Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Os golpistas e os gaviões

Uma semana depois de tomarem o forte, o cansaço começou a bater nas tropas golpistas. Suas provisões também estavam acabando, mas a esperança ainda era forte. Segundo lhes informaram, o rei deposto, motivo da sua insurreição, sabia de seu esforço e em breve mandaria reforços. O povo escolhido pelo que se dizia o Messias não seria deixado de lado.

Quando a barriga roncava, na hora das refeições que pulavam para economizar alimento, eles se juntavam e rezavam, clamando que o rei deposto ouvisse suas súplicas, destruísse seus inimigos e garantisse seus lugares no paraíso. Se as forças faltavam, a fé compensava, mas até quando?

Na segunda semana, pessoas começaram a adoecer. Sem acesso ao conhecimento médico para salvá-las, afinal a ciência, assim como a arte, era proibida pelo seu rei, eles dispuseram os doentes do lado de fora do forte sobre a grama molhada e a terra nua para morrer logo e não competirem pelo alimento dos que ainda tinham saúde. Nas longas noites de fome e escuridão, era possível ouvir os lobos uivando em comemoração pelas presas fáceis entregues por aqueles que ainda se diziam cristãos.

Os sobreviventes mantinham a fé, mas a cada minuto cada vez mais pessoas se perguntavam se estariam vivas para ver os reforços do rei deposto chegarem para lhes resgatar. Mesmo oprimidos pelo sentimento da dúvida, eles se mantinham calados e vigilantes para afastar qualquer pensamento divergente. O seu rei demanda uma lealdade ferrenha do seu povo e eles não podiam lhe faltar.

Na terceira semana, as fugas começaram. Primeiro tentaram fugir os mais hábeis, depois os que ainda tinham traços de consciência. Para reforçar as crenças do grupo e promover a supressão do pensamento livre, os que eram pegos tentando fugir eram mortos com requintes de crueldade. Na miséria e na dor, apenas a obediência cega ao seu rei pretensamente divino lhes alimentava.

Os corpos das vítimas de suas próprias consciências, ao contrário dos doentes, foram guardados para servir de alimento no caso dos reforços demorarem. O canibalismo, antigamente abominado pela moral do reino, agora era aceito sem discussão em nome da sobrevivência da tropa voltada a garantir o retorno do rei deposto a um trono que não era mais seu.

Na quarta semana, a barbárie tomou conta do forte. Talvez gulosos pela carne humana à qual facilmente se acostumaram, os golpistas transformaram em alimento, não só os fujões e os doentes, mas qualquer um que os autoproclamados líderes considerassem traidores. Quanto maior fosse a fome, mais comportamentos eram considerados traição. Não rezar dez vezes ao dia, mostrar compaixão com os doentes, sentir medo ou reclamar de dor. Tudo estava se tornando motivo para condenar o próximo à morte e à panela.

Quando restaram apenas os líderes, finalmente foi feito um acordo para evitar, ou pelo menos, adiar as mortes. Eles precisavam estar vivos para a chegada dos reforços que iriam recolocar seu rei no poder e destruir as inimigos que ameaçavam o seu falso deus. Assim, continuaram canibais, mas passaram a se mutilar e comer pedaços de suas próprias carnes para se manter vivos.

Na quinta semana, algo surgiu no horizonte. As tropas, sem mãos, braços e pernas, cansadas de esperar, se regozijaram pela sua sorte. Tinham certeza: eram as tropas de reforço do rei. Agora faltaria pouco para ele voltar ao poder. Com muito esforço, abriram os portões do forte para recebê-los. Porém, quando os soldados se aproximaram, eles perceberam que não eram reforços golpistas, eram as tropas dos gaviões do novo rei.

Em desespero, os golpistas tentaram fechar os portões e defender o forte, mas foi inútil. Rapidamente, o pouco que restou das tropas rebeldes foi dizimada pelos verdadeiros heróis do reino que depuseram o tirano que se dizia Deus. Mas os seus seguidores até o fim acreditaram, que mesmo na morte venceriam, pois o paraíso seria deles.

Estavam errados, pois o céu sempre pertenceu à tropa dos gaviões. A eles, desumanos canibais golpistas, só restou o inferno, assim como ao seu rei.

Meu vizinho, Arnaldo

Foi o porteiro quem me alertou do novo vizinho:

– Tá morando do lado de celebridade agora…
– Sério? É atriz? Modelo?
– Não, é homem.
– Ator? Jogador de futebol?
– Melhor você mesmo ver…

Cheguei em casa, e, para não parecer tão afobado, esperei até umas 8 da noite para tocar a campainha do vizinho.

JÁ VAI! – uma voz tenebrosa e sinistra soou do outro lado da porta.

A voz foi um prenúncio muito leve do que me esperava. A porta abriu e lá estava ele: o Major Pavor, o super “herói” da ditadura militar. Dois metros e meio de altura; o rosto putrefato, decorrente da experiência genética que lhe deu superforça e o poder de voo; o uniforme verde e amarelo que foi fundido ao seu corpo para lhe dar invulnerabilidade; acusado de milhares de crimes políticos, dos quais só escapou de ser preso por conta da lei da Anistia; e, pelo o que eu lembrava, tinha sumido no interior do Brasil arrependido de seu passado. Eu esperava que essa parte final fosse verdade.

SIM?
– Oi, er… tudo bem? Eu sou seu vizinho de porta e vim aqui pra me…. ahm…. apresentar. Tudo bem? Seja bem vindo. Bom, se precisar de alguma coisa, você sabe… ahm, é só avisar.
MUITO PRAZER– ele estendeu a mão enorme em minha direção.- PRA FALAR A VERDADE ACHO QUE VOCÊ PODE ME AJUDAR COM ALGO.
– Claro. O que posso fazer por você?

Ele me convidou pra entrar. A sua casa ainda estava cheia de caixas, mas já dava pra ter uma ideia da decoração meio hippie, meio krishnamurti.

AQUI– ele apontou para uma caixa marcada com um adesivo de frágil.- PRECISO PEGAR UM PORTA RETRATO NESSA CAIXA MAS ESTOU COM MEDO DE QUEBRAR TUDO AÍ DENTRO.
– Ok, deixa eu ver o que posso fazer.

Abri a caixa sem muito jeito, mas não quebrei nada. E do meio de folhas e folhas de plástico bolha tirei um porta retrato onde tinha uma foto do Major Pavor com o Betinho, sim, o irmão do Henfil, do Fome Zero.

Ele pegou o porta retrato com a ponta dos dedos e o colocou no rack da televisão.

– Você conheceu o Betinho?- tentei puxar assunto.
SIM. FUI VOLUNTÁRIO NO FOME ZERO. GRANDE SER HUMANO.
– É, eu imagino. Bom, então, foi um prazer. Qualquer coisa…
QUE ISSO. DEIXA EU TE RETRIBUIR. QUE TAL UMA CERVEJA?
– Bom, tá meio tarde…
NÃO ME FAZ ESSA DESFEITA. É UMA CERVEJINHA SÓ.
– Ok, se for uma só…

Não foi uma só. Só saí da casa do Major Pavor de madrugada, depois de ouvir toda a sua epopeia.

Apesar de ter o nome de Major Pavor, ele era um recruta que foi submetido a experiências coordenadas pelo Mengele, que vivia escondido no Brasil e protegido pelo governo militar. Sem muita perspectiva, confessou, fez muita coisa da qual hoje se arrepende. Com a Anistia, ele foi liberado de suas funções e, profundamente abalado pela sua consciência, foi morar numa comunidade hippie no interior de Minas. Lá começou a meditar e se tornou budista. Depois de 40 anos de reclusão voltou à cidade grande para ajudar a cuidar de uma tia nonagenária e fazer faculdade de serviço social. E, contando com as inúmeras cervejas que tomamos, isso terminava a sua história.

Quando fui pra casa, apertamos as mãos no corredor:

– Pô, Major Pavor, vou te dizer, realmente foi um prazer conhecer a tua história.
NÃO ME CHAMA ASSIM. JÁ DEIXEI ISSO NO PASSADO. MEU NOME É ARNALDO. ARNALDO.
– Blz, Arnaldo.

No dia seguinte, no botequim, o assunto era o Major Pavor. Um pessoal se dizia com medo da sua presença. Será que ainda era o reacionário que auxiliou o governo militar? Outro grupo queria se organizar para expulsá-lo do bairro. Onde já se viu dar guarida a um símbolo da opressão? Eu, como o tinha conhecido, me calei. Não sabia o que dizer. Realmente o que ele tinha feito fora imperdoável, mas ele me parecia ter mudado. Por mais que, concordo, ele não devia ter sido anistiado, até quando alguém deve pagar pelos seus crimes? Será que acreditamos de verdade que alguém pode se regenerar ou só dizemos isso da boca pra fora?

Enquanto os ânimos se exaltavam no botequim, de repente, precedido pelos seus ruidosos passos, o Major Pavor passou pela praça, com uma sacola de compras, indo em direção ao Hortifruti.

FALA, VIZINHO– ele acenou pra mim.
– Fala, Arnaldo- respondi.

O botequim todo se virou pra mim, assustado. Depois de um longo momento de espanto, alguém finalmente conseguiu quebrar o silêncio:

– Então, quer dizer que você conhece o Major Pavor?
– Não, quer dizer, eu conheço ele, mas o nome dele não é Major Pavor, é Arnaldo. É Arnaldo.

Filtro

A vizinha intrometida, que adora fazer uma visita sem avisar, termina de desfiar seu rosário de fofocas, e, para justificar o seu monólogo, tenta fingir que ele faz parte de uma conversa:

– E, então, Maria? O que você acha?
– Eu? Mas, quem sou eu?
– Você deve ter uma opinião, não?
– Ter, tenho, mas… opa, acho que a água já ferveu.

Maria vai para a cozinha, tira a chaleira do fogo e começa a arrumar os apetrechos pra coar o café. A vizinha insiste em fingir que estão conversando:

– Maria, você ainda usa coador de pano?
– Pois, é. Fazer o que?
– Por que não usa o filtro de papel? É tão mais prático…
– É, tem razão, é mais prático, mas acaba. E não dá pra viver sem filtro… sem filtro, não dá.

A vizinha pesca a indireta e, junto com o pó, as opiniões dela ficam presas no coador. Maria sorri, pensando como café e silêncio vão bem juntos, mas guarda a opinião só pra si.

Part(ida)

Ainda era alta madrugada quando colocaram a canoa na beira d’água. A Lua iluminava parte do rio, mas, devido ao escuro, era impossível ver a outra margem onde deviam chegar.

– Será que é muito longe?
– Nunca veio nesse rio de dia?
– Não. Você?
– Não sei, não lembro. Mas não deve ser longe. Melhor atravessar o rio do que ficar aqui.
– Isso, sim.

Empurraram a canoa. O primeiro entrou nela e começou a botar tudo pra dentro: os baldes, as provisões, os remos.

– Não esquece das varas!

O segundo trouxe as varas de pesca e as entregou pro primeiro.

– Você realmente acha que a gente vai conseguir pescar?
– Não sei. Vai quê.
– Isso, vai quê.

O segundo empurrou a canoa e saltou pra dentro, enquanto o primeiro começava a remar. Na inércia a canoa se afastou da margem e, aos poucos, não conseguiam ver mais nada: nem um lado, nem o outro. A névoa da madrugada os cercou e não sabiam mais de onde vinham, nem pra onde iam. Na dúvida, remaram. Era tudo o que lhes restava.

– Que horas são?
– Não sei.
– O sol já devia ter nascido, não?
– Não sei. Para de pensar nisso, e vamos remar.
– Isso, sim.

Em breve ia amanhecer e tudo seria diferente. Eles, o rio, tudo. Pelo menos era o que esperavam. Sem passado, nem futuro, remaram em direção aos vapores do destino, que continuava, como sempre, uma incógnita. Pelos menos não tinham esquecido as varas de pesca. Vai quê, vai quê.

despertar

…dormiu.

acordou no quarto escuro e tentou acostumar a sua vista à falta de luz. aos poucos começou a perceber um raio de luz que vinha da janela. se levantou com cuidado para não acordar ninguém e tentou espiar de onde vinha essa luz. de uma janela que nunca tinha percebido, no prédio espelho, em frente ao seu, uma pessoa olhava de volta. se escondeu, num susto, e percebeu, de canto de olho, que a pessoa fez o mesmo.tentou olhar novamente, sem que a outra pessoa lhe percebesse, mas a pessoa imitou seus movimentos. ficou de quatro e, olhando para o raio de luz, engatinhou até à cama, esperando esquecer do outro alguém. quem seria essa outra pessoa? quem seria? será que poderia ser…melhor nem pensar nisso. fechou os olhos, torcendo para ter um sonho que apagasse todo esse medo e estranheza da sua mente. dormiu.

acordou…

O 1° Mergulho

Na primeira segunda-feira da sua aposentadoria, ele acordou no horário de sempre, mas, como não tinha compromisso algum, não soube o que fazer. Ficou uns momentos sentado na ponta da cama, até que ouviu a praia lhe chamando. Foi até a janela e, entre os prédios de Copacabana, conseguiu ver uma nesga de mar.

Estava nublado, ventando um pouquinho, mas não conseguiu resistir. Colocou a sunga e, enquanto procurava uma bermuda, percebeu que não precisava dela. Iria pra praia só de sunga. Ora, bolas, pensou, não preciso mais prestar contas pra ninguém.

Pra não dizer que foi totalmente largado, colocou 20 reais na sunga, botou uma toalha no ombro, calçou os chinelos e partiu.

No elevador, encontrou o vizinho do 802 todo de terno indo pro trabalho.

– Bom dia- cumprimentou com toda a naturalidade que só uma pessoa quase nua pode ter.
– Bom dia, tá indo pra praia?- o vizinho perguntou jocoso.
– Eu tô, e você?

No térreo, cumprimentou o porteiro e ganhou as ruas. Ao seu redor pessoas com suas fantasias de trabalho passavam na direção contrária, lançando olhares de surpresa e inveja. Venceu a multidão, e, no calçadão, frente a uma praia quase vazia, proclamou:

– Tudo meu.

Tirou os chinelos e aproveitou com calma a textura da areia fofa sob os seus pés. Na beira da água se aproximou de uma senhora que, como ele, ignorava o frio para curtir a praia. Jogou o dinheiro e os chinelos, enrolados na toalha, na areia e pediu à mulher:

– Olha pra mim, moça?

Sem olhar para trás, caminhou em direção ao mar. A água gelada tocou seus pés, mas ele não se retraiu. Como a criança que esqueceu que fora, correu em direção à arrebentação, saltando as ondas com as pernas tortas. No rosto, um sorriso enferrujado iluminou o dia nublado. Mergulhou.