Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Adoção

– Onde você comprou esses gatos?
– Não comprei, adotei.
– Ah, tá.
– Porquê? Você não gosta de gatos?
– Acho que gosto, não sei, mas eu já tive cachorros.
– Mas de gatos? Você gosta?
– Não desgosto. Tem as coisas pra eles?
– Que coisas?
– Sei lá, pote pra água, comida, aquele lance pra eles fazerem xixi…
– Areia?
– Isso, areia.
– Tem, não. Tem que comprar.
– Deixa que eu vou lá.

30 minutos depois ele volta com tudo.

– Ó, tá aqui.
– Ai, que ótimo. Obrigada. Já, já, eu arrumo tudo.
– Não. Deixa que eu arrumo.
– Tá bom. Obrigada.

10 minutos depois tá tudo arrumado. Os gatos bebem, comem e fazem cocô.

– Cara, vou te falar. Até fiquei cansado.
– Sério?
– Sério. Vou dar uma deitada.
– Beleza.

Ele deita e em 5 minutos está roncando. Os gatos deitam em cima dele e ele nem se abala. Adoção finalizada.

Conservadorismo à Brasileira

De 2014 a 2016 eu morei na Almirante Gonçalves, na época, a única rua sem saída de Copacabana, e, até hoje, lar do Bip-Bip. Pra quem não conhece, o Bip Bip é um botequim minúsculo onde rolam rodas de choro e samba. Foi administrado durante muitos anos pelo impagável e saudoso Alfredinho, que distribuía o seu mau humor ao mesmo tempo que acolhia os fregueses e a vizinhança com seu enorme coração.

Inaugurado no dia da assinatura do AI-5, o Bip, além de um reduto cultural, tombado pela prefeitura, sempre atraiu um grupo intelectual de esquerda que adorava discutir com o Alfredinho, petista de raiz. Alfredinho tinha também um trabalho social bem forte na área, que era coroado com um almoço de Natal que ele fazia para a população de rua.

Por conta do samba, e, agora me caiu a ficha, pela sua posição política e atitude solidária, o Bip era vítima do ódio de vários moradores que clamavam pelo seu fechamento. Mesmo com toda essa torcida reacionária contra, o Bip se manteve firme com pequenas modificações na sua atuação: a música migrou da calçada pro interior do bar, e, em vez de aplausos, os clientes estalavam os dedos ao fim das músicas.

Um dia, voltando bem tarde pra casa, pelo caminho da praia, passei no Bip, onde a galera animada curtia uma roda de samba curiosamente acompanhada por um russo no violoncelo. Duas lojas à frente, tinha um depósito de gelo que servia de bar e espaço para uns bombadões desocupados da área assistirem a jogos de futebol e tomarem cerveja na rua. Nesse dia, lá no Gelo, dois caras assistiam a um jogo, sentados em cadeiras de plástico, fumando maconha.

Quando a música terminou e o povo começou a estalar os dedos, os caras do Gelo aproveitaram a deixa e começaram a gritar:

– Vai pra Cuba, seus petistas. Lula Ladrão! Calem a boca, seus esquerdistas do caralho.

O povo do Bip, já acostumado com essas reações, nem se ligou. Enquanto eu passava na frente dos dois paladinos da moral e dos bons costumes, um entregou o baseado pro outro e disse:

– Me admira você, fulano, o maior maconheiro de Copacabana, dizer que vai votar no Bolsonaro.

O outro deu uma bela tragada, soprou a fumaça em direção ao céu e respondeu:

– Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Acima das nuvens

Quando Luna o expulsou do quarto, no meio da noite, seu primeiro pensamento foi ir embora, ir embora de Copacabana.

Ele subiu ao terraço do hotel e acionou o aplicativo para chamar um dos táxi voadores que cortavam os céus da cidade.

Apesar da chuva torrencial, para a sua sorte, os táxi voadores ainda estavam em atividade. E, mesmo sendo tarde da noite, os preços indicados pelo aplicativo estavam, senão baratos, justos. Na verdade, qualquer preço seria barato para ir para longe dalí, para ir para longe de Luna.

Mais rápido do que esperava, o carro voador varou a parede de nuvens e, trazendo uma penca de gotas e umidade, estacionou suavemente bem na sua frente.

O piloto abriu a porta e o convidou a entrar. Ele, com o rosto molhado de chuvas e lágrimas, entrou no táxi, sem cumprimentar o aviador. Sentou-se no banco de trás, amuado, e contou os segundos até o carro decolar.

– A noite está linda- o aviador puxou conversa.
– Onde? Onde está essa beleza toda? – ele respondeu reativo.
– Acima das nuvens. Acima das nuvens dá até pra ver a Lua.
– Cansei da Lua. Cansei do Luar.
– Então, o senhor prefere ir pelo meio das nuvens?
– Pode ir. Não é essa turbulência que vai me derrubar.

Dr. Molon e Mr. Moro

No caminho para o trabalho, Marco esbarrou com um bando de gente balançando bandeiras de apoio à candidatura de André Ceciliano ao senado. Bem ciente das contradições do PT carioca, ele, só de zoação, resolveu gritar “Molon!” pra dar umas boas risadas. Para seu espanto, quando abriu a boca, do fundo da sua garganta saiu um longo e sonoro:

– Mooooro!

As pessoas à sua volta se viraram procurando quem poderia ter dado esse grito tão sem propósito em pleno Largo da Carioca. Profundamente envergonhado, e sem entender como esse engano podia ter acontecido, ele tampou a boca com a mão e, de cabeça baixa, foi para o trabalho quase em marcha atlética, esperando não ter sido reconhecido.

O dia no trabalho foi bem pesado, mas o ato falho da manhã não lhe saiu da cabeça. Por que diabos teria gritado “Moro”? Fazia tempo que nem pensava no ex-juiz curitibano mezzo-bolsonarista mezzo-soprano. O que esse engano podia significar? Pensou em comentar com alguns amigos do trabalho, mas ficou com medo de escandalizar os progressistas ou, pior, aproximar os liberais na economia e conservadores nos costumes que escondiam seu fascismo atrás do discurso “não converso sobre política”. Segurou a onda, ficou quieto e guardou o assunto para falar com a Suzette quando chegasse em casa.

Durante o jantar, enquanto comiam os restos de pizza do dia anterior, ele finalmente tirou do seu peito o peso do acontecimento da manhã:

– Pô, Suze, nem imagina o que aconteceu hoje. Eu vi uns caras apoiando o André Ceciliano e resolvi gritar o nome do Molon pra tirar uma com eles, mas acabei gritando Moro. Que louco, né?

Suzette interrompeu a mordida da pizza no meio, pousou ela no prato e balançou a cabeça desconsolada.

– Tudo bem, Suze? – Marco estranhou.

Ela sorriu forçado e levantou um dedo, como se pedisse pra falar em sala de aula:

– Tudo, amor. Só um minutinho que eu preciso fazer uma ligação.

Suzette saiu da mesa, digitou algo no celular e começou a falar no canto da sala:

– Sim, doutor. De novo. Começou. Não, não. Foi só um sintoma pequeno. Sim, sim. O que eu faço, então? Hum, hum. Vocês chegam aqui quando? Ótimo, ótimo. E, enquanto isso, o que eu faço? OK, OK. Vou tentar, vou tentar. Venham logo, por favor. Muito obrigada, muito obrigada.

Intrigado, Marco a questionou:

– Suze, com quem você estava falando?
– Com ninguém, amor. É que eu lembrei de uma coisa e…
– O que é isso? Vai impor sigilo de cem anos aqui em casa? Olha só, não quero ninguém aqui em casa compactuando com essa postura de comunista.

Suzette arregalou os olhos e o próprio Marco percebeu que havia algo errado. Ia falar bolsonarista e da sua boca saiu “comunista”.

– Suze, você viu? Aconteceu de novo. Amor, me ajuda. Não sei o que está rolando comigo.
– Calma, amor. Senta aqui no sofá e vamos assistir algo pra você relaxar. Isso, senta. Respira fundo. Deixa eu ligar a TV. Daqui a pouco começa Pantanal…
– Ótimo, estou mesmo precisando relaxar. Pode botar aí na Globolixo, amor.

Ao ouvir aquela palavra brotar da sua boca, Marco teve certeza de que estava tendo um derrame ou algo parecido. Só isso podia explicar essa troca de palavras. O que mais podia justificar ele estar falando como um fascista?

– Suze! Me ajuda, acho que estou tendo um treco. Suze, o que está acontecendo comigo?

Suzette, muito séria, não se moveu.

-Suze, vem cá! Por que você não me ajuda?

Suzette suspirou e se encaminhou para a estante de onde tirou um celular escondido por trás da coleção de livros do Chico Buarque.

– Marco, fica calmo, você não está morrendo, nem nada. Mas se prepara pro que eu vou te mostrar. Pode ser um bruta choque pra você.

Ela sentou ao seu lado e começou a mostrar para ele um álbum de fotos onde Marco, vestido de camisa do Brasil, daquela amarelinha, sorria extasiado.

– O que é isso, Suze? De que Copa é isso? Tem anos que eu não uso essa camisa, porque….
– Exato, Marco. É exatamente o que você está pensando.

Ela continuou avançando pelas fotos e ele começou a identificar a praia de Copacabana, as faixas pedindo o Impeachment, e, surpresa total, numa delas ele mesmo carregava um cartaz pedindo intervenção militar e o fim do STF.

– O que é isso? Isso só pode ser fake news- se indignou.- Eu nunca…
– Calma, Marco. Eu também caí nessa.

Nas próximas fotos ele e Suzette apareciam abraçados com uma bandeira do Brasil fazendo arminha com a mão.

– NÃO! Isso não! Tudo menos isso. ISSO NÃO.
– Marco, a gente errou. Eram tempos complicados. A economia tava uma bosta, tinha a lava a jato, aquela série do Padilha no Netflix, e no Jornal Nacional toda hora aparecia aquele cano cuspindo dinheiro. A gente foi na onda. Eu já aceitei isso e mudei de ideia, mas você parece que não aceitou essa inconsistência política e, vez outra, tem esses surtos quando relembra que foi…
– Fui o que, Suze?
– Bolsonarista.
– Bolsonarista? Logo eu que fiz campanha pro Lula?
– Em 2002, sim. Mas em 2014, olha só…

Na próxima foto lá estava Marco abraçado com Aécio Neves.

– Para, Suze! Você está me assustando.
– Calma, amor. Fica calmo. Vez ou outra você tem esses surtos mas eles passam e você esquece de tudo e volta a ser uma pessoa normal.
– Mas por que isso acontece?
– Bom, tem algumas teorias. Dizem que pode ter a ver com a economia. Quando ela vai bem, você apoia qualquer governo que estiver rolando; quando vai mal, você segue na direção oposta. Mas ninguém tem certeza do que causa isso. Alguns dizem até que é uma doença crônica. Uma espécie de característica comum da classe média…
– Mas eu sou de esquerda, Suze. Gosto de Chico Buarque, tenho todos os discos do Caetano, li até os livros da Márcia Tiburi.
– Não leu, Marco. Assim como não leu os do Olavo, quando ficava de direita.
– Eu nunca tive livros do Olavo.
– Não?

Suzette se levantou e abriu uma gaveta no rack da TV. Lá dentro, sob um fundo falso, estava exatamente o que Marco não queria ver: livros do Olavo de Carvalho, DVDs de versões estendidas de Tropa de Elite e um bando de CDs de cantores sertanejos.

– NÃO! EU NÃO POSSO SER BOLSOMINION! NÃO, NÃO POSSO! ISSO É MENTIRA. MENTIRA!

Enquanto Marco gritava de joelhos lamentando a própria sorte, a campainha tocou e Suzette abriu a porta de entrada. Dois enfermeiros enormes entraram na casa, sem pedir licença, agarraram Marco, lhe deram uma injeção e o levaram embora numa camisa de força. Uma médica, que ficou parada na porta, deu algumas indicações para eles e se aproximou de Suzette. Vendo o celular com as fotos de Marco sobre o sofá, ela perguntou:

– Por que você mostrou as fotos para ele?
– Não tive saída. Ele começou a surtar achando que ia morrer.
– Entendo, mas, atenção, só use isso em último caso.
– OK, OK. Será que ele melhora rápido? Esses surtos estão ficando cada vez mais comuns.
– É, parece que o quadro está evoluindo negativamente, mas vamos torcer que ele demore pra ter outro episódio.
– Quando ele volta pra casa?
– Acho que antes do fim de setembro ele já estará em casa.
– Antes de 2 de outubro ele já vai estar aqui? Quer dizer que vai ele poder votar?
– Bom, votar, ele até pode, o problema é em quem. O problema é em quem.

A vassoura atrás da porta

Receber é uma arte. Expulsar também. E nisso meu pai era um mestre; na segunda arte, quero dizer.

Quando as visitas passavam do tempo que ele considerava regulamentar, ele se recolhia no quarto sem falar com ninguém. Algumas vezes, no caminho para a cama, depois de levar copos e pratos ruidosamente para a pia, ele varria a sala, esbarrando de propósito nos pés dos convidados, e depositava a vassoura atrás da porta, como mandava a superstição. Mas, para ele, isso nada tinha de místico, era apenas um sinal para que os convivas se ligassem, se levantassem e nos deixassem em paz.

Se mesmo assim eles não se tocassem, ele ia dormir. Ao invés de colocar o seu pijama, ele, nesses dias de festa, preferia dormir de cueca. Tentava tirar um pequeno cochilo e se as vozes dos convidados ou o som da música continuassem a incomodá-lo, ele ia tomar um copo de leite quente para tentar atrair o sono. No caminho da cozinha, passava de cueca pela sala como se estivesse sozinho em casa:

– Opa, não imaginava que vocês AINDA estivessem por aí- dizia, fingindo surpresa, e seguia para cozinha para esquentar o leite que o faria dormir.

Quando chegava nesse ponto, ninguém insistia em continuar na festa e todos partiam. Como disse, meu pai era um mestre.

Às vezes, quando caio na asneira de convidar alguém para a minha casa, vejo como herdei a intenção, mas não a técnica do meu pai.

Enquanto as pessoas tendem a se alimentar do contato humano, eu tendo a me exaurir. Depois das 10 da noite ou depois de 2 horas de interação, o que vier primeiro, sinto vontade de me recolher. Cá entre nós, já foi o suficiente. Depois desse tempo, em geral, as conversas se tornam mais altas, mais repetitivas e mais esquecíveis. Ou seja, não há nada que vamos falar hoje que não possa ser silenciado ou deixado para amanhã.

Nessa hora, se estou na rua ou numa casa alheia, eu simplesmente parto, sem avisar a ninguém. Algumas vezes, mesmo com pessoas à minha frente, eu simplesmente viro as costas e vou embora, sem dar nem tchau, o que, eu sei, é feio a beça.

Se o encontro é na minha casa, eu, ao contrário do meu pai, não tento expulsar ninguém. Eu simplesmente começo a agir como se estivesse sozinho. Coloco a TV numa série que estou assistindo; vou pro escritório trabalhar; abro um livro e fico lendo na sala; ou vou pro quarto, me deitar para assistir um VHS ou um DVD. Em geral, uns 10 minutos depois de entrar nesse modo, eu durmo e deixo a casa na mão dos convidados. Como tenho sono pesado, ao contrário do meu pai, não preciso de leite quente nem de passar de cueca na sala para ignorar as pessoas que insistem em socializar comigo.

Hoje em dia, em algum momento- não sei exatamente quando, afinal já estou dormindo-, o pessoal se liga e vai embora por conta própria. Quando eu era mais novo ainda tinha a surpresa de encontrar gente conversando na sala ou na cozinha quando eu acordava perto do amanhecer ou de esbarrar com alguns corpos esparramados pelo chão e pelos sofás com o sol já alto. Sei que pode parecer um abuso que se aproveitem da minha casa dessa forma, mas não tenho ninguém a culpar a não ser eu mesmo que, sabendo como sou, ainda me submeti a essa ideia idiota de que teria a habilidade e a arte de receber.

O fato, eu descobri, é que não existem visitas chatas, mas anfitriões relutantes. Então a culpa é toda nossa por insistir em fazer algo que não queríamos fazer desde o primeiro momento. Por isso, como os proverbiais filhos de Vinícius, agora eu sei, visitas, melhor não tê-las, mas, se não tê-las, a quem vamos expulsar para exercitar nossos vis instintos anti sociais?

Amanhecer

Ontem, a gente via o nascer do sol do outro lado, do lado daqueles que ainda não tinham dormido. Voltando de boates e bares, encharcados de álcool e conversas essenciais, seguíamos de carona em carros de desconhecidos em direção a casas que não fossem as nossas. Abríamos janelas e geladeiras na busca vital por ar e pela última dose; ligávamos televisores e cd players como trilha sonora para nossas últimas investidas amorosas; nos esparramávamos em futons e camas estranhas dando boas-vindas ao sono do qual necessitávamos; fumávamos cigarros e começávamos conversas tentando nos manter acordados para sempre. Não sabíamos o que queríamos, não sabíamos de nada, e estava tudo bem. E estava tudo bem.

Hoje, a gente vê o nascer do sol pelo outro lado, do lado daqueles que acabaram de acordar. Despertando assustados de sonhos estranhos dos quais não conseguimos lembrar, encharcados de suor e solidão, vamos arrastando os pés doloridos até cozinhas silenciosas em busca da cura inexistente para a ressaca da vida. Abrimos janelas e geladeiras para contemplar nossos desejos e lembrar dos nossos erros; entramos na internet em celulares e computadores tentando buscar a impressão de um amor que um dia achamos já ter sentido; nos enrolamos em cobertores e abraçamos travesseiros, tremendo, tomados pelo medo de dormir, mas com o terror de acordar; sentimos vontade de fumar e lembramos que precisamos parar, com isso e com tudo mais que já nos fez felizes; começamos monólogos em redes sociais tentando capturar a atenção de alguma alma que possa salvar a nossa. Save Our Souls, SOS, escrevemos repetidamente sem resposta em muros digitais. Esquecemos, sim, o que é querer; e nem lembramos da última vez em que quisemos algo verdadeiramente, e isso é tudo que nos resta. Sim, é pouco, é ruim, mas é tudo o que sempre merecemos. O que sempre pedimos para acontecer.

Amanhã, como será o amanhecer? Amanhã, como será amanhecer?