Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Os cacos

Os cacos pequenos são os piores. Dizem que eles duram por anos, escondidos, entre as frestas de tacos, nos rejuntes dos pisos, nas quinas embaixo dos móveis, até que um dia, quando você menos esperar, eles furarão o seu pé e você sangrará, lembrando do copo que se foi.

Se o copo era grosso e forte é pior. Dizem que um corte profundo no pé, no lugar certo, ou, melhor, no lugar errado, pode lhe matar. Se pegar numa veia, ou numa artéria específica, você pode se esvair em sangue até morrer. Parece exagero, e, cá entre nós, deve ser, mas vai que, mas vai que.

Os copos finos e leves são outro problema. Você pode pisar nos seus cacos, sentir uma picada leve, não sangrar e esquecer. Enquanto isso, essas pequenas farpas mortais de vidro caminham lenta e silenciosamente pelo seu corpo, até apunhalar a sua mente ou o seu coração. E quando você vê, ou não vê, morreu de copo quebrado.

Mas o pior mesmo é a lembrança. A lembrança do copo que se foi. A lembrança evocada pelo sangue, pela dor, pelo medo da morte. Afinal, um copo não simplesmente quebra, um copo tem uma história. O dia em que vocês se encontraram, por acaso ou desejo; o que ocorreu para ele fazer parte da sua vida, foi um presente ou uma compra?; quando foi a primeira vez que o usou, de forma festiva ou rotineira, e como se sentiu ao segurá-lo; como cuidou dele, teve carinho ou desleixo?; a primeira vez que ele quase quebrou, afinal nenhum copo quebra de uma só vez; se você se preocupou em perdê-lo ou não; e, enfim, o dia em que ele quebrou.

O dia em que o copo quebra é mais importante que o exato momento em que ele se estilhaça, é um dia cheio de momentos premonitórios. Há toda uma mise-en-scène, uma preparação espiritual para que ele finalmente cumpra o seu fim.

Tudo pode começar com uma briga, causada pelo copo ser a herança de uma ex; por vocês terem ganho ele de um desafeto; por conta da vez em que você quase o quebrou; ou porque você nunca soube como lavá-lo direito. Então, no seu último dia o copo se tornará o assunto de longas conversas; será utilizado de uma maneira pouco usual; despertará admiração ou asco; presenciará um aumento de tensão entre os personagens do seu drama; e, enfim, se quebrará. Um belo momento de metalinguagem, em que o objeto estético que demarca o fim de algo mais experimenta, ele mesmo, o seu fim.

O copo poderá quebrar em pedaços minúsculos, em grandes nacos ou apenas rachar superficialmente. Seja como for, ele sempre deixará cacos invisíveis que irão assombrá-lo por toda sua vida, para lhe lembrar que nada termina, até o que terminou. E um dia, sem perceber, você irá pisar neles e sentir que o tempo passou, mas pouco mudou, pois a sua memória permanece e ela, como os cacos, é impossível de ser extinguida.

O que fazer? Se esse reencontro é inevitável, não tenha medo. Pise forte no chão da cozinha e nas suas memórias, e receba com amor e gratidão as lembranças quebradas e os cacos íntegros que formam a ilusão de ser você.

Os Segredos do Universo

No fim do século XX eu estava virando um adultinho. Tinha 3 empregos legais mas mal pagos; o dinheiro era curto, mas eu conseguia morar sozinho num quarto e sala de Copacabana; e sofria existencialmente para terminar na faculdade os dois créditos que me dariam o diploma que nunca quis. Meus dias eram ao mesmo tempo lotados de atividades e oportunidades para o ócio. Claro que eu reclamava da vida, quem não reclama?, mas eu tinha consciência da rara paz de espírito que me acometia naquela época. Porém a paz de espírito do meu vizinho parecia muito maior e isso me incomodava horrores.

Quando o dia terminava ou na troca de turno entre um emprego e outro, eu sempre esbarrava com ele no botequim embaixo do nosso prédio. De short, chinelos e sem camisa, jogando porrinha no balcão pra não pagar cerveja, expediente ao qual também recorri diversas vezes, ele me notava, a gente balançava a cabeça um pro outro e sorria. Eu, timidamente; ele, de forma ostensiva, quase pornográfica.

Quem podia lhe culpar por ser tão feliz? Pelo que o Bigode, o porteiro da noite, fofocou, ele estava com o boi na sombra. Dependendo da semana ele era o modesto herdeiro de uma fortuna, um contrabandista sob proteção à testemunha ou um aposentado de um banco estadual do sul por conta de uma doença crônica, tipo epilepsia ou algo que o valha.

Inválido ou não, ele era o retrato da saúde; sempre bronzeado, com aquela eterna pinta de estar indo pra ou vindo da praia. Apesar de odiar ir à praia, eu o invejava. Se eu tinha paz de espírito no meio de um furacão, ele a aproveitava numa rede em frente a uma praia deserta vendo o sol se pôr e curtindo a brisa que vem do mar para terra encerrando o dia. Enquanto eu era um artigo técnico sólido numa revista chata, ele era poesia escrita por Vinícius de Moraes num guardanapo de bar.

Apesar dessa inveja, a gente se dava bem. Dividíamos umas cervejas no botequim e ocasionalmente nos ajudávamos em pequenas tarefas um na casa do outro. Na verdade, eu sentia que ele tinha algo a me ensinar, mas eu tinha vergonha de pedir que ele me contasse o segredo do universo de viver com tranquilidade sem fazer nada e sem ter uma forma visível de renda. Eu queria que ele me ensinasse a ser um copacabanense de verdade. Um dia quase rolou.

Eu estava saindo de casa numa noite de sábado pra um programa chato mas obrigatório quando esbarrei com ele apoiado no umbral da sua porta tremendo.

– Opa, cê tá bem?
– Tô, não. Ajuda? Ajuda…

Corri em sua direção e o apoiei. Ele tremia bastante e jogou seu peso em cima de mim em busca de apoio. Apontou para o sofá me indicando para onde queria ir. Eu o deitei e fiquei parado no meio da sua sala sem saber o que fazer:

– Posso te ajudar com mais alguma coisa? Quer que eu ligue pra alguém?
– Isso, ligar pra alguém. Ligar…

Indicou onde estava o telefone e me pediu pra discar. Começou a ditar um número longo, com certeza um interurbano, o qual errou várias vezes. Enfim consegui que alguém atendesse e lhe passei o telefone. Ele começou a bater boca com alguém do outro lado da linha, aparentemente recuperado, e, apontando pra cozinha, me disse:

– Se quiser, pega um uisquinho aí no balcão.

Ele não estava passando mal. Estava bêbado. Menos mal.

Aceitei a sua oferta e fui encher um copo. No balcão, além da garrafa e dos copos, tinha uma pilha de livros. Todos do mesmo autor: ele. Nas contracapas, a mesma foto: ele, bronzeadíssimo, de camisa havaiana, óculos escuros com uma praia idílica ao fundo. O fotógrafo realmente captou a sua essência.

Ele desligou o telefone e fiz a pergunta idiota que precisava fazer:

– São seus?
– Sim, todos eles- respondeu vindo pra cozinha se servir de mais um copo.
– São sobre o que?

Ele encheu um copo generoso, tomou um belo gole e sorriu como se me contasse um segredo:

– Não dá pra ver? Autoajuda.

Os títulos não deixavam dúvida: Como viver sem ninguém lhe aporrinhar, Ponha a culpa nos outros, Escape dos seus credores sem medo, e assim por diante.

– São à sério?
– Claro, eu faço o que professo. É preciso liderar pelo exemplo.

Dei uma diagonal nos títulos e 3 me chamaram especialmente a atenção. Parecia ser uma trilogia chamada Os Segredos do Universo e cada um dos volumes tinha um subtítulo mais instigante que o outro: Como não Fazer Nada, Como Viver sem Dinheiro e Como não se Preocupar com o Futuro.

– E essa trilogia? É sobre o que?
– Como posso resumir? Bom, a maioria dos nossos problemas surgem pois temos a necessidade de validação externa. Queremos que pessoas, grupos e instituições nos amem. Esse amor vem na forma de símbolos sociais, como compromisso, status e dinheiro. Porém, mesmo quando nos entregam esses símbolos falsos de afeição, continuamos ansiosos, insatisfeitos e com medo que esse amor não seja real. Os livros falam sobre como não fazer nada pelos outros, já que eles não merecem sua atenção; como não se preocupar com dinheiro, a medida enganosa do amor capitalista; e como cagar pro dia seguinte, afinal, ele pode nem chegar.
– Uau- foi tudo o que pude dizer.

O interfone tocou e ele foi atender:

– Fala, Bigode. Quem é? Pode mandar subir.

Desligou o interfone e, com pressa, veio apertar a minha mão:

– Cara, muito obrigado pela ajuda. Agora você precisa ir que eu vou atender uma “pessoa”. Sacou? Passa outro dia pra gente tomar mais um uísque e conversar.

Antes que pudesse falar qualquer coisa, estava no corredor. Meio desorientado, retomei o rumo pro meu programa de sábado e, no caminho para o elevador, passei pela “pessoa” loira e mignon, metida num vestido preto de látex obscenamente justo, que iria lhe visitar. Com certeza ele teve um fim de sábado bem melhor do que eu.

Nas semanas seguintes fiquei com os seus livros na cabeça. Será que ele realmente explicava como viver como ele, sem fazer nada, sem se preocupar com dinheiro ou com a aceitação alheia ou mesmo se estaria vivo amanhã? Tomei coragem e bati na sua porta trazendo uma garrafa de uísque. Uma velhinha, que eu nunca tinha visto, atendeu. Perguntei dele e ela me esclareceu:

– Ah, meu filho, eu não sei. Mudei semana passada e já não tinha nada nem ninguém por aqui. O pessoal da imobiliária disse que o inquilino anterior sumiu sem avisar e deixou um bando de dívidas de aluguel e condomínio. Desculpa não poder ajudar.

Perguntei se por acaso o morador tinha deixado algum livro pela casa e ela lamentou, mas disse que não.

– Melhor sorte da próxima vez- ela resumiu minha cara de frustração.

Lá se foi a minha chance de conhecer Os Segredos do Universo nessa encarnação.

Às vezes, ainda hoje, 20 anos depois, num fim de dia duro e cansativo, eu me lembro desse vizinho, e vou nos sites de livros usados procurar pelos Segredos do Universo. Estou, como todos, em busca de uma saída, em busca de esperança, em busca de ajuda, mas até hoje nunca os encontrei. Esses foram segredos que o século XXI nos fez esquecer.

Não é você; sou eu, o comunista

Era batata. Sempre entre a quinta e a sexta cerveja, o espírito liberal na economia e conservador nos costumes, que possuiu seu corpo depois de uma desilusão amorosa, tomava controle. E não importava o assunto; futebol, novela, política, desenhos animados, tudo era justificativa para ele começar a desfiar o seu rosário do mal.

– Tá vendo só?- ele apontava algo que o desagradava.- Tá na cara que (insira posição política, orientação sexual, opinião artística) é influência de (comunismo, marxismo cultural, ideologia de gênero, organizações Globo, vereador de esquerda do Rio de Janeiro, ). O mundo está perdido. Perdido!

Eu discordava totalmente das suas opiniões. Primeiro porque eram basicamente preconceituosas, racistas, homofóbicas e reacionárias; segundo, pois eram burras ou simplesmente não faziam sentido. No início, por boa vontade, eu até tentava trazê-lo à razão, mas era inútil:

– O teu problema é que você lê demais- ele se defendia.- Todos esses conhecimentos de esquerda acabam te deixando mole e hippongo. Empatia é o caralho! O mundo é uma guerra. Uma Guerra!

Eu tentava relevar. Achava que era uma fase. Depois que a dor de cotovelo passasse e ele arrumasse uma nova namorada, as coisas iam melhorar. O tempo passou, ele eventualmente arrumou uma namorada, mas a doideira permaneceu e ele acabou terminando o relacionamento por conta das suas próprias fantasias políticas.

– Vê só se eu ia aceitar aquilo- ele contava a sua versão da separação.- Ela (escolha: votava no PSOL, lia Martha Medeiros, assistia novela da Globo, curtia Pablo Vitar). Isso não é pra mim. Eu preciso de uma mulher cristã. Cristã.

Dizia o homem que quase foi reprovado no catecismo.

Com o passar do tempo, como era impossível conviver com ele e eu não sabia se devia dar fim a uma amizade de quase 40 anos, comecei a me afastar. Ele chamava pra tomar cerveja na sexta, eu inventava um compromisso; dizia que ia passar no meu trabalho para a gente voltar juntos, eu ficava no escritório fingindo fazer serão; ele aparecia na porta do meu prédio… bom, nesse caso não conseguia me safar e acabava sendo obrigado a ouvir mais uma vez a sua cantilena protofascista.

– Eles querem acabar com o Brasil- ele profetizava.- Querem acabar com a propriedade privada, com a religião, com a nação. Querem nos tornar comunistas. Comunistas!

Numa última tentativa, busquei entender melhor a sua visão de mundo:

– Mas o que você quer dizer com isso?
– Como assim?- ele se espantou de eu ter reagido.
– O que seria esse tal comunismo?
– Ah, deixa eu te explicar. Primeiro todo mundo vai ser igual. Se você é mais competente que os outros, vai receber a mesma coisa. O preguiçoso e o sujeito bem sucedido, como eu, ganham o mesmo. Acabou a competitividade. Ninguém tem mais estímulo para ser mais produtivo. Totalmente igualitário. Igualitário!

Como considero a produtividade um mito tóxico e tenho certeza absoluta que se a humanidade fizesse menos viveria melhor, confesso que o começo me agradou.

– Continua. Continua.
– Vou continuar. Imagina só, viver num mundo que considere tudo válido. Todas as religiões e crenças têm o mesmo valor. Mas ao mesmo tempo considere que essas crenças não devem interferir na vida comunal. Todo mundo acredita no que quer, mas tem que viver em comunidade de forma secular. Um mundo sem Deus. Sem Deus!

Mais um ponto pro tal do Comunismo. Viver com pessoas que têm o direito de acreditar no que querem e sabem que aquilo é uma crença, e não uma realidade, é realmente tentador.

– E pra piorar,- ele se adiantou sem eu pedir- acabar com as nações. Todo o planeta, todo universo sob um só governo, uma só bandeira, desrespeitando as tradições locais e nacionais e ignorando as histórias e glórias das nações soberanas. Uma anarquia global. Global!

Essa me remeteu à ficção científica que lia na infância. Uma utopia, um mundo unido, sem guerras motivadas pela ambição de poucos ou justificadas pelas fantasias de destinos manifestos de países inventados. Um mundo igualitário, secular e global. Ele abriu os meus olhos:

– Sabe, cara,- eu declarei- acho que eu sou comunista.

Ele riu amarelo, meio fingindo que era brincadeira, percebeu que eu falava sério e mudou de assunto. Pela primeira vez em muito tempo, o espírito que possuía seu corpo se aquietou e pudemos ter uma conversa normal, entre seres humanos, e não entre estereótipos políticos da sociedade brasileira do século XXI.

Isso foi antes da pandemia e ele não mais me ligou. Nem eu o procurei. Vez ou outra ele me manda uma mensagem querendo chamar para uma aglomeração, mas eu recuso sem explicações e ele entende: sou comunista.

Não sei como será após a pandemia. Não sei se a amizade irá sobreviver ao meu comunismo ou se ele vai finalmente ter superado o coração partido e tirado essa mistura fatal de Paulo Guedes e Bolsonaro do seu coração. Se ele não mudar, pelo menos tá aí uma coisa que ele pode botar de verdade na conta do comunismo: o fim de uma amizade.

A Alta

Depois de 74 dias internado, meu pai recebeu alta. Mesmo afastado da família, por razões longas demais para esse texto curto, acompanhei o processo. Minha irmã fazia questão de me dar informes de hora em hora por áudio, texto e vídeo. Eu ignorava a maioria.

A notícia da saída do meu pai do hospital foi mais difícil de ignorar: 34 mensagens e 7 ligações em menos de 2 horas. A última, eu atendi. Recebi essa nova informação com a mesma animação que recebi as outras: nenhuma. Minha irmã, por outro lado, estava esfuziante. Considerava que essa seria uma oportunidade ótima para uma reconciliação:

– Vem receber ele em casa. Deixa essas amarguras no passado e vem dar um abraço no papai. Vai ser uma surpresa muito legal. Aposto que ele vai adorar.

Tinha certeza que não, mas menti e disse que ia pensar. Acabou que não pensei e, talvez por isso, fui recebê-lo.

Cheguei no prédio na hora combinada, cumprimentei alguns porteiros da velha guarda, e subi com muita resistência para o apartamento dos meus pais. Todas as memórias evocadas pelos corredores escuros do edifício me diziam que eu não deveria ter vindo. Era tarde demais para ouvir os seus conselhos.

Toquei a campainha e minha mãe abriu a porta. Jogou os braços ao céu como se estivesse recebendo Jesus no domingo de Ramos.

– Agora, sim, esse é um dia abençoado. A família estará unida! Finalmente, unida.

Ela me abraçou apertado e me deixou sentado no sofá, enquanto resolvia as últimas providências para a chegada do meu pai. Na sala, a TV passava um programa sensacionalista que se pretendia noticioso. Espirrei enojado. O mofo e a poeira continuavam os mesmos. Assim como os seus péssimos gostos e posições políticas.

Barulho na porta. Minha irmã surgiu empurrando meu pai numa cadeira de rodas.

– Ele chegou! Ele chegou! – ela gritava.
– Louvado seja o Senhor- minha mãe respondia.- Ele ouviu as minhas preces. Louvado seja Deus.

Fiz menção de me levantar, mas quando vi meu pai, com o rosto caído, desisti. Ele não me percebeu, ocupado em não ouvir as louvações das duas; o que era basicamente impossível. Para piorar, do corredor do prédio, surgiram várias pessoas estranhas, provavelmente vizinhos, de chapéus de festa, carregando bolas de encher e soprando pequenos apitos.

– Ele é um bom companheiro, ele é um bom companheiro, ele é um bom companheeeeeeirooooo! Ninguém pode negar.

Depois do coro improvisado, forçando uma intimidade inexistente, os vizinhos passaram pela cadeira rodas cumprimentando meu pai com beijos e abraços.

– Que susto, hein?
– Que bom te ter de volta.
– Não faz mais uma dessas, não.
– Você ficou em qual hospital, mesmo?

Excitadas, minha mãe e minha irmã jogavam os braços pro alto, entremeando detalhes vexatórios sobre a internação e os problemas de saúde do meu pai com gritos de “Aleluia”.

Os vizinhos, quando me notaram, me cumprimentaram à distância e de forma tímida, mas não sem tentar me constranger:

– Olha, quanto tempo?
– Você engordou, hein.
– Tá ficando a cara do seu pai.
– Por que você sumiu por tanto tempo?

Naturalmente, aos poucos, a festa improvisada se transferiu para a cozinha e todos esqueceram de mim. E de meu pai. Ele, na sua cadeira de rodas, eu, no sofá. Abandonados. Como sempre.

Finalmente, na sala vazia, meu pai achou seguro levantar os olhos e me viu. Não esboçou nenhuma reação, assim como eu, acho, não esbocei. Nos olhamos por alguns momentos trocando telepaticamente ofensas e memórias ruins, até que eu desisti de participar desse jogo.

Fiz menção de levantar do sofá para escapar da sala, mesmo temendo as conversas e gritos que vinham da cozinha, mas meu pai me impediu. Em silêncio, balançou a cabeça em negativa e baixou os olhos. Ele tinha razão, lá ia ser pior. Eu assenti com a cabeça, sentei novamente no sofá e peguei o controle remoto para aumentar o volume da televisão e tentar abafar os sons da cozinha. Foi inútil, mas ninguém pode dizer que não tentamos.

4:33

O sinal fechou.

Ele freou o carro em cima da faixa. Por pouco não conseguiu passar. Bufou e checou o celular. Ainda nenhuma mensagem, mas ele sabia que ela ia mandar uma. Ou, pior, ligar. “Cadê você? Você não vem?”. “Sim, sim. Eu vou, eu vou” ele responderia.

Olhou pro relógio. Sete e onze da noite. Pelo que lembrava, e já tinha cronometrado, esse sinal demorava quatro minutos e trinta e três segundos para abrir. Porquê? Não tinha a menor ideia. Só sabia que esse era o sinal mais demorado da cidade. E, o pior, numa rua escura e cheia de árvores. Um perigo.

Por que não arredondar o tempo de espera para baixo ou mesmo para cima? Quatro minutos e meio ou cinco fariam mais sentido. Mas para que as coisas precisam fazer sentido mesmo?

Aproveitando a longa espera, dois meninos surgiram do nada e se posicionaram em frente ao seu carro fazendo malabarismos com bolas. Um terceiro surgiu do lado do carro e bateu no vidro lhe pedindo dinheiro. Ela ligou. Sete e doze. Ele fez sinal para o menino esperar e atendeu:

– Alô.
– Alô, você tá vindo?
– Tô, tô.
– Tá, tá. Só queria saber. O pessoal tá esperando bolo.
– OK. OK. Eu sei.

Desligou. O menino bateu novamente na janela do carro. Ele olhou pra conferir o bolo no banco de trás e percebeu que era o único carro parado no sinal. O show era particular. Fez um sinal para o menino continuar esperando enquanto procurava uns trocados nos bolsos. Os meninos na frente do carro, agora, tinham deixado os malabares de lado, e faziam acrobacias pulando uns sobre os outros e por dentro de bambolês.

Ele achou uma nota amassada no bolso, abaixou o vidro, e a entregou ao menino que foi em direção aos amigos sorrindo excessivamente satisfeito. Ele desconfiou. Tentou mesmo à distância ver de quanto era a nota que tinha entregue. Tinha se enganado, tinha dado dinheiro demais.

Colocou a cabeça pra fora e acenou para o menino voltar. Os três acenaram de volta agradecendo. Estavam sendo sonsos? Ele acenou mais vigorosamente e um dos meninos veio em sua direção enquanto os outros dois buscavam uma garrafa de querosene e tochas.

– Menino, acho que te dei dinheiro demais.
– Deu não, tio. Brigadão.
– Você não entendeu, menino. EU DEI dinheiro demais. Deixa eu trocar essa nota com você.

O celular tocou. Era ela. De novo. Sete e treze. Ele fez sinal pro menino esperar e atendeu:

– O que é?
– Tô só ligando pra te lembrar das velas.
– Não esqueci. Eu sei. Tá comigo.
– Tá, eu só queria dizer…
– Eu sei. Eu sei.

Desligou o telefone e enfiou a mão no bolso, de onde tirou umas moedas, e as entregou ao menino.

– Aqui, ó. Agora me dá a nota.
– Dou, não, tio. Não é justo. Isso é muito pouco.
– É justo, sim. O dinheiro é meu.
– Não é mais. Você me deu.

Enquanto eles discutiam, os meninos na frente do carro, talvez empolgados pela gorjeta polpuda, se preparavam para fazer um show de cuspir fogo. O celular deu um toque. Ela mandara uma mensagem de texto. Sete e quatorze. “Amor, não fica chateado. Só falo pelo nosso bem”. Ele se irritou:

– Aqui, ó, menino, não quero mais discutir. Me dá a nota e fica com essas moedas.
– Quero, não. Eu te devolvo,se você me der pelo menos metade da nota.
– Tá doido? Você não vê que eu tô com pressa?
– O sinal demora, tio. Pode procurar.

Os meninos começaram a cuspir labaredas um em direção ao outro e queimavam as pontas das folhas das árvores da rua que desciam sobre o asfalto como vagalumes. Ele procurou nos bolsos, abriu a carteira e nada. Não tinha nenhuma nota pra oferecer pro menino.

– Achou, tio?
– Não achei, não…
– Então, tio, nada feito.

O menino sorriu e, debochado, fez uma mesura de agradecimento. Isso não caiu bem. Ele fez menção de gritar pela janela do carro, mas se assustou com as línguas de fogo que saíam das bocas dos meninos. O menino com a nota agora a exibia aos amigos vitorioso, dançando entre eles enquanto cuspiam fogo como dragões. O telefone tocou. Era ela de novo. Sete e quinze. Faltava pouco pro sinal abrir. Ele atendeu:

– Que diabo! O que você quer agora?
– Amor, você tá chateado comigo? Você sabe que eu te amo…

Na frente do carro os três meninos dançavam como menestréis medievais cuspindo fogo e exibindo o dinheiro que tinham ganho.

– Amor, tá tudo bem? Por que você não me responde? Você comprou o bolo de sorvete que a gente combinou?

Ele chegou ao seu limite. Revoltado, atirou o celular pela janela em direção ao menino que dançava com o dinheiro. O menino, com presteza, se abaixou e o celular foi direto no queixo do outro menino que cuspia uma labareda para o céu. O fogo, como uma fênix, fez uma curva atingindo a copa das árvores e retornando para a cabeça do menino que começou a arder como uma das velas do bolo que ela esperava receber.

À distância, paralisado, ele ouviu o telefone tocar insistentemente, enquanto galhos em chamas caíam sobre o carro, derretendo o bolo de sorvete, e os meninos tentavam acudir o companheiro que pegava fogo. Não atendeu.

O sinal abriu.

Raiva

Durante um período de 2010, eu viajei pelo interior do país visitando diversas obras e plantas industriais para entender quais eram a cultura e o processo de aprendizagem da empresa onde trabalhava. A equipe era pequena. Além de mim, tinha um coitado que cuidava do curso dos “líderes”; o gerente, que vivia em pânico de ser demitido; e um espertalhão, que usava o dinheiro da empresa para fazer contatos nos exterior e empurrar a sua carreira acadêmica.

Enquanto eu estava amassando barro nas obras, o gerente e o espertalhão contrataram uma consultoria caríssima dos Estados Unidos para fazer o plano de ação da área. Sempre fui contra. Se eu fui contratado para um trabalho, minha missão era cumprir, e não terceirizar, a minha responsabilidade. Mas eu não era o gerente, então…

Calhou que o último dia da consultoria bateu com uma sexta-feira, quando voltei ao escritório de uma dessas inúmeras viagens, e me chamaram para a reunião de fechamento. Reunião em inglês, numa sala com acolchoamento até nas paredes, num hotel chique, com coffee break e o escambau.

Quando os consultores começaram a apresentar os resultados, me espantei. Eles estavam pintando um mundo dos sonhos, onde havia respeito pelas opiniões alheias, tolerância ao erro e diálogo em todas os níveis. Um mundo completamente diferente do que eu conheci: um ambiente de medo, hierarquia pesada e acobertamento de informações. Do alto da minha inocência, fui obrigado a me manifestar:

– Sorry, mr. consultor, mas quem vocês entrevistaram para fazer esse retrato?

Eles explicaram a metodologia e os públicos trabalhados, e aí entendi de onde vinha a distorção. O espertalhão, querendo fazer bonito, botou eles pra falar só com as lideranças que nunca iam dar a real. Do alto da minha inocência, fui obrigado discordar:

– Sorry, mr. consultor, mas não é bem assim que a banda toca…

E relatei o que tinha descoberto nos meus seis meses de viagem de campo. O ruim e o bom, as barreiras e as oportunidades, a realidade e as fantasias. Os consultores ficaram em polvorosa e começaram a dizer que os resultados da pesquisa tinham que ser revistos com essa nova informação e que o plano, criado, considerando uma maturidade muito maior da empresa, ia precisar ser mudado. Ao invés das diversas viagens ao exterior para fazer benchmarking na NASA, no Google e nos diabos que os carreguem, ia ser preciso intensificar o trabalho de campo e base que eu já estava fazendo.

O espertalhão viu seus sonhos caírem por terra. Sem apresentações de trabalhos em congressos internacionais, sem contatos com gente que aparecia na Você S.A., seus planos de carreira iam atrasar uns 10 anos, e, pior, ele ia ser obrigado a fazer o trabalho para o qual foi contratado. O horror, o horror.

Os consultores começaram a me pedir mais informações e no meio de uma explicação, o espertalhão tentou reverter o rumo da prosa:

– Ele não sabe o que está dizendo pois é novo na empresa- me diminuiu.

Não costumo ser dessas coisas, mas, no calor do momento, respondi:

– E ele, que está aqui há muito tempo, conduziu o trabalho de forma desonesta pois já está institucionalizado.

O sangue subiu à cabeça do espertalhão e ele, sedento do meu sangue, partiu na minha direção gritando:

– Shut up. Shut UP! SHUT UP!

Óbvio que a reunião foi encerrada na hora e todos voltamos ao escritório em silêncio. Não sei o que passava na cabeça de cada um, mas sabia que o gerente agora tinha certeza absoluta que seria demitido.

Deu o horário de sair e corri pra ir pra minha análise. No hall dos elevadores, esbarrei com o espertalhão. Ele sorriu pra mim, deu um tapa nas minhas costas e me perguntou sobre a minha camiseta. Respondi:

– É de um web comic sobre um Xamã detetive na época de Genghis Khan.
– Legal, legal. Bom fim de semana.

Quando saí do prédio algo se alterou em mim. Senti meu rosto aquecer, minha cabeça doer e minhas extremidades começarem a ficar dormentes. Ao mesmo tempo que queria me sentar, queria andar por horas, sem parar. Era como se estivesse tendo um surto psicótico, um ataque cardíaco e um derrame cerebral ao mesmo tempo.

Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Um sujeito oportunista, incompetente e desrespeitoso, jogando por terra todo o trabalho que eu tinha feito por conta de caprichos e desejos egoístas. E, para ele, todo aquele embate escandaloso não tinha passado de uma luta de telecatch, um teatro para fazer valer as suas vontades sobre as necessidades da comunidade. Ele representava tudo o que eu abominava e abomino. Era o maior exemplo do que eu não quero ver no mundo: mau-caratismo, falta de educação e desonestidade moral e intelectual. Por que diabos aquele cara tinha me abalado tanto? Eu tinha minhas razões.

Eu não saquei na hora, mas estava sentindo raiva. Uma coisa com a qual até hoje não estou acostumado. Sem saber o que fazer com esse ódio, parei numa lanchonete, pedi uma coca cola bem gelada e a bebi quase num só gole. A bola baixou um pouco, peguei meu celular, mandei uma mensagem pra um colega do meu antigo trabalho pra ver se tinha como me contratarem e, de repente, passou. Acontecesse o que acontecesse, o problema estava endereçado.

Fui para a minha análise e, como o espertalhão desejou, tive um bom fim de semana. Como dizem, a vida é muito curta pra ser passada com gente que te incomoda. E pra sentir raiva.