Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Reencontros na estrada

A primeira vez que o encontrei foi nas páginas do Círculo do Livro. Todo mês o rapaz ia lá em casa levar a revista da vez e trazer os livros que a gente tinha encomendado no mês passado. Não tenho certeza até hoje se o Círculo do Livro funcionava assim. Acho que o vendedor queria mesmo era conversar. Ele era estudante de Letras e a minha mãe, professora de Filosofia, batia altos papos com ele. Eu, do alto dos meus 12 anos, tentava acompanhar. Não conseguia, mas também não fazia feio.

Minha mãe escolhia os livros dela e me deixava escolher uns pra mim. Depois de ter completado a coleção do Monteiro Lobato, do Sherlock Holmes, e enveredado pela ficção científica, queria algo diferente; por mais idiota que isso possa parecer, eu queria algo mais adulto. E lá estava você: um livro clássico, considerado obsceno quando foi lançado, escrito num arroubo de espontaneidade, poesia e vida. Pelo menos era o que dizia na revista. Escolhi você.

Quando você chegou no mês seguinte, passei por cima da sua capa dura e enfrentei suas mais de 500 páginas de fluxo de consciência num misto de espanto e tesão. A vida que queria pra mim estava alí: liberdade, aventura, amizade, existencialismo, tristeza e decepção. Mirei em algo adulto e acertei na adolescência pura. A vida, enfim, não te dá o que você quer, mas o que você precisa.

Fiquei tão empolgado que lhe recomendei e lhe emprestei a todos que podia. Meu amor era tão grande que você se perdeu nesse meu movimento de cantar a nossa paixão. Foi-se.

Poucos anos depois estava na faculdade, fazendo um curso sem propósito, e, durante uma das minhas longas caminhadas no centro da cidade vazio dos fins de semana, nos revimos. Eu, cheio de ansiedades e dúvidas, você, plácido, sobre uma lona no chão, sendo vendido por um cara que com certeza não sabia o seu valor. Quis comprá-lo na hora, mas não tinha dinheiro.

– Você guarda ele pra mim?- implorei ao dublê de livreiro.
– Guardo, mas volta logo.

Peguei o metrô, cheguei em casa, pedi dinheiro aos meus pais e em menos de meia hora estava de volta para comprá-lo.

– Deu sorte, é um livro raro- o dublê de livreiro me disse enquanto o colocava numa sacola de supermercado.

Eu sabia. Talvez o livreiro não fosse tão dublê assim.

Eu o reli uma, duas, inúmeras vezes. Mandava cartões postais a amigos distantes tentando imitar a sua prosa e reclamando por não estar vivendo nas estradas.

Um dia encontrei um grupo de pessoas que o apreciavam e chegamos a planejar uma viagem aos moldes das que você descreve. Dei com os burros n’água. Um a um, os possíveis companheiros de viagem foram desistindo. Reclamei disso com outros amigos e, veja só, acabamos indo do Rio ao Piauí de carro numa viagem memorável que me transformou tanto quanto você. Considerei que a nossa missão estava cumprida e assentei.

Deixei de ser um jovem adulto e comecei a fazer força para deixar para trás a minha adolescência. Um erro. Tive alegrias e tristezas, altos e baixos. Num deles fui obrigado a vender minha biblioteca e você foi junto. Chorei, mas sabia que ia lhe reencontrar. Aconteceu.

As mesmas pessoas que compraram meus livros se tornaram meus sócios, abrimos uma livraria e, um dia, durante uma compra de livros, lá estava você. Descumpri os nossos regulamentos e o comprei para mim. Não iria fazer tanta diferença para a minha livraria. Naquela época você já tivera diversas novas edições, inclusive em pocket, e a sua raridade, enquanto publicação, tinha ficado pra trás. Porém você continuava raro e especial. Pelo menos para mim.

Mais uma vez o reli e, durante esse novo momento, um amigo se matou. Você me fez repensar a minha vida e se tinha acertado em tentar me tornar adulto. O problema, cheguei à conclusão, não era ser adulto, mas como ser “adulto”. Vendi a minha parte da livraria, abri um novo negócio, me casei e mais uma vez você me acompanhou.

Nesses quase 20 anos, esbarramos várias vezes e você foi amarelando junto com muitos dos meus sonhos. Outro dia, angustiado com o país, com a rotina, com a vida e com a pandemia, me perguntei onde você estava e não o encontrei. Talvez eu o tenha emprestado, talvez você tenha criado pernas e partido pelas estradas sozinho, mas, tenho certeza, quando precisar sair numa nova jornada, você irá aparecer e me acompanhar. Hoje, repensando novamente o que fazer e para onde seguir, sinto que a hora do nosso reencontro está chegando. Será hoje? As estantes e as estradas nos esperam.

Comédia menos tempo

E aí? Quanto tempo, cara! Caramba, que saudades. Quantos anos faz? 7, 8? E aí? Ainda está trabalhando lá naquele inferno? Sério? Achei que você tinha saído também. Todo mundo meio que saiu, né?, quando teve a demissão em massa. Que bom que você escapou. Aposto que teve que puxar um bando de sacos. HAHAHA.

É, eu saí antes, mas foi por conta de outras razões. Não sei se você lembra, mas o Amâncio não era muito meu fã. É, tinha aquelas reuniões particulares semanais de 3 horas. Você lembra? Ele me chamava na sala de reunião e ficava me descascando. HAHAHA, que engraçado. Teve uma vez, numa avaliação anual de desempenho, que ele inclusive disse que eu só tinha dois problemas: ser competente e bem articulado. Lembra como a gente chamava essas reuniões? Ao invés de feedback, era fodeback. HAHAHA, o Amâncio era uma figura mesmo. Um imbecil total, mas não era má pessoa.

E quando ele me demitiu? Você lembra? Minha filha tinha acabado de nascer, minha mãe ainda estava se recuperando do infarto e o país estava entrando naquela crise braba. O pessoal até achou que era o início da demissão coletiva. É, eu fiquei na maior merda. Tive que vender parte da minha biblioteca e mudar de estado, mas tudo bem. Acontece, acontece.

É, gastei a maior grana na mudança e até arrumei uma posição legal com a ajuda de uns amigos, mas logo depois deu a maior merda. É, eu estava naquela empresa que sofreu a investigação. Já viu né? A maior sorte… As coisas até iam muito bem lá, mas um ano e pouco depois cortaram todos os contratos de terceirização e fiquei desempregado de novo. E com os custos altos na casa nova, a filha pequena e a mulher sem trabalhar foi bem difícil.

Mas logo, logo, arrumei uma outra coisa. Bom, não era um troço, assim, legal, legal. Era um trabalho chato, temporário e com clientes difíceis. Aquele tipo de projeto feito para dar errado, saca? É, nesse não durei muito. Apesar de trabalhar pacas, uma das clientes encrencou comigo pois dizia que eu só trazia notícia ruim. HAHAHA, imagina só. Mas fazer o quê? Um projeto todo errado, subdimensionado e que nem a liderança achava que ia vingar. Já viu, né? Não deu sete meses, fiquei sem emprego de novo. Mas tudo bem. Bom, mais ou menos.

Tive que mudar para aquele apartamento vazio do meu pai, fazer uma reforma nele, cortar custos, botar a menina numa escola pior e tal. Eu até arrumei uns frilas, alguns legais, outros nem tanto, mas no fim das contas precisei consumir todas as minhas reservas. É, até o dinheiro da aposentadoria foi embora. No fim de 2 anos e meio, já estava com a corda no pescoço mas na última hora rolou um novo trabalho e agora está tudo bem. O emprego é bem legal e está tudo indo bem. Por enquanto. HAHAHA. Sabe como é, a vida.

E, você, como está lidando com a pandemia? Nós estamos bem. Pegamos CoVid mas foi tranquilo. Uns amigos não tiveram tanta sorte. Lembra do JM? Ele era ótimo, né? Uma comédia. Não sabia? Ele morreu, vai fazer um ano. É, sinto a maior saudade dele. Já tinha um tempo que ele não estava bem, mas é sempre difícil. Estou até pensando em fazer um documentário para recuperar as histórias legais que vivemos com ele. É, a vida é um apanhado de pequenas tragédias, mas tudo passa. Tudo passa. E ficam as alegrias. Como dizem mesmo? A comédia é a tragédia mais tempo? Então no fim das contas tudo também é tragédia se a gente tirar o tempo. HAHAHA, essa é boa, deixa eu anotar aqui.Tragédia igual a comédia menos tempo.

E você, o que conta? Tá com mais ou menos tempo pras tragédias da vida? Diz aí? Sério? HAHAHA, só você mesmo. É, vamos rir pra não chorar. Pra não chorar.

Os últimos dias do Le Bon Sebon

A nossa falência, como preconizada por Hemingway, aconteceu gradualmente e, então, de repente. Em uma semana éramos um negócio simpático com dificuldades, na outra íamos fechar definitivamente.

Claro que houve uma preparação. Avisamos aos clientes que tinham crédito na loja para trocar seus vales por mercadorias, mandamos mensagens à imprensa sobre o nosso fracasso e chamamos alguns colegas do comércio para comprar o nosso lote de mercadorias. Apesar de todos lamentarem nosso fechamento, só um deles se animou para fazer uma avaliação.

Discretamente, ele chegou no início da noite enquanto ainda tínhamos alguns clientes na loja. Sem pressa, esperou até eu fechar para começar a fazer a autópsia da minha tristeza.

– Uma pena, uma pena- ele balançava a cabeça enquanto olhava o lote maravilhoso de livros que ia comprar por uma pechincha.

Com um prazer sádico, ele ia rearrumando as estantes ao seu bel prazer enquanto enumerava as razões do meu insucesso:

– Você sempre comprou bem, mas botar preço nunca foi a sua especialidade. Olha só esse Lacan, tá de graça.

Não podia deixar de lhe dar razão.

Depois de fazer a revista em todo o estoque, ele ficou no meio do salão batendo no queixo e fazendo o teatro usual para sugerir um preço. Quando finalmente fez a oferta, eu aceitei sem regatear. Não queria sair por cima, nem levar vantagem. Só queria sepultar o morto.

– Então, vamos ensacar os livros?- fez a proposta indecente que eu aceitei sem reclamar.

*

No dia seguinte fui cedo pra loja esperar o pessoal do frete levar o que havia restado da loja para o seu novo lar. Abri a loja e fiquei sentado atrás do balcão como um barman num saloon de filme de faroeste. Sem função, sem motivo pra existir.

Um cliente bateu na porta e me tirou do meu transe:

– Já estão fechando? Posso dar uma última olhada?

Não havia nada para se ver, mas assenti. O cliente andava pela loja olhando as prateleiras quase vazias em busca do que não estava lá. Quando finalmente se deu conta do ridículo da situação, me perguntou:

– Quanto quer nesse móvel de CDs?

Eu não tinha ideia, mas queria me livrar de tudo, então joguei um preço lá embaixo. Ele aceitou.

Enquanto eu esperava o frete, outros clientes apareceram e foram levando os móveis e prateleiras, por dinheiro ou cortesia, deixando nuas as paredes que guardaram meus sonhos por um ano. Quando a loja esvaziou, o frete apareceu e levou os livros como se eles nunca tivessem estado lá. Fechei a loja pela última vez e o motorista do frete me ofereceu uma carona. Recusei, eu ainda precisava velar o morto.

Fui ao bar do lado da loja, que em breve também fecharia as suas portas, e comecei a beber.

*

Dois anos depois eu estava trabalhando num lugar totalmente diferente e terminando de pagar as dívidas que a loja me deixou. Numa quinta de noite, saí com o pessoal do trabalho e fomos num bar próximo do escritório. Quando pedimos a conta, o garçom me interpelou:

– Aí, você não era dono de um sebo lá na Conde de Bernadotte?

Confirmei e me espantei que ele me conhecesse.

– Eu era garçom no bar do lado da sua loja. Eu tava lá no último dia. Nunca vi alguém beber tanta cerveja sozinho. Deixa eu te dar uma saideira por conta da casa.

Sim, era eu mesmo. Ele realmente estava lá. Aceitei a sua gentileza. Era bom saber que de alguma forma torta havia marcado a vida de alguém.

*

Já faz quase 15 anos do fechamento do Le Bon Sebon, mas, por mais que suas portas tenham se fechado e o espaço abrigado uma série de negócios mal sucedidos, é como se nunca tivesse entregue as chaves da loja. Dentro da minha alma, ela ainda existe, aberta e pronta a receber os clientes como fazia antes. Os nossos empreendimentos e sonhos, isso Hemingway não me avisou, não fecham, nem fracassam, eles apenas mudam de seus endereços físicos para os nossos corações. Só cabe a nós decidir se eles irão apodrecer nossas almas ou se tornar a terra que alimentará o nosso futuro.

Prezada Cerveja

Fala, querida, quanto tempo. Sei que só estamos afastados há 3 semanas, mas, confesso, parece bem mais. Não tinha como ser diferente, nesses últimos tempos, desde que a pandemia começou, nosso relacionamento realmente se estreitou.

Sem o ritual do transporte público, do sair e chegar em casa, calhou que o nosso encontro virou a maneira de eu avisar ao meu corpo e à minha mente que o trabalho tinha acabado. Assim, quando eu terminava minhas tarefas diárias, lá ia eu te rever na geladeira, gelada e convidativa. Começamos com encontros breves e curtos. Aos poucos eles foram ficando mais longos e se tornaram também uma forma de eu ficar sozinho comigo mesmo. E com você, claro.

Com o passar dos meses, nosso contato foi se tornando mais constante e tinha repercussões no dia seguinte em pequenas, ou grandes, ressacas que me permitiam ficar na cama um pouco mais e botar a culpa de um mal estar generalizado nas nossas farras. Porém, cá entre nós, eu estava me enganando. Te procurar pra me fazer mal era só uma maneira de não entrar em contato com os meus sentimentos e também aguentar as 12 ou 13 horas diárias de reuniões na antecipação dos goles que íamos dividir.

OK, a culpa não é sua. Se o nosso relacionamento quase começou a se tornar tóxico, só tenho uma pessoa a culpar: eu mesmo. Mas também como passar por tudo isso de cara limpa? Não há meditação zen budista que alivie esse fardo para um cristão, ou, até mesmo, um ateu. Mesmo assim, cá estamos nós, separados.

Claro que teve um motivo. Quando senti os primeiros sintomas da CoVid, resolvi fazer a promessa que ficaríamos sem nos ver, ou tocar, pelos próximos 6 meses se não eu não tivesse maiores complicações. E, graças a Deus, deu certo. Como promessa é dívida, melhor darmos esse tempo.

Pra você tenho certeza que não é problema. Na TV vejo um bando de gente que está arriscando a vida pra aproveitar a sua companhia nos bares com outros inconsequentes. Melhor seria que todos a encontrassem em casa, sem aglomerações, como eu fazia. Novamente, eu sei, a culpa não é sua.

Seja como for, vou te dizer, apesar de tudo ter começado com uma promessa, acho que esse tempo que estamos dando vai ser positivo. Desde que nos afastamos, comecei a dormir melhor, perdi alguns dos quilos e centímetros de barriga gerados pela nossa relação, e entrei em contato com o tal mal estar que eu atribuía a você.

Agora, mais consciente de que o cansaço com o qual desperto tem outros motivos, comecei a tomar outras providências. Medito duas vezes por semana, voltei a ler e a escrever pela manhã, entrei num curso de roteiro de documentário, e estou passando um tempo mais produtivo com a minha família. O que tem sido muito bom.

Estaria mentindo se dissesse que não sinto saudades de te encontrar ao fim dos dias longos e quentes de trabalho, mas sinto que estou lidando bem com isso; tanto que não tenho mais certeza que em 12 de novembro a gente vá reatar. É chato dizer isso por carta, mas é melhor te deixar preparada. Talvez esse tempo seja o indício de um rompimento final.

Nessas últimas semanas, percebi o quanto deixei nas suas costas a responsabilidade de não resolver uma série de coisas que me incomodavam. Não é justo que a gente mantenha um relacionamento de co-dependência onde você seja a fonte de alegrias e tristezas que não lhe concernem, nem uma maneira pra lidar com gente com quem eu não quero estar junto ou situações onde não quero estar. Como dizem nos filmes, “it’s not you, it’s me”.

Então, no dia 12 de novembro, mesmo que não fiquemos juntos, vamos nos falar. Pode ser que eu tenha mudado e perceba que é possível termos uma relação novamente. Se isso acontecer, ela precisa ser diferente, saudável, pois eu preciso ser diferente e saudável. E se não voltarmos, não vamos nos tornar inimigos. Guardemos as memórias dos muitos tempos felizes que passamos em festas com amigos, sozinhos em meditações pessoais ou em mesas de bar sob o sol inclemente do Rio de Janeiro.

Eu sei que você me entende. Abraços, obrigado e desculpe por tudo que precisamos passar.

Inté!

A Janela de Topázio

De abril a julho de 1989 houve uma suspensão da realidade. Eu tinha 14 anos, estava apaixonado pela primeira vez, e os professores particulares entraram em greve. Durante dois longos e prazerosos meses, por razões fora do meu controle, eu estava liberado de todas as minhas responsabilidades apenas para existir.

Eu acordava cedo, tomava café com meus pais, mas no meio da manhã a casa já estava vazia só pra mim. Naquele vácuo entre a infância e a adolescência, eu precisava lidar com o tédio de não ter mais interesse de assistir à Xuxa, a não ser ocasionalmente pelas Paquitas, e ainda não existir a MTV Brasil pra embotar a minha sensibilidade. Sem opções, eu relia os quadrinhos que comprava na banca da esquina; fazia personagens e aventuras de RPG; lia pedaços de livros que não eram pra minha idade; e, deitado no sofá, curtia minha pequena coleção de vinis, em especial Cosmic Thing do B-52s que rodava continuamente na vitrola.

No início da tarde, depois do almoço, os colegas que moravam nas proximidades, também sem ter o que fazer, apareciam. A gente ouvia um pouco de música, e ia passear pelas ruas sem destino ou, como costumávamos dizer, “easy rider”. Fazíamos o tour das locadoras de vídeo, passávamos no sebo de discos na galeria hollywood center, comprávamos algo nas lojas americanas, e encerrávamos a tarde no Mister Pizza do São Luiz com uma fatia de frango com catupiry com Coca Cola.

No início da noite eu ia pro curso de inglês onde eu não aprendia nada, pois já sabia toda a matéria, e descobria que nada sabia da vida ao ver a minha musa da quase adolescência. Ao contrário do que possa parecer, do alto do pedestal que eu criei, ela não me desprezava. Pelo contrário, era muito educada e gentil, mas só. Eu mesmo não sabia o que esperar ou desejar. Hoje, sei, sonhar, sofrer e escrever sobre ela com certeza era muito melhor do que qualquer relacionamento que poderíamos ter. Mesmo inconscientemente, eu sabia que a vida não era uma comédia romântica adolescente, e o nerd de 14 anos nunca saberia lidar com a menina bonita e madura de 15 no final de um filme que nunca acaba.

Assim, apaixonado e frustrado, a condição primordial da humanidade, eu saía do curso de inglês e ia me reunir com os amigos novamente. Pra jogar tarot, falar mal de uma vida que ainda não tínhamos vivido, ler as poesias que escrevíamos uns para os outros, assistir programas ruins de TV e esperar, sem pressa, por esse momento passar. Não éramos budistas mas tínhamos plena consciência que aquele momento era passageiro e que tudo o que nos restava era aproveitá-lo ao máximo sem angústia ou ansiedade a respeito de quando ele ia terminar.

Hoje, mais de 30 anos depois, só restou a angústia que não sentíamos, o medo do que vai acontecer amanhã e a culpa pelo que não fizemos ontem. Porém, em certos momentos mágicos, quando a noite já acabou e o sol ainda não nasceu, eu me sinto naquele período, eu me sinto naquela janela de topázio da realidade entre abril e julho de 1989, e sorrio, com a esperança de que tudo que é bom, mesmo que passageiro, uma hora vai voltar. E ouço, na minha mente, os B-52s cantando num eterno e fugaz loop.

Eu empatei com a CoVid

6 dias atrás, após ter três dias de sintomas muito leves, cansaço e dor no corpo, testei positivo para CoVid. Desde os primeiros sintomas, e com a esposa tendo testado positivo, fiquei esperando que as coisas fossem piorar. Não pioraram. Nem febre tive, mas tenho comorbidades e, na mesma época, um casal de amigos estava, ou, pior ainda está, enfrentando uma batalha bem dura com a doença. Impossível não ficar tenso. Por eles, e por mim. Mas, graças a Deus, não rolou nada comigo e tenho certeza que eles vão dar a volta por cima.

Em casa, esse excesso de preocupação gerou críticas. Muitas:

– Você é muito negativo! Não consegue ser mais pra cima? Tenha fé. Você está bem. Não consegue ver isso?

Sim, conseguia ver, mas não conseguia sentir. Já tem uns seis meses que não sei exatamente o que é me sentir bem. O cansaço constante de trabalhar das 7 da manhã às 7 da noite, o isolamento que estou cumprindo xiitamente, e a falta de perspectiva de viver num país governado por um louco eleito por pessoas sem coração cobraram o preço na minha sanidade e no meu corpo. Sinto dores nas costas e nas pernas que acho normais, mas sei virem de um sedentarismo ostensivo; durmo cedo demais, acordo ainda na madrugada, e, pra não me desesperar, transformei isso em uma rotina; e sinto-me permanentemente cansado, confiando que conseguirei relaxar depois do fim dessa pandemia que não tem um fim no horizonte.

Por isso, por mais que não me sentisse mal, além do usual, não tinha certeza se estava bem. Por isso precisava confiar em oxímetros e termômetros para me dar uma segunda opinião. Por isso fiquei tenso por todo esse tempo. Por isso continuo tenso.

Falta apenas um dia pra ficar liberado, segundo os médicos, mas para quê? Depois desse esbarrão de leve com a CoVid, não ganhei mais brio. Pelo contrário, estou mais cauteloso. Sinto-me mais pronto a me manter protegido, até tomar a vacina, e, mesmo depois, até esperar as coisas minimamente melhorarem.

Ao contrário de tantos que se acham livres dessa doença, pois a tiveram e não sofreram, não me acho um vencedor. Consegui, no máximo, empatar, por sorte. E, sei que, num segundo encontro, essa sorte pode não me ajudar novamente.

Assim, livre da hubris dos orgulhosos e ignorantes, vou me manter ainda mais seguro. Em nome da minha família, dos amigos, e de todos os seres humanos que merecem meu respeito e meu cuidado.

CoVid não é um jogo de final, mas um campeonato de jogos eliminatórios, em que o Corona, um cruel dono do campo, vai te fazer jogar até não poder mais. Por isso, nesse jogo, só há uma estratégia vitoriosa: evitar jogar. Então, fique em casa. Na sua. Eu estarei na minha. E espero te ver bem e com saúde quando esse mórbido campeonato acabar.