Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Um minuto de pareidolia

Deve ser a pareidolia falando, mas, ontem, ao ver o pessoal da TI levar embora o computador que me acompanhou nos últimos 4 anos e meio de trabalho, desde que comecei nesse “novo” emprego, não posso negar, bateu um pequeno luto.

“you say good bye…”

O trackpad já estava descascando da minha teimosia em não usar um mouse, e a tecla de seta esquerda tinha surtos de inesperada hiperatividade devido à minha obsessão em corrigir e ficar insatisfeito com o que escrevo, mas, mesmo o novo computador sendo uma necessidade, achei que a despedida foi prematura. Sempre é.

O que devo estar me assustando de verdade é o que essa troca significa. Sim, mudar de um computador é o fim de um ciclo. Quer dizer que fiquei tempo suficiente numa relação, não só com o computador, mas, de trabalho, para que as coisas comecem a quebrar à minha volta. Ao mesmo tempo, há a sensação de continuidade. Afinal estou vivendo a oportunidade do início de um novo ciclo, com um novo computador, e, por que não?, de uma nova relação.

Como serão esses novos tempos? Em que situações essa nova máquina irá me acompanhar? Teremos um relacionamento tão próximo, junto à minha família, como rolou na pandemia com o antigo computador? Ou seremos apenas colegas, que visitam a casa do outro no dia semanal de home office? E, mais importante, o que esse relacionamento irá refletir da minha relação com o trabalho em si? Perguntas, perguntas, perguntas…

Sim, estou exagerando, mas, me desculpem, como disse, é a pareidolia falando.

Toda a mudança de relacionamento desorienta

Adeus, dellzinho querido, boa sorte em sua nova vida. Olá, novo dell, seja bem vindo.

Ruínas Recentes

Pelas frestas das cidades, nos lugares que escapam à nossa atenção, os sinais de uma história recente se acumulam e apodrecem, como lembranças de um tempo que esquecemos rápido demais, como mau agouros de um futuro repetente. O que as novas gerações irão aprender, ou imaginar, sobre nós a partir dessas ruínas não intencionais?

Todo pirata…

Uma das verdades mais chatas na qual temos mais dificuldade de acreditar é que todo pirata quer se tornar um almirante. Talvez tomados pela ingenuidade de acharmos que hoje ainda existem valores que falam mais alto que o dinheiro, emprestamos nossa boa fé e nossa confiança a tantas empresas que aparecem prometendo fazer as coisas de forma diferente do que “as outras” estão fazendo.

O Substack, que começou se vendendo como uma alternativa às redes de mídia social, já dava claros sinais que seguiria o caminho daqueles que maldizia. Fez vista grossa a nazistas, criou ferramentas para tentar capturar a audiência do Twitter, morto a pauladas pelo Elon Musk, e começou a nos bombardear com subornos para trazermos mais usuários para a sua plataforma. Mas hoje, pra mim, um limiar definitivo foi ultrapassado.

Recebi um e-mail informando que havia uma mensagem da autora de uma newsletter que sigo e descobri que só conseguiria acessar se tivesse o app do Substack instalado. Enfim, a plataforma que prometia acabar com o modelo das ferramentas de mídia social através do contato “pessoal” do e-mail se assumiu como uma delas.

Como dizia Guilherme Arantes, “Adeus também foi feito pra se dizer”. Então, Substack, bye bye, so long, farewell.

Se alguém realmente quer conhecer uma plataforma que se opõe ao modelo das redes de mídia social, recomendo a daftsocial.com, onde você não segue ninguém, não pode apagar postagem, e só consegue publicar apenas o que couber no campo de assunto de um e-mail que envia pra plataforma. Uma rede verdadeiramente antisocial. Bom, pelo menos por enquanto… Por enquanto…

Mestres e Deuses

Recentemente reli o livro do Jaron Lanier sobre os porquês de se afastar de redes sociais e tive uma pequena epifania. Nosso problema não são as redes sociais, mas as estratégias de controle de comportamento; o que nos preocupa realmente é que pessoas ou métodos não transparentes e efetivos consigam promover mudanças ou incitar comportamentos com os quais não concordamos conscientemente.

Evitando a discussão de que “não existe livre arbítrio”, comecei a pensar se todos os conflitos humanos não se resumem basicamente a isso: apoiar ou rejeitar ferramentas de controle comportamental. O engraçado é que muito do que temos hoje e chamamos de cultura (religiões, pátrias, instituições, escolas) não passam disso: ferramentas de controle comportamental. Porém elas estão tão entranhadas nas nossas rotinas e rituais sociais que as consideramos, erroneamente, naturais, exatamente o que elas não são.

Concordo que as estratégias e ferramentas para influenciar comportamentos considerando contextos individuais estão mais poderosas e rápidas, mas, cá entre nós, conceito de indivíduo no qual elas se calcam é coisa de menos de 300 anos e os métodos em que elas se baseiam são velhos e conhecidos. Por exemplo, a sua principal cartilha de referência, o velho manual do Skinner, Ciência do Comportamento Humano, foi publicado há mais de 70 anos, e, junto com muitas práticas derivadas da atuação do exército americano, é a base das estratégias de engajamento e cultura corporativas, que promovem subrepticiamente a doença mental. E, disso, não vejo quase ninguém reclamar. Pelo menos, não publicamente.

A justificativa de proteger a infância e as “tradições” desse artefato do apocalipse é ainda mais furada, pois ignora que a infância é uma invenção; que os adultos, submetidos há anos de condicionamento, são mil vezes mais inflexíveis e vulneráveis do que elas; e que as tradições não passam de novidades que envelheceram e estão lutando contra moinhos de vento em seus leitos de morte.

Por isso, quando vejo o pessoal falando da IA como um dos arautos do fim do mundo, lembro do que já se falou da TV, dos computadores, das minissaias, do rock’n’roll, das revistas em quadrinhos, do jazz, da prensa, e até da Escrita. Enfim, vivemos em ciclos repetitivos de buscar ameaças à existência humana, como se ela fosse importante de fato, e de glorificar os métodos de controle comportamental com os quais estamos acostumados e que promovem as ideologias que professamos (ou que nos adestraram para professar). Afinal, pensamento livre é uma característica que só atribuímos a nós mesmos, enquanto ideologia é algo que só os outros têm.

Pensando bem, ignorem tudo o que escrevi. Segundo a minha própria defesa, todo esse argumento não passa do resultado de inúmeros processos de controle aos quais fui submetido. Como os que tecem loas ou gritam alertas sobre a Inteligência Artificial sou apenas uma peça num sistema que não conseguimos vislumbrar, cumprindo o papel para o qual fui criado e adestrado, mas completamente desconheço.

Talvez a única saída para esse ciclo perverso seja abandonar o medo e o desejo; nos libertar do mundo material; transcender nossos egos. Mas isso ninguém quer fazer. Enfim, o problema me parece não ser a inteligência artificial mas que ela é bem melhor que a gente num jogo da nossa própria criação.

O que nos falta lembrar é que esse jogo pseudo civilizatório, no qual a inteligência artificial prevalecerá, só é possível vencer por WO. Ou, como diria o Garbage, o futuro é meu, como sempre, sem deuses ou mestres para obedecer. A não ser aqueles que nós mesmos cultivamos e entronizamos.

The future is mine just the same
No master or gods to obey
I’ll make all the same mistakes
Over and over again

(Diz se) 9 não são vinte

A primeira década é subestimada.

Espremida entre o nascimento e a ansiada adolescência, a primeira década, consumida pelas falhas da memória em primeiro uso, parece um tempo a ser esquecido.

Mas, apesar de você não lembrar quase nada da primeira metade dessa década, a segunda metade, mesmo que guardada em névoas espectrais e nostálgicas, estabelece muito do que você é, pois, traumaticamente, foi quando ocorreram todos seus primeiros encontros.

Os primeiros amigos; as primeiras desilusões; as primeiras emoções fortes. Os primeiros amores; os primeiros livros; os primeiros filmes. Os primeiros aprendizados; os primeiros sonhos; as primeiras frustrações.

E por mais que a falta da organização lógico formal, que irá dominar o restante da sua vida, impeça você de resgatar todos esses momentos, eles, tenha certeza, serão a sua razão para fazer tudo o que viver daqui pra frente.

A razão do seu medo de elevador. A razão de você não gostar de andar de ônibus. A razão de você querer comer sushi toda vez que entrar de férias. A razão de você adorar ficar de cabeça pra baixo e subverter a maneira de se sentar em todos os móveis e cadeiras. A razão de odiar mastigar gelo. A razão de desconfiar demais de figuras de autoridades e confiar além da conta em novas amizades. A razão da sua raiva de palhaças pois um dia uma delas te jogou numa piscina com uma bundada. Enfim, a razão de todas as coisas que parecerão não ter razão de ser, mas tem. E ó se tem.

Nesses primeiros dez anos, que antecederam a sua adolescência, você teve contato com as experiências primais que serão rebuscadas em suas próximas rodadas.

Os afetos virarão romances. As brincadeiras virarão vocações. Os medos virarão crenças. As conquistas virarão valores. As fantasias virarão planos de vida.

E, enquanto planeja e executa essa vida futura, você esquecerá desses 10 primeiros anos. Os anos que lhe fizeram se apaixonar pela vida; os anos que lhe deixaram curiosa sobre até onde você e o mundo podem chegar; esses 10 primeiros anos estarão escondidos embaixo de fotos com pessoas das quais não lembrará, e de histórias que seus pais contarão e você terá certeza que não foram bem assim.

Por isso, agora que começa a sua jornada em direção aos 20 anos, lhe peço: não esqueça dessa sua primeira década. A década em que lhe conhecemos e, por incrível que pareça, a década em que mais esteve com a gente, de uma maneira que jamais estará.

Assim, lhe desejando sorte nesse gradual se descolar dos seus pais, eu só lhe peço que não esqueça de tudo que passamos juntos e de todas as experiências que são a base da pessoa incrível que você é e será.

Mas não precisa ser que nem o Casimiro de Abreu que está enterrado lá na Igrejinha perto da casa da tia Dé. Afinal “que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”, como você sempre diz, é dessas coisas super bregas que só o seu pai gosta.

Então, sem mais blá-blá-blá, lhe desejamos um feliz aniversário, uma incrível segunda década, esperando que tenhamos lhe ajudado a ser um pouco mais feliz nessa primeira!

Beijos do seu pai e da sua mãe que a amam.

Li e Gabi

O melhor presente de Natal pra você é VOCÊ!

Avaliado no Brasil em 24 de dezembro de 2023
Compra verificada

Dentre todos os presentes de Natal que ganhei, e me dei; dentre todo lixo que consumimos para fazer rodar a economia artrítica do capitalismo tardio; dentre todo o arsenal de recomendações vazias criadas por essa inteligência artificial brutalmente mercantilista; esse, com certeza, foi o melhor.

Na boa, já fazia tempo que eu estava atrás de um desses, e, depois de tanto procurar, finalmente eu achei: um headphone tradiça.

Sim, um head-phone. Um fone pra colocar na cabeça, tipo o que a gente fazia na época da idade da pedra; não um dispositivo intra-auricular, com ou sem fio, que plugam nossa mente para ficarem latindo ordens na forma de podcasts, ou de música criada por algoritmos; muito menos uma armadilha tecnológica para nos sequestrar para reuniões sem fim e sem propósito com espíritos sem corpo; simplesmente, um headphone.

O som, confesso, não é dos melhores, afinal parece com o som do mundo real, o que não é bom, mas, como já diz o nome, é real. E isso já basta. Ou, pelo menos, deveria.

Com esse headphone, e sua exagerada estrutura de metal, ninguém mais terá desculpa pra dizer que não sabia que eu explicitamente não quero falar com ninguém, que quero estar sozinho com os meus pensamentos e com a minha música, distante de todos que queiram me incomodar.

Sinceramente, é bom poder, depois de anos te terror e loucura lutando pela nossa sobrevivência orgânica, nossa coerência moral, e nossa sanidade mental, nos virar para nós mesmos e só prestar atenção na nossa própria voz, falando e ouvindo as maiores loucuras criadas pelas nossas cabeças.

Acho, inclusive, que esse headphone vai até me ajudar a redescobrir, depois de tanto tempo imerso nos desejos alheios, o que eu realmente quero pra mim. Chupa, René Girard, e seu desejo mimético!

Pra completar a minha felicidade, só faltaria eu me tornar um insulano, ganhador da mega da virada, sem celular, conduzindo experiências insanas em Paquetá. Tipo uma mistura da Moreninha com o Dr. Moreau, aquele da outra ilha.

Ah, quase ia esquecendo! O melhor: ele não tem microfone, o que significa que, quando eu o estiver usando, não terei como falar com ninguém. Estarei só eu, sozinho, comigo e eu mesmo. Ligou pra mim, sorry!, caiu na caixa postal que eu não checo.

Recomendo para todos que quiserem passar um belo 2024 na suas saudosas próprias companhias, exatamente como eu pretendo fazer.

Bom Natal e que vocês possam curtir um belo 2024 com as melhores pessoas, a.k.a., vocês mesmas.

AVALIAÇÃO: