Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Espeto

Os churrascos com os velhos ex-amigos se perderam na memória, obscurecida pela cerveja quente, pela farofa pronta, pela carne dura e pelos comentários odiosos, travestidos de piada, que pontuavam nossas pretensas conversas.

Hoje, a brasa morreu, a distância aumentou e o que se dizia piada virou discurso de ódio se fingindo de opinião política liberal conservadora. 

Graças a Deus não há mais churrascos. Hoje, a carne vermelha-sangue na ponta do espeto seria a minha.

Senhora

Senhora, tá me ouvindo aí dentro? Seja bem-vinda a esse mundo doido.

Mas como a senhora  é preguiçosa. Sua mãe já está tendo contrações há horas e a senhora não faz o menor esforço pra sair daí.

Muito prazer, senhora. É uma satisfação finalmente encontrá-la presencialmente.

Vai com calma! Assim a senhora vai deixar a sua mãe seca.

Isso, senhora. A senhora vai andando, se segurando pela parede, e pode mexer na estante, mas não conte pra sua mãe, senão ela me mata.

De todas as primeiras palavras que a senhora teria pra dizer a senhora vem e me escolhe “Batata”?

Não chore, senhora. Também acho o modelo educacional ocidental traumático e tirânico, mas precisamos viver em sociedade. Não é, mesmo?

Como é? A senhora vai querer que eu espere você brincar mais um pouco com seus amigos aí na escola? A senhora não tem respeito por mim, mesmo.

Concordo com a senhora: as provas não servem pra nada. Mas, guarda essa revolta, e termina de estudar essa tabuada de 7. Depois que se formar você muda o mundo.

Eu sei que a senhora é quaaaase uma adulta, mas se chegar depois das 10… bom, você sabe que não vai acontecer nada, mas, por favor, vê se a senhora se cuida.

A senhora realmente quer me apresentar esse senhorzinho que a senhora chama de namorado? Pra que perder meu tempo e memória tentando lembrar dele? Em duas semanas, a senhora nem vai saber como ele se chama.

Quem diria? Universidade… Logo a senhora que dizia odiar estudar. Não dizia? Então canta aí a tabuada de 7 para mostrar que eu estou errado.

Casar? No meio da faculdade? E com aquele senhorzinho que a senhora começou a namorar na adolescência? A senhora me perdoe, mas vou exercer meu poder de veto pela primeira vez na vida. Onde já se viu? Jogar sua vida fora por conta de uns e outros.

Parabéns, senhora bacharel. Agora, me diz, eu não tinha razão quando falei para a senhora não se casar no meio da faculdade? Como era o nome daquele senhorzinho, mesmo? A senhora não lembra ou não quer lembrar?

Se mudar de casa? Pra quê, senhora? Pode ficar por aí, ninguém está reclamando da sua presença. Se bem que, se eu morasse comigo, talvez também quisesse morar em outro lugar.

Que casa bonita a da senhora. Será que tem um quarto aí pra mim? Cansei de morar comigo mesmo e a senhora é uma excelente companhia.

Vou te dizer, que velocidade surpreendente pra casar, hein, senhora. Mas, não se preocupe comigo, só desejo boa sorte e todas essas bossas. Mas cá entre nós, tem algum motivo especial pra essa pressa toda?

Enfim a senhora traz os seus senhorzinhos para me conhecer. Começou logo com dois de uma vez. Conselho? Para por aí. Se forem como você, vai ser problema em dobro.

Não foi nada, senhora. Essa dor repentina é coisa normal, coisa de velho. Você não sabe o que isso, mas vai saber, vai saber.

Claro que eu vou melhorar, senhora. Onde já se viu? Tenha mais confiança em mim.

Sabe, senhora, se existir um lugar onde a gente pode sentir saudade das coisas desse mundo, a senhora vai ser a minha saudade principal.

Senhora, tá me ouvindo aí? Foi um prazer te conhecer.

A Eleição sem Fim

Na última segunda feira do mês de outubro foi realizada a 27a. reunião extraordinária do Edifício Sinceridade para a eleição do novo síndico.

A reunião se iniciou, como esperado, às 7 da noite. Os candidatos cumprimentaram os condôminos e apresentaram suas propostas. Primeiro, o concorrente disse que ia fazer tudo diferente da atual administração, mas não explicou como, nem o quê. Depois, o último síndico relatou que se sentia obrigado a se candidatar mais uma vez para evitar que o concorrente piorasse os atuais problemas do condomínio, os quais ele nem se dignou a enumerar. Com o fim da apresentação das pseudopropostas dos candidatos, a palavra foi passada aos condôminos com direito a voto.

A moradora que tem animais domésticos e apartamentos demais perguntou aos candidatos qual seria a sua política em relação a ter bichos nos apartamentos. Para não perder seu voto, ambos desconversaram. O militar da reserva que tem ocupação e inteligência de menos perguntou como iriam lidar com o problema das drogas e gangues do prédio. Os candidatos tentaram sem sucesso esclarecer que esse não era um problema real, mas, frente aos protestos raivosos do condômino reacionário, para não perder seu voto, ambos disseram ser pela pátria, pela família e pela propriedade. A professora universitária bem intencionada e bem pernóstica perguntou como seria a política de ESG dos candidatos. Sob os olhares de surpresa dos presentes, ela esclareceu que a sigla queria dizer “Enviromental, Social & Governance”, o que no fim das contas não ajudou a tirar ninguém da ignorância. Sem saber responder, e para não perder o seu voto, ambos disseram ser progressistas de carteirinha.

Terminadas as perguntas, os candidatos começaram a discutir, sem substância, sobre suas propostas. Atraídos pelo buraco negro de sentido, os demais condôminos começaram a expressar suas opiniões vazias num monólogo coletivo sem fim. Às 10 horas da noite, cansados do fútil exercício do poder, os candidatos concordaram em continuar com o debate numa data posterior onde a eleição poderia, finalmente, ocorrer.

Enquanto isso, por mais período, o Edifício Sinceridade continua sem governo e sem tirania. Pelo menos por enquanto.

Parece anarquia mas é simplesmente o real sentido democracia: uma eleição sem fim, onde quem ganha são os que não escolhem tolos vaidosos para liderá-los.

Seria perfeito, se não caísse nas costas de um idiota como eu a responsabilidade pelas atas dessas infindáveis reuniões.

Acridoce

Esqueça o amargo
Relembre o doce sabor da
infância
que não sabemos se
existiu
ou se o inventamos para
tornar os dias
de hoje
menos intra-
gáveis

Esqueça o amargo
Sonhe
Mergulhe
Banhe-se
nas doces fantasias
de infâncias que
nossos terapeutas insistem em lembrar
o quão amargas fo-
ram

Esqueça o amargo
Ou
melhor,
finja que o amargo
é/foi
doce
e brinque de
dia-
betes
com suas próprias
me-
mórias

Esqueça o amargo
Como o ar
que res-
piramos
não precisamos lembrar
dele
Ele é tudo o que

Ele é tudo o que
somos

Doces
a-
margos

Desfiando

Quando ele morreu, não foi surpresa. Não era velho, nem doente, mas todo mundo via que ele não se cuidava. Como pra todo mundo, era só uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde ia/vai acontecer; calhou de ser mais cedo. Fazer o quê?

Por essas e outras não foi uma tragédia muito grande. A família foi amparada por conta de seguros e reservas financeiras; os amigos tinham histórias boas o suficiente para exercitarem uma memória positiva da breve sua existência; e, no trabalho, como dizem no mundo corporativo, ninguém é insubstituível.

Porém, quando ele se foi, um pequeno nodo de uma grande rede começou a se desfazer. Sem as conversas sobre as agruras da vida que tinha na banca de jornal, o fardo do jornaleiro ficou pesado demais, ele voltou a beber e morreu num acidente de carro onde atropelou três crianças; a dona do botequim, parece até piada, tomou um baque muito grande nas finanças quando perdeu seu melhor cliente, e o espaço tradicional fechou para deixar no lugar uma, cruz credo, hamburgueria gourmet; e o filho meio maluquinho do vizinho de baixo perdeu o seu amigo de trocar revistas em quadrinhos e, ao invés de se tornar um artista, foi estudar economia como seu pai.

Como eu disse, não foi uma tragédia muito grande, mas foi maior do que aparentou. E, como sempre, o mercado corporativo mais uma vez errou: todos são insubstituíveis.

A Garagem Hermética

Quando eu tinha uns 13 anos, a minha cama quebrou. Como já estava acostumado a cair no sono na sala enquanto assistia à televisão, não me apressei a consertá-la. E assim ela ficou por quase uns sete anos. Depois do primeiro ano sem uso, eu tomei vergonha na cara, e joguei a cama fora. Assim, enquanto eu continuava dormindo na sala, meu quarto virou uma espécie de sala de estar auxiliar onde eu recebia meus amigos.

O quarto não tinha cama, mas tinha uma TV pequena com vídeo cassete; 3 estantes cheias de livros e quadrinhos; paredes repletas de posters; e um 3 em 1 com os meus vinis. Ah, tinha também um baixo elétrico que um amigo me emprestou e, apesar de nunca ter aprendido a tocar direito, eu dedilhava, e dizia que tinha uma banda punk.

O meu quarto era a minha garagem. Um espaço ao mesmo tempo dentro e fora de casa, onde eu e meus amigos experimentamos com tudo o que devíamos e não devíamos fazer. A gente escrevia poesia juntos; se escondia dos nossos pais quando a barra pesava; varava noites acordados vendo clipes na televisão; jogava tarot uns para os outros; planejava, criava e desistia de fanzines; e, depois que comprei um frigobar usado, a “garagem” também passou a fazer papel de bar. A garagem e nós, mal ou bem, crescemos juntos.

O quarto era tanto a minha garagem que preso na sua porta eu tinha um poster do Major Grubert da Garagem Hermética do Moebius pendurado num abismo. Meus amigos não curtiam quadrinhos como eu e não entendiam o que aquele poster fazia alí, mas eu sabia. A minha garagem hermética, como o mundo do Major Grubert, era meu universo de bolso. A única pergunta que eu tenho é: se a minha garagem era tão hermética como me tiraram de lá? Deve ter sido mágica.