Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Da New Yorker ao SNL: Os 100 (ou 50) melhores (e mais élitistas*) anos da nossa cultura

2025 se vai com dois marcos: os 100 anos da New Yorker e os 50 anos de Saturday Night Live. Curioso que ambas as criações estejam ligadas a um humor inteligente (e, em algumas épocas, élitista*); tenham um forte e bem intencionado (mas atrapalhado) criador por trás (Harold Ross e Lorne Michaels); e são localizadas na cidade de Nova York (a nossa Roma moderna, ou, quem sabe?, Roma seja a nossa Nova York antiga).

Óbvio que a comemoração dessas datas não passou em branco no cinema. Tivemos um belo documentário sobre os 100 anos da New Yorker, The New Yorker at 100, onde, por meio dos preparativos para o seu centenário, vemos a importância da publicação para, sem exagero, o mundo, enquanto resgatam todas as demais mudanças que a revista impulsionou na sociedade americana e, por que não?, na cultura ocidental. Já para celebrar os 50 anos do SNL, Jason Reitman roteirizou e dirigiu Saturday Night, um retrato caótico e revelador (porém proposital) da primeira exibição e da descoberta da vocação do programa icônico.

Ambos os filmes são, qual remédio?, peças de propaganda, mas, com a finesse que a inteligência que representam pede, não economizam nos problemas enfrentados por essas revistas semanais (impressa e televisiva). E é justamente nos seus aparentes erros que se encontram seus maiores acertos.

Tanto a New Yorker como o SNL surgiram de agremiações de “desconhecidos” sem um claro propósito que não fosse produzir algo interessante, bem humorado, e pertinente para os seus tempos. E esses tempos, devido às suas longevidades, souberam lhes ser tanto cruéis como benevolentes.

Com o passar dos anos as empreitadas e os envolvidos nelas foram mudando, mas souberam manter vivas as essências mínimas que as constituem: estrutura e design simples e reconhecíveis; forte pegada contra-cultural; formação de uma comunidade quase hermética de leitores e espectadores; contribuidores emergentes, especialmente do cenário underground; e um esmero displicente com a mudança do que aí está.

Talvez a longa vida da New Yorker e do SNL fale mais sobre esse último século do que sobre elas mesmas. Vivemos de 1925 pra cá, com todas as dificuldades, uma era razoavelmente democrática onde era possível ser inteligente e engraçado fazendo troça com o establishment, enquanto ensaiávamos propostas de novas formas de viver em sociedade. É impressionante o poder que essas revistas tiveram para mudar nossos costumes, nossas formas narrativas, e até a nossa política.

Por mais incrível e maravilhante que isso possa parecer, é impossível não pensar: o que estaremos comemorando nos próximos 100, ou, sendo mais realista, 50 anos? Continuaremos tendo essas duas instituições sólidas para agradecer e congratular? Teremos novas criações em 2025 que conseguirão provocar o mesmo tipo de impacto e sobreviver por tantos anos?

Não sei, não sei. Mas, infelizmente, temo que não.

Semana passada numa conversa com Maurício Gouveia, proprietário e livreiro da Baratos, discutimos a inabilidade da nova geração em se posicionar de forma rebelde frente ao que há. Ao contrário do deboche e da ousadia do SNL e da New Yorker, na opinião do Maurício, o que vemos hoje são jovens conformados, usando apenas as ferramentas procedurais que lhes foram oferecidas pra tentar lutar por uma normalidade falsa que nunca existiu, mas que eles parecem acreditar que funciona.

A princípio não concordei, mas, depois de ver os dois filmes, me caiu uma ficha: onde estão os movimentos contra-culturais de 2025?

Tanto a New Yorker, como o SNL, surgiram como obras contra o que vigia na época: a América rural para a New Yorker, representada pela velhinha de Dubuque, e o Pesadelo no Ar Refrigerado, tornado carne no Impeachment de Nixon, para o SNL. O mesmo pode se dizer de muitos outros movimentos: a Nouvelle Vague, que comemorou os 65 anos de Acossado com um filme sobre a produção dirigido pelo Richard Linklater; os quadrinhos punk com Love & Rockets; os Beatniks; e por aí vai.

O fato é que Saturday Night Live e The New Yorker tiveram e tem importância pois são mais do que simples revistas, são movimentos ou reflexos das expectativas de mudança da sociedade. Por isso ainda tem impacto, ecoam as suas mensagens além de seus espaços midiáticos, e permanecem até hoje, na vida real e na nossa memória, como salvaguardas de ambientes criativos para as lutas artística e social.

E.B. White, se liga: não se pede demissão de um movimento.

Olhando para o nosso deserto conceitual onde o máximo de movimento com o qual conseguimos nos comprometer é um twittaço (ou seria Xiszaço?) ou um fim de semana sabático das redes sociais, eu lamento pelo nosso futuro. Será que a distopia que vivemos é tão inescapável que não sabemos ou não temos mais como tirar sarro da cara dela seja por texto, imagem, vídeo ou áudio? Será que há saída para essa nossa impotência contra-cultural?

Espero sinceramente estar errado, mas, pelo andar da carruagem, é bem capaz que em 2075 e em 2125 não haja mais nada a se comemorar. Os nossos movimentos parecem ter cessado e a nós e às futuras gerações só restarão a escuridão e o silêncio.

A não ser que você tenha alguma ideia doida a compartilhar. Bom, sou todo ouvidos, e, cá entre nós, tenho umas também pra te mostrar. Então, vamos nos juntar pra falar besteira e reclamar dos outros e da vida? Pera lá! Posso estar enganado, mas não é assim que os movimentos começam?

*Seguindo a regra da New Yorker e respeitando a origem francesa da palavra elite, quer dizer, élite, a mantive acentuada, mesmo que vocês não gostem. A revolução também se faz com acentos, sabia?

A prova cabal que desmonta a própria investigação

Acho mega curioso que boa parte dos comentários sobre o uso de IA, Algoritmos e afins para criar conteúdo de entretenimento (não vou entrar na seara da “Arte” por motivos de cansaço conceitual), começa falando que essas estratégias vão contra o propósito humano da criatividade humana, da geração de conexão pela “arte” (putz, não escapei 🙁 ) mas sempre terminam a argumentação com algum caso onde a vontade e o desejo dos criadores humanores, contrariados pela lei do mercado, foram melhor na “arte” (agora é irônico) de atender ao mercado.

Gente, vamos nos decidir. Ou defendemos a arte (sim, sem aspas) como uma atribuição humana, na falta de qualquer outra razão melhor, porque SIM, ou fazer o coro de que o bom é o que vende e faz público. Não vamos esquecer da melhor definição de arte, a que o Scott McCloud faz no entendendo quadrinhos: arte é tudo o que não atende a reprodução ou sobrevivência.

Arte não tem bom ou ruim. Épocas diferentes vão ter diferentes visões de qualificação pra essa expressão humana, mas nada deixa de ser arte.

 

Você realmente quer (ou pode) jogar RPG?

Quando éramos jovens, a nossa discussão principal era o que jogar. Tínhamos os defensores ferrenhos desse ou daquele jogo, que nunca faziam exceções; aqueles que transitavam sem pudor por uma pletora de sistemas; e os jogadores ocasionais que abraçavam sem paixão ou preconceito a onda atual dos amigos.

Abençoados pelas poucas responsabilidades e por uma agenda livre e ansiosa por ser preenchida, podíamos nos dar ao luxo de escolher (ou deixar de escolher) qual seria a natureza da nossa brincadeira narrativa.

O tempo passou, diminuiu, ou, em muitos casos, até sumiu, e as nossas possibilidades de jogar RPG foram minguando, beirando a extinção. Oprimidos pelo cansaço laboral do capitalismo tardio, pelas demandas familiares e sociais, e pela complexa existência no século XXI, parece que o simples ato de interpretar um herói numa sessão de RPG se tornou um ato de heroísmo em si.

Novamente chega dezembro, e, na minha lista de resoluções para o ano vindouro, como, acredito, na de muitos de vocês, uma coisa nunca deixa de marcar seu lugar: jogar mais, ou, simplesmente, jogar RPG.

Esse ano, enquanto fazia novamente essa reflexão, comecei a me questionar  se não estamos dando murro em ponta de faca ao tentar reproduzir um comportamento que depende de condições que só tínhamos na nossa juventude. Por exemplo:

  • Os sistemas e cenários de jogo que escolhemos geram expectativas factíveis de serem cumpridas por pessoas como nós ou estamos arriscando a nos frustrar por nos envolver com longos avanços de nível, processos complexos de criação de personagens, ou arcos exaustivamente longos?
  • Os horários, as durações das sessões, e os locais escolhidos para jogar RPG são adequados na composição das nossas agendas com outras atividades?
  • Compromissos com amigos queridos, cheios de vontade, mas sem disponibilidade de agenda, não estão nos dificultando a jogar com regularidade?

Então, diferente do que fiz em outros anos, vou deixar de lado as minhas estratégias da juventude e, em vez de perguntar a vocês sobre sistemas e cenários preferidos, gostaria de, se me perdoarem a intromissão, buscar um pouco mais de detalhes sobre  as suas disponibilidades (de tempo e deslocamento) de participação (presencial ou virtual), com foco nos seus impeditivos de agenda e reais condições de energia (física e mental), para rolar dados esquisitos (ou regulares) em atividades de contar histórias heroicas (sejam elas com masmorras, dragões ou outras coisas fantásticas ou quase realistas).

Assim, se você, como eu, em 2026, quer jogar mais RPG, me responda nessa, eu prometo, curta e rápida pesquisa, quais são as suas condições de contorno para compartilharmos uma mesma mesa como mestres ou jogadores.

Segue o link: https://forms.gle/9BDcDMhVzzfPcQ66A

Fique à vontade para compartilhar essa mensagem com outros amigos rpgistas que estejam passando por esse mesmo dilema.

Espero que compartilhemos muitas aventuras fantásticas em 2026 e lhes desejo um ano novo incrível!