Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Feriado, ainda que tardio

Nem parece feriado. Quem trabalha presencial vai trabalhar, pois o feriado foi antecipado. O mesmo vale para as escolas, que ficaram fechadas durante o recesso sanitário. Agora, pra quem, como eu, trabalhou remoto é folga. Para comemorar o quê, mesmo? Ah, Tiradentes.

Era melhor terem cancelado o feriado logo, ao invés de antecipar. Nem faz mais sentido comemorar a fracassada Inconfidência Mineira num país onde o governo conspira para assassinar a população de fome, guerra ou peste. Ou talvez agora faça mais sentido do que antes. Precisamos, sim, de liberdade, mesmo que tardia. Não para sair de casa, como ambicionam os genocidas negacionistas, mas sim para ficar nela. Protegidos. Em todos os sentidos. Mas até isso nos é negado em nome de um arremedo de meritocracia inventada para perpetuar uma elite no poder e continuar escravizando todo um povo sob a falácia que o trabalho enobrece e sob a fantasia que seu esforço e sua competência farão diferença.

Frente a esse cenário, só vejo uma saída. Como com os portugueses na colônia, não há espaço para negociar e precisamos acabar logo com esse mal que nos acomete: o trabalho. É, ao invés de lutar por uma sociedade onde todos possam trabalhar, precisamos ter uma sociedade onde ninguém precise trabalhar. E não é difícil; quer dizer, é, mas não é impossível. Só precisamos automatizar a maioria dos trabalhos, reduzir o nosso consumo, dar condições básicas e confortáveis de vida a todos, e acabar com o acúmulo de capital. Dessa forma, o trabalho não será mais uma necessidade de sobrevivência, mas uma maneira de nos doar a nossa coletividade. Seria bom, né?

Óbvio que não dá pra fazer isso do dia pra noite. Deve levar uns 50-100 anos, mas se não começarmos hoje só vai demorar mais. Então, começamos taxando as grandes fortunas ou pela renda mínima universal? Que tal os dois? E se a gente aproveitar e acabar também com as forças armadas no mundo todo?

BAM-BAM!

Que diabo foi isso? Calma, era só uma porta batendo. Bom, sinal de que é melhor eu ficar quieto hoje curtindo meu feriado. Afinal, se Tiradentes, que ambicionava bem menos, levou a pior há quase 230 anos, não sou eu, ainda não vacinado, que vou tirar onda de herói. Pelo menos não hoje. Mas amanhã, ah, de amanhã, pode escrever, essa revolução não passa; olha, que não passa mesmo.

BAM-BAM!

Pera aí, é impressão minha ou vocês também ouviram alguém mexendo na porta?

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Medo da chuva

Teresina. Fevereiro de 1996. Dois jovens cariocas de férias, que não sabiam mais se estavam saindo de um churrasco regado a cerveja ou indo pra um happy hour regado a uísque, caminhavam sem rumo pelas ruas ardentes e vazias da única capital do Nordeste que não é no litoral. Do nada, como sempre, uma chuva torrencial os atingiu. Um deles fez menção de correr, o outro o interrompeu:

– O que você tá fazendo, cara?
– Vamos procurar uma marquise, brother. Tá chovendo pacas.
– E daí, cara?
– E daí que vou ficar molhado.
– Tá bom, vai ficar molhado, mas sabe o que eu estava pensando?
– Sei não, brother.
– A chuva é tipo um cachorro, saca?
– Saquei, quer dizer, não saquei. O que você quer dizer?
– Saca só, o cachorro sente o medo da gente. Não sente?
– Sente.
– E quando ele sente o medo, como ele age?
– Sei lá, ele fica mais agressivo.
– Isso. Brabão. Quanto mais medo a gente sente…
– …mais bravo o cachorro fica. E daí?
– E daí? E se a chuva for que nem um cachorro?
– Não saquei.
– E se a chuva sentir o nosso medo?
– Saquei. Quanto mais medo a gente sente da chuva…
– …mais ela ameaça a gente.
– Então, o mistério é não ter medo da chuva.
– Isso aí. Não ter medo. A chuva é nossa amiga. Ó, dá até pra fazer carinho nela.
– É, dá mesmo. Aqui, chuva bonitinha vem que cá.
– Que onda legal.
– É mesmo. Tá chovendo pacas e quase não tô sentindo.
– Total. Porque a gente..
– …não tem medo da chuva.
– Isso aí. A chuva é nossa amiga.
– Saquei, brother. Matou a pau.

Diminuíram o passo e foram passeando com a chuva como fariam com um cachorro. Encharcados riam e agradeciam pela bênção de tê-la ao seu lado, felizes como um menino com seu primeiro animal de estimação. Do nada, como sempre, um raio assustador iluminou os céus do Piauí e, em seguida, um trovão sacodiu a terra com violência. Lembrando da teoria do cachorro, não se moveram. Finalmente um deles conseguiu falar:

– E agora, brother?
– O cachorro ficou louco, cara. Louco! Corre! Corre!

Fugiram catando cavaco até a primeira marquise onde poderiam se proteger. A chuva apertou e com muita dificuldade chegaram à casa da avó de um deles, que os hospedava, e evitaram a enchente que rapidamente tomou a cidade. Da janela da casa da avó observaram, com medo, o cachorro brabo, que fantasiaram poder domar, tomar conta das ruas e acabar com a sua diversão.

Os anos passaram, e eles nunca esqueceram da história do cachorro. Nem de levar guarda-chuvas ao menor sinal de céu nublado. O cachorro é nosso amigo, mas a prudência diz que há horas e horas pra brincar com ele.

Por onde anda: Jair Bolsonaro

Ontem, durante as homenagens aos mortos pela CoVid nos 30 anos da decretação da pandemia pela Organização Mundial de Saúde, provavelmente seus avós se perguntaram por onde anda Jair Messias Bolsonaro, o ex-presidente responsável pela morte de meio milhão de brasileiros.

Para os jovens que não tiveram o desprazer de conhecê-lo, Jair Bolsonaro foi um político menor de extrema direita e baixa capacidade cognitiva levado ao poder por um período de histeria, ódio e medo coletivos passado pelo país. Seu governo foi uma sucessão de erros e desatinos potencializados pela letal pandemia de Covid. Suas ações genocidas tornaram o Brasil um pária mundial e um cemitério a céu aberto.

Bolsonaro, graças a Deus, não chegou a encerrar o mandato, sendo impedido pelo congresso e interditado pelo judiciário. Seus filhos, que faziam parte de quadrilhas de milicianos corruptos, foram presos e continuam encarcerados até hoje. O pai desse clã maldito não teve um destino muito melhor. Hoje, aos 96 anos, vive enclausurado num Hospital de Custódia e Tratamento no interior de São Paulo.

Sofrendo de demência, o ex-presidente que desgraçou o país vive alheio ao tempo de bonança e paz no qual o país entrou, com bastante esforço, após todo mal causado por ele. Inexplicavelmente, ainda recebe ocasionalmente visitas de antigos apoiadores com ofertas de balas de revólver e comprimidos de cloroquina.

Como um prisioneiro comum, segue a rotina dos demais internos e, segundo os enfermeiros da instituição, passa a maior parte do tempo andando pelos jardins como acenando para multidões inexistentes e fugindo de emas imaginárias. Um melancólico mas merecido fim para um ser maligno que trouxe morte e tristeza a tantos brasileiros.