Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

O aniversário da Zelda

Quanto tempo. Quanto tempo. Quando foi a última vez que a gente viu? Sei lá, no ano passado? É, no ano passado. Onde nos vimos mesmo? Por aqui, quer dizer, aqui mesmo. É, foi aqui nesse mesmo lugar. E também era aniversário da Zelda! Pois, é. Um ano depois estamos aqui de novo. Vivos. Vivos, graças a Deus! De novo, quem diria? Pois, é, quem diria?

E você, o que conta? Nada, nada. Passou bem pela pandemia? Sim, sim. Pegou Covid? Peguei e você? Também, também. Como foi? A minha foi tranquila, e a sua? Mais ou menos, não internei mas fiquei com 50% do pulmão ferrado. Jesus, e agora? Agora está tudo bem. Graças a Deus. Graças a Deus.

Não tá bebendo, não? Não. Porquê? Fez promessa? Pior que fiz. Sério? Sério, quando peguei covid junto com a família, prometi que não ia beber durante 6 meses. E como foi? A covid? Tranquila. Não, ficar sem beber. Ah, tranquilo também, mas às vezes é meio chato. Entendo. Pelo menos descobri que não sou alcoólatra. Um brinde a isso. Pode ser com água tônica? Pode, pode. Um brinde. Um brinde.

Você tá morando onde mesmo? No mesmo lugar. Ah, é? Achei que você tinha mudado. Não, não mudei, mas queria. Eu também. Mudou? Não, também queria mudar. Ah, tá, mas tá morando onde agora? No mesmo lugar. Ah, tá. Bom saber. Bom saber.

E aquelas histórias? Pois, é. Que loucura. Pois, é. Você tinha que escrever um livro sobre a gente. É mesmo. Tem tanta história. É, um montão. Quando você vai escrever? O quê? A história da gente, da rua, do prédio? Ah, sim, em breve, em breve. Mas quais histórias acha que tinham que entrar nesse livro? Ah, tem várias. A do sinalizador, a da amante do Jorge Aragão, a da corrida de gente pelada por conta do Jogo de Master, a da namorada do cara que vomitou na pia artesanal, a da guerra de vinagre, a da vez que vários de nós pegamos chato no mesmo dia… Tem várias. É, tem várias. Você pegou chato? Eu não, e você? Também, não. Quem pegou mesmo? Não lembro. Nem eu. Não lembro. Mas foi hilário. Isso, é. Foi mesmo.

E o trabalho? Do mesmo jeito. E você? Estou para ficar desempregado. Que merda. E ainda tem essa inflação. Quem diria que ia voltar? Quem diria? Mas também…. O que tem? Não vamos falar de política. Tá, hoje,não. Hoje, não, mas ano que vem… Ano que vem, sim. Hoje, não.

Cara, que bom te ver. Bom te ver. Vamos ver se a gente marca algo. É, não dá pra gente ficar se vendo só uma vez no ano. Tem razão, tem razão. Você tem meu telefone? Tenho. Então, me liga pra gente marcar uma cerveja. Quando eu voltar a beber… Isso, quando voc? voltar a beber. Vê se não some, hein? Você também, não some, hein? Vê se não some. Não vou sumir. Nem eu, nem eu.

Parafraseando Zelda Fitzgerald, parafraseada por Pet Shop Boys, vivemos entediados, pois somos chatos. E derivativos. Mas basicamente chatos, porém amigos. Fazer o quê? Não sei, não sei.

Deixe de ser patriota, pergunte me como

Todo país é uma farsa. Você prende um bando de gente num território; estabelece fronteiras artificiais para “impedir” o uso dos recursos naturais dessa terra por gente que você não gosta; define um modelo de governança que lhe dê vantagens sobre o restante da população; controla a circulação de valores inventando um dinheiro que só você pode imprimir; e tira da cartola uma fantasia romântica sobre essa conjunção de povo e terra, desenha uma bandeira pouca imaginativa, escreve uma marchinha safada, que chama de hino, e dá a isso o nome de cultura. Presto! Temos um país.

Pessoalmente, prefiro o método Marina Lima “você me abre seus braços” de criação de país, mas esses passos acima normalmente são os que as pessoas seguem para criar essas fantasias patrióticas que dividem o mapa-múndi como um livro de colorir para adultos com baixa capacidade cognitiva.

Nenhum problema em acreditar em coisas que não existem. Religião e Super Heróis fazem sucesso até hoje e são, pelo menos no segundo caso, fantasias basicamente inócuas. O problema é que os países, assim como os relacionamentos românticos, na acepção do Miguel Falabella, são como submarinos: até bóiam, mas são feitos para afundar. E o seu fracasso se dá justamente pela fantasia romântica que gera aquele sentimento patológico de submissão chamado patriotismo. Se encararmos a nossa relação com os países, e até com as pessoas, com mais pragmatismo, só teremos a ganhar. Em vez de ficar sofrendo com problemas que achamos decorrentes da “cultura” ou do “jeito de ser” do “brasileiro”, por que não resolvê-los deixando as emoções de lado?

Exemplo? Dou até dois.

Primeiro: o país é ingovernável. OK, divide o território. Pra que ter um país desse tamanho? Porque a gente fala português? Valha-me, Deus. É só manter uma estrutura compartilhada mínima de relacionamentos, definir constituições estaduais respeitando os grupos populacionais mais próximos, suportar sistemas educacionais e de saúde compartilhados, e montar um mercado comum entre esses estados para organizar e pronto. Ah, e aproveitando podemos acabar com as forças armadas, que, no nosso caso, são apenas um tipo de decoração que só atrapalha.

Segundo: os governantes se locupletam e não pensam no bem estar da população. OK, vamos transformar o poder em ônus e não em bônus. Em vez de basear a concessão das chaves do reino nesse concurso de popularidade disputado por gente feia e burra, vamos sortear os cargos atualmente eletivos. Tenho certeza que seria impossível sair com um presidente pior do que o que temos atualmente. Ah, e a democracia? Relaxa, o povo vai votar. De 2 em 2 anos, votamos se esses sorteados estão fazendo um bom trabalho ou não. Os que fazem um bom trabalho são retirados do governo e do sorteio para sempre, os que não fazem são exterminados em praça pública. Duvido alguém mais querer ser político.

Viu? Facinho de resolver. É só deixar as fantasias megalomaníacas ou paranóides de lado que rapidinho a gente acha uma solução pra tudo.

Se a gente tivesse menos romantismo com essa construção torta, essa colônia passada de pai pra filho, e movida aos trancos e barrancos através de sucessivos golpes de estado capitaneados por forças armadas ociosas e com fantasias de poder, a vida seria mais fácil e melhor. Abandonar a fantasia de futuro brilhante para esse conjunto de território e população é o melhor caminho para aprendermos a viver confortavelmente com a nossa mediocridade. E isso se aplica a todos os países do mundo.

Afinal, o Brasil, como o restante da comunidade mundial, não tem um destino manifesto. Isso é só conversa de vendedor de carro usado pra te empurrar um acordo ruim, contando com a ideia que você sente orgulho por algo que não existe: ser brasileiro. Patriotismo é uma fantasia tão fora da realidade quanto discutir se o Capitão América é melhor que o Homem de Ferro. Viver em comunidade, sem firulas e com autocrítica, é que são elas.

Agora, se você não concorda com nada do que eu disse, fique à vontade para sair de camisa do brasil, fazendo arminha com a mão, e apoiar um genocida que se diz um Messias para se apropriar do erário nacional e favorecer sua família de incompetentes e seus amigos milicianos. No seu futuro, como no do Brasil, eu só vejo remorso e dor. Eu, por outro lado, decidi viver com consciência, sem sujar as minhas mãos de sangue defendendo gente que não merece meu respeito. Eu preferi ser pragmático a ser patriota. É a maneira mais ética e mais racional de se viver, pode acreditar.

A gata mais linda do mundo

Toda noite, quando caía no sono, ela se transformava na gata mais linda do mundo. E toda noite ela era uma gata diferente.

Às vezes era toda preta; às vezes era malhada, com as mais diferentes cores e matizes; às vezes branca, como a neve. E algumas vezes, mas nem sempre, ela era laranja como uma gata de desenho animado, ou quase pelada, mais parecendo com um rato. Não importava a sua aparência que ela assumia ao se transformar, quando dormia ela sempre virava a gata mais bonita do mundo.

Era só ela fechar os olhos que a gata abria os dela.

A gata acordava num mundo noturno, de luzes apagadas, numa casa com humanos dormindo, ignorando morar com a gata mais linda do mundo. A gata caminhava languidamente por quartos e corredores; copas e cozinhas; banheiros e varandas. Vez ou outra esbarrava com outros gatos que dividiam com ela a habitação; em outras vezes, estava sozinha. Para ela não fazia diferença. Com ou sem companhia, ela subia em estantes, afiava as garras em sofás, comia e bebia, desfilando a sua beleza na escuridão humana. Mas ela sentia que algo lhe faltava.

Quando cansava, a gata se aninhava nos humanos narcolépticos, miando e piscando os olhos para eles, perguntando por que razão, se era tão bonita, eles não a notavam. Angustiada, dava pequenas mordidas em suas pernas e cafungadas em suas axilas, buscando inútilmente a sua atenção.

Quando o sol nascia, a gata, exausta e frustrada, fechava os olhos para ela acordar. Ela, a mulher mais feia do mundo.

Ela levantava, sem memórias de ter sido a gata mais bonita do mundo. Fazia sua higiene, tomava café sozinha, se arrumava, mesmo não vendo necessidade em tentar melhorar o que não tinha conserto, e saía para trabalhar.

Nas ruas, ninguém olhava para ela. Era tão feia que não provocava asco nem repulsa. Era apenas apagada. No trabalho, as pessoas se comunicavam com ela pontualmente descarregando nas suas costas as coisas que não queriam fazer. Fora esses pequenos contatos, ela ficava sozinha. Almoçava sozinha, ia à copa sozinha, ouvia sozinha os papos das pessoas no cafezinho, e retornava para casa da mesma forma que chegou ao trabalho. Sozinha.

Em casa, matava o tempo entre as obrigações que garantiam a sua subsistência e a hora de dormir olhando para fotos de pessoas bonitas e vendo filmes estrelados por pessoas lindas, ou, pelo menos, mais bonitas que ela. Enrolava e se distraía de sua tragédia, beliscando comida vencida da geladeira, fazendo palavras cruzadas fáceis e evitando pensar em quão horrível ela era, enquanto esperava o sono chegar.

Quando sentia as pálpebras pesadas, sorria feliz. Se recolhia e, cheia de esperança, rezava mais uma vez para ser bonita, para ser mais bonita, para ser a mais bonita. Seus olhos fechavam e seus desejos eram atendidos. Os olhos da gata abriam e ela, enfim, era a mais bonita. Mas, apesar de toda a beleza, quando despertava, a gata também fazia uma oração. Entre miados curtos e sedutores, pedia, não para ser a mais bonita, nem para ser a mais feia, ela só queria ser notada. Bela ou feia, elas continuavam sozinhas; a gata e a mulher mais sozinhas do mundo.

Aqui e ali

Hoje sonhei que estava ao mesmo tempo aqui e ali. Havia um futuro ali, com cores, beleza e movimento; mas o passado, ou melhor, ou pior, o presente do aqui ainda me prendia, com seus alarmes e alertas, suas mensagens de celular e videoconferências sem fim. No sonho, era como se eu estivesse à caminho do ali, mas ainda sem tirar um pé do aqui.

Quando acordei, anotei o sonho num caderno que tenho aqui, cheio de fantasias e desejos que imagino realizados ali, e percebi que, ao mesmo tempo que quero ir para ali, tenho medo de deixar aqui.

Ali representa satisfação, amor e emoção. Aqui representa dor, marasmo e humilhação. Mas ali é incerto, e tenho medo de me frustrar. Aqui é menos incerto, mas tenho medo de me afogar.

Não lembro de quando fiquei sabendo que havia ali. Talvez já tenha vivido ali, antes de viver aqui, mas já não sei mais. Durante um tempo, longo demais, não fiquei nem aqui, nem ali, e pedi a Deus que me levasse para algum lugar. Ele me trouxe para aqui, e agradeço por não estar mais em lugar algum. Porém, agora, não me canso de sonhar com deixar aqui e chegar ali.

Ali eu teria liberdade e diversão. Aqui é só medo e opressão.

Ali eu poderia ser mais eu mesmo. Aqui eu preciso esconder quem sou por medo de retaliação.

Ali as coisas crescem e se transformam. Aqui as coisas morrem e tentam ser salvas por ganância e sede de poder, não por merecimento.

Ali é a juventude que eu tive; a alegria de viver. Aqui é a decrepitude alheia, o formalismo, os velórios; o medo de morrer.

Ali não é aqui. E aqui não é ali. E isso já bastou pra eu quase me decidir.

Parece fácil escolher entre aqui e ali, mas não é. Afinal, um dia, aqui já foi ali e representou tudo o que o novo ali hoje representa. Ali e aqui não são só uma questão de espaço, também de tempo. Todo lugar é ali quando não se está lá. E assim que se está lá, ali ele se torna aqui.

Mais importante do que o aqui e o ali, é quem sou lá, quer dizer, lás. Quando sou novo e cheio de promessas, para o aqui eu sou um ali. Quando o tempo passou e me tornei antigo e repetitivo, sou o espelho do aqui para o qual ninguém mais quer olhar.

Como um papel de parede bonito e vistoso, que chama a atenção logo após a sua aplicação, aos poucos vou me confundindo com a parede e sumindo naquilo do que eu achava que não fazia parte.

Mas dentro do meu coração, eu sei que não pertenço aqui e, talvez, nem pertença ali.

Fico buscando, em sonhos e medos, razões para ir e pra ficar. Pois, sempre resta uma esperança que eu possa, ou algo possa, transformar o cansado aqui num excitante ali. E, assim, eu não precise me mudar.

Indeciso, com medo e angústia, ponho um pé pra fora do aqui, nos meus sonhos, nas minhas conversas, em desenhos e palavras cruzadas feitas escondido. Mas não saio inteiramente, nem me comprometo com o caminho para o ali, pois não sei se vou chegar.

Hoje, como ontem, e, espero diferente de amanhã, a decisão é não decidir entre o ali e o aqui. Mais uma vez, a decisão é ficar nem cá, nem lá. Melhor voltar a dormir e sonhar com mapas que venham me salvar.

Meditação Interrompida

Respire fundo e limpe sua mente de todos pensamentos negativos

Caramba, hoje fez um ano que o Jota morreu. Porra, parece que foi ontem. Pra dizer a verdade, parece que foi ontem que eu o conheci. Nunca vou esquecer, subindo a ladeira que levava pro colégio, a professora de estudo dirigido passou pela gente, e ele me cutucou dizendo maliciosamente: “Não imagina o que eu faria com essa mulher num quarto escuro”.

O pior é que eu nem imaginava mesmo. Eu tinha 6 anos, porra. Agora, eu tenho certeza que ele imaginava. Mas não tenho certeza O QUE ele imaginava. Mas coisa boa não era. Pra dizer a verdade, devia ser até coisa boa mas não para uma criança de seis anos. Fazer o quê? Ele sempre foi precoce. Até pra morrer. Meu Deus, que feio pensar isso, cala-te boca.

Se a sua mente vagar, a traga para perto de si.

Como era o nome dessa professora mesmo? Valéria, Vanessa… acho que tinha algo com V. Ou era Maria. O Jota é que tinha uma piadinha. Um lance tipo Maria Vagina. Maria Virgínia. Deixa pra lá. Nunca vou lembrar.

Pra dizer a verdade, só lembro de sair pro recreio e ela esperar a gente na entrada do pátio com aquela mesa cheia de copos de toddy geladinhos. “Toma Toddy, querido”, ela convidava sensualmente.

Os nossos pensamentos apenas passam por nós. Eles não são quem somos.

Quanto tempo faz que eu não bebo um toddy. Será que era bom mesmo ou é só uma memória afetiva da infância? Acho que o contexto ajudava. A tal Maria Vagina toda carinhosa, calça jeans atochada no corpo, com aquele copinho de leite achocolatado gelado na mão; a gente todo feliz, sem preocupações, correndo pra se divertir no recreio… meu Deus. Tem sensação melhor?

Será que eu pensava nisso mesmo? Com seis anos? Aí é hipersexualização demais. Vai ver era culpa da Xuxa na televisão. Aqueles shorts e aquelas danças Era impossível a gente não ficar maluco.

Deixe seus desejos e medos de lado. Liberte-se. Liberte sua mente.

Jota, Xuxa, Maria Vagina. Por que diabos a gente não consegue se libertar dessas ideias obsessivas que fazem tanto mal pra gente? Por que a gente vive tão angustiado com o futuro e com o passado? A gente vai morrer mesmo, que nem o Jota morreu. Para que se angustiar? O passado já foi. O futuro vem de qualquer jeito. Pra dizer a verdade, o que a gente consegue controlar da vida, mesmo?

Acho que nada. Queria ser criança de novo. Sem preocupações, sem medos, apenas com a certeza que a tia Ana Lúcia estaria me esperando com um toddy geladinho antes do recreio. Isso! Esse era o nome dela tia Ana Lúcia. Ufa, lembrei. Pra dizer a verdade já estava ficando angustiado de não lembrar.

Deixem os ressentimentos com o passado e as angústias com o futuro de lado. Viva apenas o agora. Respire fundo e viva o presente.

Caramba, Ana Lúcia. Ela morreu também. E quando a gente estava no colégio. Foi câncer, eu acho. Coitada. Ficou carequinha. A gente chegava lá no refeitório e lá estava ela comendo granola com leite, quietinha, quase sem forças. Que tristeza.

O pior é que eu comi granola hoje no café. Será que estou com câncer? Ai, que horror pensar nisso. Cala te boca. Cala te boca. Pobre Ana Lúcia, pobre Jota, pobre de mim.

Palavras certas, pensamentos certos, ações certas. Esse é o caminho da meditação.

Será que se eu colocar toddy na granola ficaria bom? O Jota uma vez falou disso, não? Sei lá. Pra dizer a verdade, não lembro mais de nada. Amanhã eu tento. Deve ficar bom. Vai ficar bom, não? Sei lá, sei lá.

Compra e Venda

Desde o início da avaliação, ficou claro para o corretor que o casal estava ansioso. Especialmente a esposa. Isso não era incomum. Todos ficam tensos quando tem o valor do seu imóvel avaliado. Definir o preço de uma casa ou de um apartamento é um exercício de corda bamba. Ninguém quer ser subavaliado e perder dinheiro, nem superavaliado e não atrair compradores.

Porém, a tensão exibida pelo casal, especialmente pela esposa, ia além disso. Havia algo a mais. Algo que ele precisava investigar.

– Então, qual é o veredito- a esposa se adiantou?
– Bom,- o corretor começou- é um imóvel interessante. Sólido, bem localizado; precisa de algumas reformas, afinal o prédio é bem antigo, mas isso não é problema.
– Ótimo, ótimo- a esposa suspirou.
– Mas…
– Mas?
– Mas eu sinto que há algo estranho. Algo que não estão contando. Há algo que esconderam de mim?
– Viu, eu te disse que ele ia perceber- ela ventilou suas frustrações para o marido.- Eu te disse. Era impossível não perceber.

O corretor, intrigado, tentou esclarecer:

– Podem me explicar do que estão falando?
– É uma besteira- o marido minimizou.- Ela tem a impressão que a casa é mal assombrada. Doideira. Relaxa, amor. Já te disse que isso é coisa da sua cabeça.
– Ah, não me venha com essa, querido. Já esqueceu tudo o que a gente passou aqui?
– Tipo o quê?- o corretor quis saber.
– Você quer mesmo saber? Eu vou te contar. Assim que a gente mudou, não deu duas semanas, a tubulação do banheiro estourou. Tipo uma cachoeira. Inundou o apartamento todo.
– O prédio é antigo- o marido contemporizou.
– Tá, eu sei. Mas isso não explica o que os pedreiros acharam na parede.
– O que eles acharam?- o corretor perguntou.
– Facas. Facas e mais facas. Enfiadas no meio do concreto. Como se fosse algum tipo de magia negra.
– Exagero, eram só umas quatro ou cinco facas- o marido esclareceu.
– E o lance do gás?
– Do gás?- o corretor começou a ficar assustado.
– Os técnicos da companhia de gás vieram aqui colocar a tubulação nova e quando tiraram a antiga antiga ela estava cheia de símbolos estranhos pintados em vermelho, tipo tridentes e capetas.
– Exagero.
– E a vez em que o fogão quase explodiu na sua cara foi um exagero?
– Um acidente.
– Você quase ficou cego!
– Parcialmente… parcialmente…
– E as luzes, hein?
– O que tem as luzes?- o corretor perguntou
– No meio da noite, elas acendem e apagam como se estivessem mandando mensagens. Mensagens do além. Do além!
– Que nada. Parece tipo uma boate, daquelas bem tranquilas. Nem me acorda mais- o marido complementou.

Era visível o medo no rosto do corretor. O marido tentou acalmá-lo:

– O senhor não fique assustado, é que ela encasquetou que o fantasma da minha madrasta, que morou aqui antes da gente, está aqui pra me matar.
– Encasquetei? Ela não te expulsou do enterro do teu pai, hein? Dizendo todas aquelas palavras estranhas em sei lá que língua.
– Sim, expulsou, mas…
– E aquela caixa com o rato morto que deixaram na porta do nosso antigo apartamento?
– Nada ficou provado. Nada.
– Bom, então, amigo- o marido explicou ao corretor-, por isso ela está preocupada que esse lance da casa ser mal assombrada possa diminuir o valor de venda. E como a gente quer sair daqui logo…
– Quer, não! Precisa. Senão o fantasma dessa velha vai matar a gente.
– Retomando, então como a gente quer vender logo, ela quer saber se tem uma maneira da gente vender bem esse imóvel para comprar outro.
– Entendi- o corretor começou a se recompôr.- Posso fazer uma pergunta pra senhora?
– Claro.
– Se a senhora estava sendo atormentada por esses espíritos, esse quase poltergeist, por que não se mudaram logo?
– O mercado estava em baixa pra vender e a gente não queria perder dinheiro.
– Entendi.
– Então, será que a gente consegue vender bem esse apartamento mal assombrado?- o marido pediu a avaliação do corretor.

O corretor coçou o queixo, olhou pro pé direito alto, pro teto cheio de arabescos, chutou de leve uma das paredes como se estivesse testando a estrutura e se pronunciou:

– Acho que tem um jeito. Acho que tem um jeito.

Na semana seguinte, o corretor postou nos sites de imóveis o seguinte anúncio:

“Oportunidade ÚNICA! Apartamento de 110 m², dois quartos e dependências, sem vaga de garagem. Último imóvel ainda mal assombrado na Zona Sul do Rio. Apenas para os verdadeiramente corajosos ou descrentes. Motivo de venda: fantasma de madrasta quer matar o proprietário. Clique aqui para pedir mais informações ou marcar uma visita. Sol da manhã.”

O corretor acertou na mosca e em duas semanas o apartamento foi vendido por um valor acima do de mercado. O casal comprou outro bem melhor, sem fantasma, com vaga na garagem, varanda e condomínio com playground e piscina. Já o fantasma da madrasta ficou feliz de se livrar do enteado e se acalmou. Se bem que os novos moradores, um casal de ateus materialistas, mas cheios de superstições, tem o hábito de cantar música sertaneja na madrugada, o que está começando a dar nos seus nervos espectrais.