Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Amanhecer

Ontem, a gente via o nascer do sol do outro lado, do lado daqueles que ainda não tinham dormido. Voltando de boates e bares, encharcados de álcool e conversas essenciais, seguíamos de carona em carros de desconhecidos em direção a casas que não fossem as nossas. Abríamos janelas e geladeiras na busca vital por ar e pela última dose; ligávamos televisores e cd players como trilha sonora para nossas últimas investidas amorosas; nos esparramávamos em futons e camas estranhas dando boas-vindas ao sono do qual necessitávamos; fumávamos cigarros e começávamos conversas tentando nos manter acordados para sempre. Não sabíamos o que queríamos, não sabíamos de nada, e estava tudo bem. E estava tudo bem.

Hoje, a gente vê o nascer do sol pelo outro lado, do lado daqueles que acabaram de acordar. Despertando assustados de sonhos estranhos dos quais não conseguimos lembrar, encharcados de suor e solidão, vamos arrastando os pés doloridos até cozinhas silenciosas em busca da cura inexistente para a ressaca da vida. Abrimos janelas e geladeiras para contemplar nossos desejos e lembrar dos nossos erros; entramos na internet em celulares e computadores tentando buscar a impressão de um amor que um dia achamos já ter sentido; nos enrolamos em cobertores e abraçamos travesseiros, tremendo, tomados pelo medo de dormir, mas com o terror de acordar; sentimos vontade de fumar e lembramos que precisamos parar, com isso e com tudo mais que já nos fez felizes; começamos monólogos em redes sociais tentando capturar a atenção de alguma alma que possa salvar a nossa. Save Our Souls, SOS, escrevemos repetidamente sem resposta em muros digitais. Esquecemos, sim, o que é querer; e nem lembramos da última vez em que quisemos algo verdadeiramente, e isso é tudo que nos resta. Sim, é pouco, é ruim, mas é tudo o que sempre merecemos. O que sempre pedimos para acontecer.

Amanhã, como será o amanhecer? Amanhã, como será amanhecer?

AI DE TI, Copacabana – versão bicentenário da Independência

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Foto: Marcos Serra Lima/g1

Desculpa, Rubem Braga.

1. AI DE TI, Copacabana, porque já deixaste claro que nem ligou que passou teu dia, e, pior, até fizeste a egípcia; porém não receberás de mim nem um áudio de whatsapp de lamentação.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, mas, em nome dos bons costumes, tiraram da tua fronte a socorredora coroa de sedução; e calaram as tuas belas risadas ébrias e vãs que ecoavam no doce seio da noite.

3. Já encheram teu mar de pranchas de SUP e de iates de luxo de uma parte e de outra parte, e turistas que não te amam tomaram o Leme e o Arpoador em busca de falsas representações do que nunca foste, e tu aplaudiste este sinal; estás perdida e cega no meio de tua ganância e de teu mal gosto.

4. Sem Leme, deixaste as viúvas e filhas de militares e burocratas de altos salários te governarem em comícios fascistas. Foste iníqua perante o povo faminto que amava tuas praias, e o 472, o 455 e o 457 mandarão sobre ti a multidão de suas hordas.

5. Grandes e decadentes são teus edifícios de cimento, alugados para o AirBnB, com visitantes mal vindos e sem noção que emporcalham teu mar; mas, como um cuspe no vento, seus abusos serão vingados.

6. E os ratos e pombos cruzarão em tuas ruas e darão cria a uma prole mutante que cobrirá tua face de bosta; e a Estação de Tratamento de Esgoto do Posto 5 lançará ondas de dejetos sobre ti num reciclar de karmas, até morder as rodas dos mototáxis nos sopés de teus morros; e todos os bailes funk se eternizarão como tinnitus em teus ouvidos.

7. E as baratas comerão seus viagras nas suas infinitas farmácias e lesmas insones infestarão tuas hamburguerias gourmet; e as dark kitchens empestearão tuas galerias, desde a Menescal até a Alaska.

8. Então quem pagará um só bitcoin pelo metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade a cripto moeda é só uma invenção de faraós que comandam templos neopentecostais dedicados a Mamon.

9. Ai daqueles que exploram os refugiados que dormem amontoados em tuas quitinetes, e não provam o vento do teu fim de tarde vindo do mar, ocupados demais para te servir através de aplicativos, e desconhecem que, segundo a lei do verão, a praia é para todos.

10. Ai daqueles que passam em seus carros de som, buzinando alto o nome de falsos Messias, pois não terão voz quando tomarem suas economias e propriedades em nome de Deus, da Pátria e da Família para combater um Comunismo irreal.

11. Tuas cam girls se estendem na areia e fazem lives para estrangeiros impotentes desejosos de amor e sol, e teus héteros top fazem da falta de empatia o exercício do seu machismo versão Joe Rogan.

12. Postai fotos e mandai áudios, mancebos e mocinhas de bem, e rebolai-vos na marcha para Jesus, porque vossos dias já passaram da validade, e tuas mentiras já conhecemos.

13. Por que pregais o ódio em vossos templos, eleitores da Besta Fera, e chutai as homenagens para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a hipocrisia da fé que fingem ter?

14. Antes de te extinguir, eu acabarei com a tua soberba— ai de ti, Copacabana! Os exércitos pagãos de teus morros descerão sambando sobre ti, e os canhões flácidos de teu próprio Forte se recusarão a te salvar, e broxarão; mas o chope sagrado das esquinas e botequins levará milênios para se limpar dos teus pecados de um só mandato.

15. E o Cervantes reabrirá, e os seus sanduíches enfim comerão as cabeças de homens de bem com patê e abacaxi; e os anúncios das e dos acompanhantes do bairro exporão os nomes de todos que passaram muitos anos nas colunas sociais, quando deviam estar atrás de grades por prolongar a escravidão.

16. Pois grande foi o teu desleixo, Copacabana, ao se entregar a velhos corruptos pregando a Ditadura em nome de Deus; já se fechou a Help e a Erótica, e fingiste ser esse um sinal de progresso e evolução. Pois a falta de cultura, de tesão e de humanidade te consumirão.

17. A rapina de teus policiais de aluguel e a libação de teus falsos homens de bem; e a ostentação dos fascistas do Posto Cinco, cujas cozinhas permanecem impecáveis graças à servidão de mil meninas miseráveis — tudo passará.

18. Pinta-te de verde e amarelo e coloca a tua camisa da seleção, e canta pela última vez o jingle em homenagem ao odioso demônio que tomou em nome de um Deus falso a Nação, mas a quem estou enganando? É tarde demais para qualquer canção; e que estremeça o teu corpo inchado de Whey Protein e anabolizantes, desde o Copa Leme Praia Clube até a Body Tech da Gomes Carneiro, porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Faz arminha com a mão pela última vez, Copacabana. Dessa traição não te recuperará. Ai de ti. Ai de nós.

Ainda há vida inteligente na Internet

No início da internet, quando não havia buscadores para encontrar anúncios vagamente relacionados ao que a gente procurava, nem mídia social para nos empurrar lixo pela goela, a gente comprava livros e revistas para descobrir para onde ir pelos mares nunca dantes navegados do ciberespaço. Uma das referências mais legais da época era o Net Guide, publicado nos anos 90, e do qual eu tenho a edição de 1994. Nas 360 páginas dessa edição, indo desde grupos de mensagens de Star Trek e Dungeons & Dragons, até o site da Casa Branca e da Universidade de Harvard, passando por fóruns de bestialidade e fantasy baseball, o Net Guide traz mais de 4000 dicas interessantes ou piradas sobre uma internet que (quase) não existe mais.

Sim, isso existiu. Tenho provas.

Ontem, me pediram algumas dicas de sites com projetos criativos legais na internet e, confesso, fiquei com dificuldade para lembrar de nomes de pronto. Nesse mundo virtual onde somos alimentados à força por tantas fontes insignificantes, as coisas realmente boas acabam ficando escondidas da nossa atenção e da nossa memória sob pilhas intermináveis de lixo e ódio informacional.

Dormi encafifado com isso, mas hoje de manhã me bateu uma luz: ao contrário da internet antiga, onde havia sítios e lugares legais para visitar; a internet de hoje é um mar de lixo tóxico com linhas de vida suspensas que nos permitem nos ligar a pessoas e não a espaços. Ao invés de um destino, a internet se tornou um caminho, cercado de florestas e becos perigosos, que nos levam a encontros com outros seres humanos, dos piores aos melhores, com os quais, sem ela, dificilmente iríamos esbarrar. Por isso não lembrava de sites, só me lembrava das pessoas.

Assim, como uma forma de serviço público, do alto da minha empáfia, respondendo a pergunta que me fizeram, vou deixar público o meu net guide, versão 2022, de pessoas legais com as quais você pode (e deve) esbarrar na internet:

Adilson Pereira é jornalista, desenhista e proprietário do bar mais legal do Rio de Janeiro, o Salvatore Café. Publica contos e crônicas no estilo beatnik intercalados por desenhos com uma pegada bem contracultural. Site

Aline Valek é escritora, desenhista, podcaster e fanzineira. Vai da ficção científica à fantasia, passando à reportagem gonzo com elegância e maestria. Site / Newsletter / Podcast

Anne Mendes é professora e designer. Faz colagens e experimentos tipográficos geniais. Não à toa a procurei para fazer a capa do meu livro. Site / Portfolio

Ariela K é uma ensaísta e escritora brasileira radicada nos Estados Unidos que está publicando online um estudo sensacional sobre o antigo testamento sob uma perspectiva judaica não-religiosa. Newsletter

Austin Kleon é escritor e desenhista, autor da trilogia Roube como um Artista, Mostre seu Trabalho e Vá em Frente. Dá dicas sobre criatividade e criação artística. Site

Bárbara Bom Angelo, jornalista e editora de política da TV Globo, escreve crônicas e críticas literárias. Newsletter

Bráulio Tavares é compositor, poeta e escritor de ficção científica paraibano. Publica críticas literárias e crônicas quase diariamente há mais de 10 anos. Site

Clara Averbuck é escritora, lançada nos primórdios dos blogs. Hoje, além de continuar escrevendo literatura, tem um podcast com a artista plástica Bruna Maia. Medium / Podcast

Edith Zimmerman é quadrinista memorialista e relata sua vida através de diários visuais. Newsletter

Gaía Passarelli é escritora, jornalista, ex-repórter da MTV e autora do livro de viagens “Mas você vai sozinha?”. Criadora do Projeto Guia Paulicéia de jornalismo cultural alternativo paulistano. Newsletter

Kevin Kelly, futurista e fundador da revista Wired, é o autor da teoria dos 1000 fãs e do livro O Inevitável. Site

Leandro Assis foi roteirista da Conspiração, onde fez as séries “A Mulher Invisível” e “Magnífica 70”. Hoje é desenhista e coautor das séries de quadrinhos do Instagram “Confinada” e “Os Santos. Instagram

Marília Café é poeta, escritora, especialista em auto publicação e novos formatos. Fundou e dirige a editora independente Pedregulho. Site

paulamaria é psicanalista e escritora. Minha parceira no projeto de desafios criativos Toranja. Site / Newsletter

Ricardo Coimbra é cartunista e publica na revista Piauí e na Folha de São Paulo. Site

Ted Gioia é jornalista musical e cultural e autor do livro Music: A Subversive History. Atualmente está publicando um livro em capítulos através da sua newsletter no substack. Newsletter

Warren Ellis, roteirista de quadrinhos e TV, é autor de Transmetropolitan, sua obra mais famosa, protagonizada pelo jornalista gonzo cyberpunk Spider Jerusalem. Newsletter

Se quiser pesquisar sobre outras pessoas, existem uns lugares legais para descobrir novos criadores, como o Uses This e o Como Eu Escrevo, onde são discutidos métodos e ferramentas criativas em entrevistas com gente interessante e, na maioria das vezes, pouco conhecida. Mas, óbvio que, como as melhores coisas da vida, uma das maiores forças para encontrar gente legal, na Internet ou no mundo real, é o incontrolável acaso.

Por acaso, conhece alguém que merecia estar nessa lista? Pode falar, sou todo ouvidos. É sempre bom encontrar portos seguros nesse mar tóxico loteado comercialmente que a Internet se tornou.

Esotérico

Sempre, quando a festa começava a chegar ao fim, os amigos pediam:

– Toca esotérico. Esotérico. Toca esotérico.

E o pedido nunca era para um, nem para o outro. Era um pedido pros dois.

Eles, mesmo brigados, por motivos dos quais não lembravam mais, sorriam pros amigos, com sinceridade, e um pro outro, com falsidade, e buscavam seus violões. Sentavam-se um ao lado do outro, mas afastados, e tocavam.

Não precisavam de deixas ou marcações. Sabiam a hora de começar a solfejar juntos, a hora de um cantar e de o outro calar. Sabiam até quando um devia assoviar e o outro simplesmente sorrir. Faziam primeiras e segundas vozes, intercalando os versos em perfeita harmonia. Uma harmonia que há muito não existia.

Quando a música terminava, com um acorde longo, síncrono, quase infindável, todos se levantavam e aplaudiam, homenageando uma amizade que não era mais real. E eles, como pedia o figurino, se abraçavam, e agradeciam ao público, fingindo serem os jovens velhos amigos que a memória lhes dizia: nunca fomos.

E por um breve momento, nesse fim de música, os amigos e eles mesmos acreditavam nesse pastiche de amor fraternal, irreal, surreal.

O nome da música, que parecia lhes unir, ser “esotérico” não era uma simples coincidência. Era ao mesmo tempo uma afronta e um destino. Amizade era exatamente um conhecimento hermético do qual eles tinham feito questão de esquecer.

O discurso final

Agora que a janela de filiação partidária fechou e os quadros eleitorais estão quase fechados, vamos focar no que interessa: o discurso de fechamento dos debates eleitorais. Com a perspectiva de que os principais candidatos fujam deles, ainda resta a esperança de que, aos moldes de Leonel Brizola, alguém faça um discurso histórico para fechar esse terrível período da nossa história. Afinal, até os fãs do Iron Maiden sabem, discursos históricos são eternos e nos fazem ganhar guerras. Assim, como contribuição, segue a minha sugestão de discurso para qualquer candidato que queira tirar a besta fera do poder:

Povo do meu Brasil,

Agora encerramos mais uma etapa do processo eleitoral e vamos às urnas para decidir o destino da nossa coletividade, daquilo que chamamos Brasil.

Nos últimos quatro anos vivemos sob o terror de um governo que proclamava “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. E o que menos vimos foi a defesa da nossa nação ou o respeito a um poder superior.

Vimos:

A transformação do Brasil num pária mundial, um país de milicianos, desmatadores e grileiros
O desrespeito aos seres humanos, de todas as etnias, credos e orientações
O aumento do desemprego, da precarização do trabalho; a volta da fome e da inflação
E a exaltação da violência armada contra as minorias e as populações mais vulneráveis

O que esse discurso populista e falso escondia é que ele queria um Brasil de criminosos armados acima de tudo, um Deus do ódio acima de todos, e Bolsonaro, e seus familiares e asseclas, acima de Deus.

Afinal, nos últimos 4 anos, nessa tirania fascista tivemos um desgoverno que zombou da pandemia mundial, da morte e da dor de doentes e enlutados; que virou às costas a nossos irmãos da América Latina e do mundo, pra promover a destruição da natureza e dos povos indígenas e ignorar as mudanças climáticas; que atacou a democracia e promoveu a mentira e a desinformação; que trocou favores, em detrimento da saúde e da educação, com as piores pessoas desse país, em troca da sua manutenção no poder, de favores pessoais, de dinheiro e até de ouro, usando o nome de Deus em vão.

Nessa tirania fascista e corrupta, fomos vítimas da vaidade e da incompetência de um homem fraco e desequilibrado que nos afastou da comunidade global e dos valores que ele fingia apregoar. Nos últimos quatro anos fomos um Brasil abaixo de todos e esquecido por Deus.

Mas você pode mudar isso. Nessa eleição, a sua escolha pode nos tornar melhores. Não um país acima de tudo, mas um país irmão em uma comunidade mundial; um país com respeito a todas as pessoas e a todos os credos; um país onde ninguém esteja acima dos outros e em que o presidente seja alguém escolhido para atender à sua população, ao invés de seus interesses escusos.

Por isso, no seu próximo voto, escolha a paz, escolha o respeito, escolha o amor. Vote num Brasil, não acima de tudo, mas um Brasil formado por nós. Pois o Brasil somos nós.

Muito obrigado e bom voto. O Brasil somos nós.

Enfim, não importa em quem você queira votar, vamos dizer o não abafado de nosso peito contra tudo que está aí.  Como dizia Belchior, ainda não é hora de levar flores à cova do inimigo. É hora de lutar.

Começou.

Esperança de mudança

Saindo do Santa Bárbara, o taxi tomou um caminho diferente do que a gente esperava.

– Ei, moço- minha mãe alertou-, você tá indo pro lado errado. A gente vai pro Leme.
– Vai, não- meu pai interrompeu. – Pode seguir, moço. Ele sabe pra onde a gente tá indo.

Até o taxista sabia mais da vida da gente do que a gente.

O carro seguiu pelo seu caminho misterioso, passou na frente do estádio do Fluminense, pegou o viaduto Jardel Filho, e, depois de seguir pela Marques de Abrantes, nos deixou numa esquina, na frente de um posto de gasolina.

– Gostaram? Então, é aqui que a gente vai morar agora- meu pai tentou amenizar o choque, apontando para um prédio quadrado, de pastilhas, sem graça e sem vista pra nada.

Por fora, parecia uma prisão. Embaixo dele uma padaria, uma papelaria e um botequim; na sua frente, além do posto, uma banca de jornal. Prático e triste.

Pra quem morava de frente pro mar, cercado por restaurantes e hotéis exóticos, era uma mudança. Com certeza pra pior. Um fim de infância.

– Então, vamos conhecer o apartamento novo?- meu pai convidou, fingindo animação.

Condenados, pegamos as malas que nos acompanharam desde as férias na casa do meu avô em Campina Grande, pra onde fomos quando ainda morávamos num lugar que amávamos, e seguimos meu pai pelo prédio no qual não escolhemos, mas no qual seríamos obrigados a, morar. Pelo menos por enquanto.

Subimos 3 andares num elevador velho, lento e apertado. Equilibrando chaves e malas, meu pai, com dificuldade, abriu a porta do apartamento 302. Toda a nossa mudança estava lá, ainda encaixotada. Em breve descobriríamos a quantidade de coisas que perdemos ou foram destruídas pelo descaso de quem nos mudou. Tanto os carregadores quanto o meu pai.

O apartamento, crú, precisava de pintura e cortinas. E em todos os pontos de luz as lâmpadas balançavam ao sabor do vento, penduradas por fios pretos e sem lustres. Não era um lar. Era uma ocupação.

Minha mãe me puxou num canto, conspirando:

– Não vamos ficar aqui seis meses. Pode confiar.

Confiei e ela estava certa. E errada. Não ficamos 6 meses. Ficamos 16 anos. E sempre nos sentimos como no primeiro dia: traídos.

Quando conseguimos escapar, primeiro minha mãe, sozinha, depois eu, fugido – meu pai nunca morou lá de verdade-, não olhamos pra trás, nem tivemos saudades. Até agora.

Hoje passei na frente do prédio. Ele continua quadrado, com pastilhas, sem vista e sem graça. O botequim e a padaria viraram lojas de colchões. A papelaria ainda existe, mas mudou de nome. O posto de gasolina, como quase tudo, deu lugar a uma farmácia. A banca ainda está lá, mas foi movida para o outro canto da rua. Senti saudade. Não do apartamento, mas de quem éramos, de quem não seremos mais.

Mesmo nos momentos ruins, como no dia daquela mudança, havia a esperança de uma nova mudança para um lugar melhor, para um tempo melhor. Pra onde foi toda essa esperança? Deu vontade de parar um taxi e perguntar ao taxista. Talvez, como da outra vez, ou pela primeira vez, ele saiba o lugar certo pra onde deve me levar.


Texto sobre memória e identidade escrito na Oficina de Escrita de Paula Maria.