Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

5:25

Entregue à insônia,
você tenta dormir
mais uma vez,
de vez.

Mal fecha os olhos,
na web radio,
começam a tocar
Fleetwood Mac,
Stevie Nicks,
38 degrees,
e tudo mais
feito pra te des
pertar.

Você de
siste e de
cide
dar mais uma chance
à madrugada.

Se está acordado,
algum motivo deve haver,
algum sen
tido
deve
haver.

Pelo menos até o sol nascer,
até o sol
nascer.

Qual será
a próxima música
a não nos deixar
dormir?

As merdas do Arnaldo

Arnaldo, apesar de despachado com os amigos, socialmente era um homem de pudores. Por exemplo, ele nunca comprava papel higiênico no pico de movimento do supermercado.

– Porra, Arnaldo, vai comprar papel. Tá pra acabar- Flavinha dizia.
– Relaxa. Pra hoje tem. Vou amanhã.
– Que diabo de frescura é essa, homem?
– Porra, Flávia. Só não quero que o pessoal lembre que eu cago.
– Arnaldo, cá entre nós, todo mundo caga.
– Eu sei. Eu sei. Só não quero que pensem em mim cagando.

Arnaldo tinha uma certa razão. Não era nada interessante pensar num homem peludo, de quase 2 metros e por volta de 150 quilos cagando.

Por outro lado, cagar era uma das atividades que aparentemente lhe davam mais prazer. Em casa, onde podia ser ele mesmo, longe dos olhares e da reprovação da sociedade, ele se entregava a esse amor por inteiro. Logo depois de terminar uma longa e variada refeição, ele acendia um cigarro, batia na barriga e dizia:

– Agora vou ao trono para coroar essa refeição digna de um rei.

No trabalho, ele também sentia o prazer de evacuar, mas tentava ser mais discreto. Ia no banheiro perto da Copa, que tinha menos movimento, e, ao terminar seus afazeres, batia na barriga e murmurava:

– Não é todo dia que a gente dá uma cagada dessas. Não é todo dia.

Mas era todo dia. E quase toda hora.

Enquanto Flávia sofria de uma bruta prisão de ventre que a deixava literal e figurativamente enfezada, Arnaldo, como um relógio, visitava o banheiro para, segundo ele, “Fechar o ciclo da vida”.

Um dia, a Flávia percebeu que havia algo estranho e perguntou:

– Você foi ao banheiro hoje, Arnaldo?

Arnaldo fez um esforço, mas não lembrava se tinha ido ao banheiro ou não. Quase sem acreditar foi checar o livro que lia quando estava cagando e, sim, ele não tinha mudado de página desde o dia anterior.

– Estranho- murmurou.

O dia seguinte a mesma coisa. Nada de vontade de ir ao banheiro. Flávia até perguntou se ele estava sentindo alguma dor, mas ele não sentia nada.

– É como se estivesse indo normalmente. Normalmente.

Ele até fez um esforço, mas nada saía. No quinto dia sem cagar, ele foi ao médico.

– Calma, amigo. Tem gente que vai pouco mesmo.
– Eu não sou esse tipo de gente. Eu vou sempre.
– Mudou algo na sua alimentação?
– Não.
– Mudança em atividade física?
– Também não.
– Tá bom. Vou pedir uns exames, mas tenho certeza que não é nada de mais.

O médico estava errado.

No exame de sangue deu uma diferença na quantidade de glóbulos vermelhos e no tamanho das hemácias e leucócitos, o que podia ser um indicativo de células atípicas e imaturas circulando no sangue. Ou seja, câncer.

Arnaldo, continuou sem cagar, e fez os exames complementares que vieram a confirmar que estava com a doença maldita.

A comoção entre todos nós foi grande, mas Arnaldo parecia inabalável. Um dia, num momento de vulnerabilidade, ele nos confidenciou a única coisa que lhe incomodava:

– Sabe? Nem tenho medo de morrer, mas, pode crer, sinto uma bruta saudade de cagar.

Eventualmente, com o início do tratamento, ele voltou a evacuar, mas, segundo ele, não era a mesma coisa:

– Sabe? O prazer foi embora. Quando o intestino quer matar o hospedeiro, cagar vira só uma função.

O primeiro tratamento terminou, mas não foi bem sucedido. Enfim os médicos resolveram agir de forma mais agressiva e decidiram tirar logo a parte mais impactada do seu intestino. Arnaldo recebeu a notícia estoicamente, mas Flávia, na vésperas da cirurgia, vez ou outra o via acariciando a barriga e murmurando:

– Saudades dos nossos rolês, amigo. Saudades.

Ele foi operado. O câncer parecia controlado, mas a rotina da bolsa de colostomia foi demais pra ele e Arnaldo entrou numa puta depressão. Apesar de aparentemente curado, ele foi definhando lentamente e de repente seu coração simplesmente parou. Quase como se a vontade de viver tivesse lhe abandonado.

No velório, todos confortamos Flávia, mas ela estava estranhamente de bom humor compartilhando várias histórias de idas clássicas de Arnaldo ao banheiro.

– Viver com Arnaldo era ótimo, mas todas as suas histórias eram de merda. Literalmente- ela encerrava mais um causo e ria.

Enquanto todos processávamos o luto de Arnaldo, o pudor que ele tinha foi totalmente pro espaço. Sua vida privada, na privada, tinha se tornado pública e tudo em que conseguíamos pensar era nele, no Arnaldo, cagando.

É a vida tem dessas coisas. Às vezes as coisas que mais te dão prazer são aquelas que acabam te
levando pra cova. Fazer o que? Nem todas as histórias que vivemos tem finais edificantes ou, mesmo, cheiram bem. Saudades das merdas do Arnaldo. Saudades.

O taxista de Schrödinger

Outro dia, o cara chegou no botequim com uma questão interessante. Disse, ele, que ao pedir o pix do taxista pra pagar a corrida, apareceu um nome de mulher no aplicativo do banco. Pra confirmar se o dinheiro ia pro lugar certo, perguntou:

– Fulana Sicrana de Tal? É isso mesmo?
– Sim- o motorista confirmou.- Esse é o meu nome antes da mudança de sexo.

Na hora, o cara congelou. Estava numa encruzilhada. Tanto podia ser uma piada do taxista como podia ser verdade. Como reagir? Seu instinto e criação nos anos 1980 apontavam para a primeira opção e o instigavam a mandar de pronto um carioquíssimo “ Tá certo, malandro… Fala sério!”. Suas leituras e últimas experiências diziam que ele corria o risco de ser insensível e acabar agindo de forma ofensiva ou até transfóbica. Por segurança, seguiu o segundo instinto, que, em geral, é sempre melhor que o primeiro.

– O banco não usa o nome social?- continuou o papo tentando fingir naturalidade.
– Não, o pior é que não. Tem uma burocracia qualquer que obriga eles a usarem o meu nome antigo- o motorista respondeu sem o menor tom de gaiatice na voz.

O cara fez o pix, saltou do táxi, mas esqueceu de dar uma olhada no motorista pra tentar resolver a sua dúvida. Por mais que a continuação da conversa tenha sido aparentemente séria, havia chances iguais de ser zoação do motorista ou não. Em vez de ir pra casa, aturdido, o cara veio aqui pro bar e compartilhou a história com a confraria.

A galera se dividiu: uma parte achava que era o nome da mulher ou namorada do taxista e ele aproveitou pra dar uma zoada; a outra achava que era verdade. Seja como for, todo mundo concordou que o cara agiu certo:

– Tem que respeitar as diferenças sempre, certo?
– Certo.

Nas semanas seguintes, vez ou outra, o assunto ainda surgia nos papos, e evoluía até o ponto em que alguém tentava encerrar a conversa proclamando:

– É um paradoxo. Um pa-ra-dó-kis-so.

Mas os mais chatos não largavam o osso e continuavam a querer discutir, explicando que a situação era igual ao paradoxo de Schrödinger, aquele do gato que está morto ou vivo ao mesmo tempo:

– Vejam só, o taxista, nesse momento, pode tanto ser só um zoador como também pode realmente ser uma pessoa trans. Ou melhor, nesse momento, ele é as duas coisas. Abrir essa caixa irá determinar uma realidade que, agora, é dupla. Vivemos em dois universos diferentes até essa dúvida ser sanada. Será que vale a pena ou temos motivo para abrir a caixa e resolver essa incerteza?

O cara, que vivenciou a história, e ouvia as discussões a distância, ficou feliz de ter tomado a decisão certa. Fosse o motorista trans ou zoador, ou mesmo um trans zoador, o cara, tinha certeza, escolheu a melhor opção.

– Tem que respeitar as diferenças sempre, certo? – repetia baixinho pra si mesmo.

Às vezes a melhor resposta ao paradoxo não é resolvê-lo, mas aceitá-lo. E o cara estava certo: isso faz uma bruta diferença.

Agradecer faz parte

Não lembro do filme, mas lembro da frase:

– Não rezo pra pedir. Rezo pra agradecer.

Faz sentido. Pacas. Pedir é meio caminho pra ficar frustrado. Se não recebe o que pediu, você vai ficar puto. Com Deus, com o diabo, com o governo, com você mesmo. Há sempre alguém a se culpar pelo que não conseguiu. Além disso, mesmo se conseguir o que esperava, pedir é prestar menos atenção no que vem na sua direção. Focar numa coisa só te impede de curtir as surpresas que a vida te prepara e elas, muitas vezes, são melhores do que qualquer coisa que você podia imaginar. Por isso se chamam surpresas.

Assim, seguindo o conselho do filme do qual não lembro o título, em vez de pedir por coisas em 2023, vou agradecer pelo que de bom me aconteceu. O que esperava, o que eu não esperava, o que foi surpresa agora, o que já foi surpresa há muito tempo. Vou agradecer.

Vou agradecer por estamos bem e com saúde. Vou agradecer por estarmos trabalhando e estudando. Vou agradecer pelos 20 anos de casados com a Gabi e pela nossa filha maravilhosa, que estreou em livro e peça esse ano. Vou agradecer pelos amigos que nos rodeiam, mesmo que tenhamos perdido alguns muito queridos esse ano; mas pior seria não te-los em nossas vidas. Vou agradecer por saber lidar com o luto como o preço que a gente paga por amar. Vou agradecer por não ter vergonha de citar Elizabeth II. Vou agradecer pelas nossas famílias, meio abaladas pela polarização política, mas aprendendo a lidar com as diferenças de opinião. Vou agradecer pelo fim do (des)governo da besta fera e pela expectativa de normalidade que o ano que vem carrega. Vou agradecer pelos livros que li, os filmes e séries que assisti, tanto as boas como as ruins. Vou agradecer por ter reaprendido a curtir até o que não é bom. Vou agradecer pelos risos, pelas piadas, pelas conversas sérias e assuntos importantes. Vou agradecer por ainda saber separar os momentos leves dos pesados. Vou agradecer por ter lançado meu livro físico e continuar escrevendo (quase) todo dia. Vou agradecer por ter ajudado alguns amigos a publicarem seus próprios livros e estar aprendendo a ser um editor. Vou agradecer pelos lugares que conheci e aos quais quero voltar. Vou agradecer por alimentar meus sonhos, sem a pressão de transformá-los em metas. Vou agradecer pelos projetos em que me meti; tanto os que deram certo, como os que deram errado. Vou agradecer por aprender com isso tudo que rolou. Vou agradecer por ter voltado a nadar, mesmo que ainda  precise vencer a preguiça e nadar mais. Vou agradecer por ter lembrado de agradecer, o que prova que estou menos mal agradecido.

Que em 2023, tenhamos muito mais a agradecer.

Obrigado por me ler nesse e em outros anos. Agradecido. 😉

TT, superlativamente onipresente

Não lembro quando conheci a TT. Foi como se num momento ela não estivesse na nossa vida, e depois ela estivesse em, literalmente, todos os lugares. Uso literalmente sem exagero. Tínhamos amigos em comum aos baldes. Para onde nos virássemos ela estava lá. Na festa de um amigo de colégio, no chopp de despedida de uma amiga do prédio, num encontro na praça com um colega de trabalho. Ela não só parecia conhecer todo mundo, como também era amada por todos.

Era basicamente impossível desgostar dela, apesar das broncas, e olha que broncas, que ela nos dava. Com seu vozeirão rouco e seus gestos expansivos, ela, como a mãezona do grupo, puxava as nossas orelhas em público, sem o menor pudor. A gente até podia ficar puto, mas o problema é que sabíamos que ela estava certa. Sempre. Assim, quando caíamos na real, ou as profecias dela se cumpriam, a gente voltava com o rabo entre as pernas,cheio de vergonha, ao seu convívio. Ela, por outro lado, agia como se nada tivesse acontecido. Tanto sabia puxar nossas orelhas, como acolher.

E como acolhia. Mesmo numa sala com 50 pessoas, ela conseguia sempre passar a impressão de que éramos as pessoas mais importantes para ela, talvez porque fóssemos. Ela, tanto se alimentava das nossas presenças, como retribuía essa energia com carinhos personalizados. Para os de abraços, abraços; para os de beijos, beijos; para os de papo, papo.

E seus papos eram os melhores. Do mais banal ao mais esotérico, ela não só conhecia de tudo, como também tinha opiniões bastante sólidas a respeito. Opiniões que ela defendia com unhas e dentes, para no meio de um ataque de teimosia, mudar de opinião, ou quase, nos dando o seu precioso benefício da dúvida. Era forte, mas sabia ser vulnerável e, principalmente, apoiar os que precisavam de ajuda.

Todo mundo tem uma história de quando ela quebrou um galho, trouxe uma palavra amiga, ou moveu mundos e fundos para nos ajudar. A primeira vez, de muitas, em que colhi a sua generosidade foi quando meu sebo estava bem mal das pernas e ela levou o evento do BOST para ser feito lá, gerando uma puta publicidade gratuita. O que é BOST? Deixa eu explicar.

Ela, criativa pra danar, com seu enorme grupo de amigos, fãs de LOST, fez uma paródia em vídeo da série. Os vídeos, no distante ano de 2005, via o finado Orkut, viralizaram e acabaram na coluna do Tom Leão no Rio Show. Na época, pra dar uma bombada na loja sugeri que fizessem um evento de casting para a segunda temporada na minha loja que estava com certeza precisando de mais clientes. Ela abraçou a ideia e fez uma super bagunça na loja que encheu de gente pra ver ela dirigindo o seu elenco amador. Não lembro como agradeci na época, mas tenho certeza que não agradeci o suficiente.

TT esteve tão presente nas nossas vidas que achávamos que ela sempre iria estar. Quando minha loja faliu e arrumei meu primeiro emprego de carteira assinada, ela estava lá. Quando fomos pra BH, sempre que vínhamos ao Rio ela fazia o maior esforço para nos ver. Quando Gabi ficou 3 meses de intercâmbio, era ela com quem eu batia papo no facebook. Quando lancei meu livro, ela foi uma das primeiras a comprar, a ler, a divulgar e a aparecer na tarde de autógrafos. Óbvio que dando ordem:

– Escreve uma dedicatória bonita pra mim, pô!

Por isso, ontem, quando recebemos a notícia, foi difícil acreditar. Foi difícil aceitar que ela não estará mais entre nós. Não estará no chorinho, não estará na praia, não estará no chopp, nem na feira da Glicério. TT tornou o Rio de Janeiro um campo minado de memórias e sentimentos para nós. Um campo minado das melhores memórias, dos mais doces sentimentos.

Porém, se servir de algum consolo, TT agora estará literalmente por toda parte, em todos os lugares do universo, em todos os planos astrais, e continuaremos esbarrando para sempre com ela nas armadilhas que a sua enorme amizade deixou para nós. TT, sempre no superlativo, se tornou um onipresente presente para o mundo. Obrigado por ter feito parte das nossas vidas.

Nosso nome é Gal

O dia mais lento e mais agitado do sebo era sábado de manhã. Livreiros, ressaqueados dos abusos da sexta-feira, se escondiam, atrás do balcão, enquanto clientes solares e animados buscavam palavras, imagens e sons para lhes fazer companhia no fim de semana. Enfim, era exatamente o tipo de gente que queríamos receber todos os dias na loja, mas não naquele dia.

Numa dessas manhãs, por volta das onze horas, um jovem casal entrou na loja. Ele: magro, de bermuda social, camisa curta de botão, cavanhaque, e óculos de armação transparente. Ela: vestido de chita, cabelo preto e ondulado, preso por um lenço, indo até a cintura, bolsa de lã, sandália franciscana, e bochechas proeminentes e rosadas. Enquanto ela abria caminho dançando pela loja, ele vinha, discreto atrás, pegando o que ela derrubava pelo trajeto.

– Olha, amor, CDs- ela cantarolou.

Ele se colocou ao seu lado e começaram a ver os CDs um por um. Ela não conseguia se controlar e comentava sobre todos, sim, verdade, todos os CDs à venda. De 3 em 3 comentários, ela pedia para colocar um pra tocar:

– Será que a gente pode ouvir um pouquinho desse do Paulinho da Viola?
– E esse da Marisa Monte? A gente pode ouvir a música 3?
– Olha, Xuxa! Ah, esse eu preciso ouvir.

Depois do 3° ou 4° CD, me coloquei ao lado do som para atender aos seus intermináveis desígnios. Por volta do meio dia e depois de passarmos por 23% do cancioneiro popular brasileiro, ela pareceu achar o que queria:

– Amor, você não vai acreditar…Gal! GAL!

Ela nem precisou falar nada, me entregou um CD, daqueles baratos de coletâneas de maiores sucessos, e eu, no automático, coloquei ele pra tocar.

– Ai, pode tocar Chuva de Prata de novo?
– Vai, amor, dança Festa do Interior comigo.
– Olha, ela gravou Vapor Barato também, tipo O Rappa!
– Baby, baby, eu sei que é aaaasssssiiiiimmmm…

Quando terminamos a terceira audição, eu não resisti e perguntei:

– Então, vai levar o CD?
– Claro,- ela não titubeou- quanto é?
– 7 reais.
– Só isso?! Amor, paga ao moço.

O menino magro colocou as mãos nos bolsos, abriu a carteira e nada. Nem um tostão furado. Antes que ele falasse alguma coisa, ela se adiantou:

– Deixa que eu pago, amor.

Ela pegou a bolsa de lã e virou seu conteúdo sobre o balcão. Entre roupas e maquiagens; livros e papéis de seda; pacotes de biscoito e garrafas d’água vazias; ela mergulhava em busca dos 7 reais que lhes dariam o direito a levar Gal para casa. Quando já estava quase desistindo, ela achou um ticket refeição de papel.

– Olha, que sorte! E é um ticket de 7 reais. Vocês aceitam ticket refeição?

Não, a gente não aceitava, mas não me senti no direito de acabar com a felicidade deles.

– Eu dou um jeito- respondi.

Guardei o ticket comigo, peguei 7 reais da minha carteira e coloquei na registradora. Tirei o CD do som, coloquei na caixa e entreguei para eles:

– Divirtam-se.

Ela, como entrou, saiu dançando, enquanto ele seguiu atrás calado, não sem antes se virar pra mim e fazer uma reverência com as mãos em prece. Juro, quase ouvi ele falando Namastê na minha mente.

Logo depois que eles se foram, terminou o meu turno e eu saí pra almoçar. Parei num botequim perto da loja e achei no cardápio um prato que custava justamente 7 reais.

– Vocês aceitam ticket?- perguntei.
– Claro- o garçom estranhou.

Pedi o prato e enquanto tomava uma cerveja, esperando ele chegar, fiquei me perguntando quanto tempo mais aguentaria aquela rotina do sebo. O trabalho era divertido, mas as horas eram longas e o salário, curto. Por mais que pensasse em sair de lá, o que diabos eu poderia fazer para ganhar a vida? Como cantava Gal, eu precisava passar por um longo caminho até poder ir pra outro lugar:

Você precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais
E o que eu não sei mais

Porém, não podia negar, mesmo com a falta de grana, o atendimento aos clientes, como a esse casal, sempre me lembrava que as coisas, por mais difíceis que fossem, iam bem, muito bem, por sinal. Na minha cabeça, Gal fazia coro:

Não sei, comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz
Vivemos na melhor cidade
Da América do Sul
Da América do Sul

Sim, a Gal tinha razão, tava tudo azul e vivíamos na melhor cidade da América do Sul. É, baby, é, baby, eu sei que era assim.