Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Os fantasmas da sala

Entrei jovem
escondido
Minha mãe não podia nem sonhar que tinha ido lá
Fui recebido por uma senhora idosa
aparentemente mal intencionada
que me deu um
doce
e passou a
mão
na minha cabeça
disfarçando o ódio que tinha de
mim

Lá voltei
um jovem
adulto
Ia visitar meu pai
adoecido
após sua operação
A mesma senhora estava lá mas
não me recebia mais
com doces
nem
afagos na
cabeça
Melhor
Eu preferia a sinceridade

Na próxima vez que estive lá
precisei arrombar a porta
para poder
entrar
A senhora não estava mais

Nem meu
pai
Ambos mortos
Mas seus sinais
e seus fantasmas
estavam espalhados pela casa
na forma de
boletos
e dos livros que eu amava
e ela
odiava
pois a faziam
se lembrar de
mim

Hoje me sento nessa sala
e penso
em como esse lugar é meu
e não é
Minha filha cresce por essa sala e dou a ela
um destino melhor
do que a senhora dos doces
sequer poderia
imaginar

Sonho em sair dessa sala
da qual sou um prisioneiro
fantasma
desde a primeira vez que nela
entrei
Mas
SIM
consigo me ver velho
recebendo a minha filha
no mesmo lugar que meu pai me
recebia
Sem velhas doces
ou amarguras
Com a certeza que conquistei esse espaço
que sempre foi
meu

Como ser grande

Se vejo uma nuvem
devo voar
Se vejo uma tela
devo pintar
Se vejo uma história
devo contar
Se vejo um prato
devo provar
Se vejo um ouvido
devo cantar
Se vejo uma roda
devo dançar
Se vejo uma piscina
devo nadar
Se vejo uma vida
devo amar

Se novo
luto?
Se vejo
devo?
Se velho
cedo?
SIM
Mas não tão cedo

Bate e Volta

O ninho não fica vazio de uma hora pra outra. O abandono acontece, como uma falência, paulatinamente e de repente. Ele, acostumado a ser abandonado, já antevia o de repente no paulatinamente que vive todos os dias.

Hoje é um desses dias, mas é noite.

Dá dez horas e o celular vibra. Mensagem dela:

PODE VIR ME BUSCAR.

Ele vai. Sem pressa. Tem tempo de se banhar, se arrumar e, inclusive, ir a pé. Se chegar rápido, sabe, ela vai reclamar. E se chegar tarde também. Fazer o quê?

Pega a Esteves Junior e encara a rua escura, protegida da luz dos postes pelas grossas copas das árvores baixas. Passa em frente aos barbeiros, onde a essa hora ainda tem gente cortando o cabelo; para na Marlene, toma uma água tônica e conversa com quem estava lá sobre assuntos que não tomarão o menor espaço na sua memória; dá um oi pra Naná e promete passar, no dia seguinte, pra comprar aquele novo queijo que chegou hoje. Na Upa Pet, com uma fila de pets doentes, tadinhos!, na porta, dobra a direita e pega a Paissandu.

Sob as sombras das palmeiras imperiais, adornando o caminho do palácio Laranjeiras até o mar, esbarra na princesa Isabel a caminho da praia do Flamengo indo desafiar a moral do segundo império para dar um mergulho e tentar, sem sucesso, acabar com a escravidão no Brasil.

Licença, princesa.

Toda, plebeu.

É uma graça essa menina. O orgulho do pai.

Na esquina da Ypiranga, espera ver o Paulinho sentado em seu banco, na portaria do prédio do Ouro distribuindo seus doces para as crianças. Mas ele não está lá, mas ao mesmo tempo está. Na memória, sente o gosto da maizena e do dia, em que o viu sem as chagas que carrega no rosto, depois de ser liberado do hospital sob massivas doses de analgésicos.

Antes de chegar ao Colégio Excelência, ele atravessa a rua para ser não ser atacado pelos piolhos, criados no sangue fresco do maternal, que ostensivamente se escondem nos rejuntes dos tijolos do muro que lhes serve de tocaia para surpreender os pedestres que querem atacar.

Chega na Pinheiro Machado e espera o eterno sinal da Coelho Neto fechar. Olha para suas mãos e sente elas se enrugarem e decaírem como se o relógio estivesse contra si. Na esquina paralisada pelo vermelho do sinal, meninos de rua cospem fogo e fazem malabares preparando a procissão de um rei proscrito que o povo não abraçou, mas votou.

Finalmente o sinal fecha e ele atravessa. Na fronteira entre o Estádio do Fluminense e o Palácio das Laranjeiras os ratos que nos governam saem de suas tocas com escoltas policiais, parando o trânsito e esmagando a nossa liberdade, enquanto os ratos do clube amistosamente se banqueteiam com o lixo refinado dos sócios do pó de arroz.

Atravessa o contra fluxo vindo da Tijuca e sente através do Túnel Santa Bárbara o eco dos gritos dos sambistas fantasmas da Marquês de Sapucaí em busca de paz de espírito, consolo e conselho que nunca terão.

Entra finalmente na Álvaro Chaves e, para chegar na porta do Clube onde a buscará, precisa desviar de hordas atemporais de debutantes endividadoras de pais que flanam faceiras em direção à inescapável maturidade que tentam evitar com sete saias de filó. Infelizmente, antes que elas consigam dobrar a Soares Cabral, viram as mentirosas baratas que, segundo as cantigas que cantavam na infância, usavam apenas uma saia de filó.

E, enfim, a vê. Nem criança, nem adolescente, nem adulta, batendo o pé na porta do clube enquanto olha pro celular. Ainda sem saias de filó, ou anáguas, mas uma promessa não concretizada de abandono do ninho.

Oi, filha.

Oi, pai. Você demorou.

Pois, é. Você não imagina quanto.

E fazem mais uma vez o caminho de volta em direção ao ninho. Não será dessa vez que ele ficará abandonado de vez. Não dessa vez. Em vez.

O Coffee

O participante chega cedo demais no evento e só a encontra a equipe de organização preparando tudo. Meio que pra puxar um papo, chega para um deles e pergunta:

-Que horas começa a palestra mesmo?
-8:30.
-Cedo.
-É, cedo.
-E vai ter?
-O quê?
-Você sabe…
-O quê?
-O Coffee.
-Ah, sim. Vai.
-Que horas?
-8:30.
-Ué, mas essa não era a hora da palestra?
-É.
-Mas e o coffee?
-Mesmo horário. É welcome, não break.
-Ah, entendi.
-Entendeu?
-Pra dizer a verdade, não, mas vai ter pão de queijo?
-Vai.
-E vai começar às 8:30?
-Isso.
-Então, tá bom.
-Então, tá.

*

Os demais participantes chegam e tomam o salão. Os garçons trazem as comidas e as servem. Sucos, café, sanduíches, bolos e, óbvio, os pães de queijo. O participante madrugador come de se fartar. Deslocado, cola no mesmo membro da equipe de produção e tenta puxar um papo.

-Tava ótimo.
-O quê?
-O coffee break.
-O welcome.
-O quê?
-O welcome coffee.
-O que é isso mesmo?
-Ao invés de um café no intervalo, é um no início do evento. Welcome de boas vindas.
-Ah, é, mesmo, saquei. AHAHAHAH!
-Tá rindo de quê?
-Tinha aquela piada antiga do Maguila, lembra?
-Maguila?
-É, Maguila, aquele um boxeador meio bagaceira, peso pesado, agenciado pelo Luciano do Vale que teve um sucesso mais ou menos, e vivia dizendo que ia lutar com o Mike Tyson.
-E lutou?
-Lutou.
-Com o Mike Tyson?!
-Não, com o Mike Tyson, não. Se lutasse ia tomar puta coça.
-Imagino. E a piada? Como era?
-Ah, tá. Dizem que ele foi pra uma luta numa cidade do interior americano e pra receber ele colocaram uma faixa na rua principal dizendo: “Welcome Maguila”. Ele leu a faixa e ficou puto: “Quem foi que disse que esse Wel me come? Vou encher ele de porrada”.
-…
-Não gostou?
-É engraçadinha.
-Se você conhecesse o Maguila ia ser bem mais engraçado.
-Pode ser. Pode ser.
-AHAHAHAH!
-O que foi?
-Agora fiquei imaginando o Wel Come Coffee.
-…
-Não entendeu? O (pausa) WEL (pausa) CO-ME (pausa)CO-FFEE.
-…
-Ah, dá uma chance. Até que foi engraçada.
-Na boa, cara, não foi. Não foi.

*

Na volta do banheiro, o participante piadista vê a equipe de garçons reabastecendo a mesa. Distraído quase esbarra no mesmo pobre coitado da equipe da produção:

-Opa! Desculpa.
-Nada. Tranquilo.
-Me esclarece um troço? O que diabos eles estão trazendo?
-Agora é o Coffee Break.
-Welcome Coffee. Coffee Break. Haja comida. Haja estômago.
-Pois, é.
-Não vou nem almoçar.
-Nem eu.
-Vocês devem comer bem aqui.
-De vez em quando.
-Mas aposto que cansa comer essas comidas de festa todas as horas.
-Até cansa, mas é uma boa economia no ticket.
-Ah, isso é. Isso é.

*

Evento terminado, os convidados deixam o salão. A equipe de produção começa a arrumar a sala para o próximo evento. O participante comilão, cheio de comida nos bolsos, e carregando uns pães de queijo, se aproxima da sua vítima preferida para se despedir. Porquê? Não temos a menor ideia.

-Pô, amigão, obrigado por tudo.
-Nada, nada.
-Palestra show.
-Que bom que gostou.
-E os coffees… vou te falar, tô lotado.
-Imagino.
-O que você quer dizer com isso?
-Nada.
-Tá achando que eu comi demais?
-Eu, não. Todo mundo assim. O Coffee é pra isso mesmo.
-Ora bolas, onde já se viu? A gente é convidado pra vir num evento importante e ainda é ofendido.
-Senhor, eu não quis…
-Não quis o quê?
-Não quis ofender.
-Mas ofendeu! Que diabos. Vocês vão ver só como ele detonar vocês na avaliação.
-Mas senhor…
-Senhor, nada! Passar bem.

Com almoço e jantar escondidos nos bolsos, o participante irritadinho foi embora e jurou: nunca mais ia penetrar nos eventos técnicos daquela instituição. Se bem que o Coffee…Ah, o Coffee, que delícia, que delícia!

Projeto de Ladrão

Era só chegar meu aniversário, o Natal, o dia das crianças, que meu pai deixava escondida no cantinho da boca, pronta pra ser usada, a velha frase:

-Você quer que eu roube?

Não importava o que fosse, ou a razão para querê-lo, meu pai sempre respondia aos meus desejos, grandes ou pequenos, com o mesmo questionamento:

-Você quer que eu roube?

Não, eu não queria que ele roubasse. Se não pudéssemos comprar, eu até entenderia. Ou acho que entenderia, se me dessem a chance de entendê-lo. Só não queria sentir que meu desejo fosse transformar meu pai num ladrão, e eu no filho de um ladrão.

Quando via meus amigos com os brinquedos que eu desejava, eu me perguntava: será que seus pais roubaram para conseguir aquilo? Será que vivíamos cercados por um círculo secreto de bandidos, roubando uns dos outros para oferecer aos filhos, futuros ladrões, o produto de suas vilanias? Se todos eram desonestos, por que cabia a mim, e, óbvio, a meu pai o papel dos últimos honestos do mundo? Não parecia justo; não parecia honesto; não parecia, quer dizer, não era honesto ser o único honesto num mundo de ladrões.

Para piorar essa impressão, meu pai ainda reforçava que todos esses bens materiais, conseguidos de forma ilegal, não tinham o destino certo:

-Vê só os pais dos teus amigos. Todos com carro do ano, mas, quando você vai comer na casa deles, o que te oferecem? Cream Cracker e água. Vê só se pode: Cream Cracker e água.

Um dia, na casa de um desses amigos ricos, não deu outra: me serviram Cream Cracker e água. E eu nunca mais esqueci das palavras do meu pai e do que elas significavam para a nossa missão de vida: ganhar dinheiro honestamente para dar o melhor tratamento aos outros.

Assim, em casa, não tínhamos na garagem um carro do ano, quer dizer, sequer tínhamos garagem ou carro, de que ano fosse, mas, quando recebíamos as pessoas, a mesa era farta e ao mesmo tempo humilde.

-Isso? Que nada, não deu trabalho nenhum. É um prazer recebê-los.

Não era. Dava um trabalhão, mas a gente ficava feliz por não ser ladrão. Porém, ser um excelente anfitrião não dava conta de todos os meus desejos e, para atendê-los, eu precisei aprender a roubar. De forma honesta.

Quando eu queria algo que os outros tinham, eu tratava de obtê-lo, legalmente, por algum tipo de subterfúgio. Meus amigos tinham jogos de Atari que eu queria? Eu trocava com eles por bonecos de Star Wars que eu não queria mais. Eu queria revistas em quadrinhos importadas? Eu as pagava com o dinheiro que conseguia por discos usados que eu encontrava no lixo do prédio e vendia nos sebos do centro. Eu queria mais revistas em quadrinhos? Eu as comprava na banca e as revendia em cima de um lençol que eu botava na entrada da portaria. O escambo e o comércio viraram a minha forma de crime. Aprendi a roubar para ser parte da sociedade de consumo.

Em pouco tempo, todas as atividades comerciais ou financeiras passaram a ter um pouquinho de gosto de roubo para mim. Ao mesmo tempo que não eram totalmente erradas, não eram totalmente certas, pois envolviam realizar um desejo meu. E desejar, meu pai não me deixava esquecer, não era nada mais do que um gatilho para incitar ao roubo.

Agora, enquanto escrevo essas palavras, cometo mais um crime: roubo a sua atenção, ansiando por um contato mediado por palavras numa tela ou numa folha de papel. O meu crime é escrever, a minha motivação é te tocar. Um ladrão de palavras.

-Você quer que eu roube?- meu pai continua gritando na minha mente.

Tarde demais, pai. Eu já roubei no seu lugar.

(Em)torce

As suas articulações são frouxas.
Por isso,
você enverga,
mas não se quebra.
Então, torce e
se entorse.
E como se en-
torse.

Dá pra melhorar?

Melhorar? Não muito.
Você pode:
perder peso,
parar de beber,
parar de fumar;
meditar,
fazer esporte,
muscula-
ção;
rezar pela paz mundi-
al,
ter fé no futuro,
e até alimentar
um otimismo
completamente ir-
real
na vida.

E aí? Não torce?

Torce, mas entorse menos.
A gente vive
melhor
e torce pra que não se en-
torse.

Então. só resta torcer
pra não torcer?

Só.
O melhor remédio é mesmo
torcer
pra você não
torcer.

Se é o que dá pra torcer…
fazer o quê?

Não torcer.