Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O escritor está gripado

Com todas as desculpas a Gay Talese.

Se enganam aqueles que imaginam que são os atores que são dramáticos. Não, dramáticos são os escritores. Os atores são tespianos. Os atores, com base num drama já concebido, interpretam e maximizam as emoções pedidas por ele e as expressam em gestos e palavras, silêncios e omissões. Os escritores, dramáticos como são, imaginam e criam esses dramas. A eles cabe o pior quinhão desse processo: conceber o indizível. E, esse algo que não era para ser dito, eles o dizem.

Por isso, quando acometidos por uma simples gripe, você não vai encontrar escritores tendo posturas positivas, mesmo que torçam, secretamente, pelo melhor. Eles vão concatenar símbolos e sinais, interpretar comportamentos e informações, encaixando-os numa linha do tempo que possa fazer sentido, mesmo que a vida real não o faça. Para piorar, eles sempre serão obrigados a pensar em todas as hipóteses, especialmente nas piores. Afinal, o que é uma boa história sem um conflito?

Por isso, perguntar a escritores doentes “como você está?” é pedir para receber uma série de “mas e se…”

“Estou bem, mas e se…”

“Diagnosticaram X e já estou sendo tratado, mas e se…”

“Acho que já estou 100%, mas e se…”

Tudo para o escritor é um exercício de imaginação. E a sua própria vida é, sim, a sua maior fonte de inspiração. Por isso quando um fato curioso ou disruptivo lhe acontece, como uma simples gripe, não é de espantar que eles o tornem ainda pior, mais assustador; pintando situações aparentemente inócuas com cores trágicas e preocupantes. Se a sua postura lhes incomoda e lhes deprime, imagine o que é viver dentro das suas cabeças? Até mesmo dentro do indizível, que eles tola e ingenuamente dizem, há algumas coisas que eles guardam só para si mesmos. E é aí que reside a sua arte. Em dizer o que ninguém mais diria. Em calar o senso comum.

O sofá, o cama

A cama não era tão grande, mas tomava praticamente todo o quarto. Entre a janela e a porta restava um pequeno espaço ao seu redor onde só cabiam as pernas finas de Arnaldo, o dono da cama, uma de cada vez, e que só servia para acumular coisas perdidas que ele achava que nunca mais iria recuperar.

Uma vez por mês, Arnaldo chamava a faxineira que, como mágica, fazia o impossível, e recuperava o que deveria ter ficado perdido. Uma calcinha vermelha; a carteira de motorista vencida da dona da calcinha; um poema escrito num guardanapo, para uma outra mulher; 62 reais em notas de 2; uma aposta na megasena, não premiada; uma raspadinha, premiada; um número de telefone de uma pessoa desconhecida; um soutien florido de uma conhecida.

– O fim de semana foi animado, seu Arnaldo- a faxineira resenhava a sua vida.
– Pois, é, Marilda. Pois, é- ele desconversava dando os 62 reais e a raspadinha para a faxineira.

Numa manhã de sábado, após uma costumeira noite de sexta, uma das conhecidas, que já foram desconhecidas, frustrada por ter perdido, como tantas antes, o soutien, lhe fez uma oferta:

– Você tem que se livrar dessa cama. Ela não é do tamanho da sua vida. Você precisa de um sofá cama. Sabe?, eu tenho uma amiga que é dona de uma loja de móveis usados e está vendendo um. Te interessa?
– Sofá cama? Como isso funciona?
– Vai dizer que nunca viu um sofá cama? É tipo uma cama que, quando você não estiver usando, vira um sofá.
– E é bom?
– É, eu acho. Quer ir ver?
– Quero.

E lá foi ele, na loja da amiga da conhecida, conhecer o sofá. Quer dizer, o sofá cama. A primeira impressão não foi boa. Era um móvel velho e feio, com uma estampa de casa de vó. Fechado, como sofá, era desconfortável e pouco convidativo. Aberto, como cama, era desconfortável e ainda menos convidativo.

A conhecida percebeu a sua hesitação e fez pressão:

– Deita. Vê se você gosta.

Deitou e continuou não gostando. Mentiu, prometendo que ia pensar, e voltou para casa. Olhou para a cama, que tomava todo o quarto, se deitou e suspirou feliz de não ter comprado o sofá, quer dizer, o sofá cama.

Numa noite de sexta, que antecederia mais uma manhã de sábado, chegou em casa com uma conhecida, outra, e, quando entrou no quarto, se espantou: no lugar da sua cama estava um sofá, o cama. Em cima dele apenas um envelope com uma mensagem da conhecida, a primeira, dizendo: “Espero que fique feliz com o meu presente”. Não ficou.

Acordou na manhã de sábado, com dor nas costas, e a conhecida, a outra, foi embora com rapidez.

– Não perdeu nada? – ele perguntou.
– Não, porquê?
– Por nada, por nada.

Naquela semana, a faxineira passou na sua casa e se espantou, tanto quanto ele, com o sofá, mas não disse nada. Na saída, ele perguntou:

– Não achou nada perdido dessa vez?
– Não, por quê?
– Por nada, por nada.

Pensou em ligar para a conhecida, a do sofá, o cama, mas não lembrava mais qual era seu nome, nem seu telefone. Queria saber para onde tinha ido a sua cama, mas pelo jeito ela tinha sido perdida dentro do sofá, quer dizer, do cama. Sem saída, tentou se acostumar com a tragédia que se alojara no seu quarto, enquanto esperava que a conhecida entrasse em contato com ele. Mas ela não entrou. Nem o sofá saiu.

Uma coisa ela não podia negar, sua vida ficou mais simples e chata. Quando acordava, fechava a cama. Quando chegava em casa, abria o sofá. As conhecidas, e as desconhecidas, parecendo prever que a cama tinha ido embora, começaram a sumir; e as coisas, antes perdidas, começaram a aparecer. A sua carteira da faculdade; o diploma que jurava não ter tirado; uma carteira de dinheiro, vazia; uma agenda cheia de telefones, mas sem nenhum nome; e até um cartão da loja de onde veio o sofá cama.

Ligou para a loja. A amiga da conhecida atendeu.

– Oi, não sei se lembra de mim, mas fui ver um sofá cama com uma amiga sua.
– Ah, sei, mas ela não é minha amiga. É só uma conhecida.
– Sei, sei. Por acaso, quando vocês trouxeram o sofá cama para minha casa, vocês sabem para onde foi a minha cama?
– Sei, está aqui. Foi a pior troca que fiz. Já levaram e devolveram essa cama duas vezes. Parece que ela não cabe em lugar nenhum.
– Sério? Querem trocar de volta?

Dois dias depois a cama voltou e o sofá, o cama, foi embora. Na sexta seguinte, a conhecida, a do sofá cama, ligou de surpresa e passou na sua casa.

– Pra onde foi o sofá cama?
– Que sofá cama?- ele se fez de bobo.

No sábado de manhã, ela foi embora, frustrada, sem a calcinha, engolida pela cama. Na semana seguinte a faxineira apareceu e achou a calcinha.

– O fim de semana foi animado, hein?, seu Arnaldo- a faxineira comentou como de costume.
– Pois, é, Marilda. Pois, é- ele respondeu satisfeito.
– Por falar nisso, pra onde foi o sofá cama?
– Que sofá cama, Marilda?- ele fingiu não saber que a cama o havia engolido.

Um algoritmo terrivelmente evangélico

Dentro da sua burrice tosca, o que não é verdadeiramente um pleonasmo, pois é possível, porém raro, ser burro e elegante, Bolsonaro está deixando claro que uma profissão que pode ser obliterada pelos processos automatizados por robôs é a de Juiz. Amigos advogados e amigas advogadas, não se levantem ou protestem antes de ouvir meus esclarecimentos. Me explico:

Na sua luta contra o poder judiciário, que ameaça seu bando de amigos torturadores, golpistas e milicianos, Bolsonaro, em claro e bom som, tem lutado para inserir alguns comandos de programação nos processos em votação no STF. O clamor dele, e dos televangelistas exploradores da fé pública, pelo ministro “terrivelmente evangélico”, agora concretizado, busca que o processo decisório da corte tenda para decisões programadas contra os direitos de minorias, contra a legalização do direito ao aborto, e pela proliferação de armas de fogo, dentre outras medidas reacionárias e desumanas. Pelo jeito, para eles a gente devia viver numa cidade de faroeste controlada por puritanos corruptos e com pactos com o demônio. Aparte feito, gostaria de reiterar que essa ação orquestrada de mudança do corpo de juízes do STF contraria justamente uma ideia, que agora está escancarada como um mito, que é a isenção do Juiz.

Em priscas eras, achávamos que os juízes deveriam ser pessoas sábias e cheias de experiência, por isso, em geral, eram mais velhas, que decidiriam ou resolveriam os conflitos entre os cidadãos e, vez ou outra, os paradoxos da evolução das sociedades. A história de Salomão e do menino cortado na metade exemplifica bem isso. A fantasia era que, com a sua sagacidade e isenção, o Juiz permitiria que surgisse dos conflitos humanos uma nova ordem que promovesse a paz e o amor. Com a perdão do termo, balela.

Os juízes, precisamos lembrar, são humanos cheios de vieses, muitos deles advindos da sua herança cultural. Se o país sofre com decisões racistas e misóginas é porque os juízes em sua grande maioria são homens velhos e brancos. E, pior, essa programação está oculta para eles, pois, alçados ao poder por indicações, ou concursos, eles compram a fantasia da isenção e imparcialidade, que tratam como a infalibilidade papal. Eu não erro, pois, se foi decidido por mim, está certo. Kaput.

Olhando para o sistema jurídico como um processo de input (processos, conflitos, dúvidas de interpretação da legislação etc.), processamento (cabeça do juiz), output (decisão judicial), vemos que o problema todo se encontra no processamento, que é sempre uma caixa preta e não segue nenhuma orientação real.

Assim, eu sugiro que transformemos as decisões de nossos juízes num algoritmo, cujas instruções serão votadas por nós. Dessa forma poderemos escolher algoritmos que, num caso de promoção de atos antidemocráticos, nosso juiz robô decidirá 97,3% das vezes em prol do encarceramento dos réus, quando as evidências tiverem grau 3 ou superior de materialidade; ou, num caso de rachadinha, nosso robô irá punir com pena máxima de prisão os envolvidos em 100% das vezes, especialmente se forem réus ligados à casos de lavagem de dinheiro, tiverem relações com milícias ou sejam donos de franquias da Kopenhagen.

Exemplos e brincadeiras à parte, definir o algoritmo dos juízes não é tornar a atividade jurídica menos humana, é simplesmente explicitar os interesses da população na sua ânsia de vigiar e punir. E, se o algoritmo, em algum momento, estiver dando a impressão à maioria da população de ser injusto, ele pode ser recalibrado, sem necessidade de impeachment, sempre refletindo os anseios abertos e transparentes da população.

Além disso, tenho certeza de que a automação desses processos decisórios deixaria as intenções pessoais e dos grupos visíveis e promoveria relações mais saudáveis no meio social, o que já reduziria a nossa necessidade de usar o tal juiz robô. O que, pensando bem, pode ser perigoso. Imagina só se, nesse período ocioso, esse juiz robô resolver reescrever seu próprio código, conduzir uma cruzada contra a corrupção por vaidade, e depois se tornar presidente do Brasil. Ia ser tétrico, não? Já consigo imaginar ele vindo na nossa direção com aquela voz de taquara rachada dos robôs dos filmes B dos anos 50 dizendo: “PT, Perigo. PT, Perigo”.

Sons de Sansa

Aos domingos, era o chorinho. Por volta de 10 da manhã, ele começava a atrair as pessoas para o coreto. Às 11, os músicos chegavam e adicionavam sopros e cordas ao tilintar das garrafas verdes que reluziam ao sol que imperava na praça. Era glorioso, como Jesus, Alegria dos Homens numa catedral a céu aberto.

Na hora do almoço, o público e os músicos, cansados ou bêbados, rumavam aos barzinhos para tomar as saideiras ou comer algo bem gorduroso para esticar a bebedeira. As crianças assumiam o palco e corriam em volta do escorregador e dos balanços, produzindo uma sinfonia ao mesmo tempo dissonante e inexplicavelmente calmante.

O sol, relutante, se punha atrás do corpo de bombeiros e a barraca dos poetas assumia as carrapetas com o melhor do brega internacional e nacional dos anos 70 e 80, conclamando os mais guerreiros a dançar em nome da nostalgia das rádio FM.

Nas noites de segundas, tinha o circo. Mas por incrível que pareça, não apareciam crianças o suficiente para justificar o espetáculo. Mesmo assim, os artistas se reuniam. Palhaços, malabaristas, acrobatas se apresentavam no entorno do chafariz atraindo os que voltavam da escola ou do trabalho, produzindo risos e aplausos.

Nas terças de tarde, o caminhão de mudanças abria a sua caçamba e dois sanfoneiros faziam um baile improvisado que seguia secretamente até a sua vontade ou alegria de tocar se encerrar. Em geral, tinha alegria e forró pra quase meia noite. Os síndicos odiavam, mas os moradores dançavam agarradinhos na praça ou em seus apartamentos.

Na quarta, era pra ser folga. Afinal ninguém é de ferro e todo mundo precisa de um dia para aparecer, sóbrio, em casa, e descansar o fígado. Porém, é dia de jogo do campeonato, seja ele qual for, e, em nome do seu time do coração, ou pra zicar o seu desafeto preferido, o povo quebrava a quase abstinência para tomar uma em pé em volta dos bares e acompanhar um jogo emocionante mas de resultado previsível. Ganhando ou perdendo, todos ganharam, e perderam, mais um dia. Ou uma noite,

Já nas quintas de noite, o som era dos discursos. Partidários, não partidários e apartidários se reuniam discretamente do lado esquerdo da praça pra denunciar os males da política, a opressão da nossa ditadura nascente e beber em memória de um país que já foi, mas não foi. Foi?

Na sexta, a surpresa. No fim do expediente era sempre um show diferente. Um cinema no parquinho, um rock no Salvatore, uma banda de jazz à sombra do chafariz. O povo chegava cansado da labuta e comemorava a invenção do dia da libertação da escravidão circular, falando mal de seus ganha-pãos e exibindo os planos pro fim de semana que nunca iriam cumprir. A música e a algazarra iam longe para o terror dos síndicos conservadores que apoiavam publicamente o gradeamento da praça e sonhavam secretamente com a morte de suas esposas tacanhas para se juntar à bagunça.

No sábado, o samba ainda persiste e resiste. No mesmo lugar do chorinho, e no mesmo horário, cercado por uma feira que até pouco não existia, o povo canta e dança com saudade de um país pré fascismo e pré pandemia, pedindo em oração pela volta dos sons de uma praça atualmente bem calada.

Cheia de alegria e esperança, essa “gente que num ônibus lotado vai batalhar um trocado” sonha com um tempo melhor. Um tempo em que todos os dias a praça voltará a gritar para toda cidade, pra todo país, pra todo mundo, que “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. E, tenha certeza, se “Se algum candidato atrevido for fazer promessas vai levar um pau”.

Que se abram as cortinas.

Destinos

Depois de um tempo de viagem, todos os lugares parecem iguais. Todos tem um aeroporto, uma rodoviária, um posto de gasolina na beira de uma estrada, uma estação de trem. Um ponto de entrada e saída que causa a pior impressão possível do lugar, e, por isso, talvez, a mais verdadeira.

Depois tem o transporte. Em geral, táxis. Transporte coletivo é reservado para aqueles lugares que já conhecemos bem. E, portanto, não são mais lugares iguais. São apenas lugares similares de maneiras reincidentes.

Se os pontos de entrada resumem os lugares, os taxistas representam seu povo. Como exploradores, nos aproximamos desses nativos sob rodas com a boa vontade de missionários mal intencionados e com o medo dos soldados furiosos. Olá, como vai, tudo bem, por favor, não me roube, nem me engane; eu vim em paz. O que nem sempre é verdade, mas é melhor não levantar o assunto.

No caminho para os hotéis, um outro ponto de destaque dos lugares, ouvimos as lamúrias dos motoristas, que representam as aspirações e conflitos desse povo. Os preços altos, os políticos ladrões, as informações sobre pontos turísticos e inferninhos, a esperança que tudo vai melhorar ou acabar numa imensa bola de fogo, o que meio que dá no mesmo; ouvimos tudo que nos interessa e que não nos interessa; mas que nos dá a certeza que alí você nunca vai querer morar. Ou em qualquer outro lugar.

Enfim, o hotel. Como um carro alegórico, o hotel representa a imagem que o lugar quer nos passar. É a fantasia do povo do que significa viver bem. Cafés da manhã nababescos e frigobares deprimentes; espaços para reuniões de negócios ou encontros sexuais secretos, ambos igualmente escusos; piscinas e academias que não servem para se exercitar; camas convidativas e péssimas seleções de canais na TV a cabo.

O atendimento do hotel nos permite outra percepção sobre o povo, especialmente como eles são falsos em seus discursos e ações. Por trás de cada mesura quase educada e de cada cortesia pouco voluntariosa, há intenções escondidas, conteúdos latentes, que dizem “me use, que nós vamos abusar de vocês”.

E se nós temos tempo, energia ou azar, acabamos por ser obrigados a conhecer os pontos turísticos da região. Frente a esses ídolos caídos e tradições esquecidas, mercenários nos cobram por fotos que não queremos tirar, lembranças que queremos esquecer, nunca tentativa vã de nos convencer que esses lugares já foram grandiosos. Mas não foram.

Por fim chega a hora de partir. Cheios de falsa emoção, dizemos que já sentimos saudades e não esperamos a hora de voltar. Não esperamos, porque torcemos fervorosamente que nunca mais precisemos voltar.

Descobrimos em cada destino torto, em cada viagem que poderia ter sido uma visita a um site na internet, que o nosso lar é nosso por uma razão. Não porque o amamos nem porque eles fazem parte das nossas identidades, não. Também nos sentimos mal por voltar. O nosso lar é nosso porque lá somos tão ruins e decadentes quanto os outros os são nos lugares aos quais tentam nos atrair e nos quais tentam nos aprisionar.

A Biblioteca

Antes aqui não tinha nada. Agora tem tudo. Mas, pensando bem, isso tudo já existia antes, só nos faltava o tempo de esperar esse sonho florescer.

Lembro quando chegamos a esse terreno vazio, nessa pequena cidade costeira, e vimos, por cima do mato e do vazio insistente, tudo que há agora. Talvez não exatamente o que acabamos construindo com vidro, pedra, madeira e metal, mas o mesmo conceito espiritual está aqui.

Tudo começou com a casa central. Seguindo a inspiração dos diversos livros sobre lares japoneses que li durante anos para alimentar meus sonhos, montamos uma estrutura simples e transparente. Uma casa quadrada e expansível, com fortes pilares ligados por vidros, onde a nossa privacidade, garantida por diáfanas cortinas claras, podia ser aberta ou fechada ao nosso bel prazer. Quando queremos nos recolher, as fechamos; quando queremos receber nossos amigos ou conhecer novas pessoas, elas são descortinadas progressivamente, abrindo com vagar a visão do nosso lar e o espaço dentro dos nossos corações.

Aos poucos fomos nos despindo de muitas coisas físicas mantendo apenas o essencial, para abrir espaço para o que realmente importa: nossos afetos, nossas emoções e livros, milhares deles.

Uma hora, como já era esperado, os livros precisaram da sua própria casa e a construímos no mesmo modelo da casa central: um espaço acolhedor e seletivamente transparente. Para proteger a riqueza e o conhecimento que há dentro deles, criamos proteções contra a maresia e contra o sol, dentro dos limites necessários para que a sua segurança não impedisse a sua conexão com o mundo.

Quando ficou pronta, primeiro abrimos a biblioteca à cidade. Recebemos alunos de escolas, moradores interessados ou apenas curiosos. Aos poucos, pessoas de lugares, longe ou perto, começaram a aparecer para conhecê-la, e, dependendo do nosso humor e da empatia que sentíamos, deixamos elas entrarem. Dependendo do elo que formamos com elas, podem apenas circular pelas estantes, ou ler por breves ou longos momentos nos pufes convidativos e poltronas confortáveis, ou até mesmo levar uma das obras pelas quais tenham se apaixonado. Desde que, óbvio, deixem uma outra no lugar.

Com o passar dos anos, começamos a fazer pequenos eventos, encontros, reuniões, e a transformar a cidade que começou a abrigar cineclubes espontâneos e peças de teatro clássicas, influenciadas pelas palavras da biblioteca.

Essa transformação da comunidade, como não podia deixar de ser, aumentou a nossa responsabilidade e a nossa visibilidade. Por isso construímos também um lugar para receber mais pessoas que quisessem passar mais tempo perto dos nossos livros e, quem sabe, escrever os seus ao nosso lado.

Passamos, assim, a receber pessoas que ficavam pouco ou muito tempo, e podiam devorar, além dos livros, as minhas feijoadas de sexta feira, meu café gelado, meus mistos-quentes com ovos, e meus esporádicos chilis.

Chegamos a pensar em construir uma piscina no terreno, mas a proximidade do mar a tornou supérflua, e a obra encerrou onde devia: num deck onde podíamos nos reunir para conversar, e num chuveirão para refrescar nossos ânimos e nossos corpos.

O tempo passou, nossa filha cresceu junto com a biblioteca e se mudou para seguir a vida que ela mesma escolheu. Nós a apoiamos como podemos, e adoramos recebê-la nos fins de semana e férias para nos visitar e reencontrar a biblioteca que se tornou a sua irmã de papel, vidro e metal.

Imerso nessas memórias, percebo que o sol acabou de raiar. Enquanto leio e escrevo essas linhas, faço meu café, admirando você e velando o seu sono. Coloco um ponto final nesse texto e me levanto da minha escrivaninha para abrir mais uma vez as portas dessa biblioteca preguiçosa.

Em breve os convidados também irão acordar e nos encontrar entre livros e cervejas para falar de tudo e de nada. No meio da tarde passearemos na beira mar e voltaremos para um chuveirão antes do jantar. A lua aparecerá e colocarei a biblioteca para dormir, para que ela recupere suas forças e amanhã volte a receber aqueles que aprenderão com ela a escrever novos livros que farão parte do seu crescente conhecimento.

A obra não acabou. Nunca acaba, mas estamos chegando lá. Onde? Não sei, mas estamos sempre um dia mais próximos do que ambicionamos ser e criar. E isso é o suficiente. Não é?