Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Os Sinais

Ninguém entendia por que, apesar de todas as tragédias, ela continuava lendo os jornais, mas ela tinha uma boa razão para fazê-lo. Perdidos entre os desmandos de ditadores; misturados aos sinais de crescimento da ganância e da ignorância; escondidos atrás das mortes pela peste, pela fome e pela guerra provocadas pelos insensíveis que não paravam de falar em Deus; lá estavam eles: os sinais.

– Apesar dos pesares, se a gente olhar direitinho, dá pra encontrar coisas que nos dizem que a vida pode ser melhor- se defendia.

Uma vez foi uma série de notícias curtas sobre uma flor que só se abre uma vez ao ano. Primeiro, três linhas mencionando a expectativa pela sua abertura; depois, uma entrevista com um biólogo do jardim botânico garantindo que ela abriria em breve; seguida de um informe meteorológico nada animador que poderia comprometer esse acontecimento; e, enfim, uma série de fotos coloridas da flor aberta sendo visitada por muitas pessoas e uma reedição da crônica do Rubem Braga, Flor de Maio. Como ela dizia, sinais.

Outra vez foi a história de um cachorro perdido. Mostraram a mobilização da comunidade em busca do cãozinho de uma criança; um cronista contou com leveza e emoção a biografia do cão; houve um grande estímulo à adoção de animais abandonados; e, pra encerrar com um final feliz, noticiaram o reencontro do cão com a criança para aquecer os nossos corações. Como ela dizia, apesar das tragédias, sinais.

Ao contrário do que possa parecer, ela não era alienada. Ela lia o restante do jornal. Encarava o mal para depois terminar com o bem. Defendia, inclusive, que o jornal seguisse por uma linha de crescente otimismo, com as piores notícias na primeira página e as boas notícias, os sinais, na última.

– Pra dar um pouquinho de esperança pra gente no final- justificava.

E os sinais não vinham de fatos apenas. Podiam aparecer num poema escondido entre duas colunas policiais; numa tira em quadrinhos que quase ninguém mais lê; ou mesmo num dos desafios das palavras cruzadas.

– Não sabem a palavra que eu li hoje: temperança. A virtude de quem é moderado. Aprendi hoje, tá nas palavras cruzadas. Que beleza- se encantava.

Um dia ela acordou mal, achou que fosse um resfriado, mas antes do sol se pôr sua vida se acabou, como se fosse uma das boas notícias que ela tanto amava ler.

Os amigos contrataram o cronista da história do cachorro para escrever seu obituário. Ele seguiu uma linha comparando a vida dela com a bela flor de maio que só se abre uma vez ao ano e como ela era ao mesmo tempo surpreendente e mal entendida. O texto ficou tão bonito que muita gente participou de uma vaquinha e publicou a homenagem no jornal.

Hoje, numa segunda-feira, sem boas notícias na economia, na política, na saúde e até nos esportes, lá estava ela no jornal, como uma pérola. Representando ao mesmo tempo a tristeza que tivemos de perdê-la e a alegria de termos tido a oportunidade de conviver com ela. Ela, tão fascinada pelas pequenas boas notícias da vida, como não podia deixar de ser, se tornou uma delas.

O de sempre

05:47 AM

Rod: E aí, cara? O que está rolando?
Lelê: Sua mãe, aquela gorda?
Rod: AHAHAHAH. Ah, não enche. Falando sério, o que está rolando?
Lelê: Na real? Nada. E por aí? O que está rolando?
Rod: Sua mãe? Sacanagem. Nada também.
Lelê: Blz.
Rod: Falow. Vou dar uma cochilada.

Lelê começa a trabalhar. Abre o e-mail, responde algumas mensagens, retoma uma apresentação na qual estava trabalhando no dia anterior. Sem sucesso. Às 8:00 AM tem a primeira reunião. Depois a segunda, e a terceira. Tenta retomar a apresentação, mas não consegue mais uma vez. Dá comida pro peixe e lê os jornais online.

Rod dorme. Mal. Acorda.

11:12 AM

Rod: Acordei. E aí? Tudo bem?
Lelê: Tudo. Acabei de dar comida pro peixe.
Rod: Uau. Que emoção!
Lelê: Total. Dormiu bem?
Rod: Nada. Vou começar a trabalhar.
Lelê: Blz.
Rod: Falow.

Rod revisa as pendências no sistema. Tem pouca coisa, mas fica cansado só de olhar. Como não é nada urgente, faz com calma e atenção. Fica com fome, põe a máscara, e vai na rua comprar uma tapioca e um açaí. Leva a comida pra casa, almoça e assiste um episódio de um reality show. Fica com inveja desse povo que, mesmo confinado, não precisa trabalhar. O chefe manda uma mensagem e ele deixa as pendências de lado para atender à sua urgência urgentíssima.

Lelê prepara o almoço e come na frente do computador, enquanto responde aos e-mails da manhã. Faz mais uma, duas, três reuniões. Dá uma volta pela casa para esticar as pernas. Percebe que o peixe está no fundo do aquário. Dá mais comida, mas ele nem tchuns. Volta pro computador pra mais uma reunião.

15: 34 AM

Rod: Fala!
Lelê: Fala.
Rod: Como estão as coisas?
Lelê: Tudo bem. Meu peixe parece que está mal.
Rod: Sério? Tem veterinário de peixe?
Lelê: Sei lá. Vou entrar em uma reunião agora.
Rod: Falow.
Lelê: Inté

Lelê entra na reunião. Com a chefe. Rola um certo stress. Normal, pero no mucho. Lembra da piada que fez com o Rod. Desliga a câmera, o áudio, e ri por 5 segundos. Liga tudo de novo, fazendo cara de sério. Toma mais esporro, mas sente que não é sério. Mesmo assim é cansativo. Outro dia, outro abuso. A reunião termina. Pensa em retomar a apresentação, mas desiste. Qualquer coisa alegará saúde mental. Não estará mentindo. Faz um sanduíche e vai pro quarto. No caminho percebe que o peixe morreu. Joga ele e a água do aquário na privada.

Rod termina a tarefa do chefe e as pendências. O trabalho, por hoje, terminou. Põe a máscara e vai na rua comprar umas cervejas e um sanduíche. No bar passa um homem vendendo peixes beta em aquários individuais. Não sabe por que mas compra um. Talvez lembre do peixe do Lelê. Volta pra casa e janta, tomando cerveja. O chefe liga e diz que vai mudar de área. Informa que vai indicar ele para o seu lugar. Rod agradece a confiança e desliga. Não sabe como se sentir. Toma uma cerveja, como comemoração ou lamentação.

22: 02 AM

Rod: Manda as novidades.
Lelê: Nenhuma. Ah, o peixe morreu.
Rod: Sério? Que doido. Acabei de comprar um.
Lelê: Não acredito. Um peixe?
Rod: É, um peixe. No mais?
Lelê: Tudo na mesma. Esporro da chefe e tal.
Rod: Meu chefe me ligou. Vai mudar de área e me indicou pro lugar dele.
Lelê: Parabéns!
Rod: Valeu, sei lá. Não sei se vai ser legal.
Lelê: Vai ser, pode crer.
Rod: Tá fazendo o quê?
Lelê: Nada. E você?
Rod: Nada também.
Lelê: Vou me recolher.
Rod: Já?
Lelê: Eu acordo cedo.
Rod: Eu sei. Beleza.
Lelê: Vai descansar também. Amanhã é outro dia.
Rod: Ou o mesmo. Sei lá.
Lelê: É mesmo, sei lá.
Rod: Falow.
Lelê: Inté.
Rod: Inté.

Rod dá comida pro peixe e fica observando ele nadar no seu pequeno aquário. Esquece do reality show.

Lelê fica com saudades do seu peixe. Decide que vai comprar um novo em breve. Dorme e sonha que respira embaixo d’água. Um sonho bom.

A raquete

Cansada de ser vampirizada, ela comprou a raquete.

“Você vai ver só como a nossa vida vai ficar melhor,” proclamou a quem quisesse ouvir.

No mesmo dia a colocou em ação. Desperta, no meio da madrugada, toda vez que sentia que estava para ser mordida, ligava a raquete e eletrocutava os insetos que a incomodavam.

“Não entendo esse ódio,” eu protestava. “Os bichos só estão seguindo as suas naturezas”

Ela ignorava meus apelos zen-filosófico-ambientalistas e, como um misto de Serena Williams e Thomas Edison, fazia mosquitos, muriçocas e até um marimbondo desgarrado pegarem fogo e iluminarem a nossa noite como pirilampos suicidas.

“A-ha! Esse sangue vocês nunca mais vão chupar,” se regalava sobre o cadáver de seus inimigos.

Talvez como uma tentativa de reduzir o karma ocasionado por esse genocídio, na mesma época, ela resolveu fazer compostagem. Num apartamento. Aos mosquitos, muriçocas e aos marimbondos desgarrados se uniram pequenas mosquinhas sem clara identificação, mas tão odiadas quanto.

Como durante o dia eu ficava em home office e ela no presencial, mesmo sabendo da minha aversão à raquete, ela me deu uma missão:

“Quando eu não estiver em casa, se as mosquinhas começarem a proliferar, mete bronca. Dessas você consegue dar cabo.”

Demorei pra tentar, arrumava desculpas, tinha pena. Depois de muita pressão, cedi. Mas, ao contrário do que ela esperava, não dava conta.

Depois de muitas tentativas, quando finalmente consegui matar a primeira, tomei um susto. Um estalo seco e uma faísca diminuta; um grito silencioso e uma alma partindo. Tomei um susto, mas me senti poderoso. Peguei gosto e, assim, ia além do chamado do dever.

Mesmo que elas não estivessem proliferando ou incomodando, ou mesmo visíveis, eu, em cada intervalo ou brecha no trabalho, ia atrás delas. Buscava-as atrás de portas, em cômodos onde não costumavam estar e até no corredor do prédio.

“Ahhh,” eu gemia de satisfação quando elas pipocavam na raquete como fogos de artifício em miniatura.

A obsessão ficou tão forte que até quando ela estava em casa, eu andava pelos cômodos caçando as mosquinhas.

“Estou gostando de ver. Mas por que você está fazendo isso agora?” ela questionava.
“Ué, você não mandou?” eu me defendia, fingindo compaixão.

Era mentira; eu descobri: essa era a minha natureza.

Estado Vegetativo

Um dia, Alessandro acordou bem cedo e notou que a sala estava diferente. Não sabia exatamente o quê, mas havia algo estranho. Apesar da ressaca braba que fazia a sua cabeça latejar, ele conseguiu ficar alguns minutos em pé analisando todos os cantos da sala, mas não conseguiu identificar o que estava lhe incomodando. Pensou em fazer uma análise mais aprofundada dos móveis e passar as paredes em revista, mas estava muito cansado e resolveu tirar um cochilo antes.

Acordou antes das dez da manhã um pouco melhor, mas continuava com a impressão de que a sala estava errada, quase como se ela não fosse a sala da sua casa. Pensou em tomar uma cerveja para rebater a ressaca, mas ainda estava muito cedo. Abriu o computador, mandou alguns currículos pelo LinkedIn, assistiu a uns minutos de um programa de culinária e fez uma oração sem fé pra arrumar um emprego ou, pelo menos, algo pra fazer. Deu 10 da manhã e foi pro botequim apressando o passo.

Sentou numa mesa do lado de fora, pediu um cinzeiro e uma cerveja e tomou a primeira do dia. Seu Nelson chegou logo depois, sentou na mesa ao lado da dele e pediu uma cerveja sem álcool.

– Tudo bem, seu Nelson?- tentou puxar conversa.
– Ahn?
– Eu tô bem. O senhor já teve a impressão de que havia algo errado com a sua casa?
– Calça?
– Casa. Ah, deixa pra lá, valeu?
– Ahn?

Tomou umas cervejas em silêncio e mudou de bar. Pediu um prato feito, almoçou e foi pra casa tirar um cochilo. Acordou por volta das 5 da tarde se sentindo bem melhor. Ainda continuava com a mesma sensação de estranheza. Resolveu mandar uma mensagem pra faxineira Talvez ela soubesse o que havia acontecido com a sala. Ela respondeu:

<Você está falando da planta nova?>

Era isso. No canto esquerdo da sala lá estava ela. Num balde travestido de jarro, uma pequena árvore, que nunca tinha visto, emoldurava as paredes sujas do apartamento. Baixou um aplicativo identificador de plantas e tirou uma foto dela: embaúba, também conhecida como planta da preguiça.

– Onde diabos fui arrumar isso? Deve ter sido sacanagem de alguém- se lamentou sozinho.

Tomou um banho e desceu pra tomar uma cerveja na praça. Encontrou alguns conhecidos e comentou sobre a planta. Todos riram muito, acharam curioso, mas ninguém ficou efetivamente surpreso. Isso era bem a cara do Alessandro.

Bebeu, fumou e conversou até ter sono. Foi pra casa e, bêbado, regou a planta, mesmo sem saber se deveria regá-la. Dormiu rapidamente e sonhou que dormia em cima da árvore já crescida na própria sala como um grande bicho preguiça. Cumprida a sua missão, a planta se foi e levou suas memórias.

Acordou bem cedo no dia seguinte, se sentindo descansado como há muito não se sentia. Chegou na sala e sentiu que faltava algo, mas não sabia bem o quê. Sua atenção focou num canto vazio no lado esquerdo da sala e ele conseguiu até ver como uma planta ficaria perfeita emoldurando aquela parede vazia e suja.

Mandou uns currículos no LinkedIn e quando deu 10 horas foi pro bar. Esperava encontrar seu Nelson. Pelo que lembrava, ele era botânico aposentado. Com certeza ele saberia qual planta seria ideal pra ele colocar no seu apartamento. No caminho para o bar, uma palavra não saía da sua cabeça: embaúba, embaúba. Onde tinha ouvido isso? Apressou o passo. Já estava atrasado pra tomar a primeira do dia.

A máquina do (não) impossível

Um dia, umas semanas atrás, na volta de buscar minha filha no colégio, paramos na loja de brinquedos e lá estava ela: a máquina. Vocês conhecem a máquina, todo mundo conhece a máquina. Uma grande caixa retangular; a parte inferior de metal, em geral pintada de vermelho; a parte superior envidraçada; na frente, na altura da cintura, um joystick e um coletor de notas e moedas; e dentro dela, vocês sabem, uma garra de metal e uma enorme quantidade de bichos de pelúcia. Pequenos e grandes; coloridos e engraçados; fofos e tentadores. Tremi.

Eu já conhecia a máquina. Encontro com ela desde os anos 90. Nem sempre de forma amistosa. A primeira vez, nunca vou esquecer, foi no Barra Shopping. Em vez de ir jogar no fliperama, vi um pessoal lutando contra ela, e por lá parei. E não é porque goste de bichos de pelúcia. Não gosto. Só me senti desafiado. Todo mundo jogava uma ou duas moedas e saía revoltado dizendo:

– Essa máquina é impossível.

Me apaixonei.

A dificuldade assumida, a desistência alheia, a sensação de me jogar obsessivamente atrás de um objetivo que não me interessava só pra provar que era possível, tudo na máquina me dizia: fui criada pra você.

Comecei como todo mundo. Comprei umas poucas fichas, tentei, não consegui, me frustrei e saí revoltado. Mas, ao contrário dos outros, eu voltei. Uma, duas, várias vezes.

A minha obsessão em vencê-la era tão forte que, lembro, se formou uma platéia atrás de mim, o que só aumentou a minha determinação. Eu não era mais um desafiante solitário, eu era o representante do sonho de todo um povo.

Enfim, depois de gastar quase todo o meu dinheiro, consegui. A garra se lançou naquele mar de pelúcia e resgatou de lá um pequeno urso azul que dei a uma menina que acompanhava a minha batalha. Recebi de recompensa apenas um beijo na bochecha e o sentimento de ter feito algo que todos consideravam impossível.

Desde então, toda vez que a encontro, é a mesma coisa. Eu a desafio e, eventualmente, depois de muita persistência, a venço.

Porém, desde que a minha filha nasceu, eu não a via. Até esse dia.

Depois de assistir a alguns pais saindo do colégio com seus filhos tentarem vencê-la e repetirem o mesmo comportamento que vejo desde a primeira vez que a encontrei, minha filha pediu:

– Posso jogar na máquina, papai?

Como dizer não? Como dizer sim?

Fiquei dividido. Um lado meu queria agradá-la, mas outro não queria vê-la frustrada. Um lado meu queria jogar junto com ela, mas o outro tinha medo que ela ficasse tão obcecada quanto eu. Ela insistiu:

– Papai, posso jogar?

Cedi aos meus desejos mais primais e assenti. Mas,dessa vez, o desafio tinha um gosto diferente. Eu não só queria vencer a máquina, eu precisava vencê-la.

Esperei mais algumas pessoas afrouxarem a massa compacta de bichinhos dentro da máquina, coloquei 5 moedas no coletor e instruí a minha filha. Ao invés de buscar o bicho que deseja, mais importante é tentar os que são mais fáceis de agarrar. Para essa escolha, a posição é mais importante que o tamanho ou o formato. Os bichos de cabeça grande parecem fáceis, mas, mesmo quando agarrados, caem com facilidade da garra. O ideal é mirar nos que estão na horizontal, de preferência com a barriga pra cima. E, estando nessa posição, se você tiver escolha, busque os mais ao centro da máquina e os menores.

Ela me olhou sem entender, mexeu a garra sem foco, e disse:

– Vou tentar o polvinho.

Um erro. A garra desceu, ficou bloqueada por uma parede compacta de outros bichos e mal arranhou a superfície do bloco de pelúcia.

– Máquina maldita- a amaldiçoou.

Fui obrigado a intervir e ensinar pelo exemplo. Minha mão tocou o joystick e me senti como há 30 anos atrás. A eletricidade, a emoção, o propósito. Encontrei um burrinho de barriga pra cima. Levei a garra até em cima dele, chequei pelo lado se ela estava alinhada na outra coordenada, esperei a garra parar de balançar e apertei o botão. A garra desceu em câmera lenta. Um pai nos assistia com o filho e comentou:

– Filho, deixa essa máquina pra lá, isso é mó engana trouxa.

Não me senti ofendido. Ele tinha razão. Era uma máquina para trouxas, mas apenas os que não a conheciam podiam ser chamados assim.

A garra alcançou a superfície do mar de bichinhos e se encaixou diretinho em volta do burrinho. Quando ela começou a subir, o burrinho estava solidamente preso nela. Com alguns sobressaltos acompanhamos a garra vir até seu local inicial para se abrir e nos entregar nosso prêmio.

Minha filha delirava, enquanto o pai que nos assistia estava boquiaberto. Deveria estar aprendendo alguma lição com isso, mas qual ela era? Não sei.

A garra soltou o burrinho e nós o pegamos. Minha filha o levantou acima da cabeça como um troféu, enquanto as pessoas se reuniam ao nosso redor.

Uma mãe me ofereceu uma ficha para pegar um bichinho para a filha dela.

– Desculpe, assim é muita pressão. Eu não sou mágico pra conseguir pegar toda hora- declinei.

Ainda tínhamos 3 fichas. Eu precisava continuar.

– Papai, agora o polvinho- minha filha indicou.

Como já tinha pego um, achei de bom tom seguir a sua sugestão. Mesmo não conseguindo pegá-lo, eu já sairia no lucro. Acionei a garra e fui atrás do polvinho. Na primeira vez, o movi um pouco, mas quase não o tirei do lugar. Na segunda consegui levantá-lo, mas ele logo caiu e se virou exatamente como eu queria: de barriga pra cima. Na terceira, todos estavam aguardando a finalização da minha partida: minha filha, o pai descrente, a mãe preguiçosa, e seus filhos. A tensão e o silêncio eram quase palpáveis. Movi a garra para a última tentativa. Acertei sua posição, conferi a coordenada, esperei a garra parar de balançar e apertei o botão.

Dessa vez a garra foi como um raio. Caiu pesada sobre os bichinhos e, para a minha surpresa, agarrou não um, mas dois polvinhos. O povo, quer dizer, minha filha, o pai, a mãe, e seus filhos, aplaudiu entusiasmado. Quando minha filha os pegou, ofereceu um para cada uma das crianças que nos assistiam.

– Você já me deu um, papai- se explicou sem necessidade.

Minha missão estava cumprida. Como desafiante e como pai.

Desde então, quando voltamos do colégio, sempre faço o máximo para evitar o caminho que passa pela loja de brinquedos. Não por medo de falhar nem para evitar ceder às minhas obsessões. Por mais que fique tentado a me botar à prova novamente, acho melhor manter a mística que o impossível sempre pode ser possível. Sempre.

Fofoca das Famosas

– Querida, parabéns!
– Pelo quê?
– Não ficou sabendo? Agora você é oficialmente famosa.
– Ué, achei que eu já era famosa.
– Era, mas agora você chegou em outro patamar. Uma estrela! Você virou uma famosa entre os famosos.
– Não entendi, explica.
– Ai, ai. Inteligência nunca foi seu forte mesmo…
– O que é que você disse?
– Nada, amor. Deixa eu te explicar. Depois de amargar 2 anos como youtuber, 1 ano como sub celebridade aparecendo diariamente na Rede TV, e, depois de, enfim, dar a pinta por 5 minutos num programa da Globo, agora você foi aceita no panteão dos famosos.
– Continuo sem entender. Eu tenho mais de 2 milhões de seguidores, quase um bilhão de views e só agora eu sou famosa?
– Claro. Antes você era po-pu-lar. Fazia sucesso, tava na boca do povo e tal. Mas a fama, a fama de verdade depende de outros quesitos.
– Tipo?
– Ser bem quista pelos deuses, amor! De que adianta ser a Anitta se a Paola Oliveira vira a cara pra você? Pra ser realmente abraçada pela deusa da Fama, tem que estar no Olimpo!
– Tá, e você tá dizendo que eu cheguei nesse tal de Olímpio agora?
– Olimpo, querida, Olimpo. Chegou, sim. Chegou bem e chegou chegando. Já viu o teu whats hoje?
– Ainda não. Eu não pago alguém pra cuidar disso pra mim?
– Pa-ga-va! Agora você vai ter que cuidar dele com muito carinho.
– Porquê?
– Por causa disso!
– Grupo da Fofoca? Que convite é esse?
– É um grupo só com as mega super hiper uber famosas, onde elas trocam figurinhas umas com as outras e falam mal das que não estão no grupo.
– Quer dizer que antes de eu entrar, elas podiam estar falando mal de mim?
– Isso não interessa, meu amor. Agora você está no grupo e só vai ser bem falada. Aceite o convite logo, boba.
– Tá, aceitei. Agora faço o quê? Mando uma mensagem?
– Muita calma nessa hora! Manda, sim, mas vamos pensar direitinho no que mandar.
– “Oi? Valeu por me colocarem no grupo?”
– Deixa de ser simplinha. Onde já se viu? A pessoa sai do subúrbio, mas o subúrbio não sai da pessoa. Tem que vir com força. Tipo o cara que chega na prisão. Tem que chegar dando porrada pra não virar a noivinha de ninguém.
– Então, já coloco uma fofoca?
– Pode ser, pode ser. O que você tem de bom aí?
– Tem aquela da…
– Essa não dá. Eu sei de quem você tá falando. Ela é administradora do grupo.
– E a da…
– Nem pensar, deve ter sido ela que te convidou pro grupo. Não se cospe no prato que comeu.
– Tá, nem sei o que fazer. O que você sugere?
– Deixa eu ver aqui… O que? Te excluíram do grupo!
– Meu Deus, não durei nem 3 minutos no Olímpio.
– NO OLÍMPO! NO OLÍMPO! Que terror! Do lixo ao luxo e do luxo ao lixo em segundos! Haja coração.
– Mas por que será que me tiraram do grupo?
– Deixa eu ver… achei. Olha só.
– O quê?
– Você acabou de receber um convite pra participar de um grupo totalmente antagônico à Fofoca das Famosas.
– Que grupo é esse?
– É o grupo do Elenco da Record, amor. Acabou pra ti, querida. A-ca-bou!
– E não tem salvação?
– Bom, eu fiquei sabendo de uns Lázaros que foram trazidos de volta do mundo da Record.
– E o que eles fizeram?
– Um se regenerou, se afastou do dinheiro fácil e se tornou um ativista social. Coisa difícil pra você. O outro, quase morreu de Covid. O povo costuma ficar com pena…
– Babou. Finjo ser feminista, mas sou de extrema direita, e já vacinei as duas doses. Escondida, claro. E agora?
– Amor, lamento. Pra você só restou a Fazenda.