bonecos de Star Wars que eu não queria mais. Eu queria revistas em quadrinhos importadas? Eu as pagava com o dinheiro que conseguia por discos usados que eu encontrava no lixo do prédio e vendia nos sebos do centro. Eu queria mais revistas em quadrinhos? Eu as comprava na banca e as revendia em cima de um lençol que eu botava na entrada da portaria. O escambo e o comércio viraram a minha forma de crime. Aprendi a roubar para ser parte da sociedade de consumo.

Em pouco tempo, todas as atividades comerciais ou financeiras passaram a ter um pouquinho de gosto de roubo para mim. Ao mesmo tempo que não eram totalmente erradas, não eram totalmente certas, pois envolviam realizar um desejo meu. E desejar, meu pai não me deixava esquecer, não era nada mais do que um gatilho para incitar ao roubo.

Agora, enquanto escrevo essas palavras, cometo mais um crime: roubo a sua atenção, ansiando por um contato mediado por palavras numa tela ou numa folha de papel. O meu crime é escrever, a minha motivação é te tocar. Um ladrão de palavras.

-Você quer que eu roube?- meu pai continua gritando na minha mente.

Tarde demais, pai. Eu já roubei no seu lugar.

(Em)torce

As suas articulações são frouxas.
Por isso,
você enverga,
mas não se quebra.
Então, torce e
se entorse.
E como se en-
torse.

Dá pra melhorar?

Melhorar? Não muito.
Você pode:
perder peso,
parar de beber,
parar de fumar;
meditar,
fazer esporte,
muscula-
ção;
rezar pela paz mundi-
al,
ter fé no futuro,
e até alimentar
um otimismo
completamente ir-
real
na vida.

E aí? Não torce?

Torce, mas entorse menos.
A gente vive
melhor
e torce pra que não se en-
torse.

Então. só resta torcer
pra não torcer?

Só.
O melhor remédio é mesmo
torcer
pra você não
torcer.

Se é o que dá pra torcer…
fazer o quê?

Não torcer.

Estudo Dirigido

Toda semana de provas, papai ia me buscar no colégio e ficava comigo até elas terminarem. Não sei exatamente qual era o acerto dele com mamãe, mas essa era a única época em que tinha certeza que iria vê-lo. Férias, aniversários, datas comemorativas; nada importava pra ele. Apenas a época das provas.

– Trouxe todos os livros?
– Trouxe.
– Tá bom.

Carregando uma pequena biblioteca, ele me levava pro seu quarto e sala no Bairro de Fátima, e começávamos a estudar. Ele podia viver num lugar melhor, mas, segundo mamãe, morria de medo de não conseguir pagar o meu colégio, e preferia economizar. Por isso também tinha um emprego pouco desafiante, mas seguro, que odiava, para ter certeza que poderia arcar com os meus estudos, e, no caso de uma eventualidade, ou seja, morrer, ter um seguro de vida que me bancasse até eu me formar. Estava tão preparado para essa eventualidade que a sua geladeira tinha os telefones de todos que precisavam ser acionados no caso de um sinistro: desde o seguro até o auxílio funeral.

Mamãe dizia que uma das razões de ter se separado dele foi justamente essa: quando eu nasci, ele abdicou dos seus sonhos e morreu pro mundo. Não sei se tinha sonhos ou se chegou a tê-los um dia, mas uma coisa ele queria: que eu fosse bem nas provas. Queria mesmo.

Quando as notas chegavam, parece que adivinhava, e me ligava:

– Como foi?
– Fui bem.
– Bem como?
– Tudo acima de 90, menos História.
– Traz as provas pra gente revisar.
– Tá bom.
– Tá bom.

No final do ano, quando eu passava, ele pedia pra ficar com todos os meus livros,.

– Vai que cai a mesma coisa no ano que vem.
– Tá bom.
– Tá bom.

Eu cresci, mas a nossa rotina não mudou. Toda época de provas eu me enfurnava na casa dele até que eu passasse bem de ano. Um dia arrumei um namorado. Eu queria apresentar ele pro papai, mas não sabia como. Um dia, depois do jantar, comentei:

– Um amigo da escola queria vir estudar comigo.
– Pra quê?
– Ele não está tão bem e eu queria ajudá-lo.

Ele ficou calado, como estivesse tomando uma decisão de vida ou de morte:

– Tá bom, mas ele estiver te atrasando, ele vai embora.
– Tá bom.

No dia combinado, meu namoradinho apareceu e papai estudou junto com a gente. Uma hora, o menino foi no banheiro, e meu pai comentou:

– Esse menino é muito burro. Vai prejudicar os seus estudos.
– Tá bom.

Eu inventei uma desculpa e mandei ele embora. Nunca mais levei ninguém pro papai conhecer.

No ano do vestibular, eu mudei pra casa dele. Estudamos todos os dias. Quando saiu o resultado, ele me ligou:

– Passou?
– Em tudo.
– Ótimo. Meu trabalho está feito.
– Pai, uma coisa.
– Acho que a faculdade vai ser bem difícil. Será que você pode me ajudar?

Ele ficou mudo no telefone, como se estivesse tomando a decisão mais difícil da sua vida:

– Tá bom. Mas me passa a bibliografia das matérias com antecedência pra eu me preparar.
– Tá bom. Obrigada.
– De nada.

Mesmo sem precisar, todo mês eu ia pra casa dele revisar a matéria e fazer o trabalhos da faculdade. Sob esse falso pretexto, papai estudou tanto pra me ajudar que se estivesse matriculado poderia ter se formado comigo. Quando terminei a graduação, liguei para convidá-lo para a formatura.

– Pra quê?
– Eu quero que você vá. Pra te agradecer.
– Não precisa.
– Mas eu quero, você pode me fazer esse favor?

Mais uma vez emudeceu ao telefone, como se estivesse tomando um decisão impossível:

– Tá bom. Mas não vou ficar muito.
– Tá bom. Obrigada.

Ele foi e, como prometido, ficou pouco. Assistiu à cerimônia e na festa tomou apenas um chope, o que espantou Mamãe:

– Olha, só. Desde que você entrou na escola ele tinha parado de beber.

Quando terminou o chope, se levantou pra ir embora. Eu fui atrás dele pra abracá-lo. Ele estranhou:

– Pra que isso?
– Nada. Só pra agradecer. Obrigada.
– Não precisa.
– Tá bom.

E o abracei novamente sabendo que nunca mais o veria.

Há duas semanas a vizinha dele me ligou: ele morreu. Como estava preparado para todo tipo de tragédia, foi enterrado sem velório ou alarde. O aluguel do apartamento ia vencer e, como meu número surpreendentemente também estava na lista de eventualidades grudada na geladeira, ela queria saber se havia algum objeto que eu queria guardar. Todo o resto seria doado ou jogado no lixo. Meio sem saber porque, eu fui lá.

A vizinha abriu a porta e me acompanhou na visita. O apartamento continuava espartano, do mesmo jeito que na época em que estudava para me tornar alguém. Apenas uma coisa curiosa: ele ainda guardava todos os meus livros e provas que usávamos na revisão. Abri alguns e tive vontade de chorar relembrando regras gramaticais, períodos históricos, e equações de segundo grau. Mas não chorei.

Botei os livros de volta no lugar e chamei a vizinha:

– Pode doar tudo.
– Não vai querer guardar algo do seu pai?
– Não precisa.
– Tá bom.
– Tá bom.

Amigos de bar

A gente se conhece assim: pedindo o isqueiro pra acender o cigarro, ou pedindo um cigarro pra acender o isqueiro; perguntando se a mesa tá ocupada, ou perguntando se pode sentar na cadeira vazia; querendo saber se o outro está na fila da cerveja, ou se alguém está usando o banheiro; se intrometendo na conversa alheia por excesso de conhecimento ou pura ignorância, ou recebendo um comentário pertinente ou totalmente descabido sobre uma conversa que o outro não deveria estar ouvindo.

A gente se conhece assim: numa troca de favores. E abusos.

De favor meu em favor seu, de abuso nosso em abuso vosso, a nossa amizade vai se construindo e, entre uma cerveja e muitas, a gente nem lembra como se conheceu. Muitas vezes a gente não lembra nem o nome um do outro, mas nunca deixa de se cumprimentar na rua.

“Fala, cara, e aí, tudo bem?”
“Tudo, e você, cara, como vai?”

E se nos perguntam, espantados com a nossa sintonia, como tudo começou, respondemos sem pudor:

“Foi aqui. É, no botequim. Como foi? Ah, na boa, a bebida não me deixa lembrar.”
“É, total.”
“Total.”

E em homenagem à amnésia e à amizade, pedimos outra rodada pra continuar a conversa que não pode parar.

“Pô, cara, agora, sério, como a gente se conheceu mesmo?”
“Ah, se tu não lembra, irmão, tu a acha que eu vou lembrar?”

A natureza

Preso a um emaranhado de fios de aço, como uma mosca aguardando se tornar o jantar de uma aranha, ele caminhava com medo e cuidado sobre troncos dispostos como degraus 20 metros acima do solo. Suas mãos calejadas tremiam, agarradas a uma linha de vida que, desconfiava, não aguentaria seu peso; as pernas pulsavam, inchadas e exauridas pelo esforço totalmente desnecessário; o suor brotava da sua testa e descia salgado pelos seus olhos provando que era possível sentir gosto pelas córneas. No chão, seguros, seus colegas de trabalho, hipocritamente, gritavam frases de incentivo:

– Vai, Mário! Você consegue.
– Vai, Mário, mostra o teu valor! Estamos torcendo por você.
– Mário, Mário, Mário!

Na sua cabeça só conseguia rimar seu nome com “otário”, como faziam os meninos na sexta série.

Olhou para a frente e o instrutor do hotel fazenda, a 5 metros de distância, fazia o sinal de “vir” com as mãos. Até ele deveria estar cansado. Pelas suas contas, Mário já devia estar a pelo menos umas duas horas tentando atravessar o trajeto de arvorismo transposto pelos seus colegas em menos de 10 minutos.

– Vem, Mário, só mais dois passos e acabou. E acabou!

Mário moveu as pernas com esforço e elas, moles de cansaço, inesperadamente responderam. Deu o primeiro passo. Os colegas batiam palmas, o instrutor se esticou para agarrar sua mão.

– Vem! Mais um passo e terminou. Vem!

Mário virou o quadril para jogar a perna pra frente, mas ela não teve forças de se firmar no último degrau e seu pé pisou no vazio. Seu corpo virou em direção ao chão, mas o instrutor conseguiu agarrar seu braço e o puxou para a última plataforma.

– Ufa. Foi duro mas conseguimos- o instrutor suspirou.

Sob os gritos de animação dos colegas, ele desceu pela escada presa na árvore e, assim que atingiu terra firme, se atirou ao solo de olhos fechados. Com o corpo destruído pelo esforço, tocando a grama úmida, sentiu uma estranha união com a natureza. Algo que nunca havia sentido. Era como se ele e a árvore tivessem se tornado um só. Não, melhor, era como se ele tivesse acabado de ter sido parido pela floresta. E ingênuo e satisfeito como um bebê, ele sorriu acalentado por uma paz que há muito não experienciava. Protegido e abençoado, sentiu um sono quase primitivo tomar o seu corpo; e a ele Mário se entregou, abafando lentamente as vozes do povo do trabalho e os sons à sua volta, em rumo à inconsciência ou, quem sabe, a uma consciência global.

Escureceu.

Quando abriu os olhos era noite. Estava na mesma floresta do hotel fazenda, porém parecia que tinha viajado 1000 anos no passado. Ele se levantou nú e totalmente recuperado. Instintivamente, poderoso e primitivo, começou a correr pela floresta escura, em busca de si mesmo, e encontrou.

Numa clareira, parado majestosamente sobre uma pedra, um enorme alce negro com olhos de fogo dava as boas vindas à Mario. Boas vindas à floresta, boas vindas a pessoa que ele sempre deveria ter sido.

O alce desceu da pedra e se encaminhou de Mário soprando fumaça da sua boca escura e misteriosa. Aproximou-se do seu ouvido e lhe revelou um segredo:

– Parabéns, Mário, depois dessa você até escapou de ser demitido no fim do ano- disse o Alce na voz do seu gerente.

De volta ao mundo real, abraçado ao chefe e cercado pelos colegas, Mário caiu na real que os meninos da sexta série sempre tiveram razão sobre ele. Otário: essa sempre foi a sua natureza.

O que você vai comer, amor?

A diferença de 4 horas, por incrível que pareça, facilitava seus encontros. Enquanto ele ia almoçar, ela estava tomando café. Para parecer que era um encontro de verdade, sempre comiam fora. Um comendo na copa da empresa e a outra de pijama na cozinha não seria nada romântico. Assim, acordavam cedo, se embelezavam e, arrumados, como manda o figurino, iam comer juntos.

O lugar preferido dele em Berlim era uma lanchonete perto do serviço onde serviam café da manhã o dia inteiro. Já ela, no Rio, comia na padaria da esquina de casa. Ambos pediam ovos, pães e frios, e conversavam como se estivessem juntos. E estavam.

– O que você vai comer, amor?
– O de sempre e você?
– Idem.
– Tudo bem por aí?
– Tudo.
– Muito serviço?
– Sempre.
– Novidades?
– Nah! E você?
– Também nada.
– Bom comer contigo.
– Bom, não. Maravilhoso.
– Então, vamos comer.
– Vamos.

E, assim, oprimidos por rotinas que não faziam sentido serem compartilhadas a um oceano de distância, eles ficavam ao mesmo tempo distantes e próximos, como um velho casal de namorados que se reencontrou depois de enviuvar.

Além dos rituais programáticos e das perguntas e respostas feitas, costumavam conversar sobre quando conseguiriam se ver novamente. A expectativa era sempre em breve, mas ao mesmo tempo insuportavelmente distante. Prometiam ir pra lá, e pra cá, quando o Euro isso, quando o Real aquilo, quando a vida, ah, quando a vida lhes desse um sossego. Traçavam rotas imaginárias, encontros em terceiros lugares, pensavam em morar juntos, em ter uma vida em comum e real, que não fosse mediada por telas, aplicativos ou milhares de quilômetros de fibras óticas.

Um dia, o horário de um deles mudou, ou foram os dois?, eles mesmos não se lembram. Prometeram transformar o café em jantar e lanche, mas as demandas dos serviços começaram a se intrometer e mais vezes cancelaram os encontros do que os levavam a cabo.

Como não podia deixar de ser, o afastamento abriu a porta para novos pretendentes, que se aproveitavam do seu tempo livre e da sua tristeza. Inclusive, a sua história de amor à distância se tornou um grande fator de atração.

– Há quanto tempo namoram?
– Há dois anos.
– E estão separados há…
– Separados, não. Distantes.
– Distantes há…
– Um ano.
– Metade do relacionamento.
– É, não tinha me ligado. Agora que você falou…
– E, é difícil?
– Pior que é. A saudade… sabe?
– Sei. Sei. Fica assim, não. Vem cá pra eu te dar um abraço.

E de abraço em abraço, de acolhimento em acolhimento, acharam novos parceiros. Não lembram exatamente quem decidiu terminar, ou quem contou da traição, mas lembram como o outro reagiu:

– Eu entendo. Não ia demorar pra acontecer. Relacionamento à distância é uma merda- mentiram um para o outro.

Hoje, levam suas vidas, dessa vez separados, pela memória e por um oceano de distância, mas, quando um se senta pra almoçar e a outra prepara o seu café, eles pegam nos celulares por instinto como se coçassem um membro fantasma, um braço, uma perna perdida, da qual sempre sentirão falta. Comem em silêncio, e, quando terminam suas refeições, suspiram tão alto que quase podem se ouvir por cima do Oceano Atlântico dizendo, com a mão sobre o estômago e sobre o coração, “que saudade de comer com você”.